Paciente
67,
de Dennis Lehane (tradução de Luciano Machado; Companhia das Letras;
344 páginas; 42 reais) Um dos mais consagrados autores policiais
da atualidade, o americano Dennis Lehane, de Sobre Meninos e Lobos, fez
sua fama com livros ambientados nos subúrbios violentos de Boston, cidade
onde mora. Esse novo romance, porém, se vale de um cenário claustrofóbico
para compor um ótimo thriller psicológico. A história se
passa num asilo para doentes mentais criminosos, em uma ilha na costa de Massachusetts.
Teddy Daniels e Chuck Aule, os policiais escalados para investigar o caso de uma
assassina que fugiu da instituição, têm de enfrentar a resistência
da administração do asilo, aparentemente envolvida em estranhas
experiências médicas.
Leia
trecho Capítulo
1 O
pai de Teddy Daniels fora pescador. Perdera o barco para o banco em 1931, quando
Teddy tinha onze anos, e passou o resto da vida prestando serviço em barcos
alheios, quando havia trabalho neles, e trabalhando como estivador, quando as
atividades nos barcos escasseavam; ao voltar para casa, aí pelas dez da
manhã, passava longas horas sentado numa poltrona, fitando as próprias
mãos, falando consigo mesmo de vez em quando, de olhos arregalados, o olhar
sombrio. Levara
Teddy para as ilhas quando este ainda era menino, pequeno demais para ajudar no
trabalho do barco. Só o que conseguia fazer era desembaraçar as
linhas e desenganchar os anzóis. Chegou a se cortar algumas vezes, e o
sangue salpicou-lhe os dedos e sujou-lhe as mãos. Partiram
antes do amanhecer. Quando o sol apareceu uma luz fria cor de marfim erguendo-se
na linha do horizonte , as ilhas foram surgindo em meio à escuridão
que se dissipava, pegadas umas às outras como se tivessem sido surpreendidas
cometendo alguma falta. Alinhadas
na praia de uma delas, Teddy vislumbrou pequenas cabanas em tons pastel; em outra,
uma propriedade rural em ruínas. Seu pai apontou a prisão na ilha
Deer e o majestoso forte na ilha Georges. Na Thompson, as árvores imponentes,
cheias de pássaros e o canto destes lhe soou como lufadas de granizo
ou de estilhaços de vidro. Para
além de todas as outras, via-se aquela que era chamada de Shutter. Parecia
alguma coisa jogada no mar por marinheiros de algum galeão espanhol. Naquela
época, na primavera de 1928, a ilha estava entregue à própria
sorte, invadida pelo caos de sua própria vegetação; o forte
que avultava no ponto mais alto sufocava sob o mato, totalmente coberto por vastas
extensões de musgo. "Por
que é chamada de Shutter?", perguntou Teddy. O
pai deu de ombros. "Você e essas suas perguntas. Sempre perguntas." "Sim,
mas por quê?" "Tem
lugares que são assim, inventam um nome, e ele pega. Com certeza, dado
por piratas." "Piratas?",
perguntou Teddy, a quem a palavra soara agradavelmente. Ele podia imaginá-los
todos fortes, com tapa-olhos, botas grandes e espadas brilhantes. "Era
ali que se escondiam nos velhos tempos", disse o pai, "e que escondiam
o ouro." Teddy
imaginava baús cheios de ouro, com moedas derramando-se pelas bordas. Mais
tarde o garoto se sentiu mal, vomitou várias vezes, violentamente, debruçado
à borda do barco do pai, lançando jorros escuros no mar. O
pai ficou surpreso, pois Teddy só começou a vomitar horas depois
de iniciada a viagem, quando as águas do oceano estavam tranqüilas
e brilhantes. O pai disse: "Tudo bem. É a primeira vez que você
vem. Não precisa se envergonhar". Teddy
balançou a cabeça, limpou a boca com o pano que o pai lhe passou. O
pai disse: "Às vezes o barco joga, e você só sente o
balanço quando ele começa a embrulhar seu estômago". Teddy
balançou a cabeça novamente, incapaz de dizer ao pai que não
fora o balanço que lhe embrulhara o estômago. Fora
toda aquela água. Estendendo-se em toda a volta, como se não restasse
mais nada no mundo. Como se pudesse engolir o céu, pensou Teddy. Até
aquele momento, não se tinha dado conta de que estavam tão isolados. Ele
levantou os olhos vermelhos e lacrimejantes para o pai, que lhe disse: "Isso
logo passa". Teddy tentou sorrir. Seu
pai partiu num baleeiro de Boston no verão de 1938 e nunca mais voltou.
