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livros

Poemas [1968-2000], de Francisco Alvim (Cosac & Naify e 7 Letras; 408 páginas; 50 reais) – Na trilha de modernistas como Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, Alvim é um desbravador da fala brasileira. Sem perder a tensão lírica, seus poemas mostram uma coloquialidade ímpar entre os poetas contemporâneos. Seu mais recente livro, Elefante, de 2000, ainda pode ser encontrado nas livrarias, mas a obra anterior do poeta – com muitos títulos lançados em tiragens pequenas ou marginais – está esgotada. Em boa hora, Poemas reúne toda a produção do autor. Como João Cabral de Melo Neto, outro poeta que o influenciou, Francisco Alvim é diplomata. Atualmente mora na Costa Rica.

Leia trecho

ELEFANTE [2000]

CARNAVAL

Sol

Esta água é um deserto

O mundo, uma fantasia

O mar, de olhos abertos
engolindo-se azul

Qual o real da poesia?

MOTEL

Vou mostrar a vocês o meu Shangri-la

CRISTIANO

Quis frear freou
o carro derrapou
viu a morte
cair com o poste
afundou o rosto
engoliu os dentes
sentado no meio-fio
lembra Darlene

COMERCIANTE, MANICURA, DECORADOR

Minha mãe perdão adeus
Dr. João Heitor Jorge Zé perdão
a vida dele era da casa para o trabalho
do trabalho para casa
Você não quer voltar pra mim
não posso viver sem você
Adeus perdão perdão adeus
chame o Henrique
depois as coisas
chame primeiro

EM MINAS
O senhor é de Brasília?
Então me diga
e essa tal de política
como é que anda por lá?
A mesma pergunta -
com pequenas variações na sintaxe e na prosódia -
na boca do balconista
madurão e simpático
do que talvez seja a última
chapelaria de BH
("A Cabana", em frente ao Mercado Municipal)
e na da velhota feiosa
baixotinha
dentes sujos de batom
encantadora
que cortou meu cabelo
no Salão (miserabilizado) Haute Coiffure Unissex Itália
da Afonso Pena
à noite o primo distante e mais velho
depois de ouvir a palestra
numa curiosidade entre disfarçada e assustada
Não me diga que você vai votar nele
- Confesso que vou
Pois seu pai não haveria de gostar nada

SOL DOS CEGOS [1968]

OS VERDES

Enterra o morto
que se quer dono
desta hora
O morto é morto
não podes cultivá-lo
no teu agora
Sopesa o instante:
os verdes, a fala
de todos
Em horto diverso
reside o morto -
num horto morto
Enterra o morto

O ECLIPSE

Dois cegos viajam no ônibus
A gente das ruas move-se contra um imutável muro cinza
Súbito
o eclipse iguala todas as faces
Órbitas vazadas
Cegos

CENA DE OBRA

Sob um céu de rapina operários
trabalha.
Um deles, um negro, o serviço acabado,
lava-se nas águas de um esgoto.

AMOR

Por um instante, retive-me em ti

Formei contigo um único poro
por onde penetrou a consciência unívoca de nossa posse
de nossa perda


MEU CONTORNO no mundo, devo a esta luz: a mesma que se ilumina agora no desenho de todos nós, objetos deste quarto, e que extinguimos em sombra.


ESTOU EM mim
Estou no outro
Estou na coisa que me vê
e me situa

Diante de mim
diante do outro
diante da coisa
está a morte

CORPO

quantas cidades
te percorrem passo a passo
antes de entrares nos mil lares
que te aguardam
é mesmo preciso usar sapatos
porque não gastar na pedra
uma pele que se lixa longe do
tato
dentro do ônibus todos os dias
viajam sentados
em meio a ombros colados
túneis esgoto bichos
sorvetes coxas anúncios
uma criança um adulto
modelam a cidade
na areia
longe
perto do coração onde
uma cabeça gira o
mundo
correndo na grama a sombra
de quantos assistem sentados
enquanto das traves pende
o corpo de um de todos
enforcado
enquanto as orelhas ouvem
ouvem
e não gritam
há um fora dentro da gente
e fora da gente um dentro
demonstrativos pronomes
o tempo o mundo as pessoas
o olho


 
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