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A Batalha de Salamina, de Barry Strauss (tradução de Clóvis Marques e Carlos Araujo; Record; 359 páginas; 49,90 reais) – Ocorrida em 480 a.C., a batalha de Salamina foi um momento crucial da civilização grega. Mais célebre conflito naval da Antiguidade, ela marcou a vitória definitiva dos gregos sobre os invasores persas, o que abriu caminho para a era de ouro da democracia ateniense. O historiador americano Barry Strauss é especialista em reconstituir operações militares do mundo antigo em narrativas ágeis e cheias de observações saborosas – fez o mesmo com a Guerra de Tróia. Ele esmiúça as técnicas de combate da época e dá vida a personagens como Temístocles, comandante que garantiu a vitória dos gregos mesmo em inferioridade numérica.

Leia trecho

CAPÍTULO UM

ARTEMÍSIO

Abafada no calor de agosto, mesmo à noite, Artemísio é um centro de atividade. Iluminados pela luz das fogueiras, 50 mil homens estão trabalhando: aqui a corrida para recuperar o equipamento danificado, ali carregando os corpos dos mortos para as piras, num ponto enchendo vasos de água e cantis nas fontes, em outro lugar deixando mensagens com desinformações para o inimigo, que está por perto, atrás deles. Alguns homens estão colocando seus capacetes de bronze, outros apertam as correias das aljavas de flechas que levam nas costas, enquanto outros seguram apenas uma almofada feita de couro de ovelha. Enquanto os homens trabalham, os cheiros típicos da área, de salmoura, tomilho e folhas de pinheiro, misturam-se com o odor do suor e a fetidez dos cadáveres.

A praia da baía está apinhada, com cerca de 250 trirremes ancoradas pela popa. De cada navio um par de escadas foi baixado e uma horda de mãos calejadas agarra os degraus enquanto os remadores sobem para seus assentos. Os resmungos dos remadores se misturam com o estalar da lenha nas fogueiras e os gritos dos contramestres dos remadores abafam os outros sons. A armada grega está saindo.

De todos os homens aglomerados na praia, somente um podia entender a cena. Estrategista-chefe dos gregos, ele planejara a guerra com a Pérsia durante anos e agora a sua hora chegara. Este homem era Temístocles.

Sua figura era impressionante naquela noite. Com cerca de 45 anos de idade, Temístocles de Atenas, filho de Néocles, era um guerreiro calejado. Ele devia estar usando um capacete de bronze, um protetor peitoral de bronze sobre uma túnica que chegava ao meio das coxas, perneiras de bronze e botas. Sem seu capacete, teria um rosto carnudo emoldurado por cabelo à escovinha e barba e bigode espessos. Sua testa era profundamente vincada, seus olhos, grandes, proeminentes e um pouco oblíquos. Os ossos salientes do rosto flanqueavam um nariz achatado. Seu queixo era dominado por uma boca que representava o triunfo da utilidade sobre a graça.

Era a face de um monge ou de um mercenário. Ficou conservada num busto antigo que identifica a expressão de Temístocles, bem longe da clássica. Não sabemos se a imagem é fiel, mas se a representação é inventada, ela é inspirada. O busto transmite uma força irresistível, de um homem poderoso e inteligente, que precisava somente de sua força de vontade para lutar contra o inimigo até sua submissão.

Por três dias, de 27 a 29 de agosto, Temístocles liderou a marinha grega no seu primeiro teste contra os muito mais experimentados persas. Os gregos estavam baseados em Artemísio, na ponta norte da ilha de Eubéia; os persas estavam a cerca de 16 quilômetros, do outro lado do canal, em terra firme. Embora inferiores em número, na proporção de dois para um, os gregos conseguiram imobilizar o inimigo. Inútil pensar em retirada, agora que as defesas do desfiladeiro das Termópilas, ali perto, haviam sido rompidas e o rei espartano Leônidas estava morto; nem pensar no problema de evacuar mais de 100 mil pessoas de Atenas; sem falar da fumaça e das ruínas no avanço persa: Temístocles tinha motivos para estar alegre.

Em três anos ele tirara Atenas de seu marasmo e a transformara na maior potência naval da Grécia, a orgulhosa proprietária de duzentas trirremes. Construíra uma frota e concebera um plano para salvar a cidade da invasão persa que ele pressentira que viria. E se tornara não somente o primeiro homem em Atenas, como também o comandante-em-chefe da marinha grega. Nada mau para alguém vindo de fora do círculo charmoso da aristocracia ateniense, um homem que assim definira rudemente o seu pragmatismo:

Eu posso não saber como afinar a lira ou tocar a harpa, mas sei como tomar uma cidade pequena e desconhecida e fazê-la grande e famosa.

Nada mau para um homem que chocara a velha-guarda, um homem a respeito de quem o filósofo Platão, mais tarde, se queixou que tornara os atenienses de infantes garbosos em marinheiros grosseiros. Mas Temístocles era um campeão no jogo brutal e implacável que era a política em Atenas. Este era um novo jogo quando Temístocles era ainda um adolescente. Em 508 a.C. uma revolução transformara Atenas numa das primeiras democracias da história.

Só uma democracia poderia reunir a mão-de-obra para equipar duzentas trirremes — 40 mil homens — e a força de vontade de usá-las acertadamente. Como diz Heródoto, a democracia revigorou Atenas;

Quando os atenienses viviam sob uma tirania, não lutavam na guerra melhor do que seus vizinhos, mas depois que se livraram dos tiranos eles se tornaram, de longe, os primeiros. Isto prova que quando eles eram oprimidos lutavam mal de propósito, como escravos de um senhor, mas depois que se liberaram, cada um deles desejava realizar seu trabalho com esmero.

