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livros

Da nossa equipe

Marcelo Marthe

A poesia do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é um espelho do Brasil entre os anos 30 e 60. "No futuro, quem quiser conhecer o geist brasileiro, pelo menos de entre 1930 e 1945, terá que recorrer muito mais a Drummond que a certos historiadores, sociólogos, antropólogos e 'filósofos' nossos", já notava o poeta Mário Faustino. Em Drummond Cordial (Nankin; 240 páginas; 25 reais), Jerônimo Teixeira, repórter de VEJA, acrescenta uma perspectiva original a essa idéia. O livro, resultado de sua dissertação de mestrado em letras, estabelece uma ponte entre a vida e obra do poeta e o conceito de "homem cordial" descrito por Sérgio Buarque de Holanda no clássico Raízes do Brasil (1936). Fruto da sociedade patriarcal, o "homem cordial" de que fala o historiador norteia sua conduta pelo apego às relações de amizade – o que estaria na origem de uma sociedade na qual os interesses privados se sobrepõem à esfera pública. Embora o Brasil rural tenha começado a ruir com a Revolução de 30, o país moderno teria de conviver com esse traço persistente no caráter nacional. A obra do poeta, demonstra Drummond Cordial, ilustra essa contradição: nela, coabitam um autor moderno e outro que se apega aos valores tradicionais. "A poesia soube refinar a matéria bruta da biografia, retirando dos sucessos banais de um filho de fazendeiro que se tornou funcionário público as contradições de toda uma era", escreve Teixeira.

Leia trecho

A QUEDA DA CASA DE ANDRADE

– You suspect (...) that I may be important because I belong to the faubourg Saint Patrice called Ireland for short. (...) But I suspect (...) that Ireland must be important because it belongs to me.
James Joyce, Ulysses

O cidadão Carlos Drummond de Andrade, nascido em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902, filho de seu Carlos de Paula Andrade, fazendeiro, e de dona Julieta Augusta Drummond de Andrade, não teve o privilégio sobrenatural de escolher a própria origem. As condições de seu nascimento foram uma fatalidade, como o são para todos nós. O poeta, ao contrário, escapou ao lance de dados do acaso para fazer vigorar sua vontade. Em uma antologia de 1962, Drummond reuniu alguns poemas sob uma rubrica curiosa: "A família que me dei".

A família Drummond e o "país dos Andrades" são portanto uma ficção que o poeta cria para si mesmo. Em certa medida, a família que lembramos é sempre uma ficção, uma deformação da memória, propriedade mental notoriamente inconstante e sujeita às oscilações violentas do afeto e do ressentimento. O poeta assume esse caráter ficcional de forma deliberada. Será talvez o individualismo exacerbado de Drummond que não pode aceitar o que é arbitrário, o que não se dobra à vontade irritada de sua oficina poética. Ou talvez – e as duas leituras não são excludentes – Drummond esteja expressando sua aceitação do inevitável, tomando a si, por escolha consciente, aquilo que geralmente nos é dado antes de desenvolvermos meios de expressar aceitação ou repúdio.

Essa ambivalência entre destino fatal e deliberação calculada estende-se da família para Itabira, a aldeia natal, como bem resumiu Décio Pignatari: "Itabira é para Drummond o que Dublin é para Joyce. O Drummond autobiográfico é antes autográfico: escreve-se a si mesmo para ser".

Assim como o poeta é anterior à família – esta é afinal um presente que ele dá a si mesmo –, também a poesia é anterior ao poeta, que escreve para ser. Carlos, o gauche, não existia antes do "Poema de sete faces". Jorge Luis Borges já detectou essa espécie de autoficcionalização em Walt Whitman, o "pobre literato" que se reinventou como o "eloqüente selvagem" das Leaves of grass. O próprio Borges valeu-se desse expediente, e muito de sua fama atual é devida a certo "folclore" vulgar que se depositou em torno de sua figura de cego, criador de uma mitologia pessoal de punhais, espelhos, tigres, labirintos. A dualidade entre o autor e o homem foi ironicamente analisada em "Borges y yo", texto de El hacedor.

Na poesia em língua portuguesa, Fernando Pessoa e seus heterônimos serão o ponto extremo da ficcionalização do autor. Em Drummond, essa tendência está patente no uso do prenome "Carlos", com o qual o poeta apostrofa a si mesmo. O exemplo mais conhecido está no mandamento do "anjo torto", em "Poema de sete faces": Vai, Carlos! ser gauche na vida. A tal gaucherie é antes um atributo do poeta do que do funcionário que batia ponto em jornais oficiosos de Belo Horizonte e em repartições públicas do Rio de Janeiro.

