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Os Prazeres e os Dias, de Marcel Proust (tradução de Solange Pinheiro e Carlos Felipe Moisés; Códex; 236 páginas; 30 reais) – O escritor francês Marcel Proust (1871-1922) figura entre os maiores nomes da literatura mundial. Enquanto os sete volumes de sua obra-prima Em Busca do Tempo Perdido estão disponíveis em mais de uma edição nacional, esse seu livro de estréia andou sumido das prateleiras. O lançamento de uma nova tradução é, portanto, bem-vindo. Os Prazeres e os Dias reúne contos e poemas que Proust escreveu na juventude. São textos em que o virtuosismo do autor se revela em toda a sua força e nos quais já se encontram as principais marcas de sua obra, como a introspecção, a melancolia e o apego às memórias de infância.

Leia trechos do livro

MELANCÓLICA VILEGIATURA DA SRA. DE BREYVES

"Ariane, minha irmã, de que amor, ferida,
morrestes às margens onde fostes abandonada!"
RACINE
I.

Françoise de Breyves hesitou muito tempo, naquela noite, para decidir se iria à soirée da princesa Élisabeth d'A..., à Ópera ou à comédia dos Livray.

Na casa dos amigos, onde acabara de jantar, tinham deixado a mesa havia mais de uma hora. Era preciso tomar uma decisão.

Sua amiga Geneviève, que devia voltar com ela, preferia a soirée da sra. d'A..., ao passo que a sra. de Breyves, sem saber bem o motivo, teria escolhido uma das outras duas coisas, ou mesmo uma terceira - voltar para casa e dormir. Anunciaram a chegada de sua carruagem. Ela ainda não se decidira.

- Francamente - disse Geneviève - não é gentil de sua parte, pois creio que Rezké vá cantar, e isso me agrada. Alguém até poderia dizer que ir à casa de Élisabeth pode trazer-lhe graves conseqüências. Mas antes direi que, este ano, você ainda não foi a nenhuma de suas grandes soirées, e amiga dela como é, isso não é nada educado.

Desde a morte do marido, que a deixara viúva aos vinte anos - e isto havia quatro anos - Françoise quase nada fazia sem Geneviève, e gostaria de fazer-lhe as vontades. Ela não resistiu por muito mais tempo a seus rogos, e depois de ter se despedido de seus anfitriões e dos convidados, desolados por terem partilhado tão pouco da companhia de uma das mulheres mais requisitadas de Paris, disse ao lacaio:

- Para a casa da princesa d'A...

II.

A soirée da princesa estava muito monótona. Em um determinado momento, a sra. de Breyves perguntou a Geneviève:

- Quem é aquele jovem cavalheiro que a conduziu à mesa?

- É o sr. de Laléande, que aliás não conheço. Quer que eu o apresente? Ele me havia pedido que o fizesse, mas dei-lhe uma resposta vaga, pois ele é insignificante e monótono, e como a julga muito bonita, não a deixaria mais em paz.

- Oh, então não! - disse Françoise - ele é um tanto feio e vulgar, apesar dos belos olhos.

- Tem razão - disse Geneviève. E depois vai encontrá-lo com freqüência, o que poderia aborrecê-la se o conhecesse.

E acrescentou, brincando:

- Entretanto, se quer ser íntima dele, está perdendo uma bela ocasião.

- Sim, uma excelente ocasião - disse Françoise, que já estava pensando em outra coisa.

- Todavia - replicou Geneviève, provavelmente atingida pelo remorso de ter sido uma mensageira tão infiel e de ter gratuitamente privado o jovem cavalheiro de uma alegria - é uma das últimas soirées da temporada, não haveria mal algum nisso e talvez fosse mais gentil de sua parte.

- Bem, que seja, caso ele volte por aqui.

Ele não voltou, estava do outro lado do salão, de frente para elas.

- Precisamos ir - disse Geneviève logo em seguida.