Na primavera seguinte, destroços do navio apareceram na praia Nantasket,
na aldeia de Hull, onde Teddy crescera. Um pedaço da quilha, um fogareiro
com o nome do capitão gravado na base, latas de sopa de batata e de tomate,
e, estragadas e amassadas, algumas armadilhas para apanhar lagostas. As
cerimônias fúnebres dos quatro pescadores tiveram lugar na igreja
de Santa Tereza, cujos fundos davam para aquele mesmo mar que devorara tantos
de seus paroquianos. De pé ao lado da mãe, Teddy ouviu as homenagens
prestadas ao capitão, ao segundo e ao terceiro homem da tripulação,
um velho lobo-do-mar chamado Gil Restak, que se tornara o terror dos bares de
Hull desde que voltara da Grande Guerra com um pé quebrado e a cabeça
cheia de imagens horrendas. Com a morte, porém, disse um dos donos de bar
agredido por ele, tudo é perdoado. O
dono do barco, Nikos Costa, confessou que não conhecia muito bem o pai
de Teddy e que o tinha contratado de última hora, porque um membro da tripulação
quebrara a perna ao cair de um caminhão. De qualquer modo, o capitão
do navio tinha falado muito bem dele, dizendo que era conhecido de todos e fazia
bem o trabalho. E que maior elogio se poderia fazer a uma pessoa? Ali
na igreja, Teddy lembrou-se daquela expedição no barco do pai, porque
ela nunca mais se repetira. O pai vivia dizendo que iria levá-lo novamente,
mas Teddy percebeu que ele dizia isso só para ajudar o filho a manter um
pouco do orgulho. O pai nunca comentou nada do que se passara na ocasião,
mas naquele dia, no mar, trocaram um olhar esquisito, quando já voltavam
para casa, no momento em que atravessavam a fileira de ilhas, com ilha Shutter
atrás deles, a Thompson ainda à frente, a silhueta da cidade tão
nítida e próxima deles que se tinha a impressão de poder
levantar um dos edifícios segurando-o pela parte de cima. "É
o mar", dissera o pai afagando as costas de Teddy, os dois recostados na
popa do barco. "Tem homens que o dominam e homens que são dominados
por ele." E olhara para Teddy de uma forma que o garoto entendera o tipo
de homem que certamente viria a ser. Ao
irem para lá em 1954, tomaram o ferryboat da cidade e passaram por uma
série de pequenas ilhas esquecidas Thompson e Spectacle, Grape e Bumpkin,
Rainford e Long , que se mantinham à superfície em tufos rijos,
constituídos de areia, árvores nodosas e formações
rochosas brancas como osso. Excetuando as viagens com suprimentos feitas às
terças-feiras e aos sábados, o ferryboat não tinha horários
regulares, e sua despensa estava desprovida de tudo; ali só havia a folha
de metal que cobria o piso e os dois bancos de metal fixados sob a janela. Os
bancos eram aparafusados, em ambas as extremidades, ao piso e a dois grossos postes,
dos quais pendiam grilhões, que jaziam no chão, amontoados feito
espaguete. Naquele
dia, porém, o ferryboat não estava transportando pacientes para
o asilo, apenas Teddy e seu novo parceiro, Chuck Aule, alguns sacos de lona com
correspondência e caixas de medicamentos. Teddy
começou a viagem ajoelhado junto ao vaso sanitário, enquanto o motor
do barco bufava e estalejava; e suas narinas se enchiam do odor oleoso da gasolina
e do mar no final do verão. Nada saía do corpo dele, exceto fiozinhos
de água, mas ainda assim a garganta parecia apertada, o estômago
pressionava a base do esôfago, e o ar à sua frente constelava-se
de partículas que piscavam como olhos. O
último espasmo liberou uma bolha de oxigênio que, ao irromper na
boca, parecia trazer consigo uma parte do peito. Teddy sentou-se no chão
de metal, limpou o rosto com o lenço, pensando que aquela não era
uma boa maneira de começar uma parceria. Imaginava
Chuck, de volta a casa, contando à esposa se é que era casado,
Teddy pouco sabia dele sobre seu primeiro encontro com o lendário Teddy
Daniels. "Querida, o cara gostou tanto de mim que vomitou." Desde
