|
Capitu
Sou Eu, de
Dalton Trevisan (Record; 112 páginas; 19 reais) Aos
78 anos, o paranaense Dalton Trevisan continua fiel a seus princípios:
não concede entrevistas, não posa para fotos e comunica-se
com sua editora por telegramas. No que diz respeito à sua
literatura, a (alta) qualidade também continua intacta. É
o que se comprova nos dezenove contos e três poemas reunidos
nesse novo livro. Cada um deles tem de duas a doze páginas,
o que é um tanto caudaloso para um autor conhecido pelo estilo
minimalista. Tema recorrente em sua obra, a perversão
moral e sexual dá mote a todos. No conto-título,
uma professora tem um caso doentio com um aluno rebelde, embalado
por discussões sobre a célebre personagem de Machado
de Assis. Para Trevisan, um conto deve ser preciso como uma picada
de agulha e agulhadas não faltam nessas histórias
carregadas de pedofilia, incesto e assassinato.
Leia
trecho do livro
Capitu
Sou Eu
A professora
de Letras irrita-se cada vez que, início da aula, ouve no
pátio os estampidos da maldita moto.
Aos
saltos de três ou quatro degraus, lá vem ele na corrida,
atrasado sempre. Esbaforido, se deixa cair na carteira, provocante
de pernas abertas. Mal se desculpa ou em isso. Ela reconhece o tipo:
contestador, rebelde sem causa, beligerante.
O
selvagem da moto é, na verdade, um tímido em pânico,
denunciado no rubor da face, que a barba não esconde. E,
aos olhos dela, o torna assim atraente, um cacho do negro cabelo
na testa.
Na
prova do curso, o único que sustenta a infidelidade de Capitu.
Confuso, na falta de argumentos, supre-os com a veemência
e gesticulação arrebatada: infiel, a nossa heroína,
pela perfídia fatal que mora em todo coração
feminino. Insiste na coincidência dos nomes: Ca-ro-li-na,
da mulher do autor (com os amores duvidosos na cidade do Porto),
e o da personagem Ca-pi-to-li-na...
|