Os
Livros e os Dias, de
Alberto Manguel (tradução de José Geraldo Couto; Companhia
das Letras; 216 páginas; 38 reais) Autor do excelente Uma História
da Leitura, o argentino naturalizado canadense Alberto Manguel dedicou-se,
nesse novo livro, a falar de sua própria experiência como leitor.
Os Livros e os Dias é uma bem realizada mistura de memória
e crítica literária. Trata-se de um diário de leitura no
qual os livros são evocados contra o pano de fundo dos fatos cotidianos.
Um exemplo: Manguel relê A Invenção de Morel, romance
fantástico do argentino Adolfo Bioy Casares, em sua primeira visita ao
país natal depois da arrasadora crise econômica do fim de 2001. Esses
passeios literários percorrem doze livros, um para cada mês do ano
de obras clássicas de Goethe e Machado de Assis à ficção
científica de H.G. Wells.
Leia
trecho A
invenção de Morel Sábado Faz
pouco mais de um ano que estamos em nossa casa na França e eu já
tenho de partir para visitar minha família em Buenos Aires. Não
quero ir. Quero desfrutar a aldeia no verão, o jardim, a casa mantida fresca
pelas espessas paredes antigas. Quero acomodar os livros nas estantes que acabamos
de construir. Quero me sentar no escritório e trabalhar. No
avião, apanho um exemplar de A invenção de Morel,
de Adolfo Bioy Casares: o relato de um homem encalhado numa praia aparentemente
habitada por fantasmas, um livro que li pela primeira vez há trinta ou
35 anos. É
a minha primeira visita a Buenos Aires desde a crise de dezembro de 2001, que
desatrelou o peso argentino do dólar, levou a economia ao colapso e arruinou
a vida de milhares de pessoas. No centro da cidade, não há sinais
visíveis do desastre, exceto pelo fato de que, pouco antes do anoitecer,
as ruas se enchem de hordas de cartoneros — homens, mulheres e crianças
que, para sobreviver, recolhem o lixo reciclável nas calçadas. Talvez
as crises, em sua maioria, sejam invisíveis: não são acompanhadas
de eventos comoventes que nos ajudem a enxergar a devastação. Lojas
fecham, pessoas parecem abatidas, os preços disparam, mas de modo geral
a vida continua: os restaurantes estão cheios, as lojas ainda oferecem
caros artigos importados (embora eu ouça por acaso uma mulher reclamando:
"Não encontro aceto balsámico em lugar nenhum!"),
a cidade se agita ruidosamente até bem depois da meia-noite. Turista numa
cidade que já foi minha, não vejo as favelas crescentes, os hospitais
desabastecidos, as falências, a classe média que engrossa a fila
da sopa dos pobres. Meu
irmão quer comprar para mim uma nova gravação do Magnificat
de Bach. Ele pára em cinco caixas eletrônicos até que
um deles consente em liberar umas poucas notas. O que fará quando não
conseguir encontrar uma máquina prestativa? Sempre haverá pelo menos
uma, diz ele, com uma confiança mágica. A
invenção de Morel começa com uma frase agora famosa na
literatura argentina: "Hoje, nesta ilha, aconteceu um milagre". Os milagres
na Argentina parecem ser cotidianos. O narrador de Bioy Casares: "Aqui não
há alucinações nem imagens: há homens verdadeiros,
pelo menos tão verdadeiros quanto eu". Picasso
costumava dizer que tudo era um milagre, e que era um milagre que uma pessoa não
se dissolvesse no próprio banho. Mais
tarde Passo
caminhando diante do apartamento de Bioy Casares, perto do cemitério da
Recoleta, onde as famílias de sangue azul da Argentina jazem sepultadas
em mausoléus adornados, encimados por anjos chorosos e colunas despedaçadas.
Bioy Casares, cujos romances (mesmo quando ambientados em ilhas distantes ou em
outras cidades) registram a atmosfera fantasmagórica da cidade onde sempre
viveu, não gostava da Recoleta; achava absurdo que alguém persistisse
em ser esnobe depois da morte. Vejo
Buenos Aires agora como um lugar espectral. Gombrowicz, que chegou a esta cidade
vindo da Polônia no final dos anos 30 e partiu 24 anos depois, escreveu
no navio que o levava embora para sempre: "Argentina! Em meus sonhos, com
olhos semicerrados, eu a procuro mais uma vez dentro de mim mesmo — com toda a
minha força. Argentina! É tão estranho, e tudo o que quero
saber é isto: por que nunca senti esta paixão pela Argentina quando
estava na Argentina? Por que ela me assalta agora, quando estou distante?".