a viagem que fizera quando menino, Teddy não gostava de se aventurar na
água, não sentia o menor prazer em ficar longe da terra firme, nem
em perder de vista a terra ou as coisas que se pode alcançar e pegar sem
que as mãos nelas se abismem. Por mais que se diga que não há
problema pois é isso o que é necessário dizer quando se
precisa atravessar certa extensão de água , a verdade é
que há sim. Mesmo na guerra, ele temia menos tomar as praias de assalto
que atravessar os poucos metros entre o barco e a costa, com as pernas arrastando-se
penosamente nas profundezas, criaturas estranhas serpenteando por cima das botas. Apesar
de tudo, preferia permanecer no convés, afrontando o oceano ao ar livre,
a ficar ali embaixo com ânsias de vômito, com essa sensação
de calor nauseante. Ao
ter certeza de que a indisposição passara, de que o estômago
se aquietara e de que a cabeça parara de girar, lavou as mãos e
o rosto, examinou a própria aparência num espelhinho fixado acima
da pia, cujo estanho fora praticamente todo corroído pelo sal marinho,
restando do espelho apenas uma pequena nuvem no centro, na qual Teddy mal conseguia
ver sua imagem, a imagem de um homem relativamente jovem, de cabelo cortado à
escovinha. O rosto, porém, trazia a marca da guerra e dos anos subseqüentes,
e nos olhos que um dia Dolores dissera que exprimiam uma "tristeza canina"
podia-se ler a dupla fascinação que a perseguição
e a violência exerciam sobre esse homem. Sou
jovem demais para ter uma expressão tão dura, pensou Teddy. Ajustou
o cinturão de forma que a arma se apoiasse no quadril, tirou o chapéu
de cima da caixa de descarga, colocou-o na cabeça, ajeitou a aba de forma
a pender levemente para a direita e apertou o nó da gravata. Era uma daquelas
gravatas floridas, de cores vivas, já fora de moda havia um ano, mas ele
ainda a usava porque fora presente dela. No dia do seu aniversário, ele
estava sentado na sala, quando ela deslizara a gravata na frente dos olhos dele.
E apertara os lábios contra seu pomo-de-adão. Uma mão cálida
no seu rosto. O cheiro de laranja na língua. Ela sentando no seu colo,
tirando-lhe a gravata. Ele de olhos fechados, só para sentir o cheiro dela.
Para imaginá-la. Para recriá-la na mente e conservá-la ali. Teddy
ainda conseguia fazer isso fechar os olhos e vê-la. Mas ultimamente algumas
manchas brancas embaçavam partes da imagem o lobo de uma orelha, os cílios,
os contornos da cabeleira. Ainda não dava para obscurecer a imagem por
completo, mas Teddy temia que o tempo a fosse tomando dele, que triturasse pouco
a pouco as imagens em sua mente, terminando por aniquilar todas. "Sinto
falta de você", ele disse e atravessou a despensa, dirigindo-se para
a coberta da proa. Lá
fora o tempo continuava quente, o céu estava limpo, mas a água tinha
manchas escuras cor de ferrugem sobre um fundo cinza-claro uniforme, dando a impressão
de que, nas suas profundezas, escondia uma massa cada vez mais sombria e ameaçadora. Chuck
tomou um gole da sua garrafinha, apontou o gargalo na direção de
Teddy, erguendo uma sobrancelha. Teddy balançou a cabeça, e Chuck
recolocou-a no bolso do paletó, ajeitou as abas do sobretudo em volta dos
quadris e contemplou o mar. "Você
está bem?", perguntou Chuck. "Está pálido." Teddy
deu de ombros em sinal de indiferença. "Estou ótimo." "Mesmo?" Teddy
fez que sim com a cabeça. "Estou só me adaptando ao balanço
do mar." Ficaram
em silêncio por um instante, o mar ondulando à volta deles, marchetado
de bolsões negros e lustrosos como veludo. "Você
sabia que aquilo já foi um campo para prisioneiros de guerra?", disse
Teddy. "A
ilha?", perguntou Chuck. Teddy
confirmou com um gesto de cabeça. "Na época da Guerra de Secessão,
construíram lá um forte e um quartel." "E
para que serve o forte hoje em dia?" Teddy
deu de ombros. "Não sei dizer. Há muitos fortes por essas ilhas.
