A
Casa do Sono,
de Jonathan Coe (tradução de Marcello Rollemberg; Record; 400 páginas;
49,90 reais) O inglês Jonathan Coe é conhecido por seus painéis
satíricos da história recente de seu país, como O Legado
da Família Winshaw, retrato da era Thatcher, e Bem-Vindo ao Clube,
reconstituição da década de 70. A Casa do Sono começa
nos anos 80, numa república de estudantes, e avança até a
década seguinte, quando o mesmo prédio vira uma clínica para
tratamento de distúrbios do sono estranhamente, com os mesmos ocupantes
da república estudantil. A mulher que sofre de narcolepsia, o rapaz que
só chega ao orgasmo quando pressiona os olhos da namorada, o crítico
de cinema que nunca lembra o que sonhou com esses personagens esquisitos,
Coe conduz o leitor aos sonhos das décadas passadas.
Leia
trecho Despertar Aquela
foi a discussão final deles, isso estava bem claro. Mas, embora ele a estivesse
prevendo havia dias, talvez até semanas, nada podia acalmar a maré
de raiva e ressentimento que agora crescia dentro dele. Ela estivera no caminho
errado, e se recusara a admitir isso. Todos os argumentos que ele tentara desenvolver,
todas as tentativas de ser conciliador e sensato, foram distorcidos, retorcidos
e jogados de volta contra ele. Como ousava mencionar aquela noite perfeitamente
inocente que ele passara no "Meia-lua" com a Jennifer? Como ousava chamar
seu presente de "patético" e dizer que ele parecia estar "evasivo"
quando o deu a ela? E como ela ousava mencionar a mãe dele - a mãe
dele, de todas as pessoas do mundo - e o acusar de vê-la demais? Como se
isso fosse algum tipo de comentário sobre a maturidade dele; sobre a masculinidade
dele, até... Cegamente,
ele foi em frente, inconsciente sobre o que o cercava e sobre os pedestres à
sua volta. "Cadela", ele pensou consigo mesmo, como se as palavras dela
continuassem voltando até ele. E então, bem alto, por entre os dentes
cerrados, ele gritou "CADELA!" Depois
disso, ele se sentiu um pouco melhor. Enorme, cinza e imponente, Ashdown ficava
à beira do mar, sobre uma montanha, a mais ou menos 20 metros da parte
íngreme do penhasco, onde tem estado há mais de cem anos. Durante
o dia todo, as gaivotas giravam em volta de seu cume e de seus arredores, grasnando
entusiasmadas até ficarem roucas. Durante todo o dia e toda a noite, as
ondas jogavam-se enlouquecidamente contra sua barricada rochosa, mandando um ronco
sem fim, parecido com o do trânsito intenso, através dos quartos
gelados e dos corredores labirínticos e ecoantes da velha casa. Mesmo as
partes mais vazias de Ashdown - e a maior parte dela estava vazia agora - nunca
ficavam em silêncio. Os quartos mais habitáveis amontoavam-se no
primeiro e no segundo andares, elevando-se acima do mar, e durante o dia eram
invadidos pelos gelados raios do sol. A cozinha, no térreo, era comprida
e em formato de L, com o teto baixo; tinha apenas três minúsculas
janelas, e estava envolta em uma sombra permanente. A beleza desoladora de Ashdown,
desafiadora da natureza, mascarava o fato de ela ser, em sua essência, inadequada
para a ocupação humana. Seus mais velhos e mais próximos
vizinhos conseguiam lembrar, porém mal acreditar, que ela havia sido um
dia uma residência particular, lar de uma família de apenas oito
ou nove pessoas. Mas duas décadas atrás ela fora adquirida pela
nova universidade, e agora abrigava mais ou menos duas dúzias de estudantes:
uma população flutuante, tão instável quanto o oceano
que descansava sob seus pés, alongava-se na direção do horizonte,
em um tom doente de verde e pesando com uma inquietude sem fim. O
grupo de quatro estranhos sentados à mesa dela pode ter ou não pedido
permissão para se juntar a ela. Sarah não conseguia lembrar. Agora,
parecia que uma discussão estava se desenvol- vendo, mas ela não
ouvia o que estava sendo dito, embora estivesse consciente de suas vozes, aumentando
e diminuindo de volume em raivosas contra-argumentações. O que ela
ouvia e via dentro de sua cabeça era, naquele momento, mais real. Uma única
e venenosa palavra. Olhos em chamas, com um ódio casual. Uma sensação
de que não haviam bem falado com ela, mas sim cuspido nela. Um encontro
que havia durado - dois segundos? menos? -, mas que ela agora estava repassando,
involuntariamente, em sua memória havia mais de meia hora. Aqueles olhos;
aquela palavra; não havia como se livrar deles, pelo menos não por
um tempo. Mesmo agora, enquanto as vozes ao seu redor ficavam mais altas e mais
animadas, ela conseguia sentir outra onda de pânico aumentando dentro dela.
Fechou os olhos, sentindo-se fraca de náusea de repente. Teria
ele a atacado, ela ponderou, se a High Street não estivesse tão
movimentada? Arrastado-a até uma porta de entrada? Destroçado suas
roupas? Ela
levantou sua caneca de café, a segurou a alguns centímetros da boca,
olhou para a caneca. Encarou sua superfície oleosa, que, de tão
brilhante, era notável. Ela agarrou a caneca com mais força. O líquido
se aquietou. Suas mãos não estavam mais tremendo. O momento passou. Outra
possibilidade: teria sido tudo um sonho? -
Pinter! - foi a primeira palavra da discussão a chamar sua atenção.
Ela se forçou a olhar para o locutor e se concentrar. O
nome havia sido pronunciado em um tom de cansada descrença, por uma mulher
que estava segurando um copo de suco de maçã em uma das mãos,
e um cigarro fumado até a metade na outra. Tinha cabelos curtos e muito
negros, mandíbulas proeminentes e vivos olhos escuros. Sarah a reconheceu,
vagamente, de visitas anteriores ao Café Valladon, mas não sabia
seu nome. Depois ela veio a descobrir que o nome era Veronica. -
Isso é tão típico - a mulher acrescentou, então fechou
os olhos enquanto apagava o cigarro. Ela estava sorrindo, talvez levando a discussão
menos a sério que o estudante magro, engomadinho e com aparência
íntegra que estava sentado na frente dela. -
As pessoas que não sabem nada sobre o teatro - continuou Veronica. - Sempre
falam sobre Pinter como se ele fosse um dos mais incríveis. -
Ok - disse o estudante -, concordo que ele seja supervalorizado. Concordo com
isso. Isso é exatamente o que prova meu ponto. -
O que prova seu ponto? -
A tradição teatral britânica pós-guerra - disse o estudante -
é tão... empalidecida que... -
Desculpe? - disse uma voz australiana perto dele. - Qual é a palavra que
você usou? -
Empalidecida - disse o estudante. - Tão empalidecida que há apenas
uma figura que... -
Empalidecida? - indagou o australiano. -
Não se preocupe com isso - disse Verônica, com o sorriso aumentando.
- Ele só está tentando nos impressionar. -
O que quer dizer? -
Procure no dicionário - respondeu o estudante agressivamente. -
Meu ponto é que há apenas uma figura no teatro britânico pós-guerra
com um apelo para qualquer tipo de nível, e mesmo ele é supervalorizado.
Brutalmente supervalorizado. Doravante, o teatro está acabado. -
Doravante? - disse o australiano. -
Acabou. Não tem mais nada a oferecer. Ele não tem mais nenhum papel
a representar na cultura contemporânea, neste país ou em qualquer
outro. -
Então o que... você está dizendo que estou perdendo meu tempo?
- Veronica perguntou. - Que estou fora de sintonia com todo o... Zeitgeist, com
todo o espírito da coisa? -
Exatamente. Você deveria mudar de curso de uma vez por todas: cinema. -
Como você. -
Como eu. -
Bem, isso é interessante - disse Veronica. - Quero dizer, veja só
a suposição que você está lançando. Em primeiro
lugar, você supõe que só porque sou interessada por teatro
devo estar estudando isso. Errou: estou estudando economia. E depois, toda essa
sua convicção de que você tem a posse de algum tipo de verdade
absoluta: eu... bem, eu acho isso uma qualidade bem masculina, é tudo o
que posso dizer. -
Eu sou um homem - o estudante apontou. -
Também é significativo que Pinter seja seu escritor favorito. -
Por que isso é significativo? -
Porque ele escreve peças para garotos. Garotos espertos. -
Mas a arte é universal: todos os verdadeiros escritores são hermafroditas. -
Ha! - Veronica riu com um contentamento satisfeito. Ela apagou o cigarro. - Ok,
você quer conversar sobre gêneros? -
Achei que estivéssemos conversando sobre cultura. -
Você não pode ter um sem o outro. O gênero está em todo
lugar. Agora o estudante ria. -
Essa é uma das observações mais sem sentido que já
ouvi. A única razão pela qual você quer conversar sobre gêneros
é porque você está com medo de conversar sobre valores. -
Pinter só tem apelo para homens - disse Veronica. - E por que ele tem apelo
para homens? Porque suas peças são misóginas. Elas têm
apelo para a misoginia que está nas profundezas da psique masculina. -
Eu não sou misógino. -
Oh, sim, você é. Todos os homens odeiam as mulheres. |