Compreendo sua perplexidade. Como uma antiga cidade em ruínas, ela nos
assombra à distância. Aqui o passado está presente em camadas,
geração após geração de fantasmas: as pessoas
da minha infância, meus colegas de escola desaparecidos, os sobreviventes
alquebrados. No
Magnificat, o coro sobrepõe incontáveis repetições
de "omnes, omnes generationes", multidão após
multidão de mortos levantando-se para prestar testemunho. Na
própria Buenos Aires, as pessoas não vêem os fantasmas. Elas
parecem viver aqui num estado de insensato otimismo: "Pior não pode
ficar", "Alguma coisa vai acontecer". Remy
de Gourmont (em relação a quem Bioy Casares tinha um débito
não reconhecido): "Devemos ficar felizes, nem que seja só para
o bem do nosso orgulho". Silvia,
minha antiga colega de classe, me conta que em minha escola há uma placa
em homenagem aos estudantes mortos pelos militares. Diz que vou reconhecer diversos
nomes. Domingo Faz
muito tempo que os argentinos se gabam de sua assim chamada viveza criolla
ou esperteza endêmica. Mas essa mentalidade ardilosa é uma faca de
dois gumes. Na literatura, sua encarnação é Ulisses, que
para Homero era um herói sagaz — salvador dos gregos, flagelo de Tróia,
vencedor de Polifemo e das sereias — e para Dante um mentiroso e embusteiro condenado
ao nono círculo do Inferno. Embora nos últimos tempos os argentinos
pareçam ter confirmado a sentença de Dante, eu me pergunto se ainda
é possível retornar à visão homérica e usar
esse perigoso dom para realizar prodígios e superar obstáculos.
Não sou otimista. Em
dezembro passado, concluí um artigo furioso publicado no Le Monde
dizendo que "não há mais Argentina e os bastardos que a destruíram
continuam vivos". Um psicanalista argentino, indignado, comparou minha conclusão
à dos banqueiros europeus e americanos que rejeitavam toda a culpa pela
ruína do país e viam nela uma espécie de castigo justo à
arrogância argentina. Uma comparação tão vazia talvez
se deva à inaptidão do próprio psicanalista (como a de muitos
de seus conterrâneos) para aceitar o fato de que, se algo deve mudar, o
país precisa se redefinir e, acima de tudo, estabelecer um sistema de justiça
irrepreensível. Noite A
experiência da vida cotidiana é negada pelo que queremos que ela
seja, pelo que esperamos que ela de fato seja. O
narrador sem nome do romance de Bioy Casares está em fuga depois de ter
cometido um crime não especificado, sempre acreditando que mesmo na ilha
distante em que se encontra, perdida em algum lugar do Caribe, "eles"
virão pegá-lo. Ao mesmo tempo, de alguma forma espera por eventos
miraculosos: salvação, comida, apaixonar-se. De dentro do personagem,
fuga e fantasia são coerentes; olhando de fora, é como observar
o desdobramento de uma louca realidade dupla, bifronte e contraditória. A
realidade física da ilha confirma as impressões de pesadelo do narrador,
só que filtradas pelos olhos do próprio narrador. Sento-me num café.
O café é servido com pacotinhos de açúcar que estampam
o rosto de personagens famosos do século xx. Posso escolher entre Chaplin
e Mandela. Alguém deixou na bandeja um Che Guevara vazio. Mais tarde, passo
diante de uma loja de massas frescas chamada La Sonámbula. A vitrine de
uma loja de roupas está vazia, exceto por um grande letreiro: todo debe
desaparecer — "Tudo deve desaparecer". Do lado de fora de uma farmácia,
uma mulher com uma receita médica na mão pede aos que entram que
comprem o remédio de que ela necessita, pois não tem dinheiro. O
narrador de Bioy Casares foi alertado para não tentar alcançar a
ilha por causa de uma doença misteriosa que (segundo os rumores) infecta
a todos os que nela desembarcam, matando "de fora para dentro". As unhas
e os cabelos caem, a pele e as córneas morrem, e o corpo ainda sobrevive
de oito a quinze dias. A superfície morre antes do núcleo. As pessoas
que ele vê são, evidentemente, apenas superfície. Mas
por que manter um diário? Por que colocar no papel todas essas anotações?
O misterioso senhor da ilha, Morel, explica suas razões para manter um
registro de suas lembranças: "Dar perpétua realidade a minha
fantasia sentimental". Sinto
falta do meu novo jardim na França, das minhas paredes novas. Segunda-feira Bioy
Casares — o aristocrático, o intelectual, o conquistador de mulheres Bioy
Casares — descreve ou antevê o mundo da vítima comum: uma vítima
literária, obviamente, perseguida por infortúnios literários.
Um amigo cubano me disse uma vez que, em Cuba, Bioy Casares é lido como
um fabulista político; suas histórias são vistas como denúncias
das condenações injustas, das perseguições, do destino
dos exilados e refugiados. "Demonstrarei que o mundo, com o aperfeiçoamento
das polícias, dos documentos de identidade, do jornalismo, da radiotelefonia,
das alfândegas, torna irreparável qualquer erro da justiça,
é um inferno unânime para os perseguidos." O tom (as palavras
são ditas pelo narrador) pretendia ser de autopiedade; hoje ele soa documental.
Eu me pergunto se Bioy Casares teria pensado nessa leitura, logo ele que considerava
o rótulo écrivain engagé um insulto terrível. Em
A invenção de Morel, tudo é dito de modo hesitante.
O velho truque: a verossimilhança na ficção é obtida
mediante uma fingida falta de certeza. Meio-dia Encontrei
Silvia no La Puerto Rico, o café que meus amigos e eu freqüentávamos
quando estávamos no colégio. O lugar não mudou: as paredes
forradas de madeira, as mesas redondas com tampo de pedra cinzenta, as cadeiras
duras, o cheiro de café torrado, talvez até os mesmos garçons,
de idade indefinida, trajando aventais brancos manchados. Mais fantasmas, estudando
para as provas naquela mesa, esperando por um amigo naquela outra, fazendo planos
para um acampamento de verão naquela mais distante — todos agora desaparecidos,
mortos, perdidos. No
casarão de Morel, que ele chama de museu, a biblioteca contém (com
uma exceção) apenas livros de ficção: romances, poesia,
teatro. Nada "real". O
leitor de língua inglesa ainda não descobriu as obras de Bioy Casares.
Embora tenham sido publicados nos Estados Unidos, seus livros não são
lidos, e o primeiro (e talvez o único) romance de sua autoria publicado
na Inglaterra foi O sonho dos heróis, em 1986. A ignorância
do leitor de língua inglesa nunca deixa de me espantar. Terça-feira As
bancas de revistas estão cheias de publicações coloridas
que rastreiam a vida dos ricos e famosos com uma banalidade exultante. A vida
continua. Alfred Döblin, de volta a Baden-Baden depois da guerra, termina
seu diário do exílio e comenta a respeito de seus compatriotas alemães:
"Eles ainda não perceberam o que foi que experimentaram". Minha
irmã, que é psicanalista e uma das pessoas mais inteligentes que
conheço, me diz que quase todos os seus pacientes estão passando
por uma crise. Mas há também o ressurgimento do impulso criativo:
dúzias de novas revistas literárias e políticas apareceram,
e o teatro e o cinema ganharam vida nova. A ruína do país gerou
misteriosamente uma atmosfera palpável de criatividade, como se artistas
e escritores tivessem decidido de repente fazer surgir das cinzas aquilo que lhes
foi roubado. Morel
me faz lembrar certos personagens (Gloria Swanson em Crepúsculo
dos deuses ou a filha fiel de Autobiography of a Princess, de Merchant-Ivory)
que gastavam seus dias vendo o passado ganhar vida numa tela. O tema do ser amado
evocado como uma imagem projetada aparece pela primeira vez, até onde eu
sei, num romance de 1892 de Jules Verne, O castelo dos cárpatos
(que, de acordo com Gavin Ewart, inspirou Drácula de Bram Stoker).
Na versão de Verne, o excêntrico barão Gortz traz de volta
à vida a bela cantora de ópera Stilla, que morreu no meio de seu
espetáculo de despedida e por quem ele nutria uma paixão duradoura
e obsessiva. No final, revela-se que o que o barão recriou não foi
a carne e o sangue dela, mas tão-somente sua imagem capturada numa placa
de vidro, e sua voz captada numa gravação. (Agora
me lembro de um exemplo anterior: as sombras na caverna de Platão.) Bioy
Casares segue os preceitos do romance de detetive: não esconder nada desde
o início, não revelar nada até o último momento possível.
(Ainda que, em A invenção de Morel, a revelação
seja fornecida quase exatamente no meio do romance.) As
imagens projetadas de personagens do passado de Morel repetem conversas pré-gravadas.
Numa delas (ouvida pelo narrador), Morel propõe a imortalidade como tema.
Uma pista falsa, uma vez que a imortalidade não é mera persistência.
Vem-me à lembrança a nomenclatura clínica para a incapacidade
de esquecer: "perseverança da memória". Proust:
"Tudo deve retornar, como está escrito na catedral de São Marcos,
e como é proclamado, enquanto bebem dos vasos de mármore e jaspe
nos capitéis bizantinos, pelos pássaros que significam tanto a morte
como a Ressurreição". Tive
uma discussão com Stan Persky sobre a imortalidade. Ele argumenta, contra
os temores dos distópicos, que os avanços científicos nos
darão, se não a vida eterna, pelo menos a possibilidade de um gozo
prolongado do presente. Não tenho tanta certeza; não sei se quero
prosseguir por um tempo muito longo, um tempo que ultrapasse os oitenta ou noventa
anos (já uma pequena eternidade). À medida que começo a vislumbrar
a certeza de um fim, desfruto muito mais as coisas às quais me acostumei
— meus livros, vozes, presenças, gostos e ambientes favoritos — em parte
porque sei que não estarei aqui para sempre. Stan diz que, com um corpo
e uma mente saudáveis, quer alegremente que esta vida continue. Em
seus diários, Bioy Casares relata o funeral da romancista María
Luisa Levinson. Seu corpo estava exposto num caixão coberto provido de
uma pequena janela. Alguém comentou que parecia haver folhas de jornal
cobrindo seu rosto. A filha da escritora explicou que foram colocadas páginas
de diversos jornais dentro do caixão, "de modo que no futuro, quando
o caixão for aberto, as pessoas saibam, pelos obituários, de quem
se tratava". Mais
tarde Tenho
dificuldade em entender como, morando na Buenos Aires da minha infância,
eu não via nada do que estava por vir. Swedenborg diz que as respostas
a nossas perguntas estão dispostas diante de nós, mas que não
as reconhecemos como tais porque temos em mente outras respostas. Vemos apenas
o que esperamos ver. O que esperava eu, então, quando tinha oito, dez,
treze anos? Lembro-me
das longas conversas nos cafés, no quarto de alguém depois da escola,
ou caminhando por tantas ruas. Um humor peculiar permeava toda aquela conversação:
ironia tingida de tristeza, absurdo misturado com gravidade. As pessoas de Buenos
Aires pareciam possuir a capacidade de desfrutar a menor e mais fortuita dádiva,
e de sentir os mais sutis momentos de desgraça. Tinham um senso apaixonado
de curiosidade, um olho aguçado para a noção reveladora e
respeito pela mente inteligente, pelo ato generoso, pela observação
iluminada. Sabiam quem eram no mundo e sentiam orgulho dessa identidade imaginada.
Mais importante: havia em tudo isso a possibilidade de um desabrochar,
de um amadurecimento. Os constrangimentos econômicos e as políticas
que os acompanhavam, impostas pelas companhias estrangeiras que ainda não
eram multinacionais, ditavam muitos dos códigos sociais e, apesar disso
o espírito questionador dos argentinos, sua perspicácia particular,
sua valentia melancólica, garantiram para sua sociedade algo maior e melhor,
que transcendia aquilo que parecia uma sucessão de governos fraudulentos.
Se viesse o infortúnio, como acontece de vez em quando em qualquer lugar
da Terra, ele não duraria muito (acreditavam os argentinos); nosso país
era demasiado rico, demasiado forte, demasiado cheio de promessas para que se
pudesse imaginar um futuro infinitamente desolado. Leopoldo
Lugones, escrevendo em 1916: "Política! Eis o flagelo nacional. Tudo
neste país que representa a regressão, a pobreza, a iniqüidade,
provém dela ou é explorado por ela". Hoje,
no café-da-manhã, meu irmão me diz que "apenas"
10% do sistema judiciário é corrupto. "Evidentemente",
acrescenta ele, "excluindo a Suprema Corte, onde todos os membros são
venais." |