Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

O Xará, de Jhumpa Lahiri (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 334 páginas; 43 reais) – Jhumpa Lahiri nasceu em Londres, cresceu em Rhode Island, nos Estados Unidos, e tem pais indianos. É a escritora ideal para falar do estranhamento cultural dos imigrantes nas grandes cidades americanas. Primeiro romance da autora – seu livro de estréia, a coletânea de contos Intérprete de Males, lhe valeu o Prêmio Pulitzer de 2000 –, O Xará narra a formação de um filho de imigrantes indianos que, por engano, foi batizado como Gogol, o mesmo nome do escritor russo de O Capote e O Nariz. A história vai de 1968, quando Gogol nasce, até 2000, quando ele se forma arquiteto. E em nenhum momento desse largo período o personagem consegue se sentir à vontade com seu cruzamento cultural.

Leia trechos

1968

Numa noite abafada de agosto, duas semanas antes da data prevista, Ashima Ganguli está na cozinha de um apartamento na praça Central, misturando em uma vasilha Rice Krispies com amendoins Planters e cebola vermelha picada. Acrescenta sal, suco de limão, fatias finas de pimenta chile verde, desejando que houvesse óleo de mostarda para colocar na mistura. Ashima vem consumindo esse preparado ao longo de toda a gravidez, modesta imitação de um petisco embrulhado em cones de jornal vendido por centavos nas calçadas de Calcutá e nas plataformas das estações de trem de toda a Índia. Mesmo agora que não há mais quase espaço nenhum dentro dela, é a única coisa que sente vontade de comer. Experimenta na palma da mão e franze a testa; como sempre, falta alguma coisa. Pousa um olhar vago na grade atrás do balcão, onde estão pendurados os utensílios de cozinha, todos cobertos por uma ligeira camada de gordura. Enxuga o suor do rosto com a ponta solta do sári. Doem-lhe os pés inchados que pisam o linóleo cinzento pintalgado. Dói-lhe a pélvis por causa do peso do bebê. Abre um armário, as prateleiras forradas com papel xadrez branco e amarelo, encardido, que há tempos quer trocar, pega mais uma cebola e franze a testa de novo ao retirar a casca quase roxa. Sente um estranho calor no ventre, seguido de uma contração tão intensa que a faz dobrar o corpo, aspirando o ar sem som, derrubando ruidosamente a cebola no chão.

A sensação passa e logo se repete em um espasmo mais prolongado de desconforto. No banheiro, descobre, na calcinha, um traço sólido de sangue amarronzado. Chama o marido, Ashoke, doutorando em engenharia elétrica no mit, que estuda no quarto. Ele está debruçado sobre uma mesa de jogo; usa como cadeira a borda da cama, dois colchões finos lado a lado debaixo de uma colcha vermelha e roxa de batik. Quando chama Ashoke, ela não diz seu nome. Ashima nunca pensa no nome do marido quando pensa no marido, mesmo sabendo perfeitamente como é seu nome. Adotou o sobrenome dele, mas recusa-se, por uma questão de decoro, a pronunciar seu primeiro nome. Não é o tipo de coisa que uma esposa bengalesa possa fazer. Assim como um beijo ou uma carícia em um filme hindi, o nome do marido é uma coisa íntima e, portanto, impronunciável, habilmente disfarçada. Então, em vez de dizer o nome de Ashoke, ela pronuncia a interrogação que passou a substituí-lo, traduzida mais ou menos por "Está me ouvindo?".

Ao amanhecer, chamam um táxi para levá-los pelas ruas desertas de Cambridge, sobem a avenida Massachusetts, passam diante do Harvard Yard e seguem até o hospital Mount Auburn. Ashima dá entrada, responde a perguntas sobre a freqüência e duração das contrações, enquanto Ashoke preenche os formulários. Sentada em uma cadeira de rodas, ela é empurrada por corredores brilhantes, de luzes claras, colocada em um elevador mais espaçoso que sua cozinha. No andar da maternidade, dão-lhe um leito junto à janela, num quarto no fim do corredor. Pedem-lhe que dispa o sári de seda murshidabad e troque para uma camisola de algodão florido que, para seu ligeiro embaraço, só lhe chega até os joelhos. Uma enfermeira se oferece para dobrar o sári, mas, irritada com os seis metros de tecido escorregadio, acaba por embolar tudo dentro da mala cinza-ardósia de Ashima. Chega seu obstetra, o dr. Ashley, esqueleticamente bonito à maneira de lorde Mountbatten, com o cabelo fino, cor de areia, penteado para trás, e vai examinar a evolução do caso. A cabeça do bebê está encaixada, já começou a descer. Ela é informada de que ainda está no começo do trabalho de parto, três centímetros de dilatação, começando a se retrair. "O que quer dizer dilatação?", ela pergunta, e o dr. Ashley levanta dois dedos juntos, depois os separa, explicando aquela coisa inimaginável que seu corpo deve fazer para o bebê passar. O processo tomará algum tempo, diz-lhe o dr. Ashley. Como é sua primeira gravidez, o trabalho de parto pode durar vinte e quatro horas, às vezes mais. Ela procura o rosto de Ashoke, mas ele ficou atrás da cortina que o doutor fechou. "Eu já volto", Ashoke lhe diz em bengalês, e a enfermeira acrescenta: "O senhor não se preocupe. Ela ainda tem de esperar bastante. A gente se encarrega daqui para a frente".

Agora ela está sozinha, separada por cortinas das outras três mulheres do quarto. O nome de uma mulher, ela escuta em retalhos de conversa, é Beverly. Outra é Lois. À sua esquerda está Carol. "Hospital desgraçado, e você, seu desgraçado, isto aqui é um inferno!", ouve uma delas dizer. E depois uma voz de homem: "Eu te amo, benzinho". Palavras que Ashima nunca ouviu, nem espera ouvir de seu próprio marido; não é assim que eles são. É a primeira vez na vida que dorme sozinha, cercada de estranhos; durante toda a vida dormiu ou num quarto com os pais, ou com Ashoke a seu lado. Queria que as cortinas estivessem abertas, para poder conversar com as mulheres americanas. Talvez uma delas tivesse tido filho antes, pudesse contar o que a esperava. Mas aprendeu que os americanos preferem mesmo é a privacidade, apesar das declarações públicas de afeto, apesar das minissaias e biquínis, apesar das mãos dadas na rua e de se deitarem um em cima do outro no Parque Público de Cambridge. Estende os dedos sobre o enorme e esticado tambor em que sua barriga se transformou, imaginando onde os pés e as mãos do bebê podem estar nesse momento. A criança não está mais inquieta: nos últimos dias, a não ser por uma vibração ocasional, não a sentiu socar, nem chutar, nem pressionar suas costelas. Imagina se é a única pessoa indiana no hospital, mas uma suave pontada do bebê a relembra que, em princípio, não está sozinha. Ashima pensa que é estranho seu filho nascer em um lugar onde a maioria das pessoas vai para sofrer ou morrer. Não há nada que a conforte no piso de ladrilho branco-cru, nas placas branco-cru do teto, nos lençóis brancos muito esticados sobre a cama. Na Índia, pensa consigo, as mulheres vão para a casa dos pais para ter filhos, longe dos maridos e dos parentes do marido, longe dos cuidados da casa, recolhendo-se brevemente à infância quando chega o bebê.

Começa outra contração, mais violenta que a última. Ela grita, aperta a cabeça no travesseiro. Agarra a grade fria da cama. Ninguém a escuta, nenhuma enfermeira vem correndo para o seu lado. Foi orientada a marcar a duração de cada contração e consulta o relógio, presente de boa-viagem dos pais, enfiado em seu pulso na última vez em que os viu, em meio à confusão do aeroporto e das lágrimas. Só quando já estava no avião, voando pela primeira vez na vida a bordo de um vc-10 da boac, cuja ruidosa decolagem foi contemplada por vinte e seis membros de sua família no balcão do aeroporto Dum Dum, quando passava por cima de pedaços da Índia que nunca havia pisado, e ainda mais longe, fora da própria Índia, foi que notou o relógio no meio da profusão de pulseiras de casamento em ambos os braços: ferro, ouro, coral, madrepérola. Agora, além de todas elas, está usando uma pulseira de plástico com uma etiqueta datilografada que a identifica como paciente do hospital. Usa o relógio virado para dentro do pulso. Nas costas dele, cercadas pelas palavras à prova d'água, antimagnético e à prova de choque, estão gravadas as suas iniciais de casada, A. G.

Segundos americanos tiquetaqueiam com sua pulsação. Durante um minuto e meio, uma faixa de dor lhe aperta a barriga, irradiando-se para as costas e descendo para as pernas. E então, uma vez mais, o alívio. Calcula o tempo indiano em suas mãos. Com a ponta do polegar toca cada degrau das escadas marrons gravadas no dorso de seus dedos, e pára no meio do terceiro: são nove horas e meia a mais em Calcutá, já noite, oito e meia. Na cozinha do apartamento de seus pais na rua Amherst, neste exato momento, uma empregada está servindo o chá em copos fumegantes depois do jantar, arrumando bolachas Maria em uma bandeja. Sua mãe, que logo será avó, está diante do espelho da penteadeira, soltando com os dedos o cabelo que lhe vai até a cintura, ainda mais preto que branco. O pai, curvado sobre a mesa manchada de tinta ao lado da janela, desenhando, fumando, ouvindo a Voz da América. O irmão mais novo, Rana, estuda em cima da cama para a prova de física. Ela visualiza com clareza o piso de cimento cinzento da saleta dos pais, sente debaixo dos pés aquela friagem sólida mesmo nos dias mais quentes. Uma enorme fotografia em preto-e-branco de seu falecido avô paterno vigia de uma das paredes gessadas, cor-de-rosa; na parede da frente, uma alcova protegida por porta de vidro jateado cheia de livros, papéis e latas de aquarela de seu pai. Durante um instante, o peso do bebê desaparece, substituído pela cena que lhe passa diante dos olhos, logo substituída mais uma vez pela faixa azul do rio Charles, cerradas copas verdes de árvores, carros subindo e descendo o Memorial Drive.

Em Cambridge, são onze da manhã, já é hora do almoço no dia acelerado do hospital. Trazem-lhe uma bandeja com suco de maçã morno, gelatina, sorvete e galinha assada fria. Patty, a enfermeira simpática de anel de noivado de diamante e uma franja de cabelo avermelhado debaixo da touca, diz para Ashima comer só a gelatina e o suco de maçã. O que é bom mesmo, porque Ashima não tocaria na galinha, mesmo que fosse permitido: os americanos comem galinha com a pele, se bem que Ashima encontrou, não faz muito tempo, um açougueiro atencioso na rua Prospect que se dispõe a tirar a pele para ela. Patty vem afofar seus travesseiros, arranjar a cama. O dr. Ashley enfia a cabeça entre as cortinas de quando em quando. "Não precisa se preocupar", gorjeia, apertando o estetoscópio na barriga de Ashima, dando-lhe tapinhas na mão, admirando suas muitas pulseiras. "Está tudo parecendo perfeitamente normal. Esperamos um parto perfeitamente normal, missis Ganguli."

Mas nada parece normal para Ashima. Durante os últimos dezoito meses, desde que chegou a Cambridge, nada parece nem um pouco normal. Não é tanto a dor, à qual, de alguma forma, sabe que vai sobreviver. É a conseqüência: a maternidade em uma terra estrangeira. Uma coisa é estar grávida, passar as manhãs enjoada na cama, as noites sem dormir, a pulsação surda nas costas, as incontáveis visitas ao banheiro. Ao longo de toda a experiência, apesar do desconforto sempre maior, ficava deslumbrada com a capacidade de seu corpo fabricar vida, exatamente como sua mãe, sua avó e todas as bisavós haviam feito. E aquilo estar acontecendo tão longe de casa, sem o acompanhamento e a observação daqueles que amava, era ainda mais miraculoso. Mas está apavorada com a idéia de criar um filho em um país onde ela não se relaciona com ninguém, do qual sabe tão pouco, onde a vida parece tão hesitante e esparsa.

"Que tal andar um pouco? Vai lhe fazer bem", Patty pergunta quando vem recolher a bandeja do almoço.

Ashima levanta os olhos de um exemplar esfrangalhado da revista Desh que trouxe para ler no vôo para Boston e que ainda não conseguiu jogar fora. As páginas impressas em caracteres bengaleses, ligeiramente ásperas ao toque, são para ela uma perpétua consolação. Leu uma dúzia de vezes cada conto, cada poema, cada artigo. Na página onze, há um desenho a bico-de-pena feito por seu pai, ilustrador da revista: uma paisagem do horizonte norte de Calcutá desenhada na laje do telhado do apartamento deles, numa manhã enevoada de janeiro. Ashima estava atrás do pai quando ele fez o desenho, olhando, ele curvado sobre o cavalete, um cigarro nos lábios, um xale preto de Cachemira nos ombros.

"Tudo bem", diz Ashima.

Patty ajuda Ashima a descer da cama, enfia seus pés, um a um, nos chinelos, enrola uma segunda camisola em seus ombros. "Imagine só", diz Patty enquanto Ashima luta para ficar de pé. "Daqui a um ou dois dias, você vai estar com metade desse volume." Pega o braço de Ashima quando saem do quarto para o corredor. Depois de alguns passos, Ashima pára, as pernas tremendo, uma nova onda de dor atravessa-lhe o corpo. Ela sacode a cabeça, os olhos se enchem de lágrimas. "Não consigo."

"Consegue, sim. Aperte minha mão. Aperte quanto quiser."

Depois de um minuto, continuam andando, na direção da sala de enfermagem. "Você prefere menino ou menina?", Patty pergunta.

"Contanto que tenha dez dedo na mão e dez dedo no pé", Ashima responde. São esses detalhes anatômicos, esses sinais de vida em particular, que ela tem maior dificuldade de visualizar quando imagina o bebê em seus braços.

Patty dá um sorriso, um pouco largo demais, e de repente Ashima percebe seu erro, percebe que devia ter dito "dedos nas mãos" e "dedos nos pés". Esse erro lhe dói quase tanto quanto a última contração. Inglês era a sua matéria. Em Calcutá, antes de se casar, estava batalhando para conseguir um diploma de faculdade. Dava aulas particulares em domicílio para algumas crianças do bairro, em suas varandas e camas, ajudando-as a decorar Tennyson e Wordsworth, a pronunciar palavras como sign e cough, a entender a diferença entre a tragédia aristotélica e a shakespeariana. Mas em bengalês, dedo pode indicar dedos, no plural.

Foi depois de uma aula, um dia, que a mãe de Ashima a encontrou na porta e mandou que fosse direto para o quarto se aprontar; havia um homem esperando para vê-la. Era o terceiro em três meses. O primeiro tinha sido um viúvo com quatro filhos. O segundo, um caricaturista de jornal que conhecia seu pai, que havia sido atropelado por um ônibus na Esplanade e perdera o braço esquerdo. Para seu grande alívio, ambos a rejeitaram. Tinha dezenove anos, estava no meio dos estudos e não tinha pressa em se casar. Então, obediente, mas sem grandes expectativas, desembaraçou e trançou o cabelo, limpou o kohl que havia borrado debaixo dos olhos, passou na pele um pouco de pó Cuticura com uma esponja de veludo. O transparente sári verde-papagaio que dobrou e prendeu na anágua havia sido colocado em cima da cama pela mãe. Antes de entrar na sala, Ashima deu uma parada no corredor. Ouviu a mãe dizendo: "Ela gosta de cozinhar e é extremamente boa no tricô. Em uma semana terminou este cardigã que estou usando".

Ashima sorriu, divertida com o tom de vendedora da mãe; levara quase um ano para terminar o cardigã, e sua mãe ainda tivera de fazer as mangas. Olhou o piso onde os visitantes costumavam tirar os chinelos e notou, ao lado de dois pares de chappals, um par de sapatos de homem como nunca tinha visto nem nas ruas, nem nos bondes e ônibus de Calcutá, nem mesmo nas vitrines de Bata. Eram sapatos marrons, com calcanhares pretos e cadarços e pespontos branco-cru. Havia uma fileira de buraquinhos do tamanho de lentilhas de cada lado dos pés, e as pontas tinham um bonito desenho, como se o couro tivesse sido perfurado com uma agulha. Olhando mais de perto, viu o nome do fabricante escrito do lado de dentro em letras douradas quase apagadas: alguma coisa e filhos, dizia. Viu o tamanho, oito e meio, e as iniciais usa. E enquanto a mãe continuava a proclamar as virtudes de Ashima, ela não conseguiu resistir a um súbito e forte impulso e calçou os sapatos em seus pés. O suor dos pés do dono misturou-se ao dela e fez seu coração disparar; era o mais perto que havia chegado de tocar um homem. O couro estava todo marcado, pesado e ainda quente. Notou que no pé esquerdo o cadarço cruzado saltara um buraco, e esse descuido a tranqüilizou.

Tirou os pés, entrou na sala. O homem estava sentado numa poltrona de ratã, os pais empoleirados na cama de casal onde seu irmão dormia de noite. Era um pouquinho rechonchudo, com cara de intelectual, mas ainda juvenil, óculos de grossa armação preta e um nariz duro, proeminente. O bigode bem aparado emendava com a barba que lhe cobria apenas o queixo e dava-lhe um ar elegante, vagamente aristocrático. Estava de meias marrons e calça marrom, camisa listadinha de branco e verde e olhava tristonhamente para os joelhos.

Ele não levantou os olhos quando ela entrou. Embora ela sentisse o olhar dele ao atravessar a sala, no momento em que conseguiu dar outra olhada, ele estava de novo indiferente, focalizando os joelhos. O rapaz pigarreou como se fosse falar alguma coisa, mas não disse nada. Foi o pai dele que falou, dizendo que ele havia freqüentado o St. Xavier e depois o b. e. College, formando-se em primeiro lugar em ambas as instituições. Ashima sentou-se em seu lugar e arranjou as dobras do sári. Sentiu a mãe dele olhar para ela e aprovar. Ashima media um metro e sessenta, alta para uma mulher bengalesa, e pesava cinqüenta quilos. Sua pele era mais para o escuro, porém mais de uma vez havia sido comparada à atriz Madhabi Mukherjee. As unhas eram admiravelmente compridas, os dedos, como os do pai, artisticamente finos. Perguntaram de seus estudos e pediram-lhe para recitar algumas estrofes de "The Daffodils". A família do rapaz morava em Alipore. O pai era funcionário do Ministério do Trabalho no setor alfandegário de uma empresa de navegação. "Meu filho vive no exterior há dois anos", disse o pai do rapaz, "preparando seu doutorado em Boston, com uma pesquisa na área de fibras ópticas." Ashima nunca tinha ouvido falar nem em Boston, nem em fibras ópticas. Perguntaram-lhe se estava disposta a viajar de avião e se seria capaz de viver sozinha em uma cidade caracterizada por invernos severos, com muita neve.

"Ele não vai estar lá?", perguntou, apontando o rapaz cujos sapatos havia calçado brevemente, mas que ainda não tinha lhe dito nem uma palavra.

Só depois do noivado ficou sabendo o nome dele. Uma semana depois os convites foram impressos e duas semanas depois disso foi enfeitada e arrumada por incontáveis tias, incontáveis primas borboleteando em volta dela. Eram seus últimos momentos como Ashima Bhaduri, antes de se transformar em Ashima Ganguli. Seus lábios foram pintados de escuro, as sobrancelhas e as faces pintalgadas com pasta de sândalo, o cabelo preso, enfeitado com flores e seguro por uma centena de grampos que levaria uma hora para retirar quando o casamento por fim terminasse. Tinha uma rede escarlate na cabeça. O ar estava úmido e, apesar dos grampos, o cabelo de Ashima, mais grosso que o de todas as primas, não assentava. Estava usando todos os colares, gargantilhas e pulseiras cujo destino seria passar a maior parte de suas vidas em uma caixa do depósito de segurança em um banco na Nova Inglaterra. Na hora marcada, viu-se sentada em um piri que seu pai havia decorado, levantada a um metro e meio do chão e carregada para encontrar o noivo. Tinha escondido o rosto com uma folha de bétel em forma de coração, e manteve a cabeça baixa até completar os sete giros em torno dele.

Quase treze mil quilômetros depois, em Cambridge, veio a conhecê-lo. À noite faz o jantar para ele, esperando agradar, com o açúcar, a farinha, o arroz e o sal não racionados e incrivelmente puros sobre os quais escreveu à mãe na primeira carta para casa. Agora, já aprendeu que o marido gosta da comida meio para o salgado, que a coisa que ele mais aprecia no curry de carneiro são as batatas e que gosta de fechar o jantar com uma última colherada de arroz e dal. À noite, deitado ao lado dela na cama, ele a ouve descrever os acontecimentos do dia: as caminhadas pela avenida Massachusetts, as lojas que visitou, os Hare Krishnas que a infernizam com seus folhetos, a casquinha de sorvete de pistache que se permite tomar na praça Harvard. Apesar dos magros rendimentos de estudante graduado, ele economiza dinheiro para mandar a cada poucos meses ao pai, para ajudar a fazer uma ampliação na casa da família. É exigente com a roupa; a primeira discussão que tiveram foi por causa de um suéter que ela deixou encolher na máquina de lavar. Assim que chega da universidade, a primeira coisa que faz é pendurar a camisa e a calça, vestir um pijama de cordão na cintura e um pulôver, se estiver frio. Aos domingos, passa uma hora ocupado com suas latinhas de graxa de sapato e os três pares que tem, dois pretos e um marrom. O marrom é aquele que usou quando foi visitá-la pela primeira vez. Ao olhar para ele, sentado de pernas cruzadas em cima de jornais espalhados no chão, esfregando aplicadamente a escova no couro, ela sempre se lembra de sua indiscrição no corredor da casa dos pais. É um momento que ainda a deixa chocada, e que, apesar de tudo o que lhe conta à noite sobre a vida que vivem juntos agora, ela prefere guardar para si mesma.


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio