A
Inocência do Padre Brown, de G.K. Chesterton (tradução
de Carlos Ancêde Nougué; Sétimo Selo; 305 páginas;
39 reais) No ensaio Como Escrever uma História de Detetive,
que figura no apêndice dessa coletânea de contos, o inglês Gilbert
Keith Chesterton (1874-1936) diz que fracassou muitas vezes na tentativa de escrever
um enredo do gênero. Mas isso é falsa modéstia: o autor inglês
é um dos mestres do filão. Na linha dos detetives Auguste Dupin,
de Edgar Allan Poe, e Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, o padre Brown, criação
de Chesterton, é um prodígio do raciocínio. O sacerdote detetive
desvenda crimes com base apenas nos seus poderes de dedução
e no seu conhecimento da natureza humana.
Leia
trecho A
CRUZ AZUL Entre
a faixa de prata da manhã e o verde cintilante da faixa do mar, aportou
o navio em Harwich e soltou como a moscas uma quantidade de pessoas, entre as
quais não se notava nem queria fazer-se notar o homem cujos passos vamos
seguir. Nada nele era extraordinário, salvo o leve contraste entre a alegria
festiva da roupa e a seriedade oficial do rosto. Vestia um paletó cinza
pálido, um colete branco e um chapéu de palha prateado com uma fita
gris. O rosto magro era, por contraste, trigueiro, e terminava numa barba negra
e curta que lhe dava uma aparência espanhola e lembrava um rufo elisabetano.
Estava fumando um cigarro com a gravidade de um vadio. Nada nele indicava que
aquele paletó claro ocultava uma pistola carregada, nem que naquele colete
branco havia um cartão de polícia, nem que aquele chapéu
de palha cobria uma das cabeças mais pujantes da Europa. Sim, porque aquele
homem era ninguém menos que Valentin, o chefe da polícia parisiense,
e o mais famoso investigador do mundo; e ele vinha de Bruxelas a Londres para
fazer a prisão do século. Flambeau
estava na Inglaterra. A polícia de três países estivera na
pista do grande delinqüente, de Gante a Bruxelas e de Bruxelas a Hook van
Holland; e suspeitava-se que tentaria valer-se em Londres da estranheza e confusão
do Congresso Eucarístico que ali se estava realizando. Provavelmente ele
estaria viajando disfarçado de clérigo menor ou de secretário
do Congresso; mas, naturalmente, Valentin não sabia nada de certo; ninguém
sabia nada de certo acerca de Flambeau. Há
muitos anos esse colosso do crime falecera subitamente, após ter transtornado
o mundo; e com sua morte, assim como com a morte de Rolando, houve grande paz
na face da Terra. Mas em seus melhores dias - quero dizer, natural- mente, em
seus piores dias - Flambeau era uma figura tão estatuesca e internacional
como o Kaiser. Quase todas as manhãs anunciavam os jornais que ele conseguira
escapar das conseqüências de um delito extraordinário, cometendo
outro. Era um gascão¹ de estatura gigantesca e grande vigor físico;
e acerca de suas explosões de humor atlético contavam-se as coisas
mais incríveis: certa feita agarrara um juiz de instrução
e o pusera de ponta-cabeça "para limpar-lhe a mente"; doutra
feita correra pela Rue de Rivoli com um policial debaixo de cada braço.
E devemos fazer-lhe justiça: só empregava essa força física
fantástica em cenas assim, incruentas ainda que indignas; seus verdadeiros
delitos eram essencialmente coisas de engenho e roubos por atacado. Mas cada um
de seus roubos era quase uma nova espécie de pecado, e merecia uma história
à parte. Foi ele quem fundou a grande Companhia Leiteira Tirolesa de Londres,
sem contar com uma só leiteria, uma só vaca, uma só carroça,
uma só gota de leite, conquanto, sim, com alguns milhares de subscritores.