Temístocles era aquela coisa rara numa democracia, um líder. Não tinha medo de falar as verdades para o povo. Do mesmo modo, ele sabia que uma linha reta nem sempre era a menor distância entre dois pontos. Ele era conhecido pela sua esperteza e pelas suas táticas de choque, ou o que os gregos chamavam de deinote\s. Deinote\s pode significar um comentário perspicaz ou uma catástrofe; pode se aplicar a um orador ou a um raio; pode ser usado como um elogio ou como uma crítica. Todas essas nuances se aplicavam a Temístocles.

Temístocles era brilhante, com visão ampla, criativo, infatigável, magnânimo, corajoso e eloqüente. Porém é verdade que no decurso de sua carreira ele mentiu, trapaceou, blefou e ameaçou; apropriou-se de idéias alheias; manipulou a religião; recebeu suborno e extorquiu dinheiro; foi insultuoso e vingativo; e terminou seus dias como um traidor. Em suma, Temístocles não era nenhum anjo, mas um serafim não poderia ter salvado os gregos.

Na primavera de 480 a.C., os membros da aliança grega contra a Pérsia, a Liga Helênica, se reuniu no estreito de Corinto para traçar uma estratégia. Os persas estavam chegando, invadindo a Grécia com toda a força. Era o último estágio de uma guerra que já durava uma geração.

A guerra começou quando Atenas insultou o poderoso império persa prometendo ser seu aliado em 508 a.C. mas depois renegou a promessa. O embaixador ateniense no império fez uma dádiva simbólica de terra e água, em sinal de submissão, mas o governo ateniense recusou-se a confirmá-lo. A briga piorou mais tarde quando Atenas prendeu dois embaixadores persas num calabouço de criminosos, o que provavelmente era o prelúdio de sua execução. Muito pior, Atenas depois forneceu ajuda militar à revolta jônica de 499 a 494 a.C., uma rebelião de súditos gregos e cários da Pérsia na Anatólia ocidental. Os gregos viviam na Anatólia havia séculos; os cários mais ainda e poderiam ter sido parentes dos troianos. Na revolta jônica, os atenienses capturaram por pouco tempo a capital provincial persa de Sardes e lá provocaram um incêndio que se propagou sem controle e destruiu o templo da deusa Cibele.

A Pérsia abafou a revolta jônica em 494 a.C. A batalha decisiva travou-se no mar perto de Lade, uma ilha na costa da Anatólia e perto da cidade-Estado grega de Mileto, líder da revolta. Agora era o momento de vingança contra Atenas. O rei Dario da Pérsia mandara uma armada através do mar Egeu para invadir Atenas em 490 a.C. Mas na batalha de Maratona, em território ateniense, a 38 quilômetros de Atenas, a infantaria ateniense esmagou os soldados persas e salvou seu país. Temístocles era um dos soldados na linha de frente desta batalha.

Agora, dez anos mais tarde, os persas estavam voltando, desta vez em grande número. Os gregos que se reuniram no estreito de Corinto na primavera de 480 a.C. combinaram uma estratégia de defesa com três elementos básicos. Primeiro, como a Pérsia atacaria por terra e mar, a reação dos gregos seria com um exército e uma marinha. O Peloponeso forneceria a maioria dos soldados, desde que Atenas concentrasse toda a sua mão-de-obra na sua grande marinha. Segundo, como a Pérsia estava atacando Atenas pelo norte da Grécia, em vez de pular de ilha em ilha no mar Egeu, os aliados preparariam uma defesa avançada no norte da Grécia. Seria melhor tentar deter os persas ali do que nas portas de Atenas. Terceiro, o tempo trabalhava a favor dos gregos. Por razões políticas, o rei da Pérsia queria uma vitória rápida, e por razões logísticas os intendentes persas não poderiam garantir suprimentos para seu enorme exército por muito tempo. Assim, era do interesse dos gregos prolongar a guerra até que os persas desistissem.

Os gregos começaram sua defesa pelo norte. Sua primeira linha consistia num exército de 10 mil homens para defender um passo nas montanhas conhecidas como Vale do Tempe, que atravessa a Macedônia e a Tessália. Temístocles comandaria a força. Mas quando chegou no Tempe, em junho ou julho de 480 a.C., ele descobriu duas outras passagens próximas. Como seria impossível fechar os três passos ao avanço persa, ele se retirou para o sul. Tempe foi uma falha de informações — um sinal de quão pouco os gregos conheciam seu próprio país e da falta de visão dos estrategistas antigos.

Mas Artemísio foi um triunfo estratégico. Se Temístocles não a escolheu como base, ele imediatamente percebeu sua importância. Era bastante perto das Termópilas para permitir uma estratégia de terra e mar. A frota grega em Artemísio impediria que os reforços persas chegassem pelo mar e cortassem o exército grego que defendia as Termópilas.

Os gregos poderiam ter estacionado sua frota mais perto das Termópilas, que fica a 65 quilômetros de Artemísio. Mas a proximidade não era o único problema. Nem o campo de batalha potencial, pois o estreito de Artemísio tem 16 quilômetros de largura e os gregos preferiam lutar em águas mais estreitas, onde a Pérsia não poderia lançar todos os seus navios. Mas Artemísio oferecia outras vantagens.

Artemísio era o melhor porto da região porque era o maior, o mais protegido e rico em fontes de água potável. Ocupando-o, os gregos o negavam ao inimigo. Isto significava que os persas não poderiam desembarcar na estratégica ilha de Eubéia sem enfrentar a frota grega. Nem a frota persa poderia passar pela ilha sem enfrentar a marinha grega.

Como as trirremes eram muito frágeis e muito desconfortáveis para uma longa permanência no mar, as frotas não faziam um bloqueio no sentido moderno da palavra. Em vez disso, elas ancoravam num porto perto do inimigo e saíam para desafiá-lo. Para se manterem alerta, usavam espias tanto na terra quanto no mar para seguir o movimento do inimigo e sinalizar informações.

De Artemísio os gregos poderiam contrapor o avanço da frota persa para o sul nas duas direções. A costa leste rochosa de Eubéia é hostil para os marinheiros, de modo que os persas provavelmente a evitariam. A costa oeste de Eubéia é mais acolhedora. Seus portos dão para um canal interno entre Eubéia e o território grego, uma passagem protegida para a marinha persa do norte da Grécia para Atenas. Ele é totalmente navegável, embora, a meio caminho, o canal se estreite para 40 metros de largura, numa passagem chamada Euripo. Assim, os gregos de Artemísio aguardavam um movimento persa para o sudoeste.

Percebendo o plano dos gregos, os persas coordenaram seu ataque sobre Artemísio e nas Termópilas. Embora não tivessem planejado tão precisamente, as batalhas navais e terrestres se deram exatamente nos mesmos três dias do final de agosto de 480 a.C.

Os gregos se regozijariam se detivessem os persas mediante as ações conjuntas em Artemísio e Termópilas. Mas eles não precisariam realizar tão grande feito. Meramente sangrando os persas e retardando-os já seria um grande sucesso. As baixas forçadas e o atraso iriam abalar o moral dos persas, enquanto dariam aos gregos uma prova das táticas persas — conhecimento valioso para ser usado na próxima batalha. Assim, a marinha grega atracou em Artemísio e esperou o bárbaro.

Artemísio geralmente era um local sonolento: uma vista do azul da água, uma praia arenosa e bosques verde-escuros de oliveiras e pinheiros, salpicada em agosto com moitas de laranja e açafrão. A cidade mais próxima ficava a 13 quilômetros, mas numa colina sobre a baía (hoje em dia a baía Pevki) erguia-se um templo de Artemis Proséoia, isto é, Ártemis que olha para o leste, e o nome se adequava à principal base grega contra a ameaça que vinha do leste.

Entretanto, como todas as bases avançadas, Artemísio oferecia vantagens e perigos equivalentes. Se a frota grega fraquejasse, seus homens ficariam vagando em terra hostil. Isto é, se sobrevivessem. A Pérsia queria esmagar a marinha inimiga e assegurar o controle das vias marítimas em direção ao sul, o que significava afundar seus navios e matar seus marinheiros. Os persas queriam matar todos os gregos, até o sacerdote espartano que mantinha aceso o fogo sagrado trazido do altar de Zeus em Esparta.

A posição exposta dos gregos era bastante arriscada, mas pior ainda era o tamanho da marinha grega. Em 480 a.C. o mundo grego se estendia da Anatólia à baía de Nápoles; havia até mesmo alguns gregos espalhados até o leste do Cáucaso e até a Espanha. Tudo somado, havia mil e quinhentas cidades-Estado gregas. Entretanto, apenas um punhado — somente 31 cidades-Estado — se uniu à coalizão contra a Pérsia.

De fato, mais cidades-Estado gregas lutaram do outro lado. A Pérsia era muito forte e a lealdade às idéias da Grécia era muito fraca para conferir poder à Liga Helênica. Atenas, Esparta e algumas cidades-Estado que enfrentavam a Pérsia falavam muito mal dos traidores gregos, mas a maioria dos gregos daria de ombros com a acusação.

Dos 31 membros da Liga Helênica, apenas 14 tripulavam os navios de guerra em Artemísio, para um total de 280 naves — 271 trirremes e 9 pentarremes. Mais tarde, Atenas enviou um reforço de 53 navios, elevando o total a 333 navios de guerra. Atenas forneceu 180 navios em Artemísio, de longe o maior contingente; os navios eram parcialmente tripulados por aliados de Atenas em Platéia. A maior unidade próxima eram 40 navios de Corinto, seguidos de 20 de Mogara, mais 20 de Atenas, com tripulação de Cálcis, 18 de Egina e oito contingentes menores.

Em oposição aos gregos singrava uma marinha numericamente muito superior. Os persas tinham nada menos do que 1.207 trirremes quando zarparam para sua expedição e outras 120 se uniram a eles à medida que ganhavam aliados durante seu avanço através do norte da Grécia em direção a Artemísio — perfazendo um total de 1.327 navios.

Ambas as frotas tinham que lidar com as complicações e problemas de uma armada multinacional. Mas as diferenças entre as cidades-Estado gregas eram pequenas comparadas aos contrastes na torre de Babel flutuante que era a frota persa. Ela combinava fenícios, egípcios, gregos, cipriotas e vários povos não-gregos da Anatólia, desde cários a panfílios. Com todas as suas diferentes línguas, a comunicação não era um pequeno problema para a frota, sem falar da coordenação das operações no mar.

Quatro nobres persas, incluindo dois príncipes, exerciam o supremo comando. Entretanto, não havia um único navio persa na sua marinha. Cada navio levava uma mistura de soldados e arqueiros, incluindo alguns persas, mas nenhum marujo era persa. Os persas não eram homens do mar.

