Naufrágio,
de
Louis Begley (tradução de Sergio Tellaroli; Companhia das Letras;
238 páginas; 42,50 reais) Polonês radicado nos Estados Unidos,
Louis Begley já gozava de renome como advogado em Nova York quando estreou
na literatura, quase aos 60 anos. Em suas obras, revelou-se um arguto cronista
do modo de vida da elite americana que, naturalmente, conhece por dentro.
Seu personagem mais conhecido, Schmidt (vivido no cinema por Jack Nicholson),
é um bon-vivant que cultiva a melancolia mas não dispensa o caviar.
O protagonista do romance Naufrágio também circula nas altas-rodas.
John North é um escritor de meia-idade em crise, que certo dia se apaixona
por uma jornalista da Vogue francesa um caso extraconjugal que acaba
se desdobrando numa trama de suspense.
Leia
trecho Eu
fumava um cigarro no bar, o copo vazio à minha frente, pensando se devia
tomar mais um ou ir embora, quando senti uma mão no meu ombro. Uma voz
bem grave e agradável disse: Deixe-me oferecer um uísque a você.
Não gosto de beber sozinho. E aposto que você também não. Não
havia razão para recusar a oferta. Ninguém me aguardava em lugar
nenhum. Assim sendo, concordei com a cabeça e o segui até uma mesa.
Ao ver um garçom à toa e ao alcance da voz, ele pediu uma garrafa
de uísque, gelo e soda. Fomos servidos com rude eficiência. Depois
de um suspiro que entendi ser de satisfação, ele cruzou e recruzou
os tornozelos das pernas finas e compridas esticadas à sua frente e olhou
ao redor. Mais uma vez, também eu absorvi as luzes bruxuleantes, o agrupamento
de sombras às demais mesas e o murmúrio das vozes. No momento seguinte,
ele rompeu o silêncio: Melhor eu me apresentar. North. Meu nome é
John North. Curvei-me
ligeiramente e retribuí a gentileza. De
súbito, ele tornou a falar, aquele homem tão parecido comigo na
aparência e no jeito, desde a coroa bem cuidada no alto da cabeça
até o bico dos sapatos, já bem usados, mas engraxados à perfeição. Escute,
ele disse. Escute aqui. Vou contar a você uma história que nunca
contei. Se me ouvir até o fim, vai entender por quê. Teria sido idiotice
da minha parte contar essa história a alguém. Mas, com você,
por alguma razão, me sinto seguro. Chame isso de impulso, instinto ou destino,
como quiser. Além do mais, que importância tem o que eu disser aqui,
tomando um drinque agradável no L’Entre Deux Mondes? Alguma
coisa no que ele disse ou não conseguiu dizer deve tê-lo divertido
bastante, porque riu até as lágrimas. Levou um tempinho para que
se recompusesse e fosse capaz de ir adiante. Este lugar ensombrecido não
é a perfeita terra de ninguém?, perguntou. Não
fiz nenhum comentário. Vamos,
diga lá, ele prosseguiu, com um toque de irritação. Que importância
pode ter o que eu disser a você aqui? Por
natureza, sou tímido e introvertido. Aquela intimidade que nada justificava
e que eu nada havia feito para estimular me pôs na defensiva. Ao mesmo tempo,
não desejava repelir de imediato o que podia ser apenas o movimento inicial
de uma conversa inofensiva. Pareceu-me melhor não dizer nada. North
fez um gesto afirmativo de cabeça, talvez indicativo de que, no fim das
contas, meu silêncio também não importava. Imagino que você
vá achar engraçado, disse ele, o fato de minha história começar
num café. Um café parisiense que você talvez conheça.
A propósito, você conhece minha obra? Quer dizer, meus romances? Diante
da expressão sem dúvida vazia no meu rosto, ele riu e disse: Não
se preocupe, prefiro sinceridade a uma mentira gentil que vou reconhecer no ato.
Não tem importância e, por favor, não proteste. Vou simplesmente
partir do princípio de que você nunca leu uma única linha
do que escrevi. Mas acredite que, há muitos anos, sou um escritor de considerável
reputação literária e razoável sucesso comercial.
Minha história começa quando meu romance mais recente, O formigueiro,
tinha sido lançado fazia pouco mais de seis meses, publicado nos Estados
Unidos no outono do ano anterior. A tradução francesa tinha acabado
de sair. Estava em exibição nas vitrines de boa parte das livrarias
de Paris e se podia encontrá-la até mesmo nas bancas de jornal em
Roissy ou Orly, que em geral só vendem best-sellers franceses e lixo importado.
Minha editora na França sempre foi a mesma. Publicou O formigueiro
e todos os meus romances anteriores. O dono se chama Xavier Roche, e, com o passar
dos anos, ele se tornou meu amigo. Eu estava em Paris a convite dele. Não
era bem um tour para promover o livro. Até porque nada do que tenha
importância real na vida literária francesa acontece no interior.
