Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros
Clarin
Di Benedetto: busca do silêncio  

O Silencieiro, de Antonio Di Benedetto (tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro; Globo; 160 páginas; 28 reais) – O título do livro é um neologismo, que poderia se traduzir como "o fazedor de silêncio". A palavra designa o protagonista do romance, um jovem movido por um só desejo obsessivo: afastar-se de qualquer forma de ruído. Essa busca de silêncio o conduz a confrontos domésticos com a esposa, a campanhas em artigos de jornal e a processos judiciais – todas atitudes inúteis, pois o barulho nunca cessa. Com essa história ao mesmo tempo simples e estranha, o argentino Antonio Di Benedetto (1922-1986) armou uma irônica alegoria da vida moderna.

Leia trecho

I

O PORTÃO DÁ DIRETAMENTE para o minguado pátio de lajotas. Eu abro o portão e encontro o ruído.

Procuro-o com o olhar, como se fosse possível determinar sua forma e o alcance de sua vitalidade. Vem de bem depois dos dormitórios, de um terreno desocupado que eu nunca vi, os fundos de uma espaçosa casa que emerge em outra rua.

Do umbral da cozinha, minha mãe me previne:

— Foi assim a manhã toda.

— E o que é? — quero estabelecer, desconcertado.

— Trouxeram um ônibus, ligaram o motor e o deixaram, que continue...

Como eu nada faço para acabar de entrar, ela me adverte:

— Seu tio está aqui. Vai comer com a gente. Está lendo as notícias.

O sol se prodigaliza sobre a mesa da sala de jantar. Mencionar sua bondade faz parte do ritual do almoço e resulta necessário como pronunciar a gratidão.

Mas não conseguimos proceder como sempre. O ruído, contínuo, nos compele a tê-lo mais presente que qualquer outra coisa.

— Como sabe que é um ônibus?

— Pedi para o seu tio que se aproximasse e visse.

O irmão só usa um movimento de cabeça para avaliar seu informe.

A explicação do trâmite está implícita: desde que isso começou, ela se sente aturdida e incomodada, e se inquietou, por conta, pelo filho.

Meu tio opina:

— Não pode durar. Um ônibus vem e vai embora.

O ruído, pressionando minha cabeça, leva-me a questionar:

— "Vem e vai embora", isso é uma frase. Vem e vai embora quando anda pela rua. Não percebe que este ônibus é diferente, que está enxertado na nossa casa? Não o ouve, por acaso? Claro, não vai ter de suportá-lo, o senhor não mora aqui!...

A colher, suspensa no ar, derramando a sopa — essa única resposta da surpresa do meu tio —, apequena a minha veemência e me faz calar, mortificado.

No silêncio dos três, ordeno as razões com as quais ele poderia me fazer moderar: eu descarrego sobre ele minha agressividade e minha cólera e, ao fazê-lo, equivoco-me de sujeito e me ponho injusto com torpeza; não acato a possibilidade de que o ruído se apague de repente e não regresse, encarniço-me na suposição de que o problema se posicionou no futuro e nunca mais nos dará respiro; descuido de atender que o normal de um ônibus é circular por ali ou por lá, sempre fora, e que um motor em movimento, se o carro não anda, é antieconômico e está submetido, nada mais que isso, a um teste transitório.

Digo, corrigindo o atropelo que também roçou minha mãe:

— Bom, já vai passar; do contrário, teremos um remédio legal para que passe.

Não obstante, sobre essas mesmas palavras me arrependo, porque é como adquirir o compromisso de entabular uma obscura batalha para a qual não me acho disposto: denúncias, não sei a quem; comprovação, provas, alegações; a sanção para os outros; para mim, a hostilidade dos culpados, ainda inominados.

Para mim, o ruído se interrompe com a segunda porção da jornada que devo dar ao escritório.

De volta, a calçada da minha casa marca o limite do receio: lá podem se encontrar colocadas as condições definitivas para uma luta.

Lá dentro, só estão a minha mãe e os benignos ruídos domésticos. Não pergunto quanto mais durou aquilo. Minha mãe não me infere nenhuma lembrança verbal; mas seu rosto e seus olhos estão fatigados, e sua administração do jantar denuncia a pressa de chegar ao leito.

De madrugada — o dia não é mais que um leitinho aguado na janela —, algo como o coração que se alvoroça em meu interior, enquanto o meu entendimento, posto de pé em alerta, discerne um ruído grudado na parede de trás do meu quarto.

A impressão de motor dura somente uns minutos. Depois vão se distinguindo, uma a uma, as operações de colocar o pesado carro em movimento, recuar, avançar de novo, voltar atrás e, por fim, alinhar para a saída. Na distância, apaga-se sem esforço, incorporado à difusa acústica com que nasce o dia nas cidades.

Fico aliviado. "Um ônibus vem e vai embora."

Pergunto-me se também terá sacudido minha mãe e sei que sim, porque ela chega — cedo demais para a dissimulação — com um sorriso de bom-dia e o esmerado café-da-manhã que prepara para o filho solitário.

Não chamarei rotina a isto de agora: a rotina habitua e adormece os sentidos. E este ônibus, a cada manhã e a cada noite, pontua de sobressaltos a nossa vida.

Ao motor e às manobras se sobrepõem as vozes dos homens. Às vezes trazem essas palavras que humilham se advertimos que as escuta a mulher que respeitamos.

Embora minha mãe e eu nada tenhamos dito, essas bruscas penetrações nos amarguram.

 


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio