Confissões
de um Burguês, de Sándor Márai (tradução
de Paulo Schiller; Companhia das Letras; 456 páginas; 54 reais)
Sándor Márai (1900-1989), um dos maiores escritores da Hungria,
viveu a censura e a perseguição do comunismo em seu país.
Mas Confissões de um Burguês, seu livro de memórias,
não chega a incluir o período comunista. Foi escrito antes disso,
em uma idade que alguns considerariam precoce para esse gênero: 34 anos.
Centrado em sua conflituosa relação com a família e em sua
formação como escritor, o relato é também uma poderosa
crônica histórica da dissolução do Império Austro-Húngaro,
depois da I Guerra.
Leia
trecho 1 Casarões
de dois andares, na cidade, não havia mais de uma dúzia: aquele
onde morávamos era como as duas casernas e alguns edifícios públicos.
Depois, construiu-se o palácio do comando militar, também de dois
andares, que contava até mesmo com um elevador movido a eletricidade. Mas
a nossa casa, na rua principal, parecia uma verdadeira casa de cidade grande;
era um imóvel de aluguel, de dois andares, com a fachada larga, portões
amplos, degraus espaçosos - a escadaria era castigada por uma corrente
de ar, os mercadores descansavam nos degraus no fim da manhã em coletes
de pele de carneiro, chapéus de couro de boi, degustavam toucinho, cachimbavam
e cuspiam -, e, nos andares, uma longa fileira de janelas, doze ao todo, que davam
para a rua. Junto dos apartamentos do primeiro andar, e igualmente no nosso, havia
um terraço estreito em cujas grades de ferro enrolávamos, no verão,
ramagens de gerânios plantados em caixotes cheios de terra. ("Enfeite
sua cidade!": essa era a palavra de ordem, e uma instituição,
a Associação para o Embelezamento da Cidade, chegou a ser fundada
a serviço da nobre idéia.) A casa era muito bonita e, acima de tudo,
prestigiosa; com a fachada de tijolos vermelhos à vista, era a primeira
casa verdadeiramente "moderna" da cidade; o arquiteto tinha decorado
os parapeitos das janelas com ornamentos de gesso e, além disso, de modo
geral, incluíra nela tudo o que a ambição de um arquiteto
do fim do século poderia imaginar para um edifício novo em folha
daquele gênero. Na
cidade, todas as casas, também aquelas onde viviam mais famílias
e os moradores pagavam aluguel, pareciam abrigar uma única família.
A verdadeira cidade era invisível, construída para dentro, estendia-se
detrás das fileiras de fachadas térreas. Se o passante olhasse por
uma das arcadas dos portões, veria quatro ou cinco casas no quintal, todo
ele ocupado pelas construções de netos e bisnetos; quando um rapaz
se casava, grudava-se para ele uma nova ala às existentes. A cidade ocultava-se
no pátio das casas. As pessoas viviam numa prudência enciumada, estrábica,
voltada para dentro, com o tempo toda família construía para si
um pequeno pedaço de cidade, escondido, um diminuto bloco que, formalmente,
e perante o mundo, somente a fachada que dava para a rua denunciava. Não
admira que o casarão onde meus pais alugaram um apartamento no início
do século contasse, na vizinhança, como um verdadeiro arranha-céu,
razão por que a notícia logo correu por toda a redondeza. Era uma
verdadeira casa de aluguel, triste, daquelas que na capital por aquela época
foram construídas às centenas: casa de aluguel, com inquilinos,
com uma "passagem" comprida, gradeada, estendida ao longo dos andares,
com lavanderia, aquecimento central e um banheiro para as empregadas na escadaria
lateral. Nunca se vira coisa parecida na cidade. O aquecimento central era uma
novidade dos tempos, mas do banheiro de empregada também se falava muito,
porque, como ao longo de séculos, por delicadeza, ninguém se interessava
em saber onde a empregada fazia as necessidades. O arquiteto "moderno"
que construíra a casa fora um inovador na região ao separar assim,
em suas obras, os imperativos da convivência entre patrões e empregadas.
Na escola eu me vangloriava de que na nossa casa as empregadas usavam um banheiro
separado. A verdade era que as empregadas, com um pudor e uma aversão singular,
não visitavam os recintos apropriados, e, portanto, não se sabe
que lugar elas usavam. Provavelmente, o mesmo que usavam antes, havia tempos,
que usaram ao longo de séculos, desde sempre. O
construtor pôde se divertir à vontade, não teve de economizar
espaço nem material. Da escadaria, a porta de entrada se abria num hall,
com as dimensões de um quarto, onde havia um armário com um espelho
na porta, da parede pendia um porta-escovas bordado e chifres de alce, e no inverno
era terrivelmente frio, porque esqueceram de embutir nele a calefação;
assim, não o aqueciam, e os casacos de pele dos convidados congelavam nos
cabides. Na verdade, essa seria a "entrada principal" para quem viesse
da escadaria, embora ali somente se abrisse a porta para convidados ilustres.
