Macho
Não Ganha Flor, de Dalton Trevisan (Record; 128 páginas;
24,90 reais) Dalton Trevisan diz que o conto deve ser "pequeno e preciso
como uma picada de agulha". É uma boa definição para a literatura
do escritor curitibano, sempre enxuta e visceral. Os 22 contos dessa nova coletânea
seguem a sua receita de sempre, sem perder a contundência: temas violentos,
diálogos ágeis e um erotismo que não faz concessões
à correção política. Muitos dos personagens do livro
são marginais traficantes, criminosos, ladrões e vagabundos,
retratados sem um pingo de sentimentalismo. O conto que dá título
ao livro, por exemplo, narra uma tentativa de estupro, que só não
se consuma porque o criminoso sofre de impotência.
Leia
trecho Olha
que tarde gloriosa de sol. O vento belisca de leve a cortina do quarto. Lá
fora uma corruíra canta alegrinha. No teu peito essa outra acorda e já
responde. Minha irmã
e a mãe faziam compras. Afinal sozinha, a casa inteira para mim. De roupão,
antes de entrar no banho, dava os últimos retoques diante do espelho. De
repente, com susto, senti que não estava só. Um cheiro no ar? Um
estalido no soalho? Uma sombra no canto do olho? Pronto!
Aquela mão suada me tapou a boca. E a outra afogava o pescoço. — Não
grite! Nem um pio. Que eu te mato! Me
empurrou contra a parede. Abriu com violência o roupão. — Oba! Ai
de mim, apenas calcinha e sutiã. Daí ele começou a fazer
coisas. Me beijou o
rosto, o pescoço, um seio e outro. Ui, que nojo. Gemendo, se esfregava
no meu corpo. Todo
vestido. Só abriu o zíper da calça. — Faça
tudo o que eu mandar. Bem quietinha. Sem
aliviar a mão esquerda no meu pescoço. — Já
matei uma. Não me custa apagar outra! E
arrancou o meu roupão. Tentei correr para a porta. Me sacudiu pelo cabelo
e esfregou a cara na parede. — Quer
morrer, sua vadia? Era
o bafo podre da morte. O corpo não parava quieto, tanto que eu tremia.
O coração me batia aos saltos no joelho. Em
desespero, chorava e soluçava baixinho. Tão assustada, nem me defendia.
Sem força de erguer os braços. Daí
percebi que ele tentava, mas não conseguia. Acho que eu estava muito nervosa
e chorando sem parar. Ele beijava e chupava ora um seio, ora outro. Me corria
a mão boba pelo corpo. — Não
sabe que deve lutar? Por que não se defende como as outras? Ele
que não sabia: essa carne, com fúria manuseada, já não
era a minha. Para não enlouquecer, de tamanho horror, me desligara do próprio
corpo. Aquele pobre objeto seminu pertencia a outra. A
minha querida boneca, ela sim a melhor amiga, chorando com olhinho de vidro ao
meu lado — e não eu, não eu —, que era desfrutada
pelo monstro. Me xingava
de piranha e cadela. Mandava eu calar a boca, assim ele não conseguia. — Abra
o olho. Não pisque. Feche o olho. Que porra. É o mesmo olho azul
de minha mãe. Daí
eu pedi e supliquei. Em nome da santa mãezinha dele. Não me fizesse
mal. — Ela está
me olhando com a tua cara! Podia
levar tudo de valor na casa. Pelo amor de Deus, me deixasse em paz. Era noiva
e ia casar em três meses. Ao
falar que estava noiva ele assanhado começou tudo de novo. — Aposto
que é muito safadinha, né? Não transa com teu noivo? O que
você faz com ele? Fala, sua vadia! Ah,
não fala? Que ficasse de joelho. Outra vez, de pé. Sentada. Deitada.
