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Divórcio em Buda, de Sándor Márai (tradução de Ladislao Szabo; Companhia das Letras; 174 páginas; 31,50 reais) – Sándor Márai é hoje reconhecido como um dos maiores escritores da Hungria. Mas nem sempre foi assim: durante as quatro décadas em que os comunistas estiveram no poder naquele país, sua obra foi proscrita e o autor viveu no exílio até se suicidar, em 1989, nos Estados Unidos, à beira dos 90 anos. Em sua obra, o que dá o tom é a melancolia e uma visão perturbadora da natureza humana. Divórcio em Buda não foge à regra. No centro do romance está um juiz diante de um caso de divórcio. O casal que deseja se separar é formado por um antigo colega de escola do magistrado e, para sua surpresa, uma mulher com a qual ele flertara fortuitamente anos antes. A partir desse triângulo, Márai constrói uma trama sobre a hipocrisia e a falta de comunicação nos relacionamentos.

Leia trecho do livro

Capítulo 1

Setembro deu as graças com um calor extraordinário. Em uma tarde de começo de outono, quando os dias ainda trazem o ardor remanescente, o jovem juiz Kristóf Kömives examinava em seu gabinete documentações referentes a processos de divórcio.

Uma o interessava em particular, pois o juiz conhecia remotamente as partes envolvidas. O desventurado herói da audiência a se realizar no dia seguinte, o marido, um jovem médico de talento reconhecido, diretor do laboratório de um dos hospitais da capital, fora colega de escola de Kömives; cursaram juntos os primeiros anos do ginásio e depois costumavam se encontrar em bailes, reuniões e outros eventos sociais da vida universitária. O juiz pensava sempre com carinho nesse colega recatado, de modos suaves e comportamento pudico. Agora, enquanto arrumava os papéis, a figura do médico se apresentava com nitidez especial; recordava-o em um baile remoto, aos vinte e dois ou vinte e três anos, aguardando no lobby luxuoso de um grande hotel. Com um sorriso embaraçado, com a polidez inábil de um homem não acostumado ao mundo, respondia às perguntas afáveis e condescendentes de alguns figurões. No grupo está também ele, o jovem estagiário de direito, repentinamente simpático ao colega esquecido que mal conhece. Um momento de atração repentina sem causa aparente. Depois, como se uma interdição indomável e indefinível os separasse, passam um pelo outro, trocam palavras fáceis e sorrisos amistosos e educados. Essas tentativas inábeis e imperfeitas de aproximação repetem-se regularmente: ao se verem na rua, aproximam-se com um sorriso agradável, mesmo sabendo que de novo nada resultará do encontro. Apenas apertam demoradamente as mãos e murmuram com embaraço palavras indiferentes; sim, como se falassem sobre "outra coisa" — outra? Sobre o quê? O juiz, absorto em seus pensamentos, foi até a janela.

Através da janela aberta, ouviu o ranger das rodas de um caminhão, depois o juiz ouviu ordens dos guardas, o baque de objetos pesados, provavelmente sacos, sons de atividades humanas. A janela de seu escritório abria para a empena da prisão vizinha, coberta de pequenas aberturas; na qualidade de funcionário pouco graduado, em início de carreira, recebeu por enquanto esse espaço pouco confortável no edifício, abafado no verão, mal iluminado nas tardes de inverno; naturalmente, os escritórios com vista para a rua, amplos e confortáveis, eram ocupados pelos juízes mais idosos e de posição superior, e ele mesmo considerava justa e decente essa forma de distribuição. Lá embaixo, no pátio pavimentado, os presos descarregavam uma carroça, colocavam os sacos no ombro e desapareciam em fila indiana pelo alçapão da adega. Fazia três anos que o juiz trabalhava naquele escritório, e todo dia observava por alguns minutos a vida no pátio da prisão; para lá eram conduzidos os presos na hora do passeio, pelo pátio passavam os parentes e amigos dos detidos e condenados, por lá passavam os presos convocados para interrogatório ou audiência no prédio do tribunal. Conhecia exaustivamente aquele quadro, aquele mundo triste e monótono, mas mesmo assim, antes de sair, sempre ia até a janela e o observava atentamente por um tempo, como se mais uma vez quisesse convencer-se de alguma coisa. Havia algo extremamente concreto e objetivo no dia-a-dia do pátio da prisão, como no pátio de uma fábrica, onde, dentro de uma rotina de trabalho desenvolvida para cada minuto, acontece sempre a mesma coisa — e o que acontecia na prisão talvez não fosse tão assustador e abominável, como um observador não iniciado pudesse acreditar, era apenas triste e sem esperança. Nesse estado de espírito, observava todo dia por alguns instantes a empena da penitenciária e o pátio vigiado, com portas de ferro.

Imre Greiner, o doutor Greiner, pensou distraidamente. Assim se chamava o médico que estava para se separar da esposa. Pouco antes, lera com atenção os dados pessoais do antigo colega de escola, procurando recordações comuns. O doutor Greiner vinha do norte da Hungria, de uma família de origem saxônica da região de Szepes; descobriu que o médico era meio ano mais velho — em junho completara trinta e oito anos, enquanto ele, apesar de terem sido colegas de escola, chegaria a essa idade apenas em dezembro. Essa constatação, não sabia por quê, deixou-o um pouco desanimado. Mas a idade da mulher também o surpreendeu: a senhora Imre Greiner, nascida Anna Fazekas, já tinha passado dos trinta. Calculou e refletiu. Agora que do processo surgiam pessoas de carne e osso, muitos fatos vinham à sua mente: dez anos antes, num verão especialmente quente e abafado, no campo de tênis da ilