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O que Enriquece e o que Empobrece uma Nação, de João Mellão Neto (A Girafa; 214 páginas; 35 reais) – Jornalista, ex-deputado federal e ex-ministro do Trabalho e da Administração, João Mellão Neto é um aguerrido combatente da causa liberal e um crítico mordaz das práticas intervencionistas do Estado brasileiro. Nos mais de cinqüenta textos desse livro, a maioria deles publicada em sua coluna no jornal O Estado de S. Paulo, Mellão sintetiza os princípios do liberalismo econômico moderno com clareza exemplar. O autor também analisa os fatos mais marcantes da política, da economia e da cultura, no Brasil e no mundo, do fim da década de 80 até hoje. A última seção do livro é um exame cáustico do desempenho do PT no governo federal.

Leia trecho

 

O Rio e a Planície

Não são os heróis que escrevem a história

A História Universal é como uma imensa planície, cortada ao meio por um grande rio.

A planície, por natureza, é plácida e tranqüila.

Mas o mesmo não se pode atribuir ao seu rio...

Não se trata de um rio comum...

Suas águas são turbulentas, sujas de pólvora, turvadas por sangue.

O seu curso é sinuoso, traiçoeiro e perigoso.

E a tragédia está à espreita em cada uma de suas curvas.

No seu leito não há veleiros e embarcações pesqueiras. Por ele se aventuram comente galeras e naves de guerra.

As pessoas comuns jamais se atrevem a nele banhar-se. Aquele rio, todos o sabem, é a morada dos semideuses:

São tiranos, imperadores, são heróis e conquistadores;

Gente muito estranha, enfim...

Gente que flagela e escraviza, em nome da Liberdade,

Combate e massacra, em prol da Paz e fraternidade;

Que mata ou que morre, à procura da imortalidade...

Enquanto isso, na vastidão da planície, milhões e milhões de homens comuns vão levando, satisfeitos, suas medíocres e anônimas vidas.

Não buscam poder, notoriedade ou glória.

Trabalham de sol a sol, fertilizando o solo com seus arados;

E tudo o que almejam é mais conforto e prosperidade

Para si para os seus.

Foi na interpretação dessa viagem que todos os historiadores, desastradamente, se equivocaram.

Ao narrar a história dos homens, deixaram-se aficcionar pelas sagas do rio...

Enquanto a Civilização, na verdade, brotava na planície.

Sem enredos dramáticos, sem heróis carismáticos,

Ela se fez espontaneamente.

Por meio do mercado interativo dos homens,

Pela troca de idéias, produtos e experiências;

No exercício do qual beneficiaram-se todos, dos talentos e habilidades peculiares a cada um...

Inspirado no pensamento de Will Durant — um dos maiores pensadores e historiadores de nosso século — "O Rio e a Planície" é a tradução mais pura e mais sublime do que se entende por espírito liberal.

Porque, na verdade, nem nós, nem vocês, nem ninguém, navega epicamente pelas perigosas águas do rio.

Somos todos homens comuns: nossas vidas, nossas lutas, nossos sonhos, pautam-se todos nos valores e condutas da planície.

Se este é o nosso desígnio, se é esta a nossa missão, orgulhosos os recebemos, diretamente das mãos de Deus.

Não nos entreguemos jamais ao místico fascínio dos super-homens do rio. Seus valores não são os nossos. Seus destinos, com certeza, também não.

A sociedade da planície há que ser governada, tão-somente, pelos homens da planície.

Neste mundo de mentiras em que se transformou a política, urge que alguém vá ao povo dizer-lhes somente a verdade.

Quando tantos vão às massas prometer-lhes o fim das agruras, alguém há de acenar-lhes, tão-somente, com o fim das promessas.

Nunca se falou ao povo que a cura da miséria não é a esmola, mas sim a educação e o trabalho;

que o empobrecimento dos ricos não leva, necessariamente, ao enriquecimento dos pobres;

que as torneiras de que jorram benesses pessoais, estão ligadas aos ralos que escoam os recursos públicos; que sob a isca saborosa do paternalismo, se esconde o anzol afiado da servidão;

que os povos que buscam salvadores, são povos que não merecem ser salvos;

e que o homem, enfim, só se torna realmente livre quando escolhe, ele mesmo, o enredo de sua história...

Nós, liberais, por crermos em nossa Pátria e acreditar em nosso povo, confiamos ser este o nosso desígnio.

Pela janela da vida pública, podem ser vistas duas paisagens: há aqueles niilistas, que só sabem enxergar o lado do pântano; nós, de nossa parte, preferimos vislumbrar o brilho das estrelas. Pois é desse brilho, justamente, que alimentamos a nossa missão.

 


 
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