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Má Influência, de William Sutcliffe (tradução de Maria Sílvia Mourão Netto; Francis; 192 páginas; 27,50 reais) – Nesse seu quarto livro (o primeiro lançado no Brasil), o autor inglês demonstra uma impressionante habilidade de captar o mundo pela perspectiva de uma criança – para desvendar os aspectos mais perturbadores da infância. A história é narrada por Ben, um menino de 10 anos que vive em um confortável subúrbio de Londres. Ele e seu amigo Olly dividem as brincadeiras típicas de sua idade até que Carl, um garoto desordeiro e agressivo, chega à vizinhança. Olly cai imediatamente sob a influência de Carl, e Ben, para não perder o velho amigo, vai se deixando levar pelas brincadeiras cada vez mais perigosas do novo vizinho. É uma arrepiante crônica do desejo infantil de aprovação.

Leia trecho

Eu sei o que você quer. Você quer saber de quem é a culpa. Você está tentando descobrir se eu tive alguma culpa naquilo. Então aqui vai uma nova teoria. Foi tudo culpa da tia do Olly. Foi ela quem começou a encrenca toda. Eu não a conheço, não sei onde ela mora, nem qual é a cara dela, mas isso não quer dizer que a culpa não tenha sido dela. Se você analisar a lógica da coisa, vai ver que deve ir atrás dela.

No dia em que a história começou, ela estava doente. Ou talvez tivesse se divorciado. Ou casado. De todo jeito, foi uma coisa dessas, e o Olly teve de sair e me deixar sozinho.

Se a tia do Olly não tivesse feito o que fez naquele domingo, o Olly não teria saído, e, se ele não tivesse saído, eu nunca teria conhecido o Carl, e se eu nunca tivesse conhecido o Carl, as coisas ainda seriam do jeito que eram. Eu não saberia quem você é, você não saberia quem eu sou, e nós dois teríamos sido poupados dessas suas visitas pra lá de chatíssimas.

Pelo jeito como o Olly estava vestido, eu devia saber que iam arrastar ele para algum lugar. Ele não estava de jeans, mas com calças cinza de vinco e tudo, e não estava de camiseta, mas com uma camisa social de gente grande, abotoada de cima a baixo. Muito esquisita, com todos os botões fechados; eu teria aberto o do colarinho se tivessem me obrigado a usar aquilo, mas o Olly não é muito bom para perceber esse tipo de coisa.

Quase sempre ele parece meio estranho, o Olly. Ele tem a capacidade de usar para dentro o que devia ficar para fora, e de esconder o que devia ficar à mostra. E está sempre com roupa para agüentar um frio que só vai pegar pesado mesmo daqui a uns dois, três meses. Toda vez que ele fica aqui em casa, larga pelo menos um agasalho. Quando eu vou para a casa dele, costumo levar uma pilha de roupas para devolver. Mas isso não me custa nada. É típico do Olly. Aquela parte da cabeça que uma pessoa normal usa para pensar sobre roupas ele ocupa com fatos e idéias estranhas, que mais ninguém sabe.

— Mas que roupa é essa? — eu falo quando ele entra.

— Dá só uma olhada — ele diz.

Devagar e meticulosamente, como se fosse um mágico em seus movimentos preliminares, aponta para um par de abas de tecido, uma sobre cada ombro. Abanando os dedos como se estivesse se exibindo para uma platéia de cinqüenta pessoas, ele desabotoa com cuidado uma depois da outra, e começa a sacudir os ombros. Com isso, as ombreiras começam a fazer flap-flap.

Nunca na vida você vai adivinhar o que é isso — ele diz.

— Vou, sim — eu respondo.

— Então, ‘tá — ele provoca.

— São ombreiras — eu digo.

— EEEEErrado! — ele fala como um gongo batendo.

— Errado, nada. Eu ‘tô vendo. São ombreiras.

— São mais que ombreiras — ele explica, apertando os olhos, tentando parecer misterioso.

Eu jamais caio naquele olhar misterioso que ele faz, principalmente quando está com uma camisa daquelas, abotoada até em cima, mais as abas ridículas espetadas nos ombros. Assim, entre mudo e calado, cruzo os braços para ele ver o quanto eu não estou impressionado.

— São abas de boné — ele diz.

— De quê?

— De boné. Abas de chapéu. De quepe de soldado. Da Marinha. Se fossem verdes, em vez de amarelas, seriam de uniforme de verdade.

— Mas que besta — eu digo. — Não existem soldados na Marinha. Lá eles têm marinheiros. E eles não usam nada verde. É tudo azul-marinho. Por isso é que se chama Marinha.

— É nada. Se a Marinha fosse Marinha por causa do azul-marinho, então o verde não seria verde. Verde seria Exército.

Conversar com o Olly é parecido com nadar. A qualquer momento você pode simplesmente afundar.