E a estes servia com a simplíssima operação de deslocar as
pequenas latas de leite da porta das pessoas para a porta de seus próprios
clientes. Foi ele quem manteve uma inexplicável correspondência íntima
com uma moça cujo correio inteiro foi interceptado, valendo-se do extraordinário
artifício de tirar fotografias infinitamente pequenas das cartas nas lâminas
de um microscópio. Grande parte de suas experiências, no entanto,
distinguia- se por uma impressionante simplicidade. Conta-se que certa vez repintou,
na calada da noite, todos os números de uma rua, com a mera finalidade
de fazer cair numa armadilha um viajante. É absolutamente certo que inventou
uma caixa de correio portátil, que ele punha nas esquinas dos quietos subúrbios
para a eventualidade de forasteiros enfiarem nela algum vale postal. Ele também
se tinha revelado surpreendente acrobata; apesar de sua imensa figura, era capaz
de sal- tar como um gafanhoto e de desaparecer na copa das árvores como
um macaco. Por isso o grande Valentin, ao partir para procurar Flambeau, compreendeu
perfeitamente que suas aventuras não terminariam no momento de encontrá-lo.
Mas
como fazer para encontrá-lo? Quanto a isto, as idéias do grande
Valentin ainda estavam em processo de elaboração. Havia
algo que Flambeau não podia ocultar, a despeito de toda a sua destreza
em disfarçar-se, e este algo era sua singular estatura. Se o olhar agudo
de Valentin tivesse surpreendido uma vendedora de frutas alta, ou um granadeiro
alto, ou uma duquesa medianamente alta, ele os teria prendido de imediato. Mas
em todo o trem não havia ninguém que pudesse ser um Flambeau camuflado,
a não ser que um gato pudesse ser uma girafa disfarçada. Com respeito
aos passageiros de seu vagão, já estava de todo satisfeito; e as
pessoas que tinham subido no trem em Harwich ou noutras estações
não passavam com toda a certeza de meia dúzia. Eram elas um empregado
baixinho da estrada de ferro que se estava dirigindo ao terminal, três hortelãos
um tanto baixos que haviam subido duas estações adiante, uma viúva
muito baixa que havia subido numa pequena cidade de Essex, e um sacerdote católico
ro- mano, também muito baixo, que havia subido num povoadozinho de Essex.
Ao deparar-se-lhe este último caso, Valentin se deu por vencido e quase
caiu na gargalhada. O pequeno padre era a essência mesma daqueles simplórios
do Leste; tinha uma cara redonda e insípida como um pudim de Norfolk; uns
olhos tão vazios como o Mar do Norte; e levava vários pacotes de
papel pardo, que ele era totalmente incapaz de juntar. Sem dúvida, o Congresso
Eucarístico tirara de sua estagnação local muitas criaturas
assim, tão cegas e ineptas como toupeiras desenterradas. Era Valentin um
céptico do mais severo estilo francês, e não tinha nenhuma
afeição aos padres. Podia porém sentir compaixão por
eles, e aquele triste padre era capaz de provocar piedade em qualquer alma. Levava
um guarda-chuva grande e gasto, que constantemente lhe caía no chão.
Parecia não distinguir, entre suas passagens, qual era a de ida e qual
a de volta. A todos do vagão contava, com tola ingenuidade, que tinha de
ter muito cuidado, porque num de seus pacotes de papel pardo estava levando uma
coisa de legítima prata "com pedras azuis". Essa singular mistura
de insipidez de Essex com santa simplicidade divertiu muito o francês até
o sacerdote descer (de algum modo) em Tottenham com todos os pacotes, e voltar
para pegar o guarda-chuva. Quando voltou, Valentin teve até o bom gesto
de recomendar-lhe que evitasse referir a todo o mundo aquele objeto de prata.
