Hamlet
Poema Ilimitado,
de Harold Bloom (tradução de José Roberto O'Shea; Objetiva;
320 páginas; 48,90 reais) Em Shakespeare A Invenção
do Humano, o americano Harold Bloom, talvez o mais influente crítico
literário da atualidade, analisou todas as peças do bardo. Hamlet,
porém, exigia uma abordagem mais detalhada afinal, a peça
se tornou, no dizer do próprio Bloom, "o centro de uma escritura secular".
Neste ensaio, o crítico mais idiossincrático do planeta desfaz a
trama de vingança para demonstrar que o príncipe Hamlet é
um personagem complexo demais para o enredo em que Shakespeare tentou situá-lo.
A edição brasileira vem acompanhada do texto de Hamlet, em
tradução de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça.
Para o leitor revisar o texto na boa companhia de Harold Bloom.
Leia trecho UM INFERINDO
HAMLET Hamlet
faz parte da vingança de Shakespeare contra a "tragédia de
vingança", não pertencendo a gênero algum. De todos os
poemas, é o mais ilimitado. Como reflexão sobre a fragilidade humana
em confronto com a morte, a peça tem por rival tão-somente as escrituras
do mundo.
Contrariando, indubitavelmente, a intenção de Shakespeare, Hamlet
tornou-se o centro de uma escritura secular. Mal se pode conceber que Shakespeare
tenha previsto a universalidade que a peça veio a demonstrar. Em torno
de Hamlet, formam um círculo os píncaros da literatura ocidental:
A Ilíada e A Eneida, A Divina Comédia, Os Contos de Cantuária,
Rei Lear, Macbeth, Dom Quixote, Paraíso Perdido, Guerra e Paz, Os Irmãos
Karamazov, Folhas de Relva, Moby-Dick, Em Busca do Tempo Perdido, entre outras
obras. À exceção das peças de Shakespeare, nenhum
texto dramático aqui se inclui. Ésquilo e Sófocles, Calderón
e Racine não são seculares, ao passo que Dante, Milton e Dostoiévski,
proponho, em paradoxo, são seculares, a despeito de professarem devoção
religiosa. As
obsessões de Hamlet não coincidem, necessariamente, com as de Shakespeare,
embora o dramaturgo e o príncipe compartilhem de intensa teatralidade e
de uma desconfiança quanto às motivações humanas.
Shakespeare não aparece na peça na condição de Hamlet,
mas nas figuras do Fantasma e do Primeiro Ator (o Ator Rei), papéis em
que, evidentemente, atuou. Quanto ao Fantasma, desde o início, temos a
certeza de que se trata mesmo do espectro do Rei Hamlet, fugido do além,
a fim de recrutar o filho para a vingança: [Se]
amaste um dia um pai querido... (I.v.)1
O espectro não declara seu amor pelo filho, que, segundo consta, na infância,
foi bastante negligenciado. Quando não estava surrando os inimigos, o falecido
rei e guerreiro ocupava-se da Rainha Gertrudes, verdadeiro ímã sexual.
A cena do cemitério (V.i) propicia a inferência de que o Príncipe
encontrara as figuras do pai e da mãe em Yorick, o bobo da corte: [.
. .] Carregou-me nas suas costas mais de mil vezes, e agora - agora como é
horrível imaginar essas coisas! Aperta-me a garganta ao pensar nisso. Aqui
ficavam os lábios que eu beijei nem sei quantas vezes. (V.i.)2 Hamlet
é seu próprio Falstaff (conforme observou Harold Goddard), de vez
que Yorick - "um tipo de infinita graça e da mais excelente fantasia"3
- educou-o até a idade de sete anos. O Coveiro, único personagem
da peça dotado de uma sagacidade que o capacita a enfrentar Hamlet, revela
que a caveira de Yorick jaz na terra há 23 anos, e que faz trinta anos
que Hamlet nasceu. No entanto, quem haveria de supor que o Príncipe dos
quatro primeiros atos, aluno da Universidade de Wittenberg (instituição
protestante alemã, célebre por ter sido freqüenta-da por Martinho
Lutero), teria alcançado a idade de trinta anos? A exemplo dos colegas,
os infelizes Rosencrantz e Guildens-tern, Hamlet, no início da trama, não
pode ter mais do que vinte anos, e o tempo da ação representado
na tragédia não excede oito semanas. Shakespeare, esplêndido
em seu descuido com questões de tempo e lugar, desejava apresentar, no
quinto ato, um Hamlet amadurecido de modo sobrenatural.
