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livros

Zama, de Antonio Di Benedetto (tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro; Globo; 248 páginas; 39 reais) – No fim do século XVIII, dom Diego di Zama, funcionário da Coroa espanhola, trabalha em um povoado perdido no Paraguai colonial. Ele espera ser transferido para Buenos Aires, cidade mais civilizada, mas a ordem nunca chega. Toda a vida de Zama será definida por essa longa espera. Ele passa dez anos nesse marasmo – e, depois de cair prisioneiro de uma tribo de índios não assimilados, continua esperando para saber que destino terá nas mãos dos selvagens. Com essa história de muito pouca ação, o argentino Di Benedetto (1922-1986) consegue construir uma narrativa cheia de suspense sobre o absurdo da vida nas colônias americanas. Publicado em 1956, esse romance é considerado a melhor obra do autor.

Leia trecho

Saí da cidade, ribeira abaixo, ao encontro solitário do barco que aguardava, sem saber quando viria.

Cheguei até o velho píer, essa construção inexplicável, já que a cidade e seu porto sempre estiveram onde estão, um quarto de légua acima.

Entremeada entre suas estacas, balança a porção de água do rio que entre elas recai.

Com sua pequena onda e seus redemoinhos sem saída, ia e vinha, com precisão, um macaco morto, ainda completo e não decomposto. A água, em frente ao bosque, foi sempre um convite à viagem, que ele não fez até não ser macaco, mas cadáver de macaco. A água queria levá-lo e o levava, mas enredou-o entre as estacas do píer decrépito e ali estava ele, de partida e não, e ali estávamos.

Ali estávamos, de partida e não.

Em sendo tão mansa, cuidava-me da natureza desta terra, porque é infantil e capaz de arroubar-me e, na lassidão semidesperta, punha-me repentinos pensamentos traidores, desses que não dão conformidade nem, por épocas, sossego. Fazia com que me desse comigo em coisas exteriores, nas quais, se a isso me resignava, podia reconhecer-me.

Esses assuntos ficavam só para mim, excluídos da conversa com o governador e com todos, por minha escassa ou nula facilidade para fazer amigos íntimos com quem espraiar-me. Devia levar a espera — e o desamparo — em solilóquio, sem comunicá-lo. Como me dizia esse às vezes insolente Ventura Prieto, que se me arrimou aquela tarde, certamente que não procurando por mim, mas indo ao acaso. Considerava que, nesta terra plana, eu parecia estar em um poço. Ele me disse isso uma vez, e em mais de uma, disse aos outros, descuidando-se do que todos sabiam: que eu fui galo de rinha ou pelo menos dono de rinha.

Apareceu exatamente quando me entretinha o macaco e mostrei a ele, para distraí-lo e impossibilitar que me perguntasse o que eu estava esperando ali. E ele, Ventura Prieto, que era inferior a mim, cavilou por um momento, como se procurasse um meio de esmagar-me em matéria de curiosidades ou descobrimentos. Depois fez referência a uma dessas que ele chamava investigações e eu ignoro se o eram mas que, por serem suspeitas de insinuar comparação, desconcertavam-me, deixando-me repercussões que podiam superar o sofrível.

Disse que há um peixe, nesse mesmo rio, que as águas não querem e ele, o peixe, deve passar a vida, a vida toda, como o macaco, em vaivém dentro delas; de um modo ainda mais penoso, porque está vivo e tem de lutar constantemente com o fluxo líquido que quer arremessá-lo à terra. Disse Ventura Prieto que estes sofridos peixes, tão apegados ao elemento que os repele, talvez apegados apesar de si mesmos, têm de empregar quase que integralmente suas energias na conquista da permanência e, embora sempre estejam sob o perigo de serem arremessados do seio do rio, tanto que nunca são encontrados na parte central do leito, mas nas margens, alcançam vida longa, maior do que a normal entre os outros peixes. Só sucumbem, disse também, quando o seu empenho lhes exige demais e eles não podem campear alimento.

Eu havia seguido com viciada curiosidade esta história, que não acreditei. Ao considerá-la, receava pensar no peixe e em mim ao mesmo tempo. Por isso convidei Ventura Prieto para que regressássemos e retive minhas opiniões.

Procurei ocupar a cabeça no motivo da minha caminhada, no fato de que eu esperava um barco, e se um barco entrasse nele, podia chegar alguma mensagem de Marta e dos meninos, embora ela e eles não viessem. Nem nunca haveriam de vir.


 
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