O
Porco Filósofo, de Julian Baggini (tradução de Edmundo
Barreiros; Relume Dumará; 305 páginas; 39,90 reais) Os vegetarianos
dizem que comer animais é imoral. E se existisse um porco geneticamente
modificado que desejasse ser comido seria correto matá-lo? O filósofo
inglês Julian Baggini propõe 100 dilemas desse estilo para o leitor.
São, como ele define, "experiências do pensamento", situações
fantasiosas que permitem questionar os limites da moral e até da lógica.
Alguns dos dilemas são extraídos da obra de filósofos como
Platão e Descartes; outros vêm de ficcionistas como Philip K. Dick
e Douglas Adams (criador do porco que deseja ser comido). Baggini comenta cada
uma dessas questões, mas não as resolve o livro é
uma divertida provocação ao espírito crítico do leitor.Leia
trecho Faith
sempre acreditou em reencarnação. Mas recentemente seu interesse
por suas vidas passadas tinha alcançado um novo nível. Agora que
estava visitando a médium mística, pela primeira vez teve informação
sobre como realmente foram suas vidas passadas. A
maior parte do que Marjorie contou a ela foi sobre sua encarnação
anterior como Zosime, uma mulher nobre que viveu na época do cerco de Tróia.
Ela soube de sua fuga audaciosa primeiro para Smyrna e depois para Cnosso. Era,
aparentemente, bela e corajosa, e se apaixonou por um comandante espartano, com
quem viveu em Cnosso pelo resto de sua vida. Faith
não conferiu a verdadeira história de Tróia para verificar
a história de Marjorie. Não duvidou de que a sua era a mesma alma
que vivera em Zosime. Entretanto, havia algo que a preocupava e incomodava em
relação ao que aquilo significava. Por mais que gostasse da idéia
de ser uma beleza grega, como não se lembrava de nada de sua vida em Cnosso
ou tinha qualquer sensação de ser a mesma pessoa sobre a qual Marjorie
lhe contara, não podia ver como ela e Zosime podiam ser a mesma pessoa.
Ela havia descoberto sobre sua vida passada, mas aquilo não parecia ser
a sua vida. Muitas
pessoas em todo o mundo acreditam em várias formas de reencarnação
ou renascimento. Há muitas razões para pensar que estão erradas
em fazer isso. Mas vamos supor que temos almas e que elas reencarnam. Em que isso
implica? É
esta a questão com a qual Faith está se debatendo. Apesar da natureza
um tanto suspeita da história que Marjorie lhe contou – por que nossas
vidas passadas sempre parecem ter sido como pessoas tão interessantes e
fortes, com vidas tão ricas? –, Faith não questiona sua veracidade.
A pergunta que ela se faz é: se eu, na verdade, tenho a mesma alma que
Zosime, será que isso faz com que eu e ela sejamos a mesma pessoa? Intuitivamente,
Faith responde: "Não." Ela não tem a sensação
de ser a mesma pessoa que Zosime. Isso não é surpresa. Quando olhamos
para nós mesmos no passado (em vez de para nossos eus anteriores), o que
nos dá a sensação de que somos a mesma pessoa é certo
grau de encadeamento e continuidade psicológicos. Lembramo-nos de ser aquela
pessoa, de fazer as coisas que ela fez, ter as crenças que ela tinha e
por aí vai. Também temos uma sensação de como nossos
eus atuais se desenvolveram a partir dessa pessoa. Se
nossas almas habitaram outras pessoas em vidas anteriores, não temos tais
conexões psicológicas com elas. Marjorie precisa dizer a Faith o
que Zosime fez e pensou, já que Faith não se lembra de ser Zosime,
nem tem qualquer sensação de ter se desenvolvido a partir de Zosime.
Sem essas ligações, como pode fazer algum sentido dizer que Zosime
e Faith são a mesma pessoa, mesmo se compartilham da mesma alma? Se
esses pensamentos estão no caminho certo, então mesmo se temos almas
que sobrevivem à morte corporal, isso não significa necessariamente
que nós vamos sobreviver à morte corporal. A existência continuada
do eu parece depender da continuidade psicológica, não de alguma
estranha substância imaterial. A existência continuada da alma não
garante mais a existência continuada do que a existência continuada
do coração ou de outros órgãos. Mas
agora considere o que é olhar para uma foto sua de quando era criança.
Para saber como era aquela pessoa, você normalmente tem de perguntar a alguém
que era adulto na época e que se lembra. "Como eu era?", você
pergunta a elas, assim como Faith faz com Marjorie,
"Como eram as coisas em Tróia?" Seus elos psicológicos
com aquela criança podem ser tão fracos que praticamente não
existem. Será que isso significa que, em um sentido muito real, você
não é mais a mesma pessoa que era seu eu bebê do que Faith
é a mesma que Zosime? |