Pesadelo
Refrigerado,
de Henry Miller (tradução de José Rubens Siqueira; Francis;
320 páginas; 41,50 reais) Como muitos escritores e artistas americanos
no entreguerras, Henry Miller (1891-1980) foi um expatriado voluntário.
Viveu quase dez anos em Paris, onde escreveu os romances Trópico de
Câncer e Trópico de Capricórnio. De volta aos Estados
Unidos, em 1939, Miller fez uma longa viagem pelo país e não
gostou do que viu. Registro dessa viagem, Pesadelo Refrigerado é
um livro cáustico, talvez injusto e até um tanto esnobe. Mas Miller
sustenta seus pontos de vista com ousadia. Para o escritor boêmio, os Estados
Unidos eram uma terra de filisteus irrecuperáveis, concentrados na busca
do conforto daí a referência ao ar-condicionado no título
e insensíveis à arte.
Leia
trecho Foi
num hotel em Pittsburgh que terminei de ler o livro de Romain Rolland sobre Ramakrishna.
Pittsburgh e Ramakrishna — pode haver contraste mais violento? Um é o símbolo
do poder e da riqueza brutais, o outro, a própria encarnação
do amor e da sabedoria. Começamos
aqui, então, o rapidíssimo pesadelo, a cruz em que todos os valores
são reduzidos a lixo. Estou em um quarto pequeno, que deve ser considerado
confortável, de um hotel moderno equipado com todas as últimas comodidades.
A cama é limpa e macia, o chuveiro funciona perfeitamente, o assento da
privada foi até esterilizado depois do último hóspede, se
é que se pode acreditar no que diz a tira de papel que o envolve; sabonete,
toalhas, luz, papel de carta, tudo fornecido em abundância. Estou deprimido,
mais deprimido do que consigo expressar. Se fosse ocupar este quarto por um tempo
considerável, ficaria louco — ou cometeria suicídio. O espírito
do lugar, o espírito dos homens que fizeram desta cidade o horror que ela
é, penetra pelas paredes. Existe assassinato no ar. Tudo me sufoca. Há
poucos instantes saí para respirar um pouco. Sentime de volta à
Rússia czarista. Vi Ivã, o Terrível, seguido por uma turba
de brutos de focinho. Lá estavam, armados com porretes e revólveres.
Tinham o ar de homens que obedecem zelosamente, que atiram para matar à
menor provocação. Nunca
o status quo me pareceu mais horrendo. Este não é o pior
lugar de todos, eu sei. Mas estou aqui, e o que vejo me atinge com força.
Talvez tenha tido sorte de começar meu tour da América via
Pittsburgh, Youngstown, Detroit; sorte de não ter começado por Bayonne,
Bethlehem, Scranton e que tais. Podia não chegar nunca a Chicago. Podia
ter me transformado em uma bomba humana e explodido. Algum astuto instinto de
autopreservação me levou a virar para o sul primeiro, a explorar
os estados da União chamados de "retrógrados". Posso
ter me entediado a maior parte do tempo, mas pelo menos tinha paz. Será
que não vi sofrimento e miséria no Sul também? Claro que
vi. Existe sofrimento e miséria por toda parte neste vasto país.
Mas há tipos e graus de sofrimento; o pior, em minha opinião, é
o tipo que se encontra no próprio coração do progresso. Neste
momento, falamos da defesa de nosso país, das instituições,
de nosso modo de vida. Tomamos como certo que essas coisas precisam ser
defendidas, sejamos ou não invadidos. Mas existem coisas que não
deviam ser defendidas, deviam ser deixadas para morrer; existem coisas que devíamos
destruir voluntariamente, com as próprias mãos. Vamos fazer uma
recapitulação imaginária. Tentemos pensar nos velhos dias
em que nossos patriarcas chegaram a estas terras. Para começar, com certeza
fugiam de alguma coisa; como os exilados e expatriados que estamos acostumados
a denegrir e aviltar, também eles abandonaram sua terra natal em busca
de algo mais próximo dos desejos de seu coração. Uma
das coisas mais curiosas sobre esses antepassados é que, embora estivessem
manifestamente buscando paz e felicidade, liberdade religiosa e política,
eles começaram roubando, envenenando, assassinando, quase exterminando
a raça a que pertencia este vasto continente. Mais tarde, quando principiou
a corrida do ouro, fizeram com os mexicanos a mesma coisa que haviam feito com
os indígenas. E, quando os mórmons surgiram, praticaram as mesmas
crueldades, a mesma intolerância e perseguição de seus próprios
irmãos brancos. Penso
nesses feios fatos porque, enquanto estava indo de Pittsburgh para Youngstown,
atravessando um inferno que vai além de qualquer coisa imaginada por Dante,
subitamente me veio a idéia de que precisava ter um indígena americano
ao meu lado, de que ele devia participar desta viagem comigo, comunicar-me, em
silêncio ou de alguma outra forma, suas emoções e reflexões.
Minha preferência seria ter comigo um descendente de uma das tribos comprovadamente
"civilizadas", um seminole, vamos dizer, que houvesse passado a vida
nos intricados pântanos da Flórida. Imagine
nós dois parados em contemplação diante da horrenda grandeza
de uma dessas siderúrgicas que pontilham a ferrovia. Dá quase para
ouvi-lo pensando: "Então foi para isso que nos privaram de nossos
direitos de nascimento, levaram nossos escravos, queimaram nossas casas, massacraram
nossas mulheres e crianças, envenenaram nossas almas, romperam cada tratado
que fizeram conosco e nos deixaram a morrer nos pântanos e selvas dos Everglades!". Você
acha que seria fácil fazê-lo trocar de lugar com um de nossos trabalhadores
regulares? Que tipo de persuasão seria preciso utilizar? O que se poderia
prometer a ele que fosse realmente sedutor? Um carro usado para ir trabalhar?