Em vez disso, a idéia era passar cerca de uma semana em Paris para ser
entrevistado pela mídia impressa. Se tivesse muita sorte, apareceria em
Apostrophes, um programa de televisão sobre livros que exerce enorme
influência nas vendas e na crítica também. Mas isso não
aconteceu. Note que eu tinha algumas coisas a meu favor. Todos os meus romances
estavam disponíveis em francês, sempre tive boas resenhas na França
e meu francês falado soa quase como o de um nativo - no todo, um perfil
incomum para um autor norte-americano. Xavier pretendia explorar essas vantagens,
sobretudo porque não tinha nenhum autor francês "de nome"
para lançar naquele ano. E
assim foi que, numa tarde cinzenta de maio, daquelas que deixam a gente com vontade
de deitar e dormir, eu me vi no Café Flore, sendo entrevistado por uma
jovem mulher para uma matéria a ser publicada com destaque na Vogue
francesa. Não, não que eu seja esse tipo de escritor, garanto a
você: mas, quando aparece um "gancho" que possam aproveitar, essas
revistas lustrosas às vezes fazem perfis de escritores sérios e
chegam mesmo a publicar resenhas competentes. Qual era o gancho nesse caso? Minha
modesta condição de celebridade, tanto nos Estados Unidos como na
França, as famosas peripécias dos meus pais - que, na época
deles, causaram grande alvoroço aqui e ali, e sobretudo em Paris - e o
fato de eu próprio ter morado na cidade. Qualquer que tenha sido o motivo,
haviam decidido fazer a matéria, e existia ainda a possibilidade de as
Vogue americana e britânica a publicarem traduzida. Logo em seguida
à entrevista, haveria uma sessão de fotos. Quando a jornalista -
no fundo, quero dizer a garota, porque não tinha como não pensar
nela dessa forma; não porque fosse jovem, imaginava que tivesse entre vinte
e cinco e trinta anos, estava mais para trinta, mas porque alguma coisa em sua
aparência e no lépido comportamento profissional me lembrou o tipo
da "jovem repórter intrépida" dos filmes da década
de 40. Bem, de todo modo, quando a garota perguntou se eu queria tomar um café
enquanto o fotógrafo e o assistente se preparavam, aceitei, tinha ficado
satisfeito com a entrevista. Ela havia lido minha obra com atenção
e conhecia boa parte do que já tinha sido escrito sobre mim. Fez perguntas
inteligentes. Tão
logo concordei, ela me levou para uma mesa do outro lado do café, longe
de onde havíamos nos sentado durante a entrevista. Imaginei que quisesse
evitar que o fotógrafo nos incomodasse. Ou que nos ouvisse. Muito
obrigada por tudo, ela disse. Por seus livros e pela entrevista. Foi muito eloqüente.
O novo livro é maravilhoso. Acho que vai ser muito bem recebido. O
café e o scotch que eu havia pedido me propiciaram pretexto suficiente
para não responder de imediato. Tomei o café depressa, ainda bem
quente, como é meu hábito, e pedi outro. Depois, dediquei-me ao
uísque, remexendo as pedras de gelo no copo. Claro que eu sabia que havia
sido eloqüente. Ela poderia até ter dito brilhante. E quanto às
perspectivas do meu novo livro? Nos Estados Unidos, as resenhas em jornais e revistas
que contam tinham sido favoráveis, à parte os poucos implicantes
que sempre me perseguem, seja por motivos pessoais ou ideológicos. Tinha
havido elogios entusiasmados também. De todo modo, numa fração
de segundo, a garota tinha azedado meu humor. Não foi só o pavor
inato que sinto de todo e qualquer otimismo ou cumprimento antecipado, embora
tenha um bocado a dizer sobre essa superstição em particular, uma
das muitas de que me orgulho bastante. Por exemplo, quando viajamos da cidade
para nossa casa em Long Island, que fica perto da propriedade dos pais da minha
mulher, sempre imploro a ela que não diga que o tráfego está
fluindo bem, pelo menos não antes de termos cruzado a Triborough Bridge.
Toda vez que ela diz isso, sem uma única exceção, logo ficamos
presos num engarrafamento, atrás de um caminhão tombado ou coisa
do tipo. É batata. Enfim, o que me incomodou não foi o que a garota
disse. Ela só falou a verdade inevitável: O formigueiro teria
boas resenhas, seguidas de vendas anêmicas. Xavier, no entanto, não
podia me culpar nem culpar o livro por isso. É o destino inexorável
de noventa e nove por cento dos romances traduzidos no mercado francês.
Eu sabia quais eram as raízes daquela minha súbita inquietude. Eram
outras, mais profundas do que o bem-intencionado comentário da jornalista,
e fundadas numa descoberta que eu tinha feito havia pouco tempo, enquanto Lydia
- minha esposa - estava num congresso no Havaí sobre doenças renais
em jovens e crianças pequenas, assunto no qual ela é uma grande
autoridade. […] |