Rubicão,
de Tom Holland (tradução de Maria Alice Máximo; Record; 448
páginas; 52,90 reais) Em 49 a.C., Júlio César, comandante
vitorioso das tropas romanas que conquistaram a Gália, atravessou o Rio
Rubicão com suas tropas, de volta à Itália. Era uma declaração
aberta de guerra civil: governadores de província como César não
podiam levar suas tropas para fora de seu território. Nos anos que se seguiram,
Júlio César colocou o ponto final na República romana para
se converter em imperador. Romancista e autor de séries radiofônicas
sobre história antiga na BBC, Holland compôs um acurado retrato
acessível mesmo ao leitor pouco familiarizado com os meandros da Roma Antiga
do fim da República, com uma galeria de personagens que vai do escritor
e orador Cícero ao escravo rebelde Espártaco.
Leia
trecho 1
A REPÚBLICA PARADOXAL Vozes
ancestrais No
princípio, antes da República, Roma era governada por reis. Acerca
de um deles, um tirano soberbo chamado Tarqüínio, conta-se uma história
muito estranha. Certa vez ele foi procurado em seu palácio por uma velha
que carregava nos braços nove livros. Quando ela os ofereceu a Tarqüínio,
ele deu uma gargalhada, tão fabuloso era o preço que ela cobrava.
Sem qualquer tentativa de barganha, a velha deu-lhe as costas e partiu em silêncio.
Ela queimou três daqueles livros e retornou à presença do
rei, a quem ofereceu os volumes restantes pela mesma quantia que cobrara antes.
Novamente, embora já não tão seguro de si como antes, o rei
recusou a proposta e a velha, novamente, partiu sem dizer uma única palavra.
Àquela altura Tarqüínio já estava nervoso por não
saber o que havia rejeitado, portanto quando a misteriosa velha apareceu novamente,
dessa vez com três livros apenas, ele apressou-se em comprá-los,
embora tivesse que pagar a quantia que ela havia inicialmente cobrado pelos nove.
Ao receber o dinheiro, a velha desapareceu e nunca mais foi vista. Quem
teria sido ela? Seus livros continham profecias tão poderosas que os romanos
logo se deram conta de que somente uma única mulher podia tê-los
escrito — a Sibila. Porém tal identificação gerava outras
perguntas, pois as lendas contadas sobre a Sibila eram estranhas e enigmáticas.
Partindo do pressuposto de que ela havia previsto a Guerra de Tróia, os
homens debatiam a possibilidade de ela ser um composto de dez profetisas, ou de
ser imortal ou, ainda, de estar destinada a viver mil anos. Alguns — os intelectualmente
mais sofisticados — chegavam mesmo a duvidar de sua existência. De fato,
apenas duas coisas podiam ser afirmadas com certeza — que seus livros, escritos
em um grego antigo cujos traços pareciam ter sido feitos por aranhas, realmente
existiam, e que neles estava configurado o que viria a acontecer. Os romanos,
graças à intuição, ainda que tardia, de Tarqüínio
para a boa compra, passaram a ter uma janela aberta para o futuro do mundo. Na
verdade, isso não ajudou muito a Tarqüínio. Em 509 a.C. ele
sucumbiu a um golpe palaciano. Os reis haviam governado Roma por mais de duzentos
anos, desde a fundação da cidade, porém Tarqüínio,
o sétimo deles, seria também o último.* Com sua expulsão,
a monarquia foi destituída e em seu lugar foi proclamada uma república
livre. A partir de então o título de "rei", que passaria
a merecer um ódio patológico do povo romano, seria uma palavra que
ele não suportava sequer ouvir. Liberdade havia sido a palavra-chave no
golpe contra Tarqüínio e sua liberdade, a liberdade de uma cidade
que não tinha um senhor, passaria a ser um direito inalienável,
a própria medida do cidadão. Para protegê-la da ambição
de possíveis futuros tiranos, os fundadores da República chegaram
a uma notável solução. Cuidadosamente dividiram os poderes
do exilado Tarqüínio entre dois magistrados, ambos eleitos, a quem
não seria permitido exercê-los por mais de um ano. Esses eram os
cônsules,** e a presença deles à frente de seus concidadãos,
um vigiando as ambições de poder do outro, era a expressão
mesma do princípio que regia a República — o de que nunca mais seria