Os gregos, ao contrário, praticamente tinham água salgada nas veias, tão ligados que eram ao mar. A Odisséia, essa história quintessencial de um marujo, era um dos dois poemas épicos nacionais conhecidos de cada menino grego. Mas a coalizão grega contra a Pérsia era liderada por uma potência terrestre — Esparta. Tradicionalmente a maior cidade-Estado grega, Esparta se orgulhava de suas virtudes militares. A aliança grega era conhecida como Liga Helênica. Esparta insistiu em deter o poder supremo no mar, como o fazia em terra. No interesse da unidade grega, Atenas concordou. Entretanto, com seus duzentos navios de guerra, Atenas possuía, de longe, a maior e mais forte marinha grega. Apesar de o comandante da frota grega ser um espartano chamado Euribíades, filho de Euríclides, seu principal estrategista era Temístocles.

Mas seu gênio não se evidenciou no início. No primeiro embate naval da guerra, os gregos mandaram três navios ao norte em missão de reconhecimento; eles estavam baseados na ilha de Cíato, cerca de 25 quilômetros ao nordeste de Artemísio. Um contingente persa avançou em sua direção e os navios gregos fugiram logo quando o viram. Dois foram capturados e um encalhou na praia e foi abandonado pela tripulação. O navio abandonado era ateniense e os dois navios capturados eram de Egina e Trezena. Os persas se concentraram no navio trezênio, pois era a primeira nave capturada da guerra. Escolheram o mais bonito dos marinheiros, o arrastaram até a proa e cortaram sua garganta. Eles acharam que devia dar sorte sacrificar o mais bonito dos seus primeiros prisioneiros. Além disso o nome da vítima era Leon, "leão", e era apropriado matar o rei dos animais.

A frota em Artemísio soube das notícias por meio de sinais de fogo transmitidos do cume de uma montanha em Cíato para o cume de uma montanha na Eubéia. Nos céus límpidos do Mediterrâneo os sinais de fogo eram visíveis durante o dia e como faróis de noite. Testes modernos mostram que os sinais eram visíveis entre cumes de montanhas numa distância de 250 quilômetros.

Tendo visto o sinal, a frota se retirou para o sul no canal da Eubéia, bem longe na cidade de Cálcis. Porém, deixaram sentinelas avançadas nas montanhas de Artemísio para informar os movimentos persas. As sentinelas avançadas tinham que ser bons corredores e bons cavaleiros — para as ocasiões quando havia cavalos disponíveis. Eles tinham que viajar leves e não despertar atenção, e assim poderiam estar armados apenas com uma adaga.

Onde, pergunta-se, andaria o audacioso Temístocles? Heródoto diz que a retirada grega foi puro pânico. Se ele está certo, então Temístocles presumivelmente havia sido voto vencido pelos outros generais. Mas pode haver outras explicações para a retirada grega. Talvez os gregos suspeitassem de um gesto audacioso dos persas via Cíato na costa de Eubéia e estavam correndo para chegar primeiro. Outra possibilidade pode ser que, com seu conhecimento das condições locais, os gregos previram que uma perigosa tempestade estava se formando e assim se retiraram para posições seguras.

Enquanto isso, os persas estavam singrando na direção de Artemísio, velejando na direção sul do nordeste da Grécia, oposta ao monte Pélion. A acidentada península do monte Pélion surge abruptamente do mar. Incapazes de encontrar um porto bastante grande para seus navios, os persas foram forçados a ancorar em oito fileiras paralelas à costa, perto do cabo Sépias. Isto por seu turno os deixou vulneráveis ao que Heródoto chamou de "uma tempestade monstruosa". Ela durou três dias, até que os céus ouviram as preces dos sacerdotes persas. Muitos gregos viram a tempestade como obra de Bóreas, deus do vento norte.

Durante os meses que se seguiram à tempestade, copos de prata e ouro, até arcas com tesouros, foram lançados à praia, tornando um proprietário grego de terras um milionário. Heródoto relata que, avaliando-se moderadamente, os persas perderam quatrocentos navios de guerra e incontáveis marinheiros. O tamanho da frota fora reduzido de 1.327 a cerca de 927 navios de guerra. Foi um grande revés, mas a frota persa ainda era enorme.

Tendo se recuperado, a frota persa circundou a península do Pélion e chegou num local oposto a Artemísio, um porto chamado Afetes, o legendário ponto de partida de Jasão e seus argonautas. Afetes era provavelmente mais conhecido como a base de comando naval persa; sua frota era muito volumosa para outro porto e assim provavelmente estava espalhada em diversos.

Neste momento, as sentinelas avançadas correram para dar notícias aos gregos em Cálcis sobre a desastrosa tempestade. Sem dúvida o relato foi exagerado. Convencidos de que os persas estavam arruinados, os gregos fizeram uma prece ao deus do mar, Posídon, que eles agora chamavam Posídon o Salvador. Então eles correram de volta ao norte para Artemísio. Um choque os esperava.

Quando os gregos em Artemísio olharam para o estreito e viram o tamanho da frota persa que restara, apesar da tempestade, eles entraram em pânico. Falou-se em retirada e isto galvanizou os eubeus locais. Não conseguindo convencer Euribíades a ficar o tempo necessário para evacuar as mulheres e as crianças, os eubeus se voltaram para Temístocles. Ele se dispôs a ficar — por um preço. Os eubeus lhe pagaram a enorme soma de 30 talentos de prata, dinheiro suficiente para pagar cem operários por seis anos, ou para comprar mil escravos, ou pagar a tripulação de trinta trirremes pelo trabalho de uma estação. Depois de pagar cinco talentos para Euribíades e três talentos para o comandante coríntio Adimanto, filho de Ocito, Temístocles guardou 25 talentos, fato que ele escondeu. A frota grega permaneceu em Artemísio.

