Poesia
Reunida (1969-1996), de Orides Fontela (Cosac Naify/7 Letras; 376 páginas;
55 reais) A poeta paulista Orides Fontela (1940-1998) tinha fama de ser
furiosa, quase intratável. Apesar de ser uma autora premiada e admirada
pela crítica, ela chegou a viver em estado de semi-indigência, ocupando
cubículos sórdidos. Morreu quase esquecida, em um sanatório.
A personalidade difícil e a vida miserável ajudaram a criar um certo
folclore em torno de sua figura mas Orides poderia dispensá-lo:
o aparente despojamento de seus versos basta para seduzir o leitor. A presente
edição é a primeira a reunir sua obra completa. E vem em
boa hora: seus livros estavam fora de catálogo havia muito tempo.
Leia trecho SOB
A LÍNGUA Sob
a língua palavras
beijos alimentos alimentos beijos palavras. O
saber que a boca prova O sabor mortal da palavra (in
Helianto, 1973) POEMA
Saber
de cor o silêncio diamante e/ou espelho o silêncio além do
branco. Saber
seu peso seu signo - habitar sua estrela impiedosa. Saber
seu centro: vazio esplendor além da vida e vida além da
memória. Saber
de cor o silêncio -
e profaná-lo, dissolvê-lo em palavras. (in
Alba, 1983) PENÉLOPE
O
que faço des faço o que vivo des vivo o que amo des
amo (meu
"sim" traz o "não" no seio). (in
Alba, 1983)
ERRÂNCIA
Só
porque erro encontro o que não se procura só
porque erro invento o labirinto a
busca a coisa a causa da procura só
porque erro acerto: me construo. Margem
de erro: margem de liberdade. (in
Rosácea, 1986) HABITAT
O
peixe é a ave do mar a
ave o peixe do ar e
só o homem nem peixe nem ave não
é daquém e nem de além e nem o
que será já em nenhum lugar. (in
Rosácea, 1986)
VÔO
Ter asas é
não ter cérebro ter cérebro é
não ter asas. (in
Teia, 1996) |