permitido a um único homem ser o governante supremo de Roma. Contudo, por
mais surpreendente que a inovação do consulado possa ter parecido,
ela não foi tão radical a ponto de cortar todos os laços
dos romanos com seu passado político. Além da monarquia, pouco mais
foi abolido. As raízes da nova República tinham origens em um passado
remoto — algumas em tempos de fato bem distantes. Os próprios cônsules,
por privilégio de ofício, vestiam togas debruadas de púrpura
como os antigos reis. Quando consultavam as profecias, observavam ritos que datavam
de épocas anteriores à própria fundação de
Roma. A mais fabulosa fonte de profecias, é claro, eram os livros deixados
por Tarqüínio, os três misteriosos rolos de profecias, os escritos
da antiqüíssima e quiçá atemporal Sibila. Tão
importantes eram as informações ali contidas que o acesso a elas
obedecia a regras estritas, como segredo de Estado que eram. Quem fosse apanhado
copiando-as seria colocado dentro de um saco em seguida costurado e atirado ao
mar. Somente em circunstâncias extremamente ameaçadoras, quando acontecimentos
assombrosos avisavam a República de catástrofes iminentes, era permitida
a consulta àqueles livros. Então, exauridas todas as alternativas
de ação, os magistrados especialmente designados para tanto acorriam
ao templo de Júpiter, onde os livros eram mantidos em segurança
máxima. Os rolos eram desfeitos. Os dedos acompanhavam as linhas já
bastante apagadas da escrita grega. As profecias eram decifradas e nelas se colhiam
os conselhos para melhor apaziguar a fúria dos céus. E
sempre se encontravam conselhos. Os romanos, um povo tão prático
quanto devoto, não tinham paciência com fatalismos. Interessavam-se
por conhecer o futuro apenas porque acreditavam que assim melhor pudessem controlá-lo.
Sangue que caía do céu em forma de chuva, fogo que saía por
fendas na terra, ratos que comiam ouro: fatos prodigiosos e assustadores como
estes eram considerados uma espécie de cobrança celeste, de aviso
ao povo romano de que este tinha contas atrasadas a acertar com os deuses. Para
se recuperar o crédito podia ser necessária a introdução
de um culto novo, a adoração de uma divindade até então
desconhecida na cidade. Com maior freqüência, porém, essas consultas
inspiravam reformulação de planos e os magistrados procuravam desesperadamente
identificar as tradições que pudessem ter sido negligenciadas. Que
se restaurasse o passado, a maneira como as coisas haviam sempre sido, e a segurança
da República estaria assegurada. Essa
era uma presunção que os romanos carregavam no fundo de suas almas.
No século que se seguiu à sua criação, a República
foi abalada repetidas vezes por novas convulsões sociais, pela demanda
das massas por direitos civis cada vez mais amplos e por contínuas reformas
constitucionais — e ainda assim, ao longo de todo esse turbulento período
de transformações, o povo romano jamais deixou de demonstrar seu
profundo desapreço por mudanças. As novidades, para os cidadãos
da República, tinham conotações sinistras. Pragmáticos
que eram, poderiam aceitar inovações se essas lhes fossem apresentadas
como vontade dos deuses ou um costume antigo, mas nunca as aceitavam por si sós.
Igualmente conservadores e flexíveis, os romanos mantinham o que dava certo,
adaptavam o que não havia dado certo e preservavam como sagradas as tradições
que lhes haviam servido. A República foi, ao mesmo tempo, um canteiro de
obras e um depósito de tradições descartadas. O futuro de
Roma foi construído sobre os fragmentos desordenados de seu passado. Os
romanos, porém, longe de verem nessas circunstâncias um paradoxo,
aceitavam-nas com naturalidade. De que outra maneira esperava-se que eles investissem
em sua cidade se não pela manutenção dos costumes de seus
ancestrais? Analistas externos, que tendiam a considerar "superstição"1
a religiosidade dos romanos e a interpretá-la como forma de dominação
exercida sobre as massas por uma classe governante cínica, fizeram uma
leitura equivocada de sua essência. A República não era como
