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Perto
de Casa,
de Peter Robinson (tradução de Francisco Innocêncio;
Record; 476 páginas; 50,90 reais) – Alguns críticos
já sugeriram que esse livro do inglês Peter Robinson
é uma espécie de versão britânica de
Sobre Meninos e Lobos, do americano Dennis Lehane. São
dois romances policiais em que a memória da infância
e juventude dos protagonistas tem repercussões terríveis
sobre crimes do presente. Em Perto de Casa, o detetive Alan
Banks revisita sua agitada juventude na Londres da beatlemania depois
que a ossada de um amigo seu, desaparecido nos anos 60, é
finalmente descoberta. Esse crime do passado guarda misteriosas
relações com o seqüestro, no presente, do filho
adolescente de um astro do rock.
Leia
trecho
Trevor
Dickinson estava mal-humorado e de ressaca quando apareceu no trabalho
na manhã de segunda-feira. Sua boca tinha gosto de titica
de passarinho, sua cabeça pulsava como os alto-falantes de
um concerto de heavy metal e seu estômago dava trancos
como um automóvel com o carburador entupido. Já havia
bebido meio frasco de leite de magnésia e engolido quatro
comprimidos extrafortes de paracetamol, sem nenhum efeito observável.
Quando
chegou ao local, Trevor descobriu que teria de esperar até
que a polícia removesse o último dos manifestantes
antes de poder começar a trabalhar. Restavam cinco deles,
todos sentados no campo de pernas cruzadas. Ambientalistas.
Um deles era uma velhinha de cabelos grisalhos. Devia se envergonhar,
pensou Trevor, uma mulher da idade dela acocorada com um bando nojento
de homossexuais marxistas abraçadores de árvores.
Olhou
em volta para descobrir algum sinal de por que alguém iria
querer preservar aqueles poucos acres em particular. Os campos pertenciam
a um fazendeiro que recentemente falira por uma combinação
de doença da vaca louca e febre aftosa. Pelo que Trevor soubesse,
não havia nenhum raro tico-tico de bico rosado que não
pudesse fazer seu ninho em qualquer outro lugar do país inteiro;
nem havia ali nenhuma hera adubada por bosta de cotovia oculta entre
as sebes. Não havia nem mesmo árvores, a não
ser que se contasse a precária fileira de choupos que crescia
entre os campos e a A1¹tolhidos e sufocados por anos de emissão
de fumaça.
A polícia
removeu os manifestantes — incluindo a velha senhora — apanhando-os
de um em um e arrastando-os até uma van próxima, então
deu o sinal verde para Trevor e seus colegas de trabalho. A chuva
do fim de semana havia enlameado o terreno, o que tornava as manobras
mais difíceis do que o usual, mas Trevor era um operador
de máquinas habilidoso, e logo conseguiu mergulhar a pá
de sua escavadeira bem abaixo da camada superficial, içar
alto sua carga e despejá-la no caminhão que estava
à espera. Manejava as alavancas com destreza inata, dirigindo
o complexo sistema de pedais, engrenagens, eixos e roldanas como
um maestro, extraindo o máximo que a poderosa pá conseguia
suportar e então endireitando-a para não derramar
nada quando a elevasse e depositasse sobre o caminhão.
Trevor
já estava trabalhando havia bem umas duas horas quando pensou
ter visto algo se projetando para fora da lama. Inclinando-se para
a frente em seu assento e esfregando a condensação
que se formara por dentro da janela da cabine, apertou os olhos
para enxergar o que era e, quando viu, ficou sem fôlego. Olhava
para um crânio humano, e o pior era que este parecia corresponder
em cheio ao seu olhar.
Alan
Banks não sentia o menor sinal de ressaca, mas soube que
tinha bebido muito uzo na noite anterior quando viu que deixara
a televisão ligada. O único canal que ela sintonizava
era grego, e ele nunca o assistia quando estava sóbrio.
Banks
gemeu, espreguiçou-se e preparou um pouco do forte café
grego ao qual ele se tornara tão afeiçoado durante
sua primeira semana na ilha. Enquanto o café era coado, pôs
um CD com árias de Mozart, pegou um dos jornais da última
semana que ainda não havia lido e caminhou para a sacada.
Embora tivesse trazido seu discman, sentiu-se afortunado
porque o pequeno apartamento coletivo tinha um mini-system estéreo
com CD-player. Trouxera com ele uma pilha de seus
CDs favoritos, incluindo Billie Holiday, John Coltrane, Schubert,
Walton, The Grateful Dead e Led Zeppelin.
