A
Ocasião,
de Juan José Saer (tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman;
Companhia das Letras; 190 páginas; 35 reais) Na geração
de escritores argentinos que surgiu depois de Jorge Luis Borges, Saer que
morreu no mês passado, aos 67 anos, em Paris é um dos nomes
mais originais. Em A Ocasião, o autor narra a história de
um ocultista que foge da França, em meados do século XIX, perseguido
por uma conspiração de iluministas. Ele vai parar na Argentina,
onde enriquece e, aos poucos, vai perdendo seus dons paranormais. Com essa
história curiosa, o argentino que foi um exilado voluntário,
radicando-se na França em 1968 retratou com precisão e ironia
a vida dos imigrantes e aventureiros europeus que se estabeleceram em seu país
no século XIX.
Leia
trecho Chamemo-lo
simplesmente Bianco. O fato de que se tenha dado a conhecer como Burton em certos
períodos da vida, como um dia explicaria a Garay López, só
se devia à cor dos seus cabelos, considerando que chamar-se Bianco pode
minar a credibilidade de um ruivo. Talvez A. Bianco, como muitas vezes estampa
sua assinatura lenta e cuidada, de rubrica trabalhosa e complexa, mais atenta
à individuação bem-definida que à estética,
A. Bianco, eco do que em outras épocas também foi A., mas A. de
Andrew, A. Burton, e que, depois da escaramuça com os positivistas em Paris,
decidiu mudar. Andrea Bianco, talvez? A. Bianco, em todo caso, sem dúvida,
por mais que a inicial, em vez de esclarecer um pouco do mistério, contraditória,
obscureça-o, de modo que, já que ele o prefere, e embora esse nome
entre em conflito com sua procedência nebulosa e com a cor dos seus cabelos,
que ainda aos quarenta e seis anos se encrespam em moitas abundantes e avermelhadas,
vamos chamá-lo apenas, para simplificar, Bianco. O
fato é que ele agora, dubitativo, está de pé no meio da planície
e, por causa do ar cinzento, uniforme, não muito frio, da tarde de fim
de inverno, o cabelo avermelhado, as sobrancelhas e os cílios avermelhados,
quase cor de tijolo, parecem ainda mais vermelhos, e a uns duzentos metros às
suas costas a cabana, única elevação rudimentar na terra
plana e monótona coberta de capim acinzentado, constitui um fundo precário,
um tanto inconseqüente, mais cenário que moradia, cuja modéstia
contrasta com a vestimenta cara, visivelmente européia, do seu proprietário
– não somente da cabana, mas de toda a terra plana que se estende dos seus
pés até o horizonte, e que também se estenderia até
o horizonte desde os seus pés se ele estivesse de pé em qualquer
ponto do círculo que, por ilusão de ótica, une ao longe o
céu cinzento e a planície. É a parte de trás da cabana,
uma parede retangular de adobe, de um cinza pardo, arrematada pelo plano inclinado
de uma das duas águas do teto de palha. À distância, não
parece ter mais espessura do que um pano de fundo pintado, já que Bianco,
quando um peão dos Garay López, um velho nativo especialista na
coisa, foi fazê-la, pediu com insistência a construção
mais simples, mais austera, capaz de conter apenas um catre, um banco, uma mesinha,
um lampião, uma marmita, o estritamente necessário para de vez em
quando subsistir por alguns dias longe da cidade, em solidão total, dedicando-se
inteiro ao pensamento com o objetivo de refutar, de uma vez por todas, a camarilha
positivista que, de algum modo, seis anos antes o forçara a abandonar a
Europa. Mas agora, que saiu um pouco, distraído, para ver no campo se o
céu cinzento está trazendo chuva e decidir se vai voltar para a
cidade nesta mesma tarde ou amanhã de manhã, assaltado, como lhe
acontece tanto, por um pensamento prático em meio a suas meditações
filosóficas, começou a pensar em tijolos, de modo que por alguns
instantes seus pensamentos, as imagens que se desenvolvem rápidas mas claras
atrás da sua testa, têm a mesma tonalidade avermelhada que o cabelo
abundante, encrespado em ondas um pouco rígidas, que as recobre na parte
externa da cabeça. Quando,
seis anos antes, viu-a pela primeira vez nos arredores de Buenos Aires, uma semana
depois de ter desembarcado, achou, quase de imediato, que por sua monotonia silenciosa
e deserta a planície era um lugar propício para os pensamentos,
não os avermelhados e ásperos da cor dos seus cabelos como os que
tem agora, mas sobretudo os polidos, os incolores que, encaixando-se uns nos outros
em construções inalteráveis e translúcidas, iriam
servir-lhe para libertar a espécie humana da servidão da matéria.
A extensão plana, sem acidentes, que o cerca, cinza como o céu de
fim de agosto, representa melhor do que qualquer outro lugar o vazio uniforme,
o espaço despojado da fosforescência multicolorida que os sentidos
enviam, a terra de ninguém transparente no interior da cabeça onde
silogismos estritos e calados, claros, se concatenam. Mas ele tampouco despreza
os outros, de qualquer cor, cor de tijolo, por exemplo, como agora, ou os pensamentos
tingidos pela carne morena de Gina, que se tornam curvos, redondos, como as formas
do corpo dela, negros e lisos como seus cabelos, bruscos e um tanto pueris como
seu riso, suaves e úmidos como seu abandono. Seu desdém pelas coisas
materiais se deve talvez à facilidade com que as entende, resolve e domina.
Assim, quando chegou à planície com seus títulos de propriedade,
decidiu, ao primeiro olhar, observando os ricos do lugar, que iria dedicar-se
ao gado e ao comércio - se quiser ser rico, faça tudo como fazem
os ricos, foi, desde que pôde freqüentar os ricos e estudá-los
de perto, sua regra de ouro, graças à sua facilidade, à sua
astúcia prática, que nele é um dom como em outros a aptidão
para a música, essa astúcia que agora tinge seus pensamentos com
a mesma cor de tijolo dos seus cabelos, porque, como sabe que os imigrantes estão
chegando às dúzias, às centenas de milhares na planície
em que não se vê uma árvore ou uma pedra por léguas
e léguas, esses imigrantes, quando tiverem juntado um pouco de dinheiro
plantando trigo e quiserem morar em casas mais sólidas que as cabanas de
argila e esterco que constroem quando chegam, precisarão de tijolos para
construir essas casas, e é ele, Bianco, quem irá fabricá-los
e vendê-los. Rejeitando
esses pensamentos com displicência, quase com desdém, em ligeira
disputa consigo mesmo porque sabe que às vezes seus projetos pragmáticos
têm qualquer coisa de revanche pueril e sobretudo ineficaz contra aquilo
que o rejeita, Bianco avança um pouco, fazendo o capim cinzento estalar
sob as botas européias, e concentra a atenção na planície.
O eco dos próprios passos ainda permanece em sua lembrança, tão
nítido quanto no instante em que realmente estalaram no gramado, aparições
sonoras indiscutíveis e bem definidas, com contornos perfeitos no interior
do silêncio sem limites, tal como objetos no espaço, e mesmo mais
que objetos afins, na planície, aos sentidos e à memória.
Durante alguns segundos Bianco se perde na transparência cinza do exterior,
bem presente e claro embora inconcebível, cada um de cujos detalhes, um
pássaro negro que cruza, lento, o céu nas alturas, contra a camada
uniforme de nuvens cinza, a extensão cinza do pasto, o ar frio que colore
um pouco seus pômulos, a contundência de seu próprio corpo,
é como um dilaceramento ou um perigo, massa ou aresta do magma material
que o aprisiona, a lava petrificada em que os positivistas querem enterrar a espécie,
quando ele, Bianco, já demonstrou muitas vezes que o pensamento dirige
a matéria, molda-a a seu gosto, atravessa seu interior e a desloca; que,
filtrando-se pelos ossos do crânio como água por paredes porosas,
o pensamento reencontra por si mesmo, para além dos ossos e dos órgãos,
o pensamento; que basta concentrar-se, trabalhar e afiar os dons para vencer a
inércia repugnante da matéria e demonstrar, transgredindo supostas
leis inelutáveis, seu caráter de formação secundária,
de efeito menor de um plano que a despreza ou ignora, de resíduo excrementício
do espírito. A Europa inteira teve de render-se à evidência
que ele, Bianco, durante quase dez anos lhe apresentou - pensa Bianco agora, com
uma indignação um pouco humilhada, sacudindo a cabeça, tomado
por uma convicção impotente que o exaspera e o leva a exclamar,
em voz alta e em italiano: –
A ciência verificou várias vezes os meus dons. Sobressaltando-se
ao escutar a própria voz, olha ao redor, um pouco envergonhado, temendo
que alguém tenha podido surpreendê-lo falando sozinho no deserto,
apesar de saber que em várias léguas ao redor não deve haver
nenhum ser humano além do capataz e dos quatro peões do gado, aos
quais, aliás, deu ordens de evitar na medida do possível a cabana
que lhe serve de retiro, o que o obriga a reconhecer para si mesmo, aumentando
assim sua humilhação, que o sobressalto é por constatar que,
apesar dos seis anos transcorridos, a ferida ainda sangra a ponto de fazê-lo
perder a calma e obrigá-lo a gesticular e discutir em voz alta, na fria
sesta de agosto, com a planície. Ele pode ler os pensamentos alheios, deslocar
objetos à distância por concentração mental, modificar
a forma e até a substância íntima dos metais com o simples
contato de seus dedos: o próprio Maxwell, em Londres, que um pouco mais
tarde unificaria o campo eletromagnético, assistiu a uma de suas experiências,
verificando pessoalmente as condições da sua realização,
e foi obrigado a inclinar-se perante a irrefutabilidade dos fatos. De modo que
não vale a pena se irritar. É verdade que, depois da emboscada positivista
em Paris, destinada a perturbar a experiência, seus dons se enfraqueceram
e, durante alguns anos, alterado pela campanha dos jornalistas franceses contra
sua pessoa, abriu mão de praticá-los, mas há vários
meses, e graças à colaboração de Gina, em quem está
quase certo de perceber indícios do dom necessário, começou
outra vez a exercitar sua concentração e suas faculdades de comunicação
telepática. |