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O Acorde de Tristão, de Hans-Ulrich Treichel (tradução de Sergio Tellaroli; Companhia das Letras; 157 páginas; 28,50 reais) – Um dos mais aclamados escritores alemães da atualidade, Treichel satiriza o mundo das artes nesse romance curto. O protagonista do livro é Georg, um jovem alemão provinciano que acaba de se formar em literatura e tem a sorte de receber de uma editora a incumbência de revisar a autobiografia de um gênio (fictício) da música erudita, o compositor Bergmann. Graças a esse trabalho, ele ganha a oportunidade de observar – das margens, é claro – a elite cultural. Porções do enredo passam-se na Escócia, na Sicília e em Nova York – onde o deslumbramento de Georg atinge seu ápice e fornece material para Treichel refletir sobre as diferenças entre a América e a Europa.

Leia trechos do livro

Capítulo 1

Três caixas com a inscrição "La Grange Neuve de Figeac" encimavam a amurada do cais, bem ao lado do cabeço de ferro em que o barco fora amarrado. Ele havia sido o único turista a bordo, os demais passageiros eram moradores sem muita bagagem, apressando-se em direção a seus carros ou bicicletas, estacionados nas proximidades. Também o barco não se deteve por muito tempo, logo tomando o caminho de volta. Embora fosse agosto e uma onda de calor varresse o continente europeu, chovia na ilha. Chovera em Glasgow também, onde ele fizera baldeação e de onde prosseguira viagem até a Ilha de Skye num chamado airshuttle. Somente durante a travessia da ilha de Skye para a de Lewis o tempo permanecerá seco, e ele passara boa parte dela no convés, contemplando a paisagem costeira, com suas pastagens verdes e as casinhas brancas, em geral modestas, sobressaindo apenas pelo fato de possuírem duas chaminés. Tão logo pôs os pés em terra, a chuva recomeçou. 0 tempo ruim não incomodava: sabia o que esperava na Escócia e trouxera quantidade suficiente de roupas à prova de intempéries. Aprenderia, no entanto, que, na Escócia, um dia de chuva não significava necessariamente tempo ruim. Havia dias chuvosos com sol e dias chuvosos sem sol. Os primeiros significavam tempo bom; os últimos, tempo ruim. Hoje, o tempo estivera ruim, mas ia se transformando em bom naquele mesmo instante. A chuva por certo não diminuía, mas, por breves intervalos de tempo, as nuvens se abriam, libertando um pedaço de céu azul, no qual brilhava um sol de agosto não de todo quente. Quando estava justamente compreendendo que, na Escócia, não se deve tirar a capa de chuva nem com tempo bom, Viu um carro aproximar-se pela estrada que, em ligeiro aclive, conduzia ao interior da Ilha. Havia de ser seu anfitrião.


 
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