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Junta-Cadáveres, de Juan Carlos Onetti (tradução de Luis Reyes Gil; Planeta; 318 páginas; 39,90 reais) – Um dos maiores nomes da literatura latino-americana do século XX, o uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) criou um universo muito particular em torno da cidade fictícia de Santa María, centro de vários livros seus, inclusive de Junta-Cadávares. O título faz referência ao ex-presidiário Larsen – personagem que também figura em outras obras do escritor –, apelidado de "Junta-Cadáveres" por colecionar casos com prostitutas pobres e decadentes. Larsen chega a Santa María com o sonho alucinado de montar o "prostíbulo perfeito". É claro que esse é um projeto predestinado ao fracasso – mas Onetti quer apontar exatamente para o malogro que existe em todo empreendimento humano.

Leia trecho

Capítulo I

Ofegante e brilhoso, de pernas abertas sobre as emendas do vagão no desvio de Enduro, Junta caminhou pelo corredor para se reunir ao grupo de três mulheres alguns quilômetros antes da chegada do trem a Santa Maria. Sorriu, animador, para as caras inchadas pelo tédio, coradas de calor, bocejos e comentários. O verde dos campos próximos ao rio trazia um tênue frescor às janelinhas empoeiradas.

"Assim que eu contar a elas que estamos chegando vão começar a conversar, a pintar-se, lembram do seu ofício, estão ficando mais feias e velhas, fazem cara de mocinha, baixam os olhos para examinar as mãos. São três e não demorei quinze dias. Barthé tem mais do que merece, ele e toda a cidade, embora talvez riam ao vê-las e continuem rindo durante dias ou semanas. Já não têm quinze anos e estão vestidas de jeito a esfriar o ânimo de um fauno. Mas são gente, são boas, são alegres e sabem trabalhar." — Está faltando pouco — resignou-se a dizer com entusiasmo; bateu no joelho de Maria Bonita e sorriu para as outras duas, para o rosto infantil, redondo, de Irene e para as sobrancelhas amarelas de Nelly, muito altas, retas, desenhadas a cada manhã para coincidir com o desinteresse, a imbecili dade, o nada que podiam oferecer seus olhos. — Imaginei, já era hora — respondeu Maria Bonita. Franziu a boca em direção à janela e teve início a abertura das bolsas, o baile dos espelhinhos, estojinhos de pós, batons. — Eu tinha razão, no final das contas. A tal Santa Maria deve ser um buraco. — Você falou bem — assentiu Nelly; usava uma unha para retocar a pintura da boca. Irene dava batidinhas no nariz com a almofadinha do pó, lânguida, desanimada; tinha os grossos joelhos muito separados e o chapéu de palha, carregado de enfeites, de abas grandes, se retorcia, esmagado contra o encosto. Fez um semicírculo com o dorso da mão no vidro da janela; viu um arco-íris de pasto ressequido, de plantações, de distância cinza, verde e ocre caldeada pela tarde de céu encoberto. — Eu não me incomodo muito. Claro que não é a capital; mas eu gosto do campo. — Pode ter certeza que não é a capital — disse Maria Bonita, zombando, irritada. Terminara de se arrumar e fumava rapidamente, aprumada e tranqüila, segura de sua oculta capacidade de con-trolar-se. "Uma mulher", opinou Junta com severidade e orgulho. — Não vão nem pensar em sair de compras e nada de festinhas. Ficar em casa, trabalhar e saber guardar o dinheiro. — Foi para isso que viemos — confirmou Nelly. — A cidade é muito linda, mas estamos aqui para o que interessa. — Ele está olhando sua boca de novo, gorda — advertiu Maria Bonita. Irene encolheu os ombros e continuou fazendo cruzinhas com a ponta de um dedo no vidro da janela. — Não estava olhando, não, juro — protestou Junta. Riu um pouco com elas, para acompanhá-las, e deu uma espiada nos demais passageiros do vagão. Não havia nenhum rosto conhecido. "Na plataforma é que veremos." Descobriu o edifício da Escola Experimental, escuro e isolado num campo plano, num ar imóvel; uma bandeira pendia lisa, um caminhão carregado inclinava-se escalando a costa, em direção à Colônia. Projetou mentir-lhes sobre plantações e colheitas, citar cifras e nomes de tipos de trigo. E, embora não dissesse nada, embora as coisas tristes só se mostrassem na linha esbranquiçada de saliva que se formou no seu sorriso, enquanto ficava em pé e ajudava as mulheres com as malas, suspeitou que a tentação de dizer absurdos procedia daquela ameaça de cansaço, daquele medo de acabar que o cercara nos últimos meses, desde o dia em que acreditou que chegara finalmente a hora da desforra, a hora de palpar os belos sonhos e em que aceitou a dúvida de que talvez essa hora tivesse chegado tarde demais. A plataforma estaria cheia, um grupo homens iria olhar da porta do Clube, outro ajeitaria as costas contra a esquina do hotel Plaza para ver o carro levando as três mulheres para a casinha da orla do rio; aquelas três mulheres desanimadas, feias e envelhecidas pela viagem, vestidas com as grotescas coisas que haviam comprado, ávidas, com o dinheiro do adiantamento.


 
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