Mary Altafer/AP
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| Shirley
Hazzard: romancista bissexta que vale a pena |
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O
Grande Incêndio, de Shirley Hazzard (tradução
de Luiz Antonio Oliveira de Araújo; Companhia das Letras;
368 páginas; 49 reais) – A australiana Shirley Hazzard é
uma romancista bissexta. Esse seu quarto livro apareceu vinte anos
depois do terceiro. Mas vale a pena esperar por suas obras: vencedor
do National Book Awards, um dos mais importantes prêmios literários
americanos, O Grande Incêndio é um retrato inquietante
das ambigüidades morais do pós-guerra e dos choques
culturais no Japão ocupado pelos aliados. O protagonista
é Aldred Leith, um major britânico que, em 1947, sai
em busca de material para um livro sobre a bomba atômica de
Hiroshima e acaba se enredando em uma complicada relação
com a filha do militar australiano que o recebe no Japão.
Leia
trecho
Capítulo
1
Agora
ia começar. A inevitabilidade percorreu o trem como uma exalação.
Ouviam-se batidas, risos nervosos, assobios e a gritaria dos retardatários.
O megafone despejava anúncios incompreensíveis em
inglês e japonês. Na plataforma, antes mesmo que o trem
partisse, os rostos assumiram a expressão de quem fica.
Leith
ia sentado à janela, o corpo balançando docilmente
ao sabor do movimento do trem. Não tardaria a constatar que
a chuva continuava a cair na periferia carbonizada de Tóquio,
infestando até mesmo o vagão com aquele cheiro espectral
de cinzas. Por ora, estava ocupado em examinar uma fotografia do
pai. Aldred Leith segurava um livro na mão direita — não
o lia, apenas observava a imagem do pai na contracapa.
Era
um daqueles retratos de autor à mesa de trabalho. Simulando
uma interrupção momentânea, o homem estava parcialmente
voltado para a câmara, o cotovelo esquerdo apoiado no mata-borrão,
a mão direita espalmada sobre o joelho. Tinha traços
finos e bem desenhados, olhos claros, uma pálpebra semicerrada.
A boca tensa. Testa alta, cabelo denso, branco, comprido. Tronco
encorpado, mas não em demasia; vestia-se sem afetação,
roupa velha e de boa qualidade. Na infância, Leith se perguntava
como era possível o pai andar sempre bem vestido se quase
não comprava roupa: uma aparente incongruência, como
andar permanentemente com barba de dois dias por fazer.
Mais
contida que serena, a expressão era enigmática. Os
móveis que o circundavam não davam muitas pistas —
na parte superior da escrivaninha de madeira escura viam-se escaninhos
e pequenas gavetas fechadas. A escrivaninha era parte tão
importante do ambiente familiar, inseparável das variações
de humor do pai — parecendo mesmo, para o menino, gerar essas variações
—, que até aquele momento o filho nunca a examinara com olhos
de adulto. Para tomar esse distanciamento, fora necessário
um conflito mundial, uma ausência durante a guerra, uma viagem
mundo afora, uma longa peregrinação pela Ásia,
uma manhã chuvosa num trem estrangeiro.
Na
escrivaninha não havia telefone, nem relógio ou calendário.
O vaso com rosas, saltando, implausível, à vista,
teria, possivelmente, sido tomado de empréstimo de outra
sala pelo fotógrafo. Sobre o mata-borrão, duas páginas
manuscritas estavam encobertas pela manga do paletó de tweed.
Canetas e lápis se abriam em leque no porta-lápis,
junto a uns livros novos, cujos títulos, apenas legíveis,
eram os de traduções dos romances de Oliver Leith
feitas no pós-guerra. Havia notas fiscais espetadas em uma
haste metálica, uma salva com clipes e um peso de papel de
ônix. Impossível imaginar cores, a não ser as
das flores contrabandeadas; nenhum objeto ali, fosse pela forma,
fosse pelo material, convidava ao contato das mãos. Nenhuma
fotografia. Nada que sugerisse intimidade ou afeto.
O
filho adulto julgou a fotografia desprovida de amor. O pai, tão
famoso por escrever sobre o amor — amor por si próprio, pelos
lugares, pelas mulheres e pelos homens —, cultivava uma notória
distância no convívio íntimo. A vida dele, da
esposa, assim como a do filho, era uma sucessão de deslocamentos:
havia romances de amor ambientados em cenários que iam desde
a Manchúria até Madagáscar. O livro mais recente,
resultado de um inverno inclemente na Grécia, não
era exceção. E se intitulava Os gelos do Partenon.
Se
o homem se levantasse e saísse do retrato, o tronco robusto
pareceria minguar no atarracado das pernas curtas. A estatura mais
elevada do filho, ainda que não excessiva, devia-se à
mãe, assim como os olhos escuros.
Durante
todo esse tempo, o corpo de Leith foi ganhando velocidade. Ele abandonou
o livro e se interessou pelo mundo do outro lado da janela: a cidade
molhada cedia lugar às plantações, as plantações
encharcadas se rendiam à paisagem. O conjunto ocasionalmente
interrompido por um túnel abrupto ou pelo açoite de
um trem em sentido contrário. O corpo seguia avançando,
ainda que prostrado no banco. O corpo tinha histórias para
contar — incontáveis cidades, vilarejos, países, inumeráveis
encontros: aos olhos de outrem, tal privação e tanto
empenho constituiriam um feito. O próprio pai de Leith tinha
encenado o truque da mobilidade, consumindo-se em receptividade
e novas impressões. O filho procurava recordar as despedidas
nas plataformas de estação.
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