Durante a guerra, a maioria servia de alvo para exercícios de artilharia.
Poucos ficaram de pé." "E
o hospital?" "Pelo
que sei, foi instalado em antigos alojamentos militares." Chuck
disse: "Vai ser como se voltássemos ao serviço militar, não?".
"Espero
que não", disse Teddy virando para a amurada. "Então,
conte alguma coisa, Chuck." Chuck
sorriu. Era um pouco mais troncudo e baixo que Teddy teria mais ou menos um
metro e setenta e cinco de altura , de cabelos encaracolados pretos, curtos,
pele azeitonada, mãos delicadas que pareciam não combinar muito
com o seu tipo físico, como se as tivesse tomado de empréstimo enquanto
as suas não voltavam do conserto. A face esquerda tinha uma pequena cicatriz
em forma de foice, na qual muitas vezes Chuck batia de leve com o polegar. "Sempre
começo pela cicatriz", ele disse. "Mais cedo ou mais tarde as
pessoas terminam por perguntar sobre ela." "O.k." "Não
se trata de ferimento de guerra", disse Chuck. "Minha namorada acha
que eu deveria dizer que é um ferimento de guerra sim, para encerrar o
assunto, mas..." Deu de ombros. "Mas isso aconteceu quando eu estava
brincando de guerra. Ainda era criança. Eu e outro garoto brincávamos
de estilingue, atirávamos um contra o outro. A pedra dele não me
acertou. Felizmente, não é?" Ele balançou a cabeça.
"Mas a pedra bateu numa árvore, e um pedaço da casca voou e
acertou o meu rosto. Daí a cicatriz." "Quando
brincava de guerra." "Sim,
brincando de guerra." "Você
veio transferido do Oregon?" "De
Seattle. Cheguei na semana passada." Teddy
esperou, mas Chuck não deu maiores explicações. Teddy
falou: "Por quanto tempo você foi xerife lá?". "Quatro
anos." "Então
você sabe como o nosso mundo é pequeno." "Claro.
Você quer saber o porquê da transferência." Chuck balançou
a cabeça, como se acabasse de tomar uma decisão. "E se eu dissesse
que estava cansado de tanta chuva?" Teddy,
que tinha as mãos apoiadas na amurada, virou as palmas para cima. "Se
você diz..." "Mas
este é um mundo pequeno, como você disse. Todo mundo conhece todo
mundo no serviço. E, sendo assim, sempre aparece um... como é mesmo
que eles chamam? Bochicho." "Esse
é o termo certo." "Foi
você quem prendeu Breck, não foi?" Teddy
confirmou com um gesto de cabeça. "Como
soube para onde ele iria? Cinqüenta caras foram procurá-lo em Cleveland.
Você foi para o Maine." "Certa
vez ele passou o verão lá com a família, quando era criança.
