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Larousse do Vinho (tradução de Antonio de Pádua Danesi, Celeste Marcondes, Maria Alice Sampaio Doria e Mary Amazonas Leite de Barros; Larousse do Brasil; 384 páginas; 119 reais) – Quem aprecia um bom vinho vai encontrar nesse livro um guia abrangente e claro para sua degustação. A edição brasileira não é somente uma tradução do original francês, mas foi adaptada para atender às necessidades do consumidor daqui, incluindo capítulos sobre o vinho no Brasil, no Chile e na Argentina. O guia ainda ensina a combinar os diversos tipos de vinho com os mais variados pratos – inclusive da culinária brasileira.

Leia trechos

Que Vinho Servir?

Desde sempre as bebidas alcoólicas como a cerveja e o vinho foram consumidas para acompanhar as refeições. Considera-se que, ao estimular o apetite e desinibir o espírito, contribuem para o prazer e o bem-estar dos comensais e, pela singularidade de seu gosto, enriquecem a variedade dos sabores.

A produção local - vinho, cerveja ou sidra - condicionou sem dúvida os hábitos de consumo das diversas classes sociais. Mas a história conservou principalmente a marca das classes mais altas, que não conheciam limites para suas descobertas gastronômicas a não ser eventuais dificuldades de transporte ou a situação política. A Grã-Bretanha e os Países Baixos, povos marítimos e sem vinhedos, abasteciam-se de vinhos nas diversas costas européias. A primeira paixão dos ingleses foi a descoberta do vinho tinto de Bordeaux, com o qual acompanharam seu rosbife durante séculos. No entanto, a guerra e o tratado de Methuen de 1703 impuseram direitos de importação sobre os vinhos franceses e obrigaram a Inglaterra a voltar-se para Portugal. Para que os toscos vinhos tintos portugueses se conservassem bem durante as longas travessias marítimas, foi preciso acrescentar-lhes aguardente, o que teve o mérito de torná-los mais bebíveis. A partir do século XVIII, os ingleses se converteram numa nação de bebedores de Porto e de comedores de rosbife.

Quando os vinhos franceses deixaram de ser um luxo de contrabando, começou a notar-se a preeminência francesa em matéria gastronômica. Arthur Young, um inglês que tinha viajado pela França antes da Revolução escreveu: "Na arte de viver, os franceses são geralmente considerados pelo resto da Europa como os mais competentes... e qualquer pessoa que possa se permitir uma grande mesa na Europa contrata um cozinheiro francês ou algum que tenha seguido seus ensinamentos". Antonin Carême (1784-1833), o mais memorável dos chefs do século XIX, cozinhou para Napoleão I, para o czar da Rússia e para o príncipe regente da Inglaterra (o futuro Jorge IV). Sua vida coincidiu com o período de maior progresso do vinho desde suas origens: o aperfeiçoamento da conservação e maturação dos vinhos de Bordeaux. Inaugurava-se o costume de deixar maturar o vinho em barris e de engarrafar os "grandes vinhos", que combinavam tão bem com as novas jóias da arte culinária.

 

Os menus através dos tempos

Atualmente, seria bastante difícil encontrar os vinhos adequados para um banquete medieval. Não somente a maioria dos pratos era muito temperada (com muita canela, cravo, gengibre e açafrão) como eles eram apresentados numa ordem que hoje nos pareceria incoerente. Ao servir-se a comida, punha-se sobre a mesa, à livre disposição dos comensais, toda uma fileira de pratos. Por exemplo, a entrada de um menu de 1393 de quatro serviços compreendia: empanadas re-cheadas de fígado frio ou de tutano de boi, guisado (pedaços de carne com molho de canela), bolinhos de tutano de boi, enguias servidas com um purê espesso e muito temperado de especiarias, peixes de água doce com um molho frio perfumado de sálvia e outras especiarias, carne assada ou fervida e pescados de mar. O vinho, em geral batizado com água, era considerado uma bebida simples e não algo por si só digno de interesse. Depois da comida, eram servidos vinhos condimentados.

Os chefs do renascimento italiano foram os primeiros a moderar a utilização das especiarias e colocar certa ordem na confecção dos menus: estabeleceram o costume de servir em primeiro lugar os pratos frios, a seguir as carnes assadas e os guisados e, no final, a sobremesa, embora fosse mantida a abundância de pratos oferecidos em cada serviço. Quanto aos vinhos, existem poucos testemunhos escritos e devemos nos contentar em imaginar que - tal como ocorria com os pratos - a categoria social determinava os critérios de escolha para as grandes festas.

Pelo menos durante os dois séculos seguintes manteve-se o estilo conhecido como "serviço à francesa", no qual se dava muita importância à etiqueta e à guarnição dos alimentos. No século XIX, ganhou relevo o muito menos protocolar "serviço à russa". Esta é a opinião que nos deixou escrita em 1868 o barão Léon Brisse sobre essas duas concepções tão diferentes: "O jantar francês se divide em três serviços. O primeiro compreende os caldos e sopas, os acepipes, os pescados e as entradas; o segundo, o assados e as verduras; o terceiro, as sobremesas. Os pratos são apresentados simultaneamente para cada serviço. Já a moda russa consiste em dispor todos os pratos frios sobre a mesa e apresentar individualmente os pratos quentes aos convidados. O estilo francês nos priva do calor dos alimentos, mas o estilo russo nos priva do prazer para os olhos".


 
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