Terroristas
do Milênio,
de J.G. Ballard (tradução de Celso Nogueira; Companhia das Letras;
328 páginas; 44 reais) O profissional liberal, com escritório,
casa própria e filhos na escola, dificilmente seria um candidato típico
a ser recrutado por movimentos terroristas a não ser na imaginação
delirante do escritor britânico (nascido na China) J.G. Ballard. Admirado
por autores como Martin Amis e Anthony Burgess, o autor de Crash é
um mestre na criação de versões extremas e doentias da sociedade
moderna. Em Terroristas do Milênio, o autor apresenta o médico
pediatra Richard Gould, um visionário louco que inspira uma violenta revolução
conduzida pela classe média. Com direito até a barricadas nas ruas
feitas com os carros de luxo desses inusitados terroristas.
Leia
trecho 1.
Rebelião na Marina Chelsea Estava
acontecendo uma pequena revolução, tão modesta e bem-comportada
que praticamente ninguém notou. Como o visitante de um cenário cinematográfico
abandonado, parei na entrada da Marina Chelsea ouvindo o barulho do trânsito
matinal na King’s Road, aquela reconfortante balbúrdia do rádio
dos carros e da sirene das ambulâncias. Para lá do portão
se estendiam as ruas do condomínio abandonado, uma visão apocalíptica
desprovida de trilha sonora. Faixas de protesto pendiam dos terraços. Contei
uma dúzia de carros virados e pelo menos duas casas totalmente queimadas. Apesar
de tudo os passantes que cruzavam comigo iam às compras sem demonstrar
a mínima preocupação. Parecia que outra festa na Chelsea
escapara do controle, e os convidados estavam bêbados demais para perceber.
Em certo sentido, pura verdade. A maior parte dos rebeldes e mesmo alguns líderes
locais jamais compreenderam o que estava acontecendo no confortável enclave.
Não admirava, pois aqueles revolucionários afáveis e bem-educados
se rebelavam contra si mesmos. Até
eu, David Markham, psicólogo experiente infiltrado na Marina Chelsea como
espião da polícia — um logro que eu seria o último a descobrir
— deixei de perceber o que ocorria. Mas a inusitada amizade com Richard Gould,
dedicado pediatra e líder da revolta, desviava minha atenção.
Ele era o doutor Moreau do condomínio, como Kay Churchill, nossa amante
compartilhada, o apelidara. Pouco depois de nosso primeiro encontro, Richard perdera
o interesse pela Marina Chelsea, avançando para uma revolução
muito mais radical, que ele sabia estar bem de acordo com meu temperamento. Aproximei-me
do cordão de isolamento que impedia o acesso ao condomínio pela
King’s Road e mostrei meu passe aos dois policiais que aguardavam a chegada do
ministro do Interior. O motorista da van da floricultura discutia com eles, apontando
para um gigantesco ramalhete de copos-de-leite sobre o banco do passageiro. Deduzi
que um morador local, advogado ou contador bem-sucedido, estivera tão ocupado
com a revolução que se esquecera de cancelar a encomenda das flores
para a esposa aniversariante. Os
guardas se mostraram inflexíveis, recusando ao motorista permissão
para entrar no condomínio. Intuíam que algo profundamente suspeito
ocorrera naquela comunidade que antes respeitava a lei, um evento que exigia a
presença de um ministro de Estado e sua comitiva de sumidades. Os visitantes
— consultores do Ministério do Interior, religiosos consternados, psicólogos
como eu e assistentes sociais respeitados — iniciariam a visita ao meio-dia, dentro
de uma hora. Não haveria policiais armados para nos proteger, pressupunham
compreensivelmente que uma classe média rebelada era cordata demais para
representar uma ameaça física. Mas, como eu bem sabia, a ameaça
seria exatamente física. As
aparências enganam e confirmam qualquer coisa. Os policiais gesticularam,
autorizando minha passagem. Mal olharam para o passe. Tendo sido provocados durante
semanas por mães de família articuladas em jeans esfarrapados, sabiam
que meu corte de cabelo na moda, cortesia da equipe de maquiagem da bbc, terno
cinza-escuro e bronzeamento artificial excluíam minha pessoa da tribo da
Marina Chelsea. Os residentes prefeririam morrer a parecerem um guru televisivo
de pouca audiência, um intelectual renegado que vivia no mundo duvidoso
das videoconferências e seminários de aeroporto. Mas
o terno não passava de um disfarce, eu o usava pela primeira vez em seis