O que ele fazia com as vítimas é o que se faz com cavalos. Conversei
com uma tia dele. Ela me disse que a única vez que o vira feliz foi quando
estava num haras próximo ao chalé que sua família alugara
no Maine. Então fui para lá." "Você
deu cinco tiros nele", disse Chuck olhando a espuma lá embaixo. "E
teria dado mais cinco", disse Teddy. "Mas os cinco primeiros bastaram." Chuck
balançou a cabeça e cuspiu por sobre a amurada. "Minha namorada
é japonesa. Bem, nasceu aqui, mas sabe como é... Cresceu num campo
para nipo-americanos. Ainda há muita tensão por aquelas bandas
Portland, Seattle, Tacoma. Ninguém gosta de me ver com ela." "Por
isso o transferiram." Chuck
fez que sim, cuspiu novamente, acompanhou a queda da saliva nas espumas buliçosas
da proa. "Falam
que vai ser das grandes", ele disse. Teddy
tirou os cotovelos da amurada e endireitou o corpo. O rosto dele estava úmido,
os lábios salgados. Surpreendeu-se com o fato de o mar tê-lo alcançado,
pois não se lembrava de ter sentido borrifos no rosto. Bateu
as mãos nos bolsos do sobretudo, procurando seus Chesterfields. "Quem
fala isso? Das grandes o quê?" "Eles,
os jornais", disse Chuck. "A tempestade. Uma grande tempestade, é
o que dizem. Tremenda." Levantou o braço para o céu claro,
claro como as espumas da proa. Mas ao longe, na direção sul, uma
fina faixa de nuvens violetas, semelhantes a flocos de algodão, expandia-se
pouco a pouco como manchas de tinta. Teddy
farejou o ar. "Você se lembra da guerra, não se lembra, Chuck?" Pela
forma como Chuck riu, Teddy começou a achar que já estavam entrando
em sintonia, aprendendo a trocar alfinetadas amigáveis. "Um
pouquinho", disse Chuck. "Principalmente dos escombros. Montes de escombros.
As pessoas desprezam os escombros, mas afirmo que têm a sua importância.
Têm uma beleza. No fundo, tudo está nos olhos de quem observa." "Você
fala como uma personagem de romance barato", disse Teddy. "Já
lhe disseram isso?" "Já
aconteceu", disse Chuck com um de seus pequenos sorrisos, dessa vez fitando
o mar; ele se espreguiçou. Teddy
bateu as mãos nos bolsos da calça, vasculhou os bolsos internos
do paletó. "Você se lembra do quanto as manobras dependiam dos
boletins meteorológicos?" Chuck
passou as costas da mão na barba nascente do queixo. "Lembro."
"Você
se lembra da porcentagem de acerto das previsões?" Chuck
franziu o cenho, dando a entender a Teddy que estava dispensando a devida consideração
ao assunto. Então estalou os lábios e disse: "Eu diria que
acertavam em uns trinta por cento dos casos". "Na
melhor das hipóteses." Chuck
concordou com um gesto de cabeça. "Na melhor das hipóteses." "E
cá estamos nós de volta ao mundo..." "Não
apenas de volta", disse Chuck, "mas refestelados, eu diria." Teddy
reprimiu um riso, começando a gostar muito daquele cara. Refestelados.
Meu Deus. "Pois
é, refestelados", concordou Teddy. "Por que deveríamos
acreditar mais nos boletins meteorológicos agora do que naquela época?" "Bem",
disse Chuck no momento em que a ponta rombuda de um pequeno triângulo se
elevava acima da linha do horizonte, "não sei bem se posso medir minha
confiança em termos de mais ou menos. Quer um cigarro?" Teddy
parou no meio de uma segunda rodada de apalpadelas nos bolsos, levantou os olhos
e surpreendeu Chuck observando-o, com um sorriso irônico distendendo-lhe
o rosto, logo abaixo da cicatriz. "Eu
tinha cigarros quando embarquei", disse Teddy. Chuck
olhou para trás por sobre o ombro. "Funcionários públicos...
roubam sem que a gente note." Chuck sacudiu seu maço de Lucky Strike
para tirar um cigarro, passou-o a Teddy, acendeu-o para o colega com seu Zippo
de cobre, e por um instante o cheiro do combustível dominou o do ar marinho
e chegou ao fundo da garganta de Teddy. Chuck fechou o isqueiro, abriu-o em seguida
com um rápido movimento de punho e acendeu o seu. Teddy
soprou a fumaça e a ponta do triângulo da ilha desapareceu por um
instante na nuvem de fumaça. "Na
Europa", disse Chuck, "quando um boletim meteorológico definia
se você iria saltar de pára-quedas ou se iria para a cabeça-de-ponte,
havia muito mais em jogo, não é?" "É
verdade." "Mas,
de volta ao lar, que mal pode haver em uma crença um tanto arbitrária?