De costas. Pernas fechadas. E abertas. Bem abertas. E
nada. Cada vez mais
irritado. E mais gago. A culpada era eu. Que só chorava. E só sabia
tremer. Que porra. — Não
aprendeu nada? Não trepa com teu noivo? É boiola, por acaso? Esse
viadão, ele bem podia avisá-lo: eu era imprestável. Mais
fria que uma puta velha. Se, ao menos, estivesse vestida. Gostava mesmo era de
arrancar a tua roupa. Rebentar. Rasgar. Assim, quase nua, calcinha muito sem graça,
não lhe agradava. Disse
que todas choram. Mas eu era a pior. Se a mulher soubesse a bruxa que fica, nunca
mais chorava. Grande merda. Chegou
a mandar que botasse uma saia e blusa. Sapato de salto alto. Ou, melhor, um vestido.
Vermelho, se tivesse. Então
olhou o relógio. E desistiu. Porra. E mais porra. — Que
tanto chora e treme e se desespera? O que tem de mais? Pensa que é a primeira?
E a única? Nem é tão ruim assim. Algumas bem que gostam.
Uma ruiva, quando eu saía, pediu que voltasse. E quis me dar uma rosa ou
cravo, sei lá. Ofendido
e gaguejando. — Mas
eu avisei: "Macho não ganha flor." Me
olhou de soslaio. — O
que eu quero... Enxugava
a cara molhada de suor — e sem tirar o óculo escuro. — ...vou
lá e me sirvo. Jogou
a toalha num canto. — Ah,
se eu tivesse tempo. Porra. Já te ensinava o que é bom. Porra. Uma
hora tinha se passado. Uma hora que, no relógio parado da memória,
se repetiria em mil horas inteiras de tortura e terror. E pelo resto da vida quantas
vezes seria eu, indefesa no sonho, o pasto de tal bicho espumante de raiva? Afinal
ele parava de tentar. E fechou o zíper da calça. Já
não me olhava de frente. Acho que com vergonha, já pensou? Porque
nada tinha conseguido. — Agora
te deixo aqui pelada. Chutando
o roupão debaixo da cama. — Você
desta vez se livrou. Ressentido
e com ódio. — Só
porque é uma vadia de olho azul. Como aquela outra. Recolheu
no chão a sua velha mochila. — Senta
aí na cama. Não se mexa daí. Até eu bater a porta.
Senão eu volto. E será pior pra você. Ouviu, sua puta? Foi
catando na penteadeira o meu relógio de pulso, o celular, o cartão
do banco. E, no estojinho azul de porcelana — ai, não —, até umas
pobres jóias que a avó deixou. Antes
de sair, espiou em volta. — Me
dá a calcinha. Que
desgracido. Colheu
a última peça. Macho não ganha flor. Se olhou demorado no
espelho. Ainda surpreso e incrédulo, gaguejante. — Que
porra. Isso nunca me aconteceu! Ajeitou
o óculo escuro e o boné vermelho. Gostou do que viu. O que eu quero,
vou lá e me sirvo. E
lá se foi. Tremendo
e chorando, me vesti todinha. Mas não deixei o quarto. Ali sentada, chorando
e tremendo, até a volta de minha mãe. Nunca
mais ela esqueceu de fechar a porta. Com dois giros na chave. Cada
dia a gente notava a falta de algum objeto. Mas isso era o de menos. Mudamos
de bairro. Fiz tratamento com uma terapeuta. Tomei tranqüilizante e antidepressivo.
Dois a três comprimidos por dia, mas pouco adiantou. Uma
vez engoli um punhado deles. Não foi o bastante. Só dormi uma noite
e um dia inteiro. Na
mesma cama, do olhinho de vidro escorrendo uma lágrima azul, essa boneca
toda em cacos. O noivo,
que me adora, apoiou sem reserva. Ao meu lado no desespero e no horror. Não
perdeu a esperança. E me salvou de mim mesma. Seis
meses depois, casamos. Deve
ser problema meu, sei lá. O nosso relacionamento não está
dando certo. |