Podemos dizer que os eubeus pagaram suborno a Temístocles e seus colegas, mas os gregos antigos chamaram isso de uma dádiva. Sua língua não tinha uma palavra para suborno, mas sua cultura valorizava os presentes. Os heróis de Homero acumularam ouro, bois e mulheres por suas façanhas; os políticos de Heródoto esperavam receber suborno. Os contemporâneos aceitavam essas práticas; de fato, a lei ateniense admitia que um funcionário público recebesse dinheiro privado desde que o usasse no interesse do povo.

Nesta época, os gregos em Artemísio tiveram um golpe de sorte. Quinze navios persas desgarrados aportaram em Artemísio por engano, em vez de em Afetes, caindo direto nas mãos do inimigo. Os gregos capturaram não apenas 15 trirremes, como também três comandantes persas importantes, inclusive o governador da Eólia, uma região a nordeste de Anatólia que incluía a cidade de Cime, um grande porto, bem como um tirano cário e um comandante de Chipre. Depois de interrogados eles foram enviados acorrentados ao estreito de Corinto.

Enquanto isso, os persas de Afetes prepararam um plano de batalha. Eles precisavam de um estratagema, assim pensaram, pois se apenas aparecessem e lutassem, os gregos dariam meia-volta e fugiriam. Assim, para prevenir a fuga dos gregos, os persas montaram uma emboscada. Os persas mandariam duzentos navios pela costa leste da Eubéia; uma vez passados pela ponta sul da ilha eles girariam de volta pela costa oeste e emergiriam em Artemísio. Então, a um sinal, o grosso da frota persa atacaria.

Astucioso como poderia parecer, seu plano era traído pela mentalidade persa de camponeses inexperientes em coisas do mar. Uma coisa era flanquear o inimigo em terra firme, e outra coisa bem diferente fazer o mesmo navegando ao largo da traiçoeira costa leste da Eubéia, fustigada pelos ventos. Além disso, um desertor avisou os gregos do que os persas pretendiam fazer. Cílias de Cione era um grego do norte a serviço da Pérsia conhecido como o maior mergulhador de sua época. Heródoto ridiculariza os relatos de que ele nadou o estreito de dezesseis quilômetros — debaixo d’água — para chegar aos gregos; em vez disso, diz ele, Cílias escapou e o atravessou num bote. Mas os gregos tinham snorkels primitivos, e talvez vindo de vez em quando à superfície Cílias nadou principalmente debaixo d’água. De qualquer modo, ele trouxe notícias tanto das perdas persas com a tempestade como do envio dos duzentos navios.

Antes de decidir o próximo passo, os gregos tiveram uma longa e quase inútil discussão. Finalmente decidiram lançar seus navios à meia-noite para confrontar o contingente de duzentos navios persas. Presumivelmente planejavam navegar na direção sul e atacar os navios isoladamente. Isto era uma má idéia, pois teria atraído sobre eles o grosso da frota persa, e por sorte os gregos não a executaram. Ao meio-dia, sem sinal dos duzentos navios persas, os gregos mudaram de idéia. Eles atacariam o corpo principal da frota persa.

Era um plano maluco, ou assim parecia. As marinhas da Antiguidade raramente lutavam sem uma praia amiga por perto, mas os gregos haviam deixado sua base em Artemísio para atravessar o canal. Além disso, os gregos tinham 271 navios; os persas, mais de 700, além dos 200 do sul. E as trirremes persas eram mais velozes do que as trirremes gregas.

Superiores em número e rapidez, os persas quase não acreditaram quando viram os navios gregos vindo na sua direção. Os persas rapidamente manobraram para enfrentar o ataque. As tripulações persas estavam seguras de seu sucesso e disputavam a honra de serem as primeiras a capturar um navio inimigo, especialmente do melhor contingente grego, o ateniense. Os gregos jônios da frota persa tinham pena de seus colegas gregos do outro lado. Do ponto de vista dos jônios, nem um único homem da marinha grega voltaria para casa.

O ataque grego foi tão louco quanto ardiloso, calculado e corajoso. Ele levava a marca inconfundível do mestre tático Temístocles. Os atenienses venceram toda a oposição e convenceram os gregos a tomar a ofensiva. Que outro homem poderia conceber um uso tão brilhante da surpresa, precisão e choque?

Temístocles preparara cuidadosamente o ataque para a noite. As marinhas antigas raramente viajavam no escuro, e principalmente não ousavam lutar às escuras, de modo que o confronto seria curto. Na verdade, seria menos uma batalha do que um ataque surpresa, e de fato uma experiência. Sob condições cuidadosamente controladas, os gregos seriam capazes de testar a capacidade guerreira do inimigo, particularmente na manobra conhecida como o diekplous.

Diekplous significa "remar através e para fora". Nesta perigosa manobra, uma única trirreme ou, preferivelmente, uma fileira de trirremes remava através de uma abertura nas linhas inimigas e atacava. Os conveses estariam cheios de soldados e arqueiros de prontidão, mas sua função era principalmente defensiva. A arma principal era o esporão do navio atacante: ele seria usado para abalroar a popa (parte anterior) da trirreme inimiga. Os fenícios eram especialmente bons nesta manobra, como nota uma antiga fonte:

Quando os fenícios estão enfileirados contra o inimigo face a face, como em ordem unida, eles avançam contra o adversário, como se fossem colidir de frente, mas em vez disso eles remam através da linha inimiga e manobram para atacar os lados expostos dos navios inimigos.