Foi só isso o que quis dizer, chefe." A
ilha agora lhes mostrava mais que uma simples ponta triangular, exibindo pouco
a pouco as seções inferiores acima da superfície plana do
mar; ao mesmo tempo, surgiam as cores, como por obra da mão de um pintor
um verde-claro onde a vegetação crescia intocada, uma língua
de terra marrom do litoral, o ocre desbotado da prumada de um rochedo no extremo
norte. E, na parte mais alta, à medida que o barco avançava cortando
as águas, começaram a divisar os contornos retangulares dos edifícios. "É
uma pena", disse Chuck. "O
quê?" "O
preço do progresso." Colocando um pé sobre o cabo de reboque,
apoiou o corpo contra a amurada ao lado de Teddy; e os dois ficaram vendo a ilha
materializar-se diante deles. "Com os avanços e sempre há
avanços, não se engane, todos os dias alcançados nos tratamentos
da saúde mental, não vão existir mais espaços como
este. Daqui a uns vinte anos vão classificá-lo como bárbaro.
Um desastroso subproduto da velha influência vitoriana. O que então,
felizmente, será coisa do passado. Integração, eles dirão.
Integração será a palavra de ordem. Sejam bem-vindos ao seio
de nossa comunidade. Vamos confortá-lo. Vamos reconstruí-lo. Somos
verdadeiros generais Marshall. Somos uma nova sociedade, e não há
lugar para exclusão. Não haverá ilhas de Elba." Os
edifícios tinham desaparecido novamente por trás das árvores,
mas Teddy conseguia divisar a forma imprecisa de uma torre cônica, e depois
os ângulos nítidos, salientes, que supôs serem do antigo forte. "Mas
abrimos mão de nosso passado para garantir o futuro?", disse Chuck
atirando, com um piparote, o cigarro na espuma. "Eis a questão. O
que você perde quando varre o chão, Teddy? Migalhas que de outro
modo atrairiam formigas. Mas o que dizer do brinco que ela perdeu? Também
foi parar no lixo?" Teddy
disse: "Quem é ela? De onde você a tirou, Chuck?". "Há
sempre uma ela, não é?" Teddy
percebeu uma variação no ruído do motor atrás deles,
sentiu um leve sacudir sob os pés. Agora que o barco dava a volta para
abordar a ilha pelo lado oeste, podia ver melhor o forte no alto das falésias
do lado oeste. Já não havia mais canhões, mas as torres eram
bem visíveis. Por trás do forte as colinas ondulavam, e Teddy disse
para si mesmo que os muros, ainda que fosse impossível observá-los
do lugar em que se encontrava, provavelmente se erguiam em algum ponto naquela
direção, e que o hospital Ashecliffe se localizava para além
das escarpas rochosas, a cavaleiro da costa ocidental. "Você
tem uma garota, Teddy? É casado?", disse Chuck. "Era",
disse Teddy, lembrando-se de Dolores, de um olhar que ela lhe dera certa vez durante
a lua-de-mel, voltando a cabeça, o queixo quase tocando o ombro nu, os
músculos movendo-se sob a pele próximo à coluna vertebral.
"Ela morreu." Chuck
afastou-se da amurada, o pescoço avermelhando-se. "Meu Deus." "Tudo
bem", disse Teddy. "Não,
não." Chuck levantou a mão na altura do peito de Teddy. "É...