Apesar de falarmos em divisões de atos e cenas, e mais adiante neste breve
estudo ser focalizado o ato final da peça, as divisões não
são de autoria de Shakespeare, uma vez que todas as suas peças eram
encenadas de modo contínuo, sem intervalos, no Globe Theatre. A versão
sem cortes de Hamlet que consta das edições modernas, e que consolida
todos os textos examinados, chega a quase quatro mil linhas, o dobro da extensão
de Macbeth. Hamlet é a peça mais longa de Shakespeare, e o papel
do Príncipe (com cerca de 1.500 linhas) é, igualmente, singular.
Somente se somarmos as duas partes de Henrique IV (procedimento que seria correto),
podemos encontrar um equivalente shakespeariano no papel de Falstaff, porquanto,
ao contrário de Hamlet, o meu sublime protótipo fale exclusivamente
em prosa - a melhor prosa existente em língua inglesa, exceto, talvez,
a do próprio Hamlet.
A Trágica História de Hamlet, Príncipe da Dinamarca destaca-se
entre as 38 peças de Shakespeare, ficando mesmo à margem da fama
universal do texto. A extensão e a variedade aqui constatadas equiparam-se
ao grau de experimentalismo. Passados quatro séculos, Hamlet continua a
ser o que há de mais avançado no mundo, em termos de teatro, a peça
imitada, porém jamais superada por Ibsen, Tchekhov, Pirandello e Beckett.
É impossível ir além de Hamlet, que demarca os limites da
teatralidade, assim como o próprio Hamlet é a fronteira da consciência,
ainda a ser transposta. Acho inteligente confrontar tanto a peça quanto
o Príncipe a partir de uma atitude de reverência e admiração,
porque ambos são mais sábios do que nós. Tenho me referido
a tal atitude como Bardolatria, termo que pode ser definido como a resposta autêntica
a Shakespeare. Como
abordar Hamlet, em leitura ou em performance, diante da possibilidade remota de
nos depararmos com uma montagem da peça dirigida de maneira responsável?
Sugiro que busquemos inferir o que terá levado o jovem vestido de negro
a se tornar um indivíduo tão singular. Cláudio dirige-se
ao Príncipe, chamando-o "meu filho", querendo dizer que adotou
o sobrinho como herdeiro real e, ao mesmo tempo, provocando Hamlet, ao lembrá-lo
de que é filho adotivo do Rei, após o casamento deste. O primeiro
verso pronunciado por Hamlet é "Mais que parente, menos do que filho...",
e o verso seguinte conclui o jogo de palavras: "Estou em pleno sol."4
Haverá aqui uma certa ansiedade quanto à hipótese de Hamlet
ser, de fato, filho de Cláudio, visto que o Príncipe não
tem como saber, ao certo, quando teve início o relacionamento entre Cláudio
e Gertrudes, que Hamlet considera adúltero e incestuoso? A famosa hesitação
do Príncipe, diante da possibilidade de executar Cláudio, deve-se,
em parte, à simples vastidão de sua consciência, mas pode
também indicar uma séria dúvida, relacionada ao problema
da paternidade.