Outra tática no diekplous era quebrar os remos de um dos lados de uma trirreme inimiga, pondo-a assim fora de combate. A força inercial feriria e possivelmente mataria remadores no navio inimigo. Enquanto isso, os remadores do navio atacante tinham de recolher os seus remos no último minuto crucial para evitar danificá-los.

O diekplous era uma dança mortal tão complexa como um balé. A frota grega precisava interromper a dança inimiga e reagir com sua manobra. O sucesso dependia da experiência, e poucos remadores na frota ateniense a haviam executado em combate real. Eles sem dúvida treinaram-no durante dois verões desde a construção da frota ateniense, mas aquilo eram apenas ensaios. E a frota grega não havia combatido junto antes. Aquela primeira noite em Artemísio marcou o batismo de fogo da frota grega — e ele foi brilhante.

Logo antes de lançar seus navios, os gregos, sem dúvida, cuidaram dos rituais costumeiros que precediam as batalhas. Os sacerdotes que faziam parte de todas as forças das cidades-Estado — como os capelães que acompanham os exércitos modernos — sacrificaram animais para obter a aprovação dos deuses. Então, enquanto eles lançavam seus navios e remavam ao encontro do inimigo, as trombetas soavam, e algumas, se não todas, tripulações uniram seus espíritos cantando um hino de batalha, ou, como os gregos o chamavam, um peã.

Uma frota remando de modo cuidadosamente coordenado deveria dar uma impressão admirável. Temístocles estava no meio dos navios. Os generais da Antigüidade não lideravam na retaguarda. Como comandante ateniense, Temístocles dirigiria o ataque a bordo de um bem indicado navio capitânia, talvez com uma bandeira púrpura desfraldada na popa. Ele se colocaria numa posição elevada no convés superior, de onde poderia observar os acontecimentos e dar as ordens. Mas era uma posição vulnerável: em outra ocasião mais tarde, um general espartano fora lançado do convés quando o navio foi abalroado e se afogou.

A responsabilidade do plano de batalha era do general, que depois devia cuidar para que os navios o levassem a cabo. Ele devia controlar o alinhamento dos navios. O general dava as ordens de avançar e retirar, espalhar ou ajuntar. Se o inimigo se comportava de modo diferente do antecipado, cabia ao general mudar os planos e informar aos seus tenentes para transmitir aos navios.

Tão surpresa com o ataque quanto desdenhosa dos gregos, a frota persa, uma força superior, adotou a reação óbvia: cercou o inimigo. Com sua superioridade numérica e um canal de dezesseis quilômetros de largura, eles poderiam facilmente superar as linhas gregas. De fato, relata Heródoto, os persas realmente cercaram os gregos. Mas eles caíram nas mãos de Temístocles.

Os comandantes gregos deram um sinal previamente combinado. Os sinais no mar eram transmitidos por reflexo de luz num escudo polido; um espelho ou um sabre podiam também ser usados. Se o sol estivesse muito baixo naquela hora avançada ou a luz fosse insuficiente para agitar um tecido branco ou escarlate — outro meio de sinalização —, então o sinal era dado pelo som de trombetas acima do barulho.

Dado o sinal, os gregos rearranjaram seus barcos num círculo defensivo. Eles podem ter realizado a manobra dando marcha a ré com duas fileiras dos remos impulsionando pela proa, enquanto a central mantinha sua posição. Assim, cada barco mantinha a proa para fora, com as popas unidas. O anel era muito apertado para que os persas penetrassem. Entrementes, os persas, confiantes, provavelmente não sentiram necessidade de manter seus navios em ordem cerrada.

Os navios das duas frotas não podiam estar mais perto uns dos outros, colocaram-se proa contra proa, ou, para usar a antiga expressão grega, boca a boca. Por outro lado, as duas frotas lutariam num espaço apertado criado artificialmente. Temístocles havia manobrado o inimigo precisamente para onde ele o desejava, onde os barcos mais pesados de Atenas poderiam causar mais danos. Só podemos especular que Temístocles também tenha escolhido o momento em que o vento era mais favorável.

No convés, os soldados e arqueiros estavam de prontidão, cuidando de não mudar de posição e desequilibrar o barco. O piloto mantinha os dois lemes frouxos, esperando pela ordem de ação. Enquanto isso, nos conveses inferiores, os remadores, dispostos em três fileiras superpostas, estavam sentados silenciosamente nos seus bancos, os remos prontos para o trombeteiro cujo ritmo eles logo deveriam seguir.

Os remadores sentados nas fileiras superiores podiam ver alguma coisa do exterior através dos orifícios dos remos e das telas de pêlo de cavalo que os protegiam das flechas inimigas. As duas fileiras inferiores de remadores só podiam imaginar o que se passava do lado de fora. Enquanto eles se dirigiam ao encontro da morte, seu mundo consistia somente em 170 homens dentro de paredes de madeira. Era um mundo permeado de odores de pinho, da resina usada para proteger o casco da água, da banha de carneiro usada para lubrificar os reforços de couro por onde passavam os remos. E por toda parte o cheiro de suor, flatulência e ocasionalmente de vômito.

