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Amigos e Vinhos, Mulheres à Parte, de Rex Pickett (tradução de Alyda Christina Sauer; Rocco; 384 páginas; 46 reais) – Divertido retrato da crise da meia-idade, esse primeiro romance do autor americano deu origem ao filme Sideways – Entre Umas e Outras. A história é narrada por Miles, um escritor pobretão e amargurado com seu divórcio recente. Apreciador de um bom vinho e metido a enólogo, ele leva o amigo Jack, um ator frustrado, numa viagem pelos vinhedos do Vale de Santa Inez, na Califórnia. Jack, que está para se casar com uma jovem rica, encara a excursão como uma despedida de solteiro, a última oportunidade de ter sexo livremente. Os dois quarentões envolvem-se em complicados relacionamentos com Maya e Terra, duas mulheres que encontram na viagem.

Leia trecho

SEXTA-FEIRA: DESARROLHADO

O sol derramava paralelogramos brilhantes de luz, cheios de ciscos de poeira rodopiantes, através das venezianas da minha casa alugada e decadente em Santa Mônica. Eu zanzava freneticamente do quarto para a sala, arrumando a mala para uma viagem de carro com meu melhor amigo, Jack Cole. Íamos ao vale de Santa Inez, passar uma semana provando vinhos antes de seu casamento, no domingo seguinte. Apesar de não ter dinheiro para pagar essa excursão improvisada, eu precisava desesperadamente sair de Los Angeles. O lugar estava me sufocando, desencadeando ataques paralisantes de pânico, problema crônico de que sofro há anos.

O telefone tocou, mas não reconheci o número que se materializou no meu identificador de chamadas, então fiquei imóvel diante da secretária eletrônica, esperando.

-- Miles, é o Roman – disse o proprietário da casa, com aquela voz grave e arrastada da Transilvânia. – Já estamos no dia quinze de setembro e ainda não recebi o aluguel. Todo mês é a mesma coisa. Se eu não receber o cheque até amanhã, vou ter que providenciar uma ordem de despejo. Não gosto disso. Você é meu amigo. Eu sei que é escritor e que morre de fome...

Abaixei o volume da secretária eletrônica para zero, com os cabelinhos do braço arrepiados. O resto da exortação de Roman eu podia repetir de cor. Ele fazia o aquecimento lembrando que tinha sido muito leniente, depois se lançava numa diatribe, espumando pela boca, dizendo que meus apertos financeiros eram a causa de sua pressão alta e motivos de muitos outros ônus que pesavam sobre sua cruz de proprietário de imóveis. Suas lamúrias eram dignas de um Jó e a intenção era fazer com que eu me sentisse culpado, para arrumar de qualquer jeito os 850 dólares em questão.

Recomecei a arrumar a bagagem, enquanto a ligação alfinetava pelas beiradas a minha psique, já fragilizada. Na minha mala toda arranhada, joguei dois livros com temas áridos, que eu sabia que nunca abriria. Por precaução, acrescentei The Oxford Companion to Wine, o compêndio brilhante e exaustivo de Jancis Robinson com tudo o que você sempre quis saber sobre o universo do vinho. Era o livro perfeito para acalmar os nervos às três da manhã, quando você acorda no quarto de um motel desconhecido, suando frio, tremendo, vítima de ressaca. Afinal de contas, Jackie e eu íamos viajar para a região dos vinhos, e queria ter comigo o livro que me dera todo o conhecimento básico sobre minha única paixão eterna, além, é claro, dos escritos impenitentes de dois romances não publicados e montes de roteiros não produzidos.

Quando já ia trancar a casa, o telefone tocou de novo e abalou meus nervos. Corri para o identificado de chamadas, já imaginando que era meu senhorio irritado outra vez, ampliando seu primeiro recado com mais uma saraivada de avisos. Mas o número que apareceu no visor tinha código de área 212, então eu me apressei em pegar o fone.

-- Alô – atendi ofegante.

-- Miles – cantarolou uma voz animada de mulher. – É a Evelyn, sua agente favorita.

Ela era a sexta de uma longa fila de tubarões famintos peritos em apunhalar pelas costas, mas, até aquele momento, parecia ser uma rara exceção: uma agente que acreditava em mim.

-- Evelyn, o que houve? Você parece animada, para variar.

Na verdade, Evelyn tinha aquela modulação atípica na voz que prometia galeões, naus cheias de tesouros capazes de diminuir o sofrimento provocado pelas trinta e cinco cartas de rejeição que eu colecionava nas paredes da minha sala de estar, grinaldas do fracasso, como dizia orgulhosamente para todo mundo.

-- Uma notícia potencialmente boa – disse Evelyn. – Richard Davis, da Conundrum, gostou do seu livro.

Meu queixo caiu. O livro ao qual ela se referia tinha rodado por toda a Nova York por quase um ano inteiro, sem encontrar comprador. Houve a primeira leva de apresentações para a nata das editoras, quando a animação era muita e o otimismo, exagerado. Depois, a segunda leva, para editoras de menos prestígio, o que significa adiantamentos menores e orçamentos consideravelmente mais magros para a promoção se me publicassem, e eu ainda achava que isso iria acontecer. O lento pinga-pinga de morfina continuou com mais cartas de rejeição jorrando do escritório de Evelyn, em Nova York, para mim, em Los Angeles. No fim da fila vinha a terceira leva, editoras-butiques da periferia que procuravam um estouro editorial e a subida para o segundo escalão. Fora as gráficas que atendiam às vaidades pessoais e às iniciativas independentes na Internet, e foi aí que a Evelyn desembarcou e passou para o CMM – contrato maior e melhor. Estávamos nos agarrando a fiapos puídos, e nós dois sabíamos disso.

-- Ótimo – respondi, quase sem querer ouvir as exigências, com medo dos panos quantes na minha animação.

-- Ele vai passar o seu manuscrito para os outros editores lerem neste fim de semana. Espero uma decisão deles no fim de semana que vem. É claro que ele recomendou algumas revisões.

-- É claro. – respondi. – Um contrato de publicação certamente teria esse efeito galvânico sobre mim.

Evelyn deu uma boa risada, a gargalhada de uma agente que trabalhava muito e que não estava rejuvenescendo com o tempo.

-- Estamos em boa forma – ela disse. – Vou ficar de dedos cruzados.

-- Maravilhoso – respondi, olhando para o relógio. – Estou de saída para uma pequena viagem.

-- Ah, é? Para onde?

-- Para o vale de Santa Inez. Uma hora ao norte de Santa Bárbara. O Napa/Sonoma dos pobres. Meu amigo Jack vai se casar e vamos aproveitar em grande estilo. É pesquisa para o meu próximo livro – expliquei.

-- Parece uma senhora farra – ela disse. – Está escrevendo alguma coisa nova, Miles?

-- Bem, ummm – comecei a gaguejar.

Olhei em volta, vendo as cartas de recusa pregadas com tachinhas nas paredes, cujas palavras pungentes eram lembranças escandalosas do motivo de eu continuar improdutivo ultimamente. É claro que também havia o divórcio, a conta minguante no banco, a renovada onda de ataques de pânico, a perda do meu agente de cinema para a Dança de São Vito a súbita partida de uma namorada recente que não conseguiu suportar meus humores ocupacionais.

-- Tenho algo germinando – eu finalmente disse. – Algo épico.

-- Bem, continue escrevendo, ela me encorajou. – Eu telefono quando souber de alguma coisa.

Desligamos e fiquei ali parado por um tempo, com centenas de pensamentos cruzando a minha cabeça. Quase dera aquele livro como morto. Dois anos jogados fora e todas as dívidas que assumi por causa dele, mas fiquei emocionado de saber que Evelyn persistia. Anotei um lembrete mental de não perder completamente a esperança na humanidade.


 
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