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Política, de Adam Thirlwell (tradução de José Antonio Arantes; Companhia das Letras; 283 páginas; 39,50 reais) – Não se engane com o título: como tudo nesse livro, ele é irônico. O tema central do romance é o sexo. Política narra as desventuras do ator Moshe e de sua namorada, a estudante Nana, casal que resolve apimentar a relação trazendo uma amiga bissexual para a cama. O apelo da história é incrementado pelo narrador, que volta e meia a interrompe para comentá-la ou conversar com o leitor. "Acho que você vai gostar de Moshe", diz o narrador intrometido. E ele poderia dizer o mesmo sobre Política. O romance de estréia de Thirlwell, de 25 anos, o colocou na lista dos melhores escritores britânicos jovens da revista literária Granta.

. Leia trecho do livro

Ao tentar apertar, delicadamente, as algemas de pelúcia rosa nos pulsos da namorada, Moshe percebeu que ela fechou um pouco a cara. Acho que você vai gostar de Moshe. 0 nome da namorada dele é Nana. Acho que vai gostar dela também.

- Gatinha - disse. - Qual é o problema?

Estava de joelhos junto ao pescoço de Nana. Ela estava de bruços.

Os braços estendidos, que nem mergulhador, acima da cabeça.

O problema era este: as mãos de Nana eram muito magras para as algemas. Por isso ela fechou a cara. Havia uma questão de logística. E Nana era antenada em logística. Levava sexo a sério. Mas seria difícil levar sexo a sério se, ao se contorcer, as mãos quase escapassem das algemas. Não era, explicou ela, o ideal. A contorção era a beleza da coisa.

Ao erguer o olhar por um instante, Nana viu a cara de desânimo de Moshe.

- Gatinho - disse. - Qual é o problema?

Sem dramas, ela explicou que só tinha que representar. Ficar imobilizada e fingir relutância. Ela era um amor com ele. Verdade, disse pensativamente ao edredom, que o plano tinha sido outro. Sabia que seria feita cativa, ficaria sem defesa, en­quanto o tirano Moshe fingiria, todo alegre, que tinha perdido os dois jogos de chaves das algemas, as originais e as cópias. Mas o divertido era improvisar.

Gosto desse casal. Um casal do tipo faça-você-mesmo. Gosto disso. Nana imaginara tudo. Rascunhara uma sinopse. Seria amarrada e depois sodomizada, com crueldade. Queria que seu homem poderoso provasse que era potente. E, como for­mavam um casal que buscava a reciprocidade, Moshe reagira com a sugestão de uma visitinha à Sh!, uma butique de sexo no bairro de Hoxton que tinha uma política de entrada.

Política de entrada? Ah, sim. Barravam homens sem mulheres. Nervosamente, na Sh!, Moshe e Nana deram uma olhada em volta por uns quatro minutos. Sh! cheirava a incenso. Moshe resolveu que deveriam ir embora. Depois mudou de idéia. Se fossem embora, pensou, dariam a impressão de que não se sen­tiam à vontade com os brinquedos sexuais. Dariam a impressão de ter medo de sexo. Não sei bem por que Moshe se preocupava tanto com isso. Era verdade. Teve medo dos brinquedos. Teve medo, principalmente, de um pênis artificial de trinta centímetros, com um apêndice para o ânus. Mas não quis parecer assustado. Quis pa­recer indiferente.

Compraram, para ele e para ela, um pênis pequeno e macio com estampa de pele de leopardo, que agora despontava da caixa de papelão embaixo da cama. Compraram corda. Num aceno à submissão sadomasoquista, compraram um sutiã de couro preto para Nana. Três números menor do que o dela. Era igual a um sutiã de couro para exercícios. Achatava os pei­tos. Dando o melhor de si no papel de submissa, Nana tinha peitos de uma adolescente de treze anos. Quanto a Moshe, o campo de ação dele era o controle. Daí que era o comprador e o senhor das algemas de pelúcia rosa - ou ao menos seria, se as garras, os dentes, os fechos, sabe-se lá, se as algemas não fos­sem frouxas demais para a delicada compleição de Nana.

Frouxas demais. Tinha que representar.

Desistindo das algemas, Moshe pegou o pedaço da corda rosa de submissão. Enrolou-a oito vezes nas mãos quase alge­madas e a amarrou na armação da cama. Fez dos pulsos de Nana uma cruz fluorescente flexível.


 
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