Mas então Valentin, quando falava com quem quer que fosse, não tinha
os olhos abertos senão para outrem; a todos, ricos ou pobres, ho- mens
ou mulheres, fitava fixamente, para ver se mediam seis pés, porque Flambeau
tinha seis pés e quatro polegadas.² Desceu
na Rua Liverpool, todavia, completa e conscienciosamente convicto de que até
ali não deixara escapar o criminoso. Dirigiu-se depois para a Scotland
Yard a fim de regularizar sua situação e assegurar que contaria
com ajuda em caso de necessidade; depois acendeu outro cigarro e entrou a perambular
por Londres. Quando estava caminhando pelas ruas e praças para além
de Victoria, de súbito diminuiu o passo e parou. Era uma praça peregrina
e plácida, bem típica de Londres, cheia de inopinada quietude. As
casas altas e planas que a rodeavam pareciam tão prósperas quão
desabitadas; o quadrado da sebe no centro parecia tão deserto como uma
ilhota verde do Pacífico. Um dos quatro lados era muito mais alto que os
outros, como um estrado, e a linha deste lado era rompida por um dos admiráveis
acidentes de Londres: um restaurante que parecia perdido ali e saído do
Soho. Era algo irracionalmente atraente, cheio de vasos com plantas anãs
e longas persianas listradas de branco e amarelo- limão. Erguia-se especialmente
acima da rua, e, conforme à costumeira mixórdia das construções
londrinas, um vôo de degraus subia da rua para a porta principal quase ao
modo de escada de emergência diante da janela de um primeiro andar. Parou
Valentin e fumou diante das persianas amarelas e brancas, e as ficou considerando
um bom tempo. O mais incrível nos milagres é que aconteçam.
Juntam-se algumas poucas nuvens do céu para formar a figura fixa de um
olho humano. Ergue-se uma árvore numa paisagem de um dia duvidoso formando
a exata e elaborada figura de um ponto de interrogação. Viram-se
estas duas coisas há poucos dias. Nelson morre no instante da vitória;
e a um homem chamado Williams sucede um dia assassinar acidentalmente um homem
chamado Williamson, o que soa como uma espécie de infanticídio.
Em suma, há na vida um elemento de conto de fadas que as pessoas, contando
só com o prosaico, nunca percebem. Como foi muito bem expresso no paradoxo
de Poe, a prudência deveria contar sempre com o imprevisto. Era
Aristide Valentin imensamente francês, e a inteligência francesa é,
especial e unicamente, inteligência. Ele não era uma "máquina
pensante", essa insensata expressão do fatalismo e do materialismo
modernos. A máquina não é senão máquina, porque
não pode pensar. Mas ele era um homem pensante e, ao mesmo tempo, um homem
simples. Todos os seus admiráveis sucessos, que pareciam coisa de magia,
eram obtidos graças a uma laboriosa lógica, a esse raciocinar francês
claro e corriqueiro. Os franceses eletrizam o mundo, não lançando
um paradoxo, mas levando a cabo um truísmo. E levam-no tão longe...
como na Revolução Francesa. Mas, exatamente porque conhecia Valentin
a razão, conhecia também os limites da razão. Só alguém
que não conhece nada de automóveis pode falar em automobilismo sem
combustível; só alguém que não conhece nada da razão
pode falar em raciocínio sem sólidos e indisputáveis primeiros
princípios. Tinhase perdido a pista de Flambeau em Harwich; e se ele estivesse
em Londres em qualquer condição, poderia encontrar-se na condição
de algo que vai de um trapaceiro alto em Wimblendon Common a um toastmaster³
alto no Hotel Metropole. Para estados de absoluta ignorância como este,
tinha Valentin uma teoria e um método próprios. Em
casos assim, ele contava com o imprevisto. Em casos assim, quando não era
possível seguir o trilho do racional, seguia fria e cuidadosamente o trilho
do irracional. Em vez de ir aos lugares mais indicados - bancos, postos policiais,
lugares de reunião -, ia sistematicamente aos menos indicados; batia à
porta de cada casa vazia, revirava cada beco sem saída, percorria cada
viela entulhada de lixo, rondava cada ruela que se afastasse inutilmente da rua
principal. E defendia muito logicamente esta via louca. Dizia que, se tivesse
uma pista, nada seria pior que este caminho; à falta porém de toda
e qualquer pista, era o melhor, porque ao menos havia probabilidades de que a
mesma estranheza que chamara a atenção do perseguidor tivesse atraído
a atenção do perseguido. A pessoa tem de começar por al-
gum lugar, e o melhor era começar justamente por onde a outra pessoa tivesse
podido deter-se. Algo naquela fuga de degraus acima, algo na própria quietude
e curiosidade do restaurante excitou toda a rara imaginação romântica
do detetive e o fez resolver tentar a sorte. Galgou os degraus, e, sentando-se
a uma mesa junto à janela, pediu uma xícara de café. Já
se aproximava o meio-dia e ele ainda não tomara o café da manhã;
os poucos restos de outros desjejuns que se viam sobre a mesa recordaram-lhe sua
fome; e, acrescentando ao pedido um ovo escalfado, passou, pensativo, a mexer
o açúcar branco no café, sem se esquecer um momento de Flambeau.
Pensava em como Flambeau escapara, certa feita, graças a uma tesoura para
unhas, e, doutra feita, graças a uma casa em chamas; noutra ocasião,
valendo-se do pretexto de pagar uma carta não-franqueada, e, noutra ainda,
pondo algumas pessoas para ver por um telescópio um cometa que ia destruir
o mundo. E julgava Valentin que seu cérebro de detetive era tão
bom como o do criminoso, o que era verdade. Mas estava de todo ciente de sua desvantagem:
"O criminoso é o artista criador; o detetive é só o
crítico", disse com um sorriso amargo, e levou lentamente a xícara
de café aos lábios, e imediatamente a afastou. Pusera-lhe sal. Olhou
para o recipiente de que saíra o pó prateado; era indubitavelmente
um açucareiro, tão inequivocamente destinado a açúcar
como o é uma garrafa de champanhe a champanhe. Não entendia como
tinham podido pôr sal nele. Olhou para ver se havia ali alguns recipientes
mais ortodoxos. Sim, havia dois saleiros totalmente cheios. Talvez houvesse alguma
qualidade especial no condimento daqueles saleiros. Provou-o - era açúcar.
Olhou então em volta com renovado ar de interesse, para ver se havia no
restaurante quaisquer outros traços daquele singular gosto artístico
que levava a pôr açúcar nos saleiros e sal nos açucareiros.
À exceção de uma mancha de líquido algo escuro numa
das paredes empapeladas de branco, tudo o mais se mostrava limpo, agradável
e comum. Tocou a campainha para chamar o garçom. Quando o empregado chegou
afobado, despenteado e meio remelento àquela hora da manhã, pediu-lhe
o detetive - a quem não faltava o gosto das formas de humor mais simples
- que provasse o açúcar e visse se aquilo estava à altura
da reputação da casa. O resultado foi que o garçom bocejou
subitamente e terminou de acordar. - Todas as manhãs os senhores fazem
brincadeirinhas delicadas como esta com os fregueses? - perguntou Valentin. -
Não se cansam nunca de trocar o sal e o açúcar? O garçom,
ao entender a ironia, assegurou-lhe gagamente que não era tal a intenção
do estabelecimento, que aquilo era um estranho engano. Pegou no açucareiro
e olhou-o; pegou no saleiro e olhou-o, cada vez mais espantada a expressão.
Por fim, desculpou-se abruptamente, e, sempre apressadamente, voltou poucos segundos
depois com o proprietário. Também o proprietário examinou
o açucareiro e o saleiro; também ele parecia muito espantado. De
repente, o garçom pareceu tornar-se tatibitate com uma precipitação
de palavras. -
Eu "aço" - disse gaguejando açodadamente -, eu "aço"
que foram aqueles dois sacerdotes. - Que sacerdotes? - Os dois sacerdotes - respondeu
o garçom - que jogaram a sopa na parede. - Que jogaram a sopa na parede?
- repetiu Valentin, imaginando certamente que se tratasse de alguma singular metáfora
italiana. - Isso, isso - disse o empregado excitadamente, e apontando para a mancha
escura no papel branco -, eles a jogaram ali, na parede. Olhou Valentin com ar
de interrogação para o proprietário, e este foi em seu socorro
com um relato mais substancial: -
Sim, cavalheiro, isso é a mais absoluta verdade, embora eu acredite que
não tenha nada que ver com o sal e o açúcar. Dois sacerdotes
chegaram aqui muito cedo, assim que abrimos as portas, e tomaram sopa. Eram pessoas
muito pacíficas e respeitáveis; um deles pagou a conta e saiu; o
outro, que parecia completamente lerdo, levou uns bons minutos para recolher todas
as suas coisas. Mas por fim se foi. Um instante antes de pôr o pé
na rua, porém, deliberadamente pegou na tigela, que estava pela metade,
e de golpe atirou a sopa na parede. Eu estava na peça dos fundos, e o garçom
também; por isso, embora tivesse corrido muito, só pude chegar a
tempo de ver a pare- de manchada e o restaurante vazio. Não é um
prejuízo muito grande, mas é um abominável atrevimento; e
tentei alcançar os dois homens na rua. Mas já iam muito longe; só
pude ver que iam dobrar a próxima esquina da Rua Carstairs. O
detetive já estava de pé, chapéu na cabeça e bengala
na mão. Já decidira que na completa escuridão de sua mente
ele teria de seguir o primeiro indício estranho que lhe apontasse algo;
e aquele era suficientemente estranho. Pagou a conta, bateu atrás de si
a porta de vidro com estrondo, e logo também estava dobrando a esquina
daquela rua. Afortunadamente,
mesmo nos momentos mais febris, seu olhar era frio e fino. Algo na frente de uma
loja lhe foi como uma pequena luz, e imediatamente ele retrocedeu uns passos para
olhá-lo. A loja era um armazém popular, uma exposição
de mercadorias dispostas ao ar livre e claramente anunciadas com seus nomes e
preços. Nos dois compartimentos mais proeminentes havia dois montes, um
de laranjas-cravos e o outro de nozes. Sobre o monte das nozes havia um pedaço
de papelão em que estava escrito com claro giz azul: "As melhores
laranjas-cravos, duas por um penny". Sobre as laranjas-cravos havia a igualmente
clara e exata descrição: "As mais finas nozes do Brasil, quatro
por uma libra". Olhou Valentin para os dois papelões e pensou que
já presenciara aquela altamente sutil forma de humor, e que a presenciara
bem recentemente. Chamou a atenção do fruteiro de cara vermelha
para aquela confusão em seus anúncios; ele, porém, estava
ocupado em olhar de mau humor para um e outro lado da rua. E, sem dizer nada,
pôs rápida e rispidamente cada papelão em seu posto próprio.
O detetive, apoiando-se elegantemente em sua bengala, continuou a esquadrinhar
a loja. Por fim disse: -
Perdoe, meu bom senhor, a minha aparente impropriedade, mas eu gostaria de fazer-lhe
uma pergunta referente à psicologia experimental e à associação
de idéias. O comerciante de cara vermelha olhou-o de modo ameaçador;
mas o detetive, girando a bengala no ar, continuou com toda a vivacidade: -
Por que há dois anúncios colocados erradamente numa quitanda como
um chapeirão eclesiástico que veio a Londres para uns dias de descanso?
Ou, no caso de eu não ter sido claro, que associação mística
relaciona a idéia de nozes anunciadas como laranjas-cravos e a idéia
de dois clérigos, um alto e o outro baixo? Os olhos do varejista pareceram
sair-lhe da cabeça, como os de um caracol; por um momento realmente pareceu
que ia precipitar- se sobre o estrangeiro. Por fim gaguejou furibundamente: -
Olhe, seu moço, não sei o que é que o senhor tem a ver com
isso, mas, se é amigo deles, diga pra eles por mim que, sendo vigários
ou não sendo vigários, eu vou partir a cabeça deles se eles
voltarem a derrubar as minhas maçãs. - É verdade? - perguntou
o detetive com grande simpatia. - Derrubaram as suas maçãs? - Um
deles - respondeu o exaltado quitandeiro - fez as maçãs rolarem
todas pela rua. Eu podia ter agarrado o imbecil, mas tive que ficar arrumando
outra vez o monte. - E por onde foram esses vigários? - Eles entraram na
segunda rua à esquerda, e depois atravessaram a praça - respondeu
o outro prontamente. - Obrigado - disse Valentin, e desapareceu como um duende.
No outro lado da segunda praça ele topou com um policial, e disse-lhe:
- Isto
é urgente, policial: o senhor viu passar dois clérigos de chapeirão?
1 -
Natural da Gasconha, região da França. [N. do T.] 2 - Ou seja, media
entre 1,93m e 1,94m. [N. do T.] 3 . Pessoa que preside a um banquete e ergue os
brindes. [N. do T.] |