Agora chegara o momento do golpe de Temístocles. Ao segundo sinal, certas trirremes gregas saíram do círculo, atingiram as desordenadas linhas inimigas, escolheram trirremes persas vulneráveis e escaparam. As táticas preferidas dos gregos eram ou abalroar uma nave persa e retroceder ou quebrar os remos de um lado do inimigo, girar e fugir. Em ambos os casos, esta contramanobra, magnificamente executada, deteve o diekplous inimigo e deu aos gregos trinta navios inimigos, bem como um prisioneiro importante, um nobre persa chamado Fílon, filho de Quersis, o irmão de Gorgo, rei da cidade de Salamina em Chipre (um lugar diferente da ilha grega de Salamina). Um capitão ateniense, um tal de Licômedes, filho de Escreu, da aldeia de Fila, ganhou o prêmio de valentia porque foi o primeiro grego a capturar um navio persa. Um navio grego a serviço dos persas, capitaneado por Antídoro, da ilha de Lemnos, bandeou-se para o lado grego. Os persas provavelmente nunca souberam o que os havia atingido.

Os persas, desenganados, dirigiram-se para sua base em Afetes, mas suas tribulações não haviam terminado. Naquela noite caiu uma violenta trovoada, improvável no verão grego. O tempo abalou ainda mais o moral dos persas, como relata Heródoto:

Cadáveres e destroços de navios foram arrastados de Afetes, onde se misturaram às proas dos navios e interferiram nos remos. As tripulações ficaram apavoradas quando souberam disso e esperaram a morte, em face dos contratempos que encontraram.

A manhã trouxe notícias piores. A mesma tempestade que assustara os homens em Afetes também destruíra o contingente de duzentos navios persas que havia sido enviado para circundar a costa leste da Eubéia. Os sobreviventes correram de volta para Afetes com as más notícias. Não haveria emboscada contra os gregos em Artemísio.

Para tripudiar o adversário, os gregos atacaram os persas de novo naquela tarde, mais uma vez esperando para uma hora mais avançada. O estado de ânimo dos gregos foi estimulado com a notícia do desastre persa em Eubéia e pela chegada, como reforço, de 53 trirremes de Atenas. As informações eram sucintas sobre o segundo confronto em Artemísio, mas podemos especular que os gregos bateram um esquadrão persa em vez da frota persa. De qualquer maneira, os gregos destruíram alguns navios da Cilícia (uma região ao sul de Anatólia) e depois velejaram para Artemísio.

Finalmente, no terceiro dia, os frustrados comandantes persas iniciaram seu próprio ataque. Mas agora eles estavam preocupados com o fato de logo terem que enfrentar a fúria do seu rei ausente, que estava longe, dirigindo a luta nas Termópilas, mas que teria notícias de Artemísio. Eles zarparam ao meio-dia. Os comandantes exortaram seus homens: "Destruam a frota grega e conquistem a via marítima!"

Enquanto os persas remavam em ordem de batalha os gregos mantiveram a calma, embarcaram nos seus navios e ficaram perto de Artemísio. Seus generais também exortaram seus homens: "Os bárbaros não passarão sobre o coração da Grécia!"

Os persas dispuseram seus navios em semicírculo, esperando cercar e esmagar os gregos. Mas isto não deu certo. Não sabemos precisamente como eles conseguiram, mas os gregos, numericamente inferiores, superaram a quantidade numérica do inimigo com sua qualidade. Talvez a batalha tenha ocorrido na entrada da baía onde estavam ancoradas as trirremes gregas; um espaço estreito que era vantajoso para os pesados navios atenienses. Talvez os gregos tivessem posicionado seus navios numa linha dupla como defesa contra o diekplous do inimigo. Os navios da segunda linha tentariam interceptar qualquer navio persa que ultrapassasse antes que ele pudesse girar e abalroar um navio grego da primeira linha. Sabemos que um homem chamado Heráclides de Mílasa, um refugiado do jugo persa, usou precisamente esta tática contra navios fenícios na batalha de Artemísio. Mas Artemísio é um nome comum e não sabemos se a história sobre Heráclides se refere a esta batalha.

Não importa como fizeram, mas os gregos conseguiram desbaratar parte do inimigo. Ao invés de ajudar, a superioridade numérica da Pérsia atrapalhou. Os navios da enorme frota ficaram à deriva, e os barcos não podiam evitar as colisões uns contra os outros.

Ainda assim, os persas se recusavam a retroceder. Eram demasiadamente orgulhosos para recuar diante de uma frota tão pequena. A batalha continuou até o anoitecer, quando ambos os lados estavam tão danificados a ponto de quererem terminá-la. Heródoto relata que os dois adversários perderam muitos homens e navios. Mas até isso era uma notícia pior para os persas. Suas perdas eram muito superiores às gregas.

Taticamente, no terceiro dia, a batalha estava empatada, mas em termos de estratégia era uma vitória grega. Em Artemísio a Pérsia esperava colocar os gregos fora de combate. Entretanto, a frota grega havia não somente sobrevivido ao pior de que a Pérsia podia dispor e de fato ganhou nos três confrontos. Foi um golpe para o orgulho naval da Pérsia.

Haveria uma revanche entre as duas frotas, é claro, mas isso teria lugar mais ao sul, perto de Atenas ou do Peloponeso. Ali os gregos contariam com a vantagem de lutar em águas conhecidas. Os persas, ao contrário, estariam mais longe de suas bases, ainda mais dentro do território inimigo, ainda mais longe de suas linhas de abastecimento de níveres.

