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Harlingue/AFP
Irène Némirovsky: vítima de Hitler  

Suíte Francesa, de Irène Némirovsky (tradução de Rosa Freire D'Aguiar; Companhia das Letras; 534 páginas; 55 reais) – Esse livro tem uma história tão acidentada quanto os eventos trágicos que relata. Nascida em Kiev, na Ucrânia, a autora refugiou-se na França em 1919, depois da Revolução Russa. Publicou treze romances, um dos quais, David Golder, foi adaptado para o cinema. Aprisionada pelos nazistas, Irène, que era judia, morreu no campo de concentração de Auschwitz em 1942. O manuscrito de Suíte Francesa ficou sob a guarda de uma filha de Irène, que por muito tempo imaginou tratar-se do diário da mãe. Finalmente publicado em 2004, Suíte Francesa é na verdade um romance – um poderoso relato ficcional sobre o caos e o desespero da França durante a invasão nazista.

 

Leia trecho

Tempestade em junho

1. A guerra

Quente, pensavam os parisienses. Ar de primavera. Era a noite na guerra, o alerta. Mas a noite se apaga, a guerra está longe. Os que não dormiam, os doentes no fundo do leito, as mães cujos filhos estavam na frente de batalha, as mulheres apaixonadas de olhos murchos pelas lágrimas ouviam o primeiro apito da sirene. Ainda era só uma aspiração profunda semelhante ao suspiro que sai de um peito oprimido. Alguns instantes se passariam até que o céu inteiro se enchesse de clamores, que chegavam de longe, do fundo do horizonte, aparentemente sem pressa! Os que dormiam sonhavam com o mar que empurra para a frente suas ondas e seus seixos, com a tempestade que sacode a floresta em março, com a manada de bois que correm pesados, estremecendo a terra com seus cascos, até que finalmente o sono cedesse e o homem murmurasse, mal abrindo os olhos.

— É o alerta?

Mais nervosas, mais vivas, as mulheres já estavam de pé. Algumas, depois de fechar janelas e vidraças, voltavam para a cama. Na véspera, segunda-feira, dia 3 de junho, pela primeira vez desde o começo dessa guerra tinham caído bombas em Paris; mas o povo continuava calmo. No entanto, as notícias eram ruins. Ninguém acreditava. Também não se teria acreditado no anúncio de uma vitória. "Não estamos entendendo nada", diziam as pessoas. As crianças eram vestidas à luz de uma lanterna de bolso. As mães levantavam com os dois braços os pequenos corpos pesados e tépidos: "Venha, não tenha medo, não chore". É o alerta. Todas as lâmpadas se apagavam, mas sob aquele céu dourado e transparente de junho cada casa, cada rua era visível. Quanto ao Sena, parecia concentrar em si todos os clarões esparsos e refleti-los centuplicados como um espelho facetado: as janelas insuficientemente camufladas, os telhados que cintilavam na sombra ligeira, as ferragens das portas cuja menor saliência brilhava tênue; alguns semáforos vermelhos duravam mais tempo que os outros, não se sabia por quê, o Sena os atraía, captava e brincava com eles em suas ondas. Do alto, devia-se vê-lo correndo branco como um rio de leite. Ele guiava os aviões inimigos, pensavam alguns. Outros afirmavam que era impossível. Na verdade, ninguém sabia nada. "Vou ficar na cama", murmuravam vozes sonolentas, "não tenho medo." "Mas, ora, basta uma vez!", respondiam as pessoas sensatas.

Pelas vidraças que protegiam as escadas de serviço dos prédios novos viam-se descendo uma, duas, três pequenas chamas: os moradores do sexto andar fugiam daquelas elevadas alturas; seguravam na frente as lanternas elétricas, acesas apesar dos regulamentos. "Mas prefiro não quebrar a cabeça nas escadas, você está vindo, Émile?" Instintivamente baixavam a voz, como se o espaço tivesse se povoado de olhares e ouvidos inimigos. Ouviam-se, uma após outras, portas batendo ao serem fechadas. Nos bairros populares, sempre havia uma multidão nos metrôs, nos abrigos cheirando a sujeira, ao passo que os ricos contentavam-se em ficar na casinha das zeladoras, com o ouvido à espreita dos estouros e explosões que anunciariam a queda das bombas, atentos, os corpos retesados como os bichos aflitos nos bosques quando se aproxima a noite da caçada; os pobres não eram mais medrosos que os ricos, tampouco mais agarrados à vida, mas eram mais gregários, precisavam uns dos outros, a necessidade de dar uma mãozinha, gemer ou rir juntos. O dia logo iria nascer; um reflexo malva e prateado deslizava pelos paralelepípedos, pelos parapeitos dos cais, pelas torres da Notre-Dame. Sacos de areia cercavam os principais edifícios até metade de sua altura, cobriam as bailarinas de Carpeaux na fachada da Ópera, abafavam o grito da Marseillaise no Arco do Triunfo.

Ainda bem distantes, tiros de canhão ressoavam, depois se aproximavam e, como resposta, cada vidraça tremia. Crianças nasciam em quartos quentes cujas janelas tinham sido tapadas para que nenhuma luz filtrasse para o exterior, e suas lágrimas faziam as mulheres esquecer o barulho das sirenes e a guerra. Para os ouvidos dos moribundos, os tiros de canhão pareciam fracos e sem significado, um barulho a mais nesse rumor sinistro e vago que o agonizante acolhe como a uma onda. Os bebês grudados no flanco quente das mães dormiam serenamente e faziam com os lábios um ligeiro estalinho como o de um cordeiro que mama. Abandonadas durante o alerta, as carroças das quitandeiras continuavam na rua, carregadas de flores frescas.

O sol subia, ainda todo vermelho, por um firmamento sem nuvens. Houve um tiro de canhão, agora tão perto de Paris que os passarinhos voaram do alto de cada monumento. Bem lá em cima pairavam os grandes pássaros pretos, em geral invisíveis e que estendiam sob o sol suas asas de reflexos cor-de-rosa, depois vinham os belos pombos gordos arrulhando, e as andorinhas, os pardais saltitando tranqüilamente nas ruas desertas. Na beira do Sena, cada choupo carregava uma penca de passarinhos marrons que cantavam a plenos pulmões. No fundo dos porões, ouviu-se enfim uma chamada muito longínqua, amortecida pela distância, espécie de fanfarra em três tons. O alerta havia acabado.


 
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