os outros Estados. Enquanto as cidades dos gregos eram constantemente devastadas
por guerras civis e por revoluções, Roma mostrava-se impérvia
a tais desastres. Nem uma única vez, apesar de toda a agitação
social do primeiro século de existência da República, o sangue
de seus cidadãos foi derramado em suas ruas. Como era típico dos
gregos reduzir o ideal de cidadania a sofismas! Para um romano, nada era mais
sagrado e prezado que esse seu ideal. Afinal, era esse ideal que o definia. A
coisa pública — res publica — era o próprio significado de
"república". Somente ao se ver refletido no olhar de seus concidadãos
era que um romano verdadeiramente se reconhecia como homem. E
reconhecia-se também ao ouvir seu nome de muitas bocas. O bom cidadão
na República era aquele reconhecido como tal. Os romanos não estabeleciam
diferença entre excelência moral e reputação e tinham
para ambos os conceitos a mesma palavra: honestas. A aprovação
de toda a cidade era o maior — na verdade, o único — teste de valor. Cidadãos
revoltados partiam para as ruas para reivindicar acesso a maiores honrarias e
glórias. As agitações civis acabavam inevitavelmente por
inspirar novas magistraturas: edil e tribuno em 494, questor em 447, pretor em
367. Quanto mais cargos houvesse, maior seria o alcance das responsabilidades;
quanto maiores as responsabilidades, maiores eram as oportunidades de realização
e de reconhecimento. Ser louvado era a ambição máxima de
todo cidadão — da mesma forma que o opróbrio público era
o que ele mais temia. Não eram as leis e sim a consciência de estarem
sendo constantemente observados o que impedia que o senso de competição
dos romanos se degenerasse em ambição egoísta. Por mais dura
e implacável que fosse a constante competição pela excelência,
não podia haver lugar para a vanglória indisciplinada. Colocar a
honra pessoal acima dos interesses de toda a comunidade era um comportamento digno
de um bárbaro — ou, pior ainda, de um rei. Nas
relações com seus concidadãos, portanto, os cidadãos
da República aprendiam a moderar seus instintos de competição
submetendo-os ao bem comum. Em suas relações com outros Estados,
porém, não se deixavam levar por tais inibições. "Mais
que qualquer outra nação, os romanos ambicionam a glória
e exibem a volúpia do reconhecimento."2 Para os Estados seus vizinhos,
as conseqüências dessa avidez por glória eram inevitavelmente
funestas. A combinação de eficiência e agressividade das legiões
romanas era algo para o qual poucos oponentes estavam preparados. Quando os romanos
se viam desafiados a conquistar uma cidade pela força, tinham por costume
assassinar brutalmente qualquer criatura viva que encontrassem. A devastação
deixada pelos legionários era facilmente reconhecível pelas cabeças
de cães e pedaços desmembrados de gado que se misturavam aos de
cadáveres humanos.3 Os romanos matavam para inspirar terror, não
por arroubos frenéticos — eram componentes disciplinados de uma máquina
de guerrear. A coragem com que serviam às legiões, forjada pelo
orgulho de sua cidade, era uma emoção para a qual todos os cidadãos
eram preparados desde a infância. Sua maneira de guerrear tinha uma característica
letal própria — para os romanos, uma marca de glória só sua. Ainda
assim, foi preciso que se passasse algum tempo até que os demais Estados
da Itália se dessem conta da natureza do predador que se encontrava entre
eles. No primeiro século de existência da República, os romanos
tiveram que se esforçar para estabelecer sua supremacia sobre cidades que
ficavam a apenas uns dezesseis quilômetros de seus próprios portões.
Porém até mesmo os animais carnívoros mais mortíferos
precisam passar por um período de infância, e os romanos, enquanto
atacavam o gado de pequenas tribos das colinas e faziam escaramuças contra
elas, estavam desenvolvendo os instintos de que necessitariam para dominar e matar.
Por volta do ano 360 a.C. eles já haviam feito de Roma a principal cidade
da Itália central. Nas décadas seguintes, eles marcharam para o
norte e para o sul, aniquilando as oposições que eventualmente encontravam.