Parou
junto ao parapeito de ferro ouvindo "Parto, ma tu, bem mio"
e olhando para baixo em direção ao mar que ficava
além do emaranhado de terraços, telhados e paredes,
uma composição cubista com interseções
de planos azuis e brancos. O sol brilhava em um céu azul
perfeito, do mesmo modo que havia feito todos os dias desde que
ele chegara. Podia sentir no ar o perfume de lavanda silvestre e
rosmaninho. Um navio de cruzeiros acabara de ancorar, e as primeiras
lanchas do dia carregavam suas cargas de turistas excitados com
suas câmeras até o porto, gaivotas se lamuriando ao
despertar.
Banks
foi servir-se de café, depois saiu novamente e sentou-se.
Sua cadeira de madeira branca arrastou-se contra os ladrilhos de
cerâmica, assustando a pequena criatura com aspecto de lagarto
que se aquecia ao sol da manhã.
Depois
de olhar os jornais velhos e talvez ler um pouco mais da Odisséia
de Homero, Banks pensou em caminhar até a vila para um
demorado almoço, talvez beber uma ou duas taças de
vinho, apanhar um pouco de pão fresco, azeitonas e queijo
de cabra e depois voltar para uma soneca e um pouco de música
antes de consumir sua noite na taverna à beira do cais jogando
xadrez com Alexandros, como era seu hábito desde o segundo
dia.
Não
havia mais nada que o interessasse nos jornais, além das
páginas de esportes e artes. O Rain parara de jogar na terceira
partida eliminatória no Old Trafford, o que quase não
era novidade; a Inglaterra havia ganhado um jogo importante nas
eliminatórias da Copa do Mundo; e aquele não era o
melhor dia da semana para as resenhas sobre livros ou música.
Ele notou, no entanto, uma breve reportagem sobre um esqueleto descoberto
por um operário no local da construção do novo
shopping center na A1, não muito longe de Peterborough.
Só prestou atenção porque passou boa parte
de seus primeiros anos em Peterborough, e seus pais ainda viviam
lá.
Pôs
o jornal de lado e olhou as gaivotas mergulhando e descrevendo círculos.
Pareciam levadas à deriva pelas ondas sonoras da música
de Mozart. À deriva, como ele. Lembrou-se de sua segunda
conversa com Alexandros. Durante o jogo de xadrez, Alex fez uma
pausa, olhou seriamente para Banks e disse: — Você parece
um homem com muitos segredos, Alan, um homem muito triste. Do que
você está fugindo?
Banks
pensou muito sobre aquilo. Estaria fugindo? Sim, de certo modo.
Fugindo de um casamento fracassado e de um romance frustrado, e
de um emprego que ameaçara, pela segunda vez em sua vida,
mandá-lo para além dos limites com suas demandas conflitantes,
sua proximidade com a morte violenta e com tudo o que havia de pior
nas pessoas. Procurava uma fuga temporária, pelo menos.
Ou
seria algo mais profundo que isso? Estaria tentando fugir de si
mesmo, do que ele era, ou do que havia se tornado? Sentara-se lá,
ponderando a questão, e respondeu apenas "Gostaria de
saber", antes de fazer um movimento impensado e colocar sua
dama em risco.
Tinha
conseguido evitar assuntos do coração durante sua
breve estada. Andrea, a garçonete da taverna de Philippe,
flertou com ele, mas isso foi tudo. Ocasionalmente, uma das mulheres
dos navios em cruzeiro dava-lhe aquele certo gênero de olhar
melancólico que leva apenas a um lugar, se você deixar,
mas ele não deixava. Encontrara para si um espaço
onde não teria de se confrontar com o crime diariamente,
mais particularmente um lugar onde não teria de entrar em
porões lotados com corpos violados de garotas adolescentes,
uma cena de seu último caso que ainda, mesmo ali naquela
pacífica ilha, assombrava seus sonhos. Então ele atingira
seu objetivo — fugir de uma vida desordenada e encontrar um paraíso
de algum tipo. Por que motivo, então, ainda se sentia tão
amaldiçoadamente inquieto?
1 Também
conhecida como Great North Road (Grande Rodovia Norte), a
A1 é a extensa rodovia que liga Londres, na Inglaterra, a
Edimburgo, na Escócia. (N. do T.)
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