- Só mais um instante - respondeu Françoise.

E por um capricho, sobretudo de coquetismo em relação ao jovem cavalheiro, que deveria realmente considerá-la muito bela, pôs-se a olhá-lo mais demora-da-mente, depois desviava os olhares para, em seguida, fixá-los de novo nele. Enquanto o olhava, ela esforçava-se para parecer carinhosa, sem saber bem o motivo, por nada, pelo prazer, o prazer da caridade, e um pouco do orgulho, e também da inutilidade, o prazer daqueles que escrevem um nome em uma árvore para um passante que jamais verão, daqueles que lançam uma garrafa ao mar. O tempo passava, já era tarde; o sr. de Laléande dirigiu-se à porta, que permaneceu aberta após ele ter saído, e a sra. de Breyves o avistou ao fundo do vestíbulo, junto ao bengaleiro.
- Já é mesmo hora de partir, tem razão - disse ela a Geneviève.

Elas se levantaram. Mas o acaso de uma palavra que um amigo de Geneviève tinha a dizer-lhe, deixou Françoise sozinha no bengaleiro. Naquele momento, a única pessoa que ali estava era o sr. de Laléande, que não conseguia encontrar sua bengala. Françoise divertiu-se pela última vez a olhá-lo. Ele passou por ela, roçou ligeiramente o cotovelo de Françoise no seu, e com os olhos brilhando, disse no momento em que se viu ao lado dela, ainda com o ar de quem procura algo:

- Venha a minha casa, rue Royale, número 5.

Como ela sequer previra tal possibilidade, e o sr. de Laléande continuava a procurar calmamente a sua bengala, ela nunca soube com certeza se aquilo tudo não fora uma alucinação. Acima de tudo, tinha muito medo, e como o príncipe d'A... passasse naquele momento, ela o chamou, desejava marcar um encontro com ele no dia seguinte para realizarem um passeio, falava com volubilidade. Durante a conversa, o sr. de Laléande se fora. Geneviève chegou logo em seguida e as duas mulheres partiram. A sra. de Breyves nada contou, permanecendo chocada e lisonjeada, e no fundo bastante indiferente. Passados dois dias, voltando a pensar nisso por acaso, começou a duvidar da veracidade das palavras do sr. de Laléande. Tentando lembrar-se delas, não o conseguiu por completo, acreditou tê-las ouvido como em um sonho e disse para si mesma que o movimento do cotovelo não fora mais que uma falta de jeito fortuita. Depois não pensou mais no sr. de Laléande espontaneamente, e quando por acaso ouvia seu nome, lembrava-se rapidamente do seu rosto dele e já havia com-ple-tamente esquecido a quase alucinação do vestuário.

Reviu-o na última soirée daquele ano (junho estava terminando), e não ousou pedir que o apresentassem; no entanto, apesar de tê-lo achado quase feio e de ter sabido que não era inteligente, teria tido muito prazer em conhecê-lo. Aproximou-se de Geneviève e disse-lhe:

- Apresente-me assim mesmo ao sr. de Laléande. Não gosto de ser indelicada. Mas não lhe diga que fui eu quem pediu. Isso me comprometeria demais.

- Assim que o virmos, ele não está aqui no momento.

- Bom, vá procurá-lo.

- Talvez já tenha ido embora.

- Não - respondeu rapidamente Françoise -, não pode ter ido embora, é cedo demais. Oh! Já é meia-noite. Vamos, minha querida Geneviève, isso não é assim tão difícil. Na outra noite, era você quem queria. Eu lhe peço, tenho interesse nisso.

Geneviève olhou-a um pouco espantada, e foi procurar o sr. de Laléande; ele já havia ido embora.

- Eu tinha razão - disse Geneviève, ao voltar para perto de Françoise.

- Estou me aborrecendo aqui - disse Françoise - estou com dor de cabeça e lhe suplico, vamos embora imediatamente.


 
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