As empregadas, os membros da família e também os pais entravam no
apartamento pelo corredor, ao lado da cozinha havia uma pequena porta de vidro,
e, como não havia campainha, era preciso bater na janela. Os amigos da
família também entravam por ali. A "entrada principal",
o hall com os chifres, era utilizada apenas duas ou três vezes por
ano, no dia do santo do meu pai e nas noites de Carnaval. Certa vez, como um agrado
especial, pedi de presente de aniversário à minha mãe que
me deixasse entrar no apartamento pelo hall da escadaria, num dia de semana,
completamente sozinho, para meu encantamento solitário. O
quintal era retangular e muito amplo. No centro havia um poste para bater os tapetes,
como uma forca coletiva, e um poço com uma roda movida a eletricidade que
levava água para os apartamentos. Naquela época, na cidade, não
se tinha notícia de água encanada. Toda madrugada e todo fim de
tarde a mulher do zelador aparecia junto do poço, ligava o motorzinho elétrico
e o fazia funcionar até que do ladrão posto debaixo do beiral do
segundo andar escorresse um filete de água para o quintal, sinalizando
que a caixa mais alta estava cheia de água potável. Essa visão
extraordinária, sobretudo nas horas em que o sol se punha, reunia entre
os moradores todos aqueles cujo orgulho a admiração não feria,
primeiramente as crianças e as empregadas. A luz elétrica estava
na moda na maioria das casas da cidade; alternavam-se as lâmpadas elétricas
e as luminárias Auer de gás. Porém em muitos lugares se usavam
também lampiões de querosene. Minha avó consumiu um lampião
de querosene pendurado até seus últimos dias, e, quando meus pais
me mandaram à cidade vizinha para completar o ginásio, hospedado
na casa de um professor de canto passei o ano e tirei minhas notas na companhia
de um lampião de querosene; é verdade que eu também sentia
a condição como ultrapassada e a necessidade de me alojar num lugar
tão atrasado ofendia meus sentimentos. Na minha infância, em casa,
nos orgulhávamos da luz elétrica, mas, quando podíamos, no
jantar, sem convidados, acendíamos as lamparinas de brilho suave, leitosas,
de gás. Era comum o cheiro de gás espalhado pela casa. Mais tarde,
alguém engenhoso inventou um dispositivo de segurança, um disco
fino de platina que se montava sobre a rede de Auer. Se houvesse um vazamento
de gás, o disco de platina começava a trepidar, tornava-se incandescente
e explodia automaticamente a matéria acumulada. Meu pai gostava das novidades
técnicas, e foi um dos primeiros na cidade a equipar as luminárias
com o mecanismo de segurança. Mas usávamos querosene também,
em especial as empregadas, na cozinha; o zelador, por sua vez, queimava querosene
na escadaria. Admirava-se a eletricidade, mas não se confiava muito nela. O
próprio aquecimento central chiava e mais gorgolejava que aquecia. Minha
mãe chegou a instalar no quarto de estudos das crianças uma estufa
de cerâmica porque não confiava na maravilha a vapor. Na época,
todos os instrumentos mágicos do começo do século serviam
mais para dificultar a vida. Os inventores aprendiam às nossas custas.
Uma década depois o mundo zumbia e sibilava por conta da eletricidade,
do vapor, do motor de explosão, mas os descobridores transpiraram em cima
das descobertas justamente durante a minha infância, e o que os inovadores
corajosos empurravam para os crentes devotados era em geral imperfeito e inútil.
A luz piscava, dava apenas um brilho amarelado, meio cego. O aquecimento a gás
sempre falhava quando o frio era de rachar, ou inundava os quartos com um calor
sem limites, esfumaçado, úmido, e por isso adoecíamos com
tanta freqüência. Mas esperava-se que "evoluíssemos com
os tempos". A irmã mais velha da minha mãe, por exemplo, não
tinha prazer em "evoluir com os tempos", alimentava com madeira a estufa
de porcelana branca, nós fugíamos do aquecimento a gás para
nos aquecer na casa dela e nos deliciávamos com o calor uniforme, perfumado,
da madeira de faia em brasa. O
grande quintal era atravessado por um vento áspero que uivava o tempo todo,
porque se abria para o norte uma passagem que também no verão apontava
na direção de montanhas nevadas. A fachada do casarão de
dois andares o construtor prolongara a cada lado do quintal com a fileira de edifícios
de um andar; na extremidade do quintal havia um remendo térreo, bastante
elegante, uma espécie de "casa de família de dois quartos",
o apartamento do zelador. Tudo se espalhava e ocupava bastante espaço.
Parece que o construtor também não confiara que haveria morador
para todos os recintos do casarão "de aluguel" e não erguera
os andares supérfluos no quintal. O edifício inteiro anunciava a
nova era, orgulho do empreendimento capitalista batalhador e bem-sucedido. Aquela
era a primeira casa da cidade que não fora construída com a intenção
de que os moradores arrastassem os dias até o fim da vida entre as paredes
conhecidas - que eu saiba, nenhum dos antigos, dos que alugaram ali um apartamento
no início do século, mora mais na casa. Era uma casa de aluguel
com inquilinos. As antigas famílias patrícias não se disporiam
a comprar um apartamento numa casa como aquela. Chegavam a desprezar um pouco
os moradores recém-instalados, sem raízes. |