acho que já me disseram isso. Não sei como pude esquecer. Há
alguns anos, não foi?" Teddy
confirmou com um gesto de cabeça. "Meu
Deus, Teddy. Estou me sentindo um idiota. Desculpe-me." Mais
uma vez Teddy a viu, de costas para ele, andando no corredor do apartamento em
direção à cozinha, usando uma velha blusa de uniforme, cantarolando
e sentiu-se invadido por uma lassidão bastante familiar. Teria preferido
fazer qualquer outra coisa até mesmo nadar naquelas águas a
falar de Dolores, do fato de ela ter vivido nesta terra por trinta e um anos,
deixando de repente de existir. Simplesmente isso. Estava lá quando ele
saíra para o trabalho. E desaparecera durante a tarde. Mas
pareceu-lhe que essa história era como a cicatriz de Chuck. O tipo de mistério
que devia ser esclarecido logo de cara, para se poder ir em frente, do contrário
ficaria sempre pairando entre eles. Como. Onde. Por quê. Dolores
morrera havia dois anos, mas revivia à noite, nos sonhos dele. E às
vezes, no alvorecer, Teddy passava minutos a fio pensando que ela estava na cozinha
ou tomando café na sacada do apartamento em Buttonwood. Era uma cruel ilusão
armada por sua mente, claro, mas havia muito tempo que Teddy se conformara com
a lógica desse acontecimento afinal de contas, acordar era como nascer.
A gente emerge sem história. Depois, entre um piscar de olhos e um bocejo,
reorganiza o passado, dispondo os fragmentos em ordem cronológica, reunindo
forças para enfrentar o presente. O
mais cruel, porém, era a maneira como todo o tipo de coisa disparatada,
sem relação aparente com o drama, tinha a capacidade de despertar
lembranças de sua mulher, as quais se incrustavam no cérebro como
fósforos acesos. Teddy não conseguia prever o que haveria de ser
um saleiro, o andar de uma desconhecida numa rua cheia de gente, uma garrafa
de Coca-Cola, uma mancha de batom num espelho, uma pequena almofada. Mas,
de todos os elementos capazes de desencadear o processo, nada era menos lógico,
em termos de associação, ou mais pungente em seus efeitos, que a
água: jorrando da torneira, caindo do céu, empoçada nas calçadas
ou, como agora, estendendo-se por quilômetros e quilômetros, em todas
as direções. Disse
a Chuck: "Houve um incêndio em nosso prédio. Eu estava no trabalho.
Morreram quatro pessoas. Ela era uma das quatro. Foi morta pela fumaça,
Chuck, não pelo fogo. Não sentiu dores. Será que sentiu medo?
Talvez. Mas dor, não. Isso é importante". Chuck
tomou outro gole da garrafinha e a ofereceu novamente a Teddy. Teddy
balançou a cabeça. "Parei de beber. Depois do incêndio.
Ela se preocupava com isso, sabe? Dizia que nós, soldados e policiais,
bebemos demais. Então..." Ao perceber que Chuck, ao seu lado, estava
cada vez mais embaraçado, disse: "A gente aprende a segurar uma barra
como essa, Chuck. Não há alternativa. Como toda aquela merda que
você viu na guerra, lembra?". Chuck
balançou a cabeça, apertando os olhos por um momento; subitamente
pareceu distante, por força das recordações. "É
preciso aprender", disse Teddy com voz branda. "Claro",
disse Chuck por fim, com o rosto ainda afogueado. Como
por ilusão de ótica, o desembarcadouro surgiu de repente à
frente, partindo da areia e avançando mar adentro, parecendo, àquela
distância, um tablete de goma de mascar, imaterial e cinzento. Teddy
sentia-se desidratado, por ter expelido aquele líquido no toalete, e um
pouco cansado pelos últimos minutos de conversa; por mais que tivesse aprendido
a suportar o fardo da lembrança, vez por outra fraquejava um pouco. Sentiu
dor no lado esquerdo da cabeça, bem atrás do olho, como se este
sofresse a pressão de um cabo de colher. Ainda era cedo para dizer se se
tratava de mero efeito da desidratação, o início de uma dor
de cabeça comum, ou se era o primeiro sinal de algo pior as enxaquecas
que o atormentavam desde a adolescência, muitas vezes tão fortes
que lhe tiravam a visão de um olho temporariamente, transformando a luz
numa saraivada de pregos quentes. Graças a Deus, a dor só o paralisara
uma vez, durante um dia e meio. As enxaquecas, pelo menos as suas, nunca apareciam
em períodos de grande pressão ou de sobrecarga de trabalho, só
depois que as coisas se acalmavam, depois que as granadas paravam de cair, depois
de cessado o ataque. E era então nos campos de treinamento, na caserna
ou, a partir do final da guerra, em quartos de hotel à beira das rodovias,
ou enquanto dirigia em auto-estradas pelo interior do país, que elas atacavam
de forma mais dolorosa. O truque para evitá-las, ele bem havia descoberto,
era se manter ocupado e concentrado. Elas não o atingiam enquanto ele se
mantivesse em ação. Teddy
disse a Chuck: "Ouviu muitos comentários sobre este lugar?".