meses, após jogar no lixo o paletó de couro gasto e a calça
jeans. Saltei sem dificuldade por cima do cordão de isolamento, muito mais
em forma do que os policiais imaginavam. As "ações terroristas",
como o ministro do Interior as definira, em pouco tempo haviam enrijecido o corpo
flácido, conseqüência de anos em saguões de hotel e salas
de embarque. Até minha mulher, Sally, sempre tolerante, nunca surpresa,
se impressionara com os braços musculosos, ao contar marcas deixadas pelos
confrontos com a polícia e os guardas de segurança. Mas
um disfarce pode ir longe demais. Ao ver meu reflexo nas janelas quebradas da
guarita, afrouxei o nó da gravata. Ainda não sabia direito que papel
eu desempenhava. Richard Gould e eu éramos vistos juntos com muita freqüência,
e os policiais deveriam me reconhecer como principal cúmplice daquele terrorista
procurado. Quando acenei para eles, deram-me as costas, observando a King’s Road
em busca da limusine do ministro do Interior. Senti uma pontada de desapontamento.
Por alguns segundos desejei que me interpelassem. À
minha frente estendia-se a Marina Chelsea, com ruas desertas como nunca acontecera
nos vinte anos de sua existência. A população inteira sumira,
deixando uma zona de silêncio, como se ali houvesse uma reserva ambiental
urbana. Oitocentas famílias haviam partido, abandonando cozinhas confortáveis,
hortas de ervas e salas cheias de livros. Deram as costas a si mesmos e a tudo
em que um dia acreditaram, sem o menor remorso. Para
lá dos telhados ouvia-se o ruído do trânsito da zona oeste
de Londres, que se atenuava conforme eu percorria a Beaufort Avenue, principal
via do bairro. A vasta metrópole que cercava a Marina Chelsea ainda prendia
o fôlego. Ali principiara a revolução da classe média,
não a insurreição de um proletariado desesperado, mas a rebelião
de profissionais liberais instruídos que constituíam quilha e âncora
da sociedade. Naquelas ruas plácidas, cenário de incontáveis
jantares festivos, cirurgiões e corretores de seguros, arquitetos e gerentes
de planos de saúde haviam erguido barricadas e virado seus próprios
carros para bloquear a passagem dos carros de bombeiros e equipes de resgate que
tentavam salvá-los. Recusaram oferta de ajuda, negando-se a manifestar
suas queixas, e até mesmo a revelar se tinham alguma queixa, afinal de
contas. Os
negociadores do cerco enviados pela subprefeitura de Kensington e Chelsea foram
recebidos inicialmente com silêncio, depois com zombarias e por fim com
coquetéis molotov. Por razões que ninguém entendia, os moradores
da Marina Chelsea iniciaram o desmanche de seu mundo classe-média. Fizeram
fogueiras com livros e quadros, brinquedos educativos e vídeos. O noticiário
televisivo mostrava famílias de braços dados, rodeadas de carros
tombados, rostos orgulhosos iluminados pelas labaredas. Passei
por um bmw calcinado, virado de rodas para cima junto ao meio-fio, e parei para
observar o tanque de combustível retorcido. Um avião de passageiros
sobrevoou a região central de Londres e centenas de janelas quebradas tremeram
por causa da vibração das turbinas, como se liberassem o restinho
da raiva. Curiosamente, os condôminos que destruíram a Marina Chelsea
não demonstraram sentir raiva de nada. Descartaram calmamente seu mundo,
como se estivessem pondo o lixo para fora. Aquela
placidez sinistra e a indiferença dos residentes em relação
aos gigantescos encargos financeiros que teriam de pagar, ainda mais preocupantes,
provocaram a visita do ministro do Interior. Henry Kendall, meu colega no Instituto,
tinha contatos estreitos com o Ministério do Interior e informou que outros
pontos de inquietação da classe média começavam a
pipocar em subúrbios abastados de Guildford, Leeds e Manchester. Por toda
a Inglaterra uma casta inteira de profissionais formados em curso superior estava
rejeitando tudo o que trabalhara duro para conquistar. Observei
o avião passar pelo céu de Fulham e se perder entre as vigas expostas
do telhado de uma casa queimada no final da Beaufort Avenue. A diretora de uma
escola local e seu marido médico, proprietários do imóvel,
haviam abandonado a Marina Chelsea levando três filhos. Resistiram até
os últimos minutos e sucumbiram à tropa de choque da polícia.
Pertenciam à vanguarda da rebelião, decididos a desmascarar a injustiça
descarada que comandava sua vida. Imaginei-os a percorrer indefinidamente a m25
no Land Rover enlameado, absortos num transe profundo. Para
onde teriam ido? Muitos moradores refugiaram-se em seus chalés no campo
ou procuraram amigos que apoiavam a luta com alimentos e e-mails encorajadores.
Outros partiram para viagens indefinidas pelo distrito dos Lagos ou pelas Terras
Altas da Escócia. Rebocavam trailers, formando a vanguarda de uma classe
média itinerante, de uma nova tribo de ciganos com diploma universitário
que conhecia a lei e poderia dar muitas dores de cabeça às prefeituras
locais. Kay
Churchill, docente de estudos cinematográficos na universidade South Bank
e minha senhoria, fora detida pela polícia e solta sob fiança. Sempre
a proclamar a revolução, ela se refugiou num programa vespertino
de tevê a cabo. A casa lotada porém confortável, cheia de
sofás puídos e fotos de filmes, sofrera uma inundação
pelas potentes mangueiras do corpo de bombeiros de Chelsea. Sentia
falta de Kay e sua cabeleira grisalha, opinião errática e vinho
a fluir incessante, mas a casa dela, abandonada, era o álibi para chegar
lá uma hora antes do ministro do Interior. Torcia para encontrar meu laptop
ainda em cima da mesa de centro, na sala de Kay, onde havíamos estendido
os mapas e planejado os ataques incendiários ao National Film Theater e
ao Albert Hall. Durante os instantes finais da revolta, quando os helicópteros
sobrevoavam a área, Kay empenhara-se tanto em converter o bem-apessoado
chefe dos bombeiros para a causa que sobrou tempo para os subordinados romperem
os vidros com os jatos de água. Um vizinho tirara Kay da casa, mas o laptop
permanecia lá à espera dos especialistas da polícia científica. Cheguei
ao fim da Beaufort Avenue, ao silencioso centro da Marina Chelsea. Um prédio
de apartamentos com sete andares erguia-se ao lado de Cadogan Circle; faixas pendiam
frouxas dos terraços, proclamando seus slogans para o ar mouco. Atravessei
a rua, no rumo de Grosvenor Place, o famigerado beco de Kay cujo nome lembrava
uma Chelsea antiga, diferente. A ruazinha abrigara um comerciante de antiguidades
que acabou preso, dois casais de lésbicas e um piloto de Concorde alcoólatra.
Era um paraíso em matéria de bom divertimento e más companhias. Caminhei
na direção da caótica casa de Kay, escutando meus passos
estalarem atrás de mim, ecos de uma culpa que tentava fugir de cena, embora
só se aproximasse ainda mais. Distraído pela visão de tantas
casas vazias, tropecei no meio-fio e me apoiei numa caçamba lotada de objetos
domésticos. Os revolucionários, sempre gentis com seus vizinhos,
haviam encomendado uma dúzia de caçambas gigantescas na semana anterior
ao levante. Havia
um Volvo incendiado na rua, mas as regras continuavam valendo e o empurraram até
uma vaga. Os rebeldes haviam feito a faxina, após a revolução.