Encontramos outro exemplo em "Não se mate", de Brejo das almas, cuja última estrofe diz:

O amor no escuro, não, no claro
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Nesse passo, a expressão "meu filho" pode ser um tratamento coloquial, utilizado, sem implicação de laços de parentesco, quando o interlocutor é sensivelmente mais jovem do que o falante. Ou será talvez um conselho paterno, um desencantado ensinamento da família que o poeta se deu. Em qualquer dos casos, o prenome vale por um tratamento íntimo, próximo. No mesmo movimento em que se torna estranho a si mesmo, valendo-se do próprio nome em segunda pessoa, Drummond também estabelece uma atmosfera familiar, um retiro confessional. Percebe-se algo de semelhante na última estrofe de "Os últimos dias", poema de A rosa do povo no qual se contempla a perspectiva da morte:

E a matéria se veja acabar: adeus, composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minhas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal no meu rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, idéia de justiça,
[revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.

John Gledson observa que esta é a única vez em que Drummond utiliza seu nome completo no texto de um poema. Não se trata mais de uma apóstrofe, mas persiste o auto-estranhamento. Carlos Drummond de Andrade é uma "composição", idéia que está mais próxima do "literário", da deliberação ficcional que se vê no título "A família que me dei". O verso seguinte, porém, restaura a presença física do poeta, com seu olhar e suas veias grossas. O quarto verso da estrofe refere-se já não mais ao poeta em pessoa, mas a certos rastros que ele deixa nas coisas, rastros que se apagarão após a morte – sulco no travesseiro, sombra no muro. Entre o terceiro e o quarto versos, há portanto uma ordenação lógica, partindo-se do corpo tangível para seus índices impalpáveis. O quinto verso, contudo, instaura o tumulto. A despedida abrange uma série heterogênea de objetos, de sentimentos, de marcas corporais. Desses constituintes díspares, faz-se a "composição". A diversidade rompe a reclusão confessional de "Não se mate": é uma "vida aos outros legada", que se entrega ao mundo por gestos e objetos, pobres às vezes (ou de uma riqueza "sem préstimo", como vai dito em outro poema), mas positivos, claros.

"Os últimos dias" insere-se no desejo de "socialização" que Drummond incorpora a partir de Sentimento do mundo. Mesmo em face da morte, experiência irremediavelmente solitária, o poeta reafirma que "somos todos irmãos". Entretanto sente-se um certo travo amargo no último verso, como se afinal fosse uma injustiça, ou um desperdício, ter legado a vida aos outros. O âmbito cordial restrito de "Não se mate" já não serve; seu consolo exclusivista ("ninguém sabe nem saberá") revela-se insuficiente, mas o poeta tampouco obtém satisfação da fraternidade universal com que sonha. Drummond está permanentemente aprisionado entre dois mundos, entre a "vida besta" de Itabira, que se perde no passado, e uma nova e desconhecida ordem, ainda indecisa em seus contornos, mas já refratária à "comunicação" desejada com o próximo, com os "irmãos" que vivem na metrópole impessoal.

O sentido da ficcionalização é portanto incerto. O poeta retém o poder da criação sobre seu passado, pode refazê-lo e compô-lo como em um presente para si mesmo, mas parece abdicar da extensão total desse poder. A família que ele se dá é, afinal, a família Andrade, e a cidade que ele elege como sua é Itabira. O detalhe local "realista" não está ausente: realmente viveu em Itabira o santeiro Alfredo Duval lembrado em "Confidência do itabirano"; no internato, realmente chamavam ao garoto Drummond de "anarquista", como se lê em "A flor e a náusea". O poeta inventa o que de fato aconteceu.

A "desconfiança" de Drummond diante do "lirismo herdado" que ele mesmo pratica tem, em mais uma evidência do "isomorfismo" apontado por Décio Pignatari, uma correspondência histórica e sociológica. Drummond desconfia de sua origem, mas não a renega. Em "Os bens e o sangue", descobrirá que até mesmo a circunstância de ter se afastado da família, de Itabira, das fazendas – até mesmo esse rompimento com a linhagem fora ditada pelos antepassados, pelos mortos.

A experiência da família em Drummond está desde o início relegada ao passado. Em Alguma poesia, não se encontra ainda o pathos da dissolução familiar que tanto punge a lírica drummondiana a partir de "Viagem na família", de José. Ainda assim, os poemas que tratam da família têm certa nota evocativa: "Meu pai montava a cavalo, ia para o campo". O poeta que escreve esse verso já não tem diante de si o "mato sem fim da fazenda"; sua janela abre-se para "A rua diferente", onde as "exigências brutas" da vida fazem derrubar árvores e construir casas. É no percurso da fazenda à rua, da casa paterna ao apartamento solitário, de Itabira ao Rio de Janeiro, que o "homem cordial" encontra-se perdido.

 


 
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