O
Rio e a Planície
Não
são os heróis que escrevem a história
A
História Universal é como uma imensa planície, cortada ao
meio por um grande rio.
A
planície, por natureza, é plácida e tranqüila.
Mas
o mesmo não se pode atribuir ao seu rio...
Não
se trata de um rio comum...
Suas
águas são turbulentas, sujas de pólvora, turvadas por sangue.
O
seu curso é sinuoso, traiçoeiro e perigoso.
E
a tragédia está à espreita em cada uma de suas curvas.
No
seu leito não há veleiros e embarcações pesqueiras.
Por ele se aventuram comente galeras e naves de guerra.
As
pessoas comuns jamais se atrevem a nele banhar-se. Aquele rio, todos o sabem,
é a morada dos semideuses:
São
tiranos, imperadores, são heróis e conquistadores;
Gente
muito estranha, enfim...
Gente
que flagela e escraviza, em nome da Liberdade,
Combate
e massacra, em prol da Paz e fraternidade;
Que
mata ou que morre, à procura da imortalidade...
Enquanto
isso, na vastidão da planície, milhões e milhões de
homens comuns vão levando, satisfeitos, suas medíocres e anônimas
vidas.
Não
buscam poder, notoriedade ou glória.
Trabalham
de sol a sol, fertilizando o solo com seus arados;
E
tudo o que almejam é mais conforto e prosperidade
Para
si para os seus.
Foi
na interpretação dessa viagem que todos os historiadores, desastradamente,
se equivocaram.
Ao
narrar a história dos homens, deixaram-se aficcionar pelas sagas do rio...
Enquanto
a Civilização, na verdade, brotava na planície.
Sem
enredos dramáticos, sem heróis carismáticos,
Ela
se fez espontaneamente.
Por
meio do mercado interativo dos homens,
Pela
troca de idéias, produtos e experiências;
No
exercício do qual beneficiaram-se todos, dos talentos e habilidades peculiares
a cada um...
Inspirado
no pensamento de Will Durant — um dos maiores pensadores e historiadores de nosso
século — "O Rio e a Planície" é a tradução
mais pura e mais sublime do que se entende por espírito liberal.
Porque,
na verdade, nem nós, nem vocês, nem ninguém, navega epicamente
pelas perigosas águas do rio.
Somos
todos homens comuns: nossas vidas, nossas lutas, nossos sonhos, pautam-se todos
nos valores e condutas da planície.
Se
este é o nosso desígnio, se é esta a nossa missão,
orgulhosos os recebemos, diretamente das mãos de Deus.
Não
nos entreguemos jamais ao místico fascínio dos super-homens do rio.
Seus valores não são os nossos. Seus destinos, com certeza, também
não.
A
sociedade da planície há que ser governada, tão-somente,
pelos homens da planície.
Neste
mundo de mentiras em que se transformou a política, urge que alguém
vá ao povo dizer-lhes somente a verdade.
Quando
tantos vão às massas prometer-lhes o fim das agruras, alguém
há de acenar-lhes, tão-somente, com o fim das promessas.
Nunca
se falou ao povo que a cura da miséria não é a esmola, mas
sim a educação e o trabalho;
que
o empobrecimento dos ricos não leva, necessariamente, ao enriquecimento
dos pobres;
que
as torneiras de que jorram benesses pessoais, estão ligadas aos ralos que
escoam os recursos públicos; que sob a isca saborosa do paternalismo, se
esconde o anzol afiado da servidão;
que
os povos que buscam salvadores, são povos que não merecem ser salvos;
e
que o homem, enfim, só se torna realmente livre quando escolhe, ele mesmo,
o enredo de sua história...
Nós,
liberais, por crermos em nossa Pátria e acreditar em nosso povo, confiamos
ser este o nosso desígnio.