Ficamos a sós com Hamlet por ocasião do primeiro dos sete solilóquios
do personagem. Os versos iniciais nos transportam aos longínquos labirintos
do espírito:
Oh, se esta carne rude derretesse,
E se desvanecesse em fino orvalho! (I.ii)5
O Primeiro Fólio registra solid flesh ["carne rígida"],
ao passo que o Segundo Quarto assinala sallied flesh. Ainda que sallied possa
significar assailed ["sofrida, atacada"], trata-se, provavelmente, de
uma variante de sullied ["suja"]. A repulsa de Hamlet por carne suja,
rude, justifica a observação negativa de D. H. Lawrence, de que
"a idéia de deterioração da carne deixa Hamlet extasiado,
pois ele jamais admitirá que se trata da sua própria carne".
A aversão de Lawrence é sempre impressionante: "[Hamlet] faz
lembrar um ser rastejante, imundo (...). A
maneira torpe com que avança fungando sobre sua mãe, as armadilhas
que prepara para o Rei e a crueldade presunçosa que demonstra na relação
com Ofélia fazem-no sempre intolerável." Ainda que a perspectiva
de Lawrence seja discutível, não precisamos nos preocupar em contestá-la,
pois o próprio Lawrence o faz: "Ocorre que os solilóquios de
Hamlet atingem as maiores profundezas de que a alma humana é capaz de alcançar
(...) e, em sua essência, são tão sinceros quanto o próprio
Espírito Santo." A ambivalência de Lawrence é compreen-sível:
a noção de que "um ser rastejante, imundo" possa, igualmente,
ser "tão sincero quanto o próprio Espírito Santo"
expressa a essência da visão que Hamlet tem da humanidade, e de si
mesmo, em particular.
A questão central, então, será: de que maneira Hamlet se
tornou uma consciência dotada de ambivalência tão extraordinária?
Penso que devemos descartar qualquer noção de que os impactos causados
pela morte súbita do pai e pelo novo casamento da mãe tenham provocado
alterações radicais no Príncipe. Hamlet jamais teve qualquer
elemento em comum com o pai, a mãe e o tio. É uma espécie
de criança enjeitada, educada por Yorick, mas pai de si mesmo, ator-dramaturgo
desde sempre, embora não seja proveitoso identificá-lo com o autor.
Shakespeare mantém Hamlet à distância, em parte, aparecendo
em cena ao lado do Príncipe, como espectro paternal e Ator Rei, mas, principalmente,
conferindo a Hamlet uma consciência autoral própria, bem como aptidões
de ator. Hamlet, Falstaff de si mesmo, é também o seu próprio
"sacode-cenas",6 sempre interessado em teatro. Com efeito, a primeira
fala do protagonista que vai além de um verso é também a
primeira reflexão sobre o trabalho do ator:
(...) esses "parecem",
Pois são ações que o homem representa:
Mas eu tenho no peito o que não passa. (I.ii.)7
Em certo sentido, as instruções de Hamlet aos atores prosseguem
ao longo de toda a peça, constituindo, talvez, o melhor dos manuais de
encenação. Hamlet não é filósofo nem teólogo;
é um entusiasta do teatro, um amador excepcionalmente bem-informado. Ao
que parece, passava mais tempo gazeteando no Globe Theatre, em Londres, do que
nas salas de aula de Wittenberg. O Fantasma sai de cena, murmurando "Recorda-te
de mim", e ouvimos Hamlet identificar-se com a platéia do Globe:
Recordar-te! Por certo, alvo fantasma!
Enquanto houver memória neste globo
Atônito! (I.v.)8
Shakespeare poderia ter atribuído a Hamlet os subtítulos O Ensaio,
ou Sacio com Palavras meu Coração, pois trata-se de uma peça
sobre a atuação cênica, sobre a encenação em
lugar da vingança. Nós temos consciência de nós mesmos,
mas Hamlet tem consciência de algo. Para Hamlet, a peça é
esse algo, e não apenas uma ratoeira para pegar Cláudio. No desfecho
da ação, Hamlet teme legar à posteridade um nome manchado.
A meu ver, tal preocupação não diz respeito à condição
do protagonista como vingador tardio, mas à sua obsessão de dramaturgo. |