Quase todos os carros foram desvirados e as chaves estavam no contato, à
espera da retomada pelo banco financiador. A
caçamba estava cheia de livros, raquetes de tênis, brinquedos infantis
e um par de esquis chamuscados. Ao lado de um blazer escolar com monograma queimado
havia um terno de pura lã, o uniforme diário do executivo de médio
escalão. Jogado no meio do lixo, parecia a farda gasta de um soldado que
largara o fuzil e fugira para as montanhas. O terno era estranhamente vulnerável,
como a bandeira abandonada de uma civilização inteira, e eu torci
para que um dos assessores do ministro do Interior mostrasse isso a ele. Tentei
pensar numa resposta, se me pedissem para comentar a cena. Como membro do Instituto
Adler, especializado em relações industriais e psicologia do trabalho,
eu era uma suposta autoridade em vida emocional no serviço e problemas
mentais dos gerentes médios. Mesmo assim, era difícil encontrar
uma explicação satisfatória para o terno. Kay
Churchill saberia como responder. Enquanto pulava as poças d’água
na parte de fora da casa eu ouvia sua voz dentro da minha cabeça: intimidando,
implorando, sensata e absolutamente insana. A classe média era o novo proletariado,
vítima de uma conspiração que durava séculos, e afinal
rompera os grilhões do dever e da responsabilidade social. Daquela
vez a resposta absurda era provavelmente a correta. Os
bombeiros haviam inundado a casa para evitar que Kay a incendiasse. A água
ainda pingava das vigas, uma fina névoa saía dos tijolos. A sala
contínua tornara-se uma gruta marinha, a umidade escorria pelo forro rachado,
as paredes mais pareciam tapeçarias molhadas. Parei entre os cartazes de
Ozu e Bresson, quase esperava ver Kay surgir na cozinha com dois copos e uma garrafa
de vinho, presente de um admirador, a insistir em que a batalha fora vencida. Kay
partira mas seu mundo animado e dissoluto permanecia a postos — em recados de
Post-it grudados no espelho, em cima da lareira, convites para conferências
feitos por grupos anarquistas e a coleção de pedras brancas no consolo
da lareira. Cada pedregulho, contara, era a recordação de um amor
de verão numa praia grega. Gotículas cobriam a foto da filha no
porta-retrato, uma adolescente que vivia na Austrália, tirada nas derradeiras
férias antes de a guarda dela passar ao marido. Kay seguira em frente,
sustentando que a lembrança era uma armadilha dourada, restos do vinho
da noite anterior num copo sujo de batom, mas eu a surpreendi mais de uma vez
a enxugar lágrimas da foto emoldurada que segurava junto ao peito. O
sofá onde Kay e eu cochilávamos juntos era um monte ensopado. Mas
meu laptop continuava em cima da pilha de revistas e roteiros cinematográficos.
O disco rígido continha provas mais que suficientes para me condenar como
cúmplice de Richard Gould. Havia listas de locadoras de vídeo a
incendiar, agências de viagem a atacar, galerias e museus a sabotar, bem
como as equipes de residentes destacadas para cada ação. Para impressionar
Kay eu havia acrescentado notas sobre os estragos causados, ferimentos nos participantes
e prováveis pedidos de compensação ao seguro. Ao digitar
esses detalhes desnecessários, com o braço de Kay quente em volta
dos meus ombros, eu me sentia como quem desenrolava um tapete que me levaria direto
para uma cela no presídio. Pensando
carinhosamente em Kay, estendi a mão para ajeitar o retrato da filha. Um
caco de vidro caiu da moldura e cortou a palma da minha mão, secionando
levemente a linha da vida. Ao olhar a mancha brilhante, enquanto procurava o lenço,
eu me dei conta de que aquele fora o único sangue derramado por mim na
Marina Chelsea durante a rebelião inteira. Fechei
a porta ao passar com o laptop debaixo do braço. Olhei para as almofadas
da porta de madeira pela última vez e vi, no esmalte liso, uma janela se
mover e refletir a luz do sol. Uma folha de janela balançava no apartamento
de cobertura do prédio de apartamentos ao lado de Cadogan Circle. Inesperadamente
uma mão estendida limpou os vidros, sacudiu o pano de pó e se retirou. Desci
à rua e segui no rumo dos apartamentos, passando por um Saab queimado em
sua vaga definitiva. Os sem-teto iam invadir a Marina Chelsea, deixando de lado
as drogas leves e os colchões duros? Estariam prontos para adotar um novo
estilo de vida, para encarar mensalidades escolares e faxineiras brasileiras?
