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Artesanatos de Poesia, de Mário Faustino (Companhia das Letras; 588 páginas; 56 reais) – Mesmo tendo morrido prematuramente em um acidente aéreo, o piauiense Mário Faustino (1930-1962) firmou-se como um dos poetas mais vigorosos de sua geração. Autor de uma excepcional coletânea de poemas – O Homem e Sua Hora –, ele também era um crítico acurado, com um conhecimento enciclopédico da melhor poesia universal. Este livro recolhe textos produzidos para a página Poesia-Experiência, que Faustino manteve no Jornal do Brasil no final dos anos 50. São ensaios sintéticos que apresentam ao iniciante em poesia as obras de mestres modernos como Arthur Rimbaud, Stephen George e Ezra Pound. Muitos textos são acompanhados das excelentes traduções de Faustino para esses poetas.

Leia trecho

Pequena arte poética


L'ART

Oui, l'oeuvre sort plus belle
D'une forme au travail
Rebelle,
Vers, marbre, onyx, émail.

Point de contraintes fausses!
Mais que pour marcher droit
Tu chausses,
Muse, un cothurne étroit.

Fi du rythme commode,
Comme un soulier trop grand,
Du mode
Que tout pied quitte et prend!

Statuaire, repousse
L'argile que pétrit
Le pouce
Quand flotte ailleurs l'esprit;

Lutte avec le carrare,
Avec le paros dur
Et rare,
Gardiens du contour pur;

Emprunte à Syracuse
Son bronze où fermement
S'accuse
Le trait fier et charmant;

D'une main délicate
Poursuis dans un filon
D'agate
Le profil d'Apollon.

Peintre, fuis l'aquarelle,
Et fixe la couleur
Trop frêle
Au four de l'émailleur.

Fais les sirènes bleues,
Tordant de cent façons
Leurs queues,
Les monstres des blasons,

Dans son nimbe trilobe
La Vierge et son Jésus,
Le globe
Avec la croix dessus.

Tout passe. - L'art robuste
Seul a l'éternité,
Le buste
Survit à la cité.

Et la médaille austère
Que trouve un laboureur
Sous terre
Révèle un empereur.

Les dieux eux-mêmes meurent,
Mais les vers souverains
Demeurent
Plus forts que les airains.

Sculpte, lime, cisèle;
Que ton rêve flottant
Se scelle
Dans le bloc résistant!

 

A ARTE

Sim, a obra sai mais bela de uma forma rebelde ao lavor: verso,
mármore, ônix, esmalte.
Nada de apertos forçados! Mas se queres marchar ereta, calça,
Musa, um coturno estreito.
Abaixo o ritmo cômodo, calçado frouxo onde qualquer pé entra e sai!
Repele, escultor, a argila que o polegar amassa - enquanto o
espírito paira ao longe;
Luta com o carrara, com o paros duro e raro, guardiães do puro
contorno;
Usa de Siracusa o bronze onde se mostra firme o traço altivo, o
traço encantador;
Com mão delicada pesquisa o perfil de Apolo num filão de ágata.
Pintor, evita a aquarela, fixa a cor demasiado frágil no forno do
esmaltador.
Pinta de azul as sereias, retorce de mil maneiras as caudas desses monstros de brasão;
Com sua auréola trilobada pinta a Virgem e seu Jesus, a cruz
encimando o globo.
Tudo passa. - Só a arte vigorosa é eterna. O busto sobrevive à
cidade.
E a medalha austera, que o lavrador encontra sob a terra, revela um imperador.
Os próprios deuses morrem. Mas os versos soberanos
permanecem, mais poderosos que os bronzes.
Esculpe, alisa, cinzela; fixa no bloco resistente teu sonho
fugitivo!


Théophile Gautier (1811-72) tem influenciado mais de um século de poesia. Foi o rei dos parnasianos; curvando-se constantemente à glória desse Hugo que amava, soube contudo opor represas à muita vez destruidora torrente romântica; influiu sobre o próprio Hugo e sobre todos os poetas seus contemporâneos; no célebre prefácio às Fleurs du mal, Baudelaire o chamou de parfait magicien ès lettres françaises; Verlaine, Mallarmé, Laforgue, Valéry, todos fizeram para com ele declarações de dívida insolvente; mas que significa, para o poeta de hoje, a obra do fabricante dos Émaux et camées, livro cujo título bizantino (Esmaltes e camafeus) tanto repugna àqueles cujo gosto foi formado mais por um Rimbaud que por um Banville?

Gautier é, antes de tudo, um perfeito versificador, o que se afirma sem sombra de pejorativo: ninguém pode negar a importância do bom fazedor de versos. Renovou e solidificou o verso francês, revolucionou-lhe a rima, emprestou-lhe uma precisão, uma economia, um aspecto concreto, uma leveza desconhecidos desde La Fontaine. Por outro lado desgosta-nos, hoje, seu amor pelos recursos fáceis, pelo pensamento barato, pela trouvaille, pelo hiperbólico, pelo discursivo. Raros são os momentos em que atinge a genuína poesia: não há como negar, entretanto, do ponto de vista histórico, a importância de sua contribuição para a volta da poesia, após a divagação romântica, à sua natural condição de arte poética.

Eliot declarou, certa vez, que sua primeira grande dívida para com Pound fora o ter-lhe este aconselhado a leitura de Gautier. E o próprio Pound tem receitado essa obra, repetidamente, como o remédio indicado para aqueles momentos em que a poesia - ou apenas o verso - entra em decadência formal, tornando-se frouxo, inábil, descurado, fácil: panacéia, enfim, para os males do vers libre (Eliot: para o verdadeiro poeta, o vers nunca é libre).

Entre nós, durante anos, todo mundo imitou os Émaux et camées, o Triomphe de Pétrarque, os Derniers sonnets. Nossos parnasianos, contudo, só aprenderam com os franceses o que estes tinham de pior: maus alunos, desfiguraram as idéias dos mestres e não conseguiram passar de românticos bem-comportados. E, o que é mais grave, anularam, em seu interregno, o que havia de útil na experiência de seus predecessores.

Para um jovem poeta brasileiro de hoje, Gautier é, sobretudo, uma lição de artesanato competente. O poema que ora publicamos, no original e numa tradução em prosa, é, ao mesmo tempo, o mais célebre e o mais revelador dos trabalhos do cher Théo: todos os defeitos e todas as qualidades positivas do precursor e patrono de Hugh Selwyn Mauberley parecem estar representados nesta pequena arte poética do parnasianismo universal.

(13 de janeiro de 1957)


 
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