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Fora do Abrigo, de David Lodge (tradução de Therezinha Monteiro Deutsch; Best Seller; 368 páginas; 39,90 reais) – Publicado originalmente em 1970, Fora do Abrigo aborda o rito de passagem de um adolescente para a vida adulta. Trata-se de uma história com tintas autobiográficas, em que a prosa do inglês David Lodge – especialista em criar romances cômicos ambientados no mundo acadêmico – está mais sóbria que de costume. Seu protagonista, Timothy, passa dias e dias num abrigo antiaéreo em Londres – então sob bombardeio dos alemães, na II Guerra Mundial. Na adolescência, ele conhece os prazeres da liberdade e do sexo durante uma temporada de férias na Alemanha. Essa descoberta da vida é o mote para Lodge lançar um olhar irônico sobre as transformações sociais do pós-guerra.

Leia trechos do livro

A cena mais remota de que ele conseguia se lembrar era de sua mãe sobre um banquinho da cozinha, empilhando latas de alimentos em conserva em cima do armário. Na mesa havia mais latas: abacaxi, pêssego, laranjinhas - dá para você imaginar o que mais. Ele perguntara:

- Para que todas essas latas?

0 sol brilhava através da janela basculante da cozinha, atrás da cabeça dela, e por mais que ele apertasse os olhos para se proteger da luz intensa não podia ver direito o rosto da mãe, porém lembrava-se de que ela abaixara os olhos para ele por um longo momento antes de dizer:

- Porque há uma guerra, querido.

- O que é guerra? - perguntara ele.

Não conseguia lembrar-se do que ela respondera.

Ele não tardara a descobrir que a guerra era uma máscara Mickey Mouse contra gases, que soltava um vapor quando a gente respirava; era seu pai com um capacete e um apito, Jill chorando porque o pai dela estava por ir embora, juntar-se à Força Aérea, o rádio ligado o tempo todo, os vidros da porta da frente sempre cobertos por papel preto e as sirenes disparando de madrugada por causa de ataques aéreos. Achava divertido levantar-se no meio da noite.

Eles não tinham seu próprio abrigo. Ele e a mãe corriam pela rua até a casa de Jill, no número 64 que tinha um abrigo no quintal. 0 pai de Ji1l é que havia feito o abrigo. Em geral o pai dele trabalhava durante os ataques aéreos: era um Guarda e tratava de assegurar que todos fossem para os abrigos e não deixassem nenhuma luz passar por entre as cortinas. Se os aviões alemães vissem alguma luz escapando por frinchas de cortinas, saberiam onde você estava e largariam bombas em cima de você. Às vezes, no meio de um ataque aéreo, seu pai parava no número 64 e descia ao abrigo para ver se estavam todos bem. Ou chegava para buscá-los quando soava o sinal de Tudo Limpo. Acontecia muitas vezes de o pai ter de carregar Timothy adormecido para casa, e ele acordava pela manhã em sua cama sem ter ouvido o sinal de Tudo Limpo. A sirene de Tudo Limpo tinha o mesmo som, mas a sirene de alarme soava subindo e descendo: uuuuERRR... uuuuERRR... uuuuERRR... Seria bem mais esperto ter duas sirenes diferentes para cada um dos casos. 0 som Tudo Limpo era cansado, tranqüilo, daquele jeito que a gente se sente indo para casa, bocejando depois de um ataque aéreo; mas a sirene do Ataque Aéreo soava de um modo assustador.

Não que Timothy sentisse medo. Depois de algum tempo ele se acostumara de tal modo com a sirene do Ataque Aéreo que a mãe tinha de acordá-lo para estarem no abrigo na casa de Jill, rua abaixo, antes que as bombas alemãs começassem a cair. Ji11 era da mesma idade que ele, cinco anos, porém Timothy era mais velho porque seu aniversário vinha primeiro. Jill era bonita. Ele ia se casar com ela quando ficassem grandes. A irmã de Timothy, Kath, era muito mais velha do que ele, tinha dezesseis anos, já era quase adulta, e não morava mais em casa. Tinha ido embora para o interior, com as freiras de sua escola. A escola de Kath resolvera ir embora por causa dos ataques aéreos. Os ataques aéreos aconteciam por causa da guerra. Eram chamados de blitz. Sua mãe dizia que se a blítz continuasse por muito tempo o levaria para morar no interior, também. Eles moravam em Londres, que era a maior cidade do mundo. Timothy não queria ir morar no interior. Estivera lá uma vez, esbarrara numa urtiga e caíra em cima de cocô de vaca.

 


 
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