"Trata-se
de um hospital psiquiátrico, é só o que sei." "Para
alienados criminosos", disse Teddy. "Bem,
não estaríamos aqui se não o fossem", respondeu Chuck. Teddy
surpreendeu-o novamente esboçando aquele risinho seco. "Nunca se sabe,
Chuck. Você não me parece uma pessoa cem por cento estável." "Bem,
se é assim, quem sabe seja conveniente eu pagar um adiantamento e fazer
uma reserva, pelo menos garanto um bom lugar para mim." "Não
é má idéia", disse Teddy. Com
os motores desligados por um instante, o barco virava a estibordo, levado pela
corrente. Novamente acionaram os motores, e Teddy e Chuck logo se viram face ao
mar aberto, enquanto o barco recuava em direção ao embarcadouro. "Até
onde sei", disse Teddy, "eles se especializaram em tratamentos radicais." "Tratamentos
de emergência?", disse Chuck. "Não",
disse Teddy. "Tratamentos radicais. Há uma diferença." "Difícil
de perceber, nos dias de hoje." "Às
vezes é mesmo", concordou Teddy. "E
a mulher que fugiu?" Teddy
disse: "Pouco sei sobre o caso. Ela escapou na noite passada. Tenho seu nome
em meu bloco de anotações. Acho que vão nos dar todos os
pormenores do caso quando chegarmos". Chuck
contemplou a imensa extensão de água à sua volta. "Para
onde será que ela vai? Será que vai para casa a nado?" Teddy
deu de ombros. "Ao que parece, os pacientes do hospital estão sujeitos
a todo tipo de alucinações." "São
esquizofrênicos?" "Acho
que sim. De qualquer modo, não vamos encontrar aqui os mongolóides
que costumamos cruzar na rua. Ou algum sujeito que tenha medo das rachaduras das
calçadas, ou que durma demais. Pelo que pude concluir do relatório,
todos os que estão aqui são malucos mesmo." Chuck
disse: "Mas quantos você acha que estão fingindo? Sempre me
perguntei isso. Você se lembra de todos aqueles caras da Oitava Seção,
desmobilizados ou reformados, considerados inaptos para o trabalho ou para o combate?
Quantos acha que estavam realmente doidos?" "Servi
com um sujeito nas Ardenas..." "Você
esteve lá?" Teddy
confirmou com um gesto de cabeça. "O sujeito um dia acordou falando
de trás pra frente." "As
palavras ou as frases?" "As
frases", disse Teddy. "Ele dizia: Sargento, aqui por demais sangue
tem hoje. Certa vez, no final da tarde, nós o encontramos numa trincheira,
batendo com uma pedra na própria cabeça. Só isso. Batendo
sem parar. Ficamos tão chocados que levamos algum tempo até percebermos
que ele arrancara os próprios olhos." "Você
está brincando..." Teddy
fez que não com a cabeça. "Ouvi falar de um sujeito que alguns
anos depois cruzou com um cego num hospital de veteranos em San Diego. Provavelmente
era ele; continuava falando de trás pra frente e sofria de uma paralisia
cuja causa nenhum médico conseguia descobrir; passava o dia numa cadeira
de rodas perto da janela, falando o tempo todo de colheitas: ele precisava fazer
a colheita. O problema é que o cara cresceu no Brooklyn." "Bem,
se um sujeito do Brooklyn pensa que é agricultor, só pode ser um
caso para a Oitava Seção." "De
fato, é bastante sintomático." |