E por mais importantes que fossem, as perdas em Artemísio tiveram importância secundária em comparação com as tempestades que açoitaram a frota persa. Os persas haviam partido do norte da Grécia com 1.327 trirremes. Sofreram a perda devastadora de 600 navios causada pelas tempestades; adicionando-se as perdas em combate, os persas provavelmente só possuíam cerca de 650 navios depois de Artemísio. Como Heródoto comenta sobre a tempestade que destruiu 200 navios persas ao largo de Eboea, "foi tudo feito pelo deus para que a frota grega se salvasse e a frota persa não ficasse muito maior do que ela." É verdade que os persas ainda eram mais numerosos do que os gregos, mas as avarias sofridas por alguns esquadrões da Pérsia reduziram ainda mais sua vantagem numérica.

De volta a Artemísio e em Afetes, foram concedidos prêmios pelo valor na batalha. Xerxes deu honras aos seus marinheiros egípcios por terem capturado cinco navios gregos com suas tripulações. Isto é, de acordo com Heródoto: outra tradição diz que os fenícios da cidade de Sídon receberam honras dos persas por Artemísio. Os quatro navios sob ordens da rainha Artemísia de Halicarnasso também lutaram no auge da batalha. Do lado grego, Atenas ganhou o prêmio, e junto com os atenienses o lugar de orgulho pertenceu a Clínias, filho de Alcibíades, um rico aristocrata que forneceu duas centenas de marinheiros e sua trirreme à sua própria custa. Mas havia pouco tempo para celebrar. Havia muito trabalho a fazer: ambos os lados tinham que recolher seus mortos e salvar o que fosse possível dos destroços. Os atenienses sofreram avarias na metade de suas trirremes.

Mas Temístocles já pensava no futuro. Ele convocou os generais gregos e lhes disse que tinha um plano. Pensava que seria capaz de recrutar os jônios e cários que serviam o inimigo e afirmou que eles constituíam as melhores unidades na frota persa. (Os fenícios, pelo menos, não concordariam.)

Sem dúvida, muitos gregos jônios e muitos cários tinham razão para odiar a Pérsia. Por exemplo, eles sabiam como a Pérsia tratara o povo de Mileto depois da revolta jônica. A maioria dos homens foi morta, as mulheres e as crianças foram reduzidas à condição de escravos, e os homens que sobreviveram foram forçados a se instalar no golfo Pérsico.

Ou tomemos os ilhéus de Quios, cuja experiência na batalha de Lade em 494 a.C. foi uma epopéia em miniatura. Cem navios de Quios participaram da luta. Apesar de a maioria dos navios gregos ter fugido no início, os quiotas lutaram bravamente e capturaram um certo número de navios persas. Finalmente, os quiotas numericamente inferiores perderam a maioria dos seus navios e fugiram para sua base.

Mas alguns dos navios de Quios foram avariados, e o inimigo os forçou a encalhar em terra firme. Dali as tripulações caminharam até Éfeso, uma cidade grega. Agora já escurecera. Aconteceu que as mulheres de Éfeso estavam reunidas fora da cidade para celebrar um festival. Os homens de Éfeso, perplexos com o aparecimento de um grupo de estrangeiros armados, atacaram os quiotas e os mataram até o último homem. Este foi o fim trágico da sua luta pela liberdade.

Os jônios lembravam-se disso e também lembravam-se de outra coisa: a Pérsia vencera a batalha de Lade pela diplomacia e não pelo valor no mar. O principal contingente grego, que viera da ilha de Samos, concordou em desertar e virou a batalha para os persas. Em outras palavras, a frota persa não demonstrara ser suprema na batalha.

Sabendo disso, os gregos de Artemísio ficaram sem dúvida intrigados pela promessa de Temístocles de obter a deserção dos cários e jônios. Eles lhe perguntaram como conseguiria isso. Isto, disse Temístocles, era um segredo naquele momento. Ele seria revelado no devido tempo. Por enquanto, que os detalhes ficassem a seu cargo. Ele também pediu a autorização para escolher o momento no qual a frota faria a prudente retirada que agora era obviamente necessária.

Embora indóceis, os colegas de Temístocles concordaram. Talvez estivessem persuadidos pelos seus argumentos, ou talvez eles raciocinassem que ele serviria de bode expiatório conveniente se as coisas dessem errado. Ou talvez a questão tivesse sido resolvida por uma vantagem que os tentou: comida.

Ele aconselhou os generais a ordenar que seus homens acendessem fogueiras e roubassem as ovelhas e bodes que os eubeus haviam incautamente tangido para perto no fim do dia. O roubo de ovelhas na Grécia é tão velho como a Odisséia, mas os generais sentiram a necessidade de justificar seus atos. Se eles não pegassem os animais, disseram-se, os persas o fariam. Ovelha e bode eram uma iguaria, comparados a cevada moída, peixe salgado com alho e cebola. Ainda mais, os homens haviam passado pelos três dias mais difíceis de suas vidas. A maioria nunca havia experimentado antes o fragor dos navios avançando para a batalha ou visto os corpos pálidos tragados pelas ondas.

Aquela noite, enquanto a carne pipocava nos espetos de madeira na praia, o cenário parecia, a distância, como um destes festivais noturnos de que os gregos gostam tanto. As constelações da Ursa e do Arqueiro (assim as referem os gregos, nós as chamamos de Ursa Maior e Sagitário) estavam baixas e proeminentes no céu de verão, e a praia estava iluminada por milhares de fogueiras. Mas, por perto, entre os homens exaustos nada havia para celebrar. O rumor se espalhara: a marinha levantaria ferros na manhã seguinte. Temístocles escolhera seu momento. Então vieram as notícias das Termópilas. Os persas haviam atravessado o passo e massacrado os espartanos, inclusive o rei espartano.


 
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