No chão do meu quarto tem uma coruja que já não é mais uma coruja. Eu fiz aquilo na escola e, no começo, tinha olhos, nariz, boca e pés, mas mesmo então parecia mais uma bola de futebol que uma coruja, e por isso ficava chutando ela pra cá e pra lá o tempo todo, e por isso primeiro se foram os pés, depois o nariz, a boca e um olho. Agora é só uma bola de futebol com um olho, mas eu continuo chamando ela de coruja.

Eu pego a coruja para enfiar embaixo de uma das ombreiras do Olly e fecho o botão. Olly espia, meio vesgo, porque é muito perto para ele ver. A coruja tem o tamanho certinho, então eu pego um ursinho do fundo do meu armário e abotôo debaixo da outra ombreira.

Vamos até o banheiro para o Olly conseguir se ver, e ele parece um idiota completo. Mas pelo jeito gosta do que vê, e então corremos pela casa, fazendo toda espécie de movimentos para ver se a coruja e o urso caem; apesar de tudo a gente não consegue que eles caiam, eles só ficam sacudindo. Depois de algum tempo, correr pela casa vira outra coisa, e acabamos naquela brincadeira em que eu fico no quintal atirando os bonequinhos dos Simpsons pro alto, enquanto o Olly, na janela do quarto, tenta apanhar, mas ele quase cai de lá, o que é muito engraçado. Depois dessa, o Olly amarela, e então começamos a brincar com o jogo dos Simpsons de verdade. O tempo todo o Olly fica com os bichos nos ombros. Nem sei mais se ele ainda se lembra disso.

Aposto que você acha que sabe tudo do Olly, mas não sabe. Ele não tem nada de errado. Se eu tivesse outra vez a mesma chance, ainda gostaria que ele fosse o meu melhor amigo, exatamente como antes. Quando você tem o seu melhor amigo,

não precisa de mais nada neste mundo. É como um escudo ou um desses campos de força que você ganha nos jogos de computador, com som de sirene e tudo, e você fica todo cor de laranja, e enquanto você fica laranja, as balas e os mísseis batem em você e ricocheteiam.

O Olly é meu melhor amigo há tanto tempo que nem percebo mais o campo de força porque já virou uma coisa permanente. Quando ele vai embora, é como se uma camada de mim tivesse sido descascada. Não sei o que fazer. Não consigo ficar sossegado. Mesmo se estiver ocupado ou brincando, fico pensando que vou contar isso pro Olly mais tarde.

Teve um dia que eu estava tentando ligar para casa para virem me pegar na escola e sem querer liguei para a casa do Olly e tive de dizer para a mãe dele que era engano. Ela achou que eu estava ficando maluco. Aconteceu sem eu nem pensar.

Na hora que a mãe dele chegou para buscá-lo e levá-lo para a casa da tia, eu ainda não tinha conseguido perguntar por que ele estava vestido daquele jeito, de modo que estava absolutamente despreparado para vê-lo ser arrancado dali tão de repente. Não houve um aviso, nada. Foi como se alguém entrasse e me confiscasse as pernas.

Bom, não foi realmente assim; se alguém arranca suas pernas, você sangra até morrer.

Ela nem pergunta para o Olly por que ele está usando um urso e uma coruja nos ombros; ela só tira aquilo dali e eles ficam perto da porta da casa. Ele poderia ir embora com os dois ainda pregados na roupa, e ele quase foi mesmo.

Assim que a porta da sala fecha atrás dele, olho para o meu relógio: ainda tenho a tarde inteira do domingo para passar.

Você pode achar que não faz diferença aquele ser um domingo no meio das férias, mas faz, sim. Está todo mundo em casa. A casa sempre parece cheia demais aos domingos,

mas também vazia demais. Se você quer assistir televisão, usar a mesa da cozinha, ou apanhar sol no único cantinho possível do quintal, com certeza alguém já está fazendo isso. Mas, mesmo quando todos os lugares legais da casa estão ocupados, eu às vezes sinto que a minha família está meio perdida ali, andando de um canto para o outro, sem uma idéia clara do que fazer com o seu tempo, e isso vai até o dia acabar e tudo

voltar ao normal, na segunda-feira. É como se o domingo sempre pegasse o pessoal desprevenido, como se toda semana eles não acreditassem direito que isso ia acontecer e, quando acontece, eles não estão preparados, e a única coisa que conseguem é ficar zanzando sem rumo, só esperando a hora de o dia terminar.

Eu fico bonzinho por várias horas, me divertindo e fazendo coisas no meu quarto. Até tento terminar a partida de Simpsons que a gente tinha começado, mas não dá certo, e eu enfim roubo para descobrir quem era o assassino. Era o Professor Plum, o que não é comum. Não ter parceiro para uma partida de tabuleiro é como falar sozinho. Dá vergonha, se alguém entra e te pega no flagra. E não tem a menor graça.

Depois de um tempo não agüento mais e vou torrar a paciência do Donny.


 
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