Aulas de balé e planos de saúde da bupa? Nossa revolução
acanhada entraria para o calendário folclórico, para ser celebrada
ao lado do baile de formatura e do torneio de tênis em Wimbledon. Apertei
o botão do elevador no hall do prédio de apartamentos, mantendo
o lenço pressionado contra a palma da mão. Decepcionado, lembrei-me
de que a energia fora cortada na Marina Chelsea inteira. Subi pela escada, parando
para descansar a cada pavimento, rodeado pelas portas abertas dos apartamentos
abandonados, como um ator em busca do palco certo. Sentia a cabeça girar
quando cheguei ao último andar. Sem pensar, empurrei a porta destrancada
e olhei através da sala para a janela que balançara, refletindo
o raio de sol. Uma
moradora do terceiro andar do mesmo prédio, Vera Blackburn, trabalhara
no governo como cientista e era amiga íntima de Kay Churchill. Pelo que
me lembro, a cobertura pertencia a uma jovem oculista e a seu marido. As janelas
na sala permitiam uma visão clara da Marina Chelsea, pois davam para a
Beaufort Avenue, caminho que o ministro do Interior faria em sua visita de inspeção. Pulei
uma mala abandonada e entrei na sala. Havia uma sacola de lona azul em cima da
mesa, na lateral vi o símbolo da Polícia Metropolitana, era parte
do equipamento utilizado para controle de distúrbios. Dentro haveria armas
com balas de borracha, gás lacrimogêneo e bastões eletrificados
com os quais a polícia se defendia dos inimigos incansáveis que
a rodeavam. O
laptop pesava cada vez mais em minha mão, num sinal de alerta indireto.
Ouvi vozes de duas pessoas no cômodo adjacente, o tom áspero mas
contido de uma voz masculina e a resposta aguda de uma mulher. Presumi que um
policial e sua colega vigiavam o trajeto do ministro do Interior. Metódicos
convictos, haviam limpado a janela para ver melhor o ministro de Estado passear
rodeado de conselheiros que aquiesciam com a cabeça. Ao me encontrar em
seu posto de observação presumiriam o pior, e sem perda de tempo
deduziriam que o laptop de um psicólogo era uma arma potencialmente mortífera. Tentei
não tropeçar na mala ao recuar para a porta, notando os quadros
de oculista pregados na parede, acima da escrivaninha, com seus círculos
feito alvos e linhas de letras sem sentido, que mais pareciam mensagens em código. A
porta do quarto se abriu e um homem distraído de terno gasto entrou na
sala. O sol bateu nele por trás, mas pude ver sua face subnutrida e o tufo
claro no alto da cabeça. Ele notou minha presença, mas parecia entretido
com seus próprios problemas, como se eu fosse um paciente que aparecesse
em seu consultório sem marcar hora. Olhou pela janela, para a rua deserta
com suas casas chamuscadas; tinha a expressão cansada de um médico
sobrecarregado tentando exercer sua atividade num subúrbio devastado pela
guerra, no Oriente Médio. Por
fim dirigiu-se a mim, sorridente, numa súbita demonstração
de calor humano. "David?
Entre. Estávamos todos esperando por você." Contraditoriamente,
percebi que estava ansioso para encontrá-lo. |