Um barraco de tábuas que pudesse, se fosse ignorante a tal ponto, chamar
de casa? Uma educação para seus filhos que os tirasse do vício,
da ignorância e da superstição mas ainda os mantivesse em
escravidão? Uma vida limpa, saudável, em meio à pobreza,
ao crime, à sujeira, à doença e ao medo? Salários
mal suficientes para manter a cabeça fora da água e muitas vezes
nem para isso? Rádio, telefone, cinema, jornais, revistas vagabundas, canetas-tinteiro,
relógio de pulso, aspiradores de pó e outros aparelhos ad infinitum?
São essas bobagens que fazem a vida valer a pena? São essas coisas
que nos deixam felizes, relaxados, generosos, compassivos, gentis, pacíficos
e tementes a Deus? Estamos prósperos e seguros hoje, como tantos estupidamente
sonham estar? Algum de nós, mesmo os mais ricos e poderosos, tem certeza
de que nenhum vento contrário arrebatará nossas posses, nossa autoridade,
o medo e o respeito que nos são votados? Essa atividade frenética
que nos mantém a todos, ricos e pobres, fracos e poderosos, em suas garras
— aonde está nos levando? Ao que me parece, existem duas coisas na vida
que todos os homens desejam e poucos obtêm (porque ambas pertencem ao domínio
do espírito): a riqueza e a liberdade. O farmacêutico, o médico,
o cirurgião são incapazes de nos dar saúde; e dinheiro, poder,
segurança, autoridade não fornecem liberdade. A educação
nunca provê sabedoria, nem as igrejas religião, nem a riqueza a felicidade,
nem a segurança a paz. Qual é então o sentido de nossa atividade?
Qual a finalidade disso tudo? Somos
não apenas tão ignorantes, supersticiosos, perversos em nossa conduta
quanto os "selvagens ignorantes e sanguinários" que espoliamos
e aniquilamos ao chegar aqui — somos muito piores que eles. Nós degeneramos;
degradamos a vida que procuramos estabelecer neste continente. A nação
mais produtiva do mundo, porém inapta para alimentar, vestir e abrigar
adequadamente mais de um terço de sua população. Vastas áreas
de solo valioso são transformadas em deserto por negligência, indiferença,
ganância e vandalismo. Dilacerada
há oitenta anos pela guerra civil mais sangrenta da história do
homem, até hoje é incapaz de convencer o lado derrotado do país
sobre a correção de nossa causa; incapaz, como libertadora e emancipadora
de escravos, de lhes dar verdadeira liberdade e igualdade, ao contrário,
escravizando e degradando nossos próprios irmãos brancos. Sim,
o norte industrial derrotou o sul aristocrático — os frutos dessa vitória
são agora visíveis. Onde quer que haja indústria existe feiúra,
miséria, opressão, tristeza e desespero. Os bancos que enriqueceram
piedosamente nos ensinando a economizar, a fim de surrupiar nosso dinheiro, agora
nos imploram para não levar a eles nossas economias, ameaçando eliminar
até mesmo as ridículas taxas de juros que agora nos oferecem se
não seguirmos seus conselhos. Três quartos do ouro do mundo estão
enterrados em Kentucky. Invenções
que lançariam mais alguns milhões no combate ao desemprego, uma
vez que, pela pura ironia de nosso sistema, toda potencial benesse à espécie
humana é transformada em mal, jazem nas prateleiras de escritórios
de patentes ou são vomitadas e destruídas pelos poderes que controlam
nosso destino. A terra, esparsamente povoada e produzindo ao acaso e em desperdício
um enorme excedente de todo tipo, é considerada por seus proprietários
um mero punhado de homens, incapaz de acomodar não apenas os milhões
de esfaimados da Europa como nossas hordas de famintos. Um país que agora
se faz ridículo ao enviar nossos missionários às mais remotas
partes do globo, pedindo tostões aos pobres para sustentar a obra cristã
de diabos iludidos que não são representantes de Cristo mais do
que eu sou representante do papa, porém incapazes de, por intermédio
de suas igrejas e missões em casa, resgatar os fracos e derrotados, os
miseráveis e oprimidos. Os hospitais, os asilos de loucos, as prisões
estão lotados além da conta. Condados praticamente desabitados,
alguns tão grandes quanto um país europeu, possuídos por
uma intangível corporação cujos tentáculos atingem
tudo e cujas responsabilidades ninguém consegue formular ou esclarecer.
Um homem sentado em uma poltrona confortável em Nova York, Chicago ou San
Francisco, um homem cercado de todo luxo e no entanto paralisado pelo medo e pela
ansiedade, controla a vida e os destinos de milhares de homens e mulheres que
nunca viu, que nunca deseja ver e por cujo destino tem absoluto desinteresse.
Era
isso que chamávamos de progresso no ano de 1941 nos Estados Unidos da América.
Como não sou de ascendência indígena, nem negra, nem mexicana,
não tenho nenhuma alegria vingativa ao traçar este retrato da civilização
do homem branco. Sou descendente de dois homens que fugiram de sua terra natal
porque não queriam ser soldados. Meus descendentes, ironicamente, não
serão capazes de escapar desse dever: todo o mundo branco se transformou,
afinal, em um campo armado. |