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Lanzano/AP
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Ozick: poucas e boas palavras | |
O
Xale, de Cynthia Ozick (tradução de Sonia Moreira; Companhia
das Letras; 88 páginas; 27,50 reais) Aprisionada em um campo de
concentração durante a II Guerra, Rosa conseguiu esconder sua filha
Magda, apenas um bebê, dos carrascos nazistas. A menina vai sobrevivendo
precariamente, coberta pelo velho xale da mãe, até que a tragédia
inevitável acontece. Com uma economia verbal que torna a história
ainda mais pungente, O Xale, da crítica e escritora Cynthia Ozick,
consagrou-se como um dos contos mais memoráveis da literatura americana
recente. O presente volume traz ainda o conto Rosa, que dá continuação
à história anterior, seguindo a patética vida da personagem-título,
sobrevivente do holocausto, na Flórida dos anos 70. Leia
trecho Stella,
fria, fria, a frieza do inferno. Como elas andaram pelas estradas, juntas, Rosa
com Magda encolhida entre seus seios feridos, Magda embrulhada no xale. Às
vezes Stella carregava Magda, mas tinha ciúme dela. Uma menina magricela
de catorze anos, pequena demais, com seus próprios peitinhos secos, Stella
também queria estar embrulhada num xale, escondida, dormindo, embalada
pela marcha; também queria ser um neném, um bebê redondinho
de colo. Magda pegava o bico do peito de Rosa, e Rosa nunca parava de andar, um
berço ambulante. Não havia leite suficiente; às vezes Magda
sugava, sugava e só mamava ar; então, berrava. Stella estava faminta.
Seus joelhos eram tumores espetados em palitos; seus cotovelos, ossinhos de galinha. Rosa
não sentia fome; sentia-se leve, não como quem está andando,
mas como quem está desmaiada, em transe, sem sentidos, como quem já
é um anjo flutuante, alerta e vendo tudo, mas no ar, sem estar realmente
ali, sem tocar a estrada. Como se cambaleasse na ponta das unhas das mãos.
Olhou para o rosto de Magda por uma fresta do xale: um esquilo num ninho, segura,
ninguém podia atingi-la dentro da casinha das voltas do xale. O rosto,
muito redondo, era como um espelhinho de bolso: mas não tinha a tez sombria
de Rosa, escura como cólera, era um tipo completamente diferente de rosto,
olhos azuis como o ar, cabelos que eram uma penugem macia e quase tão amarelos
quanto a estrela costurada no casaco de Rosa. Dava até para pensar que
ela era um bebê deles. Rosa,
flutuando, sonhava em entregar Magda para alguém numa das vilas. Poderia
sair da fila um instantinho e largar Magda nos braços de alguma mulher
na beira da estrada. Mas, se abandonasse a fila, eles poderiam atirar. E mesmo
que conseguisse sair da fila por meio segundo e entregar a trouxinha embrulhada
no xale para alguma estranha, será que a mulher a seguraria? A mulher poderia
levar um susto ou ficar com medo e deixar o xale cair no chão, e aí
Magda bateria com a cabeça e morreria. A pequena cabeça redondinha.
Era uma criança tão boazinha, que tinha até desistido de
berrar e agora mamava só pelo gosto do mamilo seco. O encaixe justo e perfeito
das gengivas pequeninas em volta do bico do peito. Uma pontinha ínfima
de dente brotando na gengiva inferior, tão reluzente, uma minúscula
lápide de mármore branco brilhando no meio da carne rosada. Sem
se queixar, Magda largou os mamilos de Rosa, primeiro o esquerdo, depois o direito;
ambos estavam rachados e sem nem um pingo de leite. O orifício do ducto
estava seco, um vulcão extinto, um olho cego, um buraco frio; Magda, então,
pegou a ponta do xale e pôs-se a mamar, não no peito de Rosa, mas
na ponta do xale. Sugou, sugou, encharcando os fios de saliva. O gosto bom do
xale, leite de pano. Era
um xale mágico, foi capaz de alimentar um bebê por três dias
e três noites. Magda não morreu, continuou viva, embora muito quieta.