Por volta de 260, com surpreendente rapidez, eles já haviam dominado toda
a península. Sua sede de glória, evidentemente, não aceitaria
menos que isso. Aos Estados que reconhecessem sua superioridade, os romanos concediam
regalias, assim como um patrono condescende com seus protegidos, porém
aqueles que os desafiavam deles só podiam esperar combate incessante. Nenhum
romano podia tolerar a possibilidade de sua cidade ser humilhada. Para que isso
não ocorresse, eles seriam capazes de fazer qualquer sacrifício. Não
tardou a chegar uma ocasião quando a República precisou demonstrar
isso em uma luta literalmente de vida ou morte. As guerras contra Cartago foram
as mais terríveis que ela teve que enfrentar até então. Cidade
fundada por um povo semita na costa norte da África que dominava as rotas
de comércio do Mediterrâneo ocidental, Cartago possuía recursos
pelo menos tão grandes quanto os de Roma. Conquanto fosse predominantemente
uma potência marítima, Cartago permitiu-se manter durante séculos
uma guerra intermitente com as cidades gregas da Sicília. Como era de se
esperar, os gregos da ilha não puderam deixar de envolver a República
nas suas infindáveis escaramuças com Cartago. Também como
seria de se esperar, uma vez convidada a participar da luta a República
recusou-se a se limitar ao que dela era esperado. Em 264 Roma transformou o que
vinha sendo uma disputa de menor importância sobre os termos de um tratado
em uma guerra total. A despeito de sua absoluta falta de tradição
naval e da perda de uma esquadra após outra em combates com o inimigo ou
em tempestades, os romanos resistiram a duas décadas de terríveis
baixas até finalmente derrotarem Cartago. Pelos termos do tratado de paz
que lhes foi impingido, os cartagineses retiraram-se para sempre da Sicília.
Sem que tivesse planejado isso, Roma descobriu-se detentora do núcleo de
um império além-mar. Em 227 a Sicília tornou-se oficialmente
a primeira província romana. O
teatro das campanhas da República logo se ampliaria. Cartago havia sido
derrotada, porém não destruída. Tendo perdido a Sicília,
ela voltou sua atenção imperial para a Espanha. Desafiando as ferozes
tribos que povoavam as colinas, os cartagineses lançaram-se em busca de
metais preciosos. A grande prosperidade oriunda das minas permitiu-lhes contemplar
a possibilidade de retomar as hostilidades contra Roma. Os melhores generais de
Cartago já não mais se iludiam quanto à natureza do inimigo
que tinham na República. A guerra teria que ser total e a vitória
seria impossível a não ser que o poderio romano fosse totalmente
destruído. Foi
com essa intenção que Aníbal, em 218, liderando o exército
cartaginês a partir da Espanha, atravessou o sul da Gália e os Alpes.
Demonstrando superioridade estratégica e tática, ele derrotou três
exércitos romanos de maneira sensacional. Na terceira de suas vitórias
— após as de Trébia e do lago Trasímeno — Aníbal aniquilou,
em Canas, oito legiões, impondo aos romanos o maior desastre militar da
história da República. De acordo com todas as convenções
e expectativas das guerras contemporâneas, Roma, após essa derrota,
deveria ter reconhecido o triunfo de Aníbal e tentado assinar um tratado
de paz. Porém mesmo diante da catástrofe ela manteve sua atitude
desafiadora. Como seria de se esperar, os romanos foram buscar orientação
nas profecias da Sibila. Essas lhes prescreveram enterrar vivos dois gauleses
e dois gregos na praça do mercado da cidade. Os magistrados seguiram ao
pé da letra o conselho da Sibila. Com esse chocante ato de barbárie
os romanos demonstraram ser capazes de tudo para preservar a liberdade de sua
cidade. A única alternativa à liberdade — como sempre — seria a
morte. E
de maneira implacável, ano a ano, a República foi se reerguendo.
Organizaram-se novos exércitos; a Sicília foi mantida; as legiões
conquistaram o império de Cartago na Espanha. Uma década e meia
após a vitória de Canas, Aníbal defrontou-se com outro exército
romano, mas dessa vez em solo africano. O general cartaginês foi derrotado.
Cartago já não dispunha de tropas suficientes para dar prosseguimento
à guerra e quando os termos da rendição foram apresentados
pelo inimigo, Aníbal aconselhou seus compatriotas a aceitá-los.
Em atitude diferente da dos romanos depois da derrota de Canas, ele preferiu não
se arriscar à destruição total de sua cidade. Não
obstante, os romanos jamais esqueceram de que em Aníbal — por sua capacidade
para guerrear e pelo escopo de sua ambição — haviam encontrado o
inimigo que mais se assemelhava a eles. Séculos mais tarde ainda se podia
ver em Roma estátuas dele. Mesmo depois de terem reduzido Cartago a uma
cidade impotente, confiscando suas províncias, sua frota, seus famosos
elefantes de guerra, os romanos continuaram a temer uma recuperação
de Cartago. Esse ódio e esse temor foram o maior tributo que poderiam pagar
a um Estado estrangeiro. Não se podia confiar na submissão de Cartago.
Os romanos perscrutaram suas próprias almas e atribuíram também
a seus maiores inimigos a força implacável que lá encontraram. |