Um cheiro estranho, de canela e amêndoa, saía de sua boca. Ela permanecia
o tempo todo de olhos abertos, como se tivesse desaprendido a piscar e a dormir;
Rosa e, às vezes, Stella ficavam estudando o azul de sua íris. Na
estrada, elas levantavam uma perna de chumbo depois da outra e estudavam o rosto
de Magda. "Ariana", disse Stella, com uma voz que se tornara fina como
um fio de cabelo; e Rosa achou que Stella parecia uma pequena canibal olhando
para Magda. E quando Stella disse "ariana", Rosa teve a impressão
de que o que Stella na verdade estava dizendo era "Vamos devorá-la". Mas
Magda viveu até aprender a andar. Viveu, sim, até a idade de andar,
mas não andava muito bem, não só porque tinha apenas um ano
e três meses, mas também porque suas perninhas magricelas não
conseguiam sustentar a barrigona. Magda tinha uma barrigona cheia de ar, inchada
e redonda. Rosa dava quase toda a sua comida para Magda, Stella não dava
nada; Stella era esfomeada; também era, ela própria, uma criança
em idade de crescimento, só que não estava crescendo muito. Stella
não menstruava. Rosa não menstruava. Rosa estava faminta, mas também
não estava; tinha aprendido com Magda a beber o gosto do próprio
dedo, que punha na boca e chupava. Estavam num lugar sem compaixão, toda
a compaixão que havia em Rosa tinha sido aniquilada, ela olhava para os
ossos de Stella e não sentia compaixão nenhuma. Tinha certeza de
que Stella estava esperando que Magda morresse para cravar os dentes em suas coxinhas. Rosa
sabia que Magda logo, logo morreria; na verdade já devia estar morta, mas
tinha sido bem enterrada debaixo do xale mágico, sendo confundida ali com
o monte trêmulo dos seios de Rosa; Rosa segurava o xale como se ele só
cobrisse a ela própria. Ninguém o tirava dela. Magda era muda. Nunca
chorava. Rosa a escondia no alojamento, debaixo do xale, mas sabia que um dia
alguém delataria; ou que um dia alguém, que podia nem ser Stella,
roubaria Magda para comê-la. Quando Magda começou a andar, Rosa intuiu
que ela morreria muito em breve, intuiu que alguma coisa ia acontecer. Rosa tinha
medo de pegar no sono; dormia com a coxa em cima do corpo de Magda e tinha medo
de asfixiar Magda com o peso de sua coxa. O peso de Rosa diminuía a cada
dia que passava; Rosa e Stella estavam aos poucos virando ar. Magda
era quieta, mas seus olhos estavam terrivelmente vivos, como tigres azuis. Ela
vigiava. Às vezes ria - parecia um riso, mas como era possível?
Magda nunca tinha visto ninguém rir. Mesmo assim, ria quando o vento balançava
as pontas do seu xale, o vento ruim, cheio de partículas pretas, que fazia
os olhos de Stella e de Rosa lacrimejarem. Os olhos de Magda estavam sempre claros
e secos. Ela vigiava feito um tigre. Tomava conta do seu xale. Ninguém
podia tocar nele, só Rosa. Stella não podia tocar nele. O xale era
o bebê de Magda, seu bichinho de estimação, sua irmãzinha.
Ela se enroscava nele e chupava uma das pontas quando queria ficar bem quietinha. Então
um dia Stella pegou o xale e fez Magda morrer. Depois
que aconteceu, Stella disse: "Eu estava com frio". E
depois disso ela ficou sempre fria, sempre. O frio entrou no seu coração:
Rosa viu que o coração de Stella estava frio. Magda cambaleava com
seus palitinhos de perna, esgravatando de um lado e de outro, à procura
do xale; os palitinhos estacaram na abertura do alojamento, onde a luz começava.
Rosa viu e foi atrás. Mas Magda já estava no pátio do lado
de fora do alojamento, em plena luz. Era a arena onde era feita a chamada. Todas
as manhãs, Rosa tinha de esconder Magda debaixo do xale, deixando-a encostada
numa das paredes do alojamento, e sair para ficar em fila na arena com Stella
e centenas de outras pessoas, às vezes durante horas. Magda, abandonada,
ficava quietinha debaixo do xale, chupando a ponta do pano. Todo dia Magda ficava
em silêncio, e por isso não morreu. Mas Rosa viu que hoje Magda ia
morrer e, ao mesmo tempo, uma alegria amedrontada invadiu a palma de suas mãos,
seus dedos pegavam fogo, ela estava atônita, febril: Magda, na luz do sol,
avançando trôpega com seus palitinhos de perna, estava gritando.
Desde que as mamas de Rosa secaram, desde os últimos berros de Magda na
estrada, nenhum som saía de sua boca; Magda emudecera. Rosa achava que
havia algo de errado com as cordas vocais dela, com a traquéia, com a cavidade
da laringe; Magda era defeituosa, não tinha voz; talvez fosse surda; era
até possível que tivesse alguma deficiência mental; Magda
era muda. Mesmo o riso que ela dava quando o vento pontilhado de cinzas transformava
o xale num palhaço era só o ar passando por seus dentes à
mostra. Mesmo quando os piolhos, piolhos-da-cabeça e piolhos-do-corpo,
atormentavam-na de tal forma que ela ficava tão enlouquecida quanto as
ratazanas que pilhavam o alojamento ao amanhecer à procura de carniça,
Magda coçava, esfregava, chutava, mordia e rolava sem soltar um gemido
sequer. Agora, no entanto, a boca de Magda vertia uma longa e viscosa tripa de
som. "Mãããã…" Era
o primeiro barulho que saía da garganta de Magda desde que o leite de Rosa
acabara. "Mãããã…
ããã!" Outra
vez! Magda cambaleava sob a perigosa luz do sol que banhava a arena, avançando
com suas canelinhas tortas de dar dó. Rosa viu. Ela viu que Magda estava
sofrendo porque perdera o xale, viu que Magda ia morrer. Uma torrente de ordens
martelava nas mamas de Rosa: Corra! Pegue! Busque! Mas ela não sabia o
que pegar primeiro, se Magda ou se o xale. Se corresse para a arena para apanhar
Magda, o grito não pararia, porque Magda ainda não estaria com o
xale; mas se ela corresse para dentro do alojamento para procurar o xale, e se
o encontrasse, e se fosse atrás de Magda segurando e agitando o xale no
ar, então conseguiria ter Magda de volta, Magda botaria o xale na boca
e ficaria muda de novo. Rosa
entrou na escuridão do alojamento. Foi fácil encontrar o xale. Stella
estava encolhida debaixo dele, dormindo, ela e seus ossinhos finos. Rosa arrancou
o xale de Stella e voou - podia voar, seu corpo era só ar - para a arena.
O calor do sol sussurrava sobre outra vida, sobre borboletas no verão.
A luz era plácida, suave. Do outro lado da cerca de aço, bem longe,
havia campinas verdes pontilhadas de dentes-de-leão e violetas de cores
intensas; atrás delas, mais longe ainda, inocentes lírios-tigres,
altos, levantando seus barretes cor de laranja. No alojamento, falavam de "flores",
de "chuva": excrementos, grossas tranças de bosta, e a lenta
e fedida queda-d’água marrom que escorria das camas mais altas dos beliches,
o fedor misturado a uma fumaça acre e sebenta que engordurava a pele de
Rosa. Ela estacou por um instante na beira da arena. Às vezes a eletricidade
dentro da cerca parecia zumbir; até Stella dizia que não passava
de imaginação, mas Rosa ouvia sons de verdade no arame: vozes ásperas
e tristes. Quanto mais distante estivesse da cerca, mais claramente as vozes zumbiam
em seus ouvidos. As vozes lastimosas eram tão convincentes, ciciavam com
tanta veemência, que era impossível suspeitar que fossem fantasmas.
As vozes lhe disseram para levantar o xale, bem alto; as vozes lhe disseram para
sacudir o xale, para chicotear o ar com o xale, para desfraldá-lo como
uma bandeira. Rosa levantou, sacudiu, desfraldou o xale. Lá longe, muito
longe, Magda inclinou-se sobre sua barriga cheia de ar, estendendo seus caniços
de braço. Estava lá no alto, suspensa, pendurada no ombro de alguém.
Mas o ombro que carregava Magda não estava vindo na direção
de Rosa e do xale, estava se afastando, a manchinha que era Magda se distanciava
cada vez mais, sumindo na distância enfumaçada. Acima do ombro, um
capacete reluzia. A luz tocava no capacete e desmanchava-o em reflexos, transformando-o
numa taça. Embaixo do capacete, um corpo preto como uma peça de
dominó e um par de botas pretas avançavam na direção
da cerca eletrificada. As vozes elétricas puseram-se a uivar enlouquecidamente.
"Mããmãã, mãããmããã",
entoaram todas juntas. Como Magda estava longe de Rosa agora, atravessara o pátio
inteiro, cruzara uma dúzia de alojamentos, chegara lá do outro lado!
Estava do tamanho de uma mariposa. De
repente, Magda estava nadando no ar. Magda inteira viajava nas alturas. Parecia
uma borboleta beijando uma vinha prateada. E no momento em que a cabecinha redonda
e penugenta de Magda, e seus palitinhos de perna, e sua barriga de balão,
e seus bracinhos retorcidos espatifaram-se contra a cerca, as vozes de aço
ficaram desvairadas e rosnaram ainda mais forte, instando Rosa a correr, correr
e correr, até chegar ao lugar em que Magda caíra de seu vôo
contra a cerca eletrificada; mas claro que Rosa não obedeceu. Só
ficou lá, parada, porque se corresse eles atirariam, e se tentasse pegar
no colo os palitinhos do corpo de Magda eles atirariam, e se deixasse o berro
de lobo que subia agora pela escada de seu esqueleto escapar de dentro dela eles
atirariam; então, Rosa pegou o xale de Magda e enfiou-o na boca, enfiou
e enfiou até engolir o berro de lobo e sentir o gosto de canela e amêndoa
da saliva de Magda; e Rosa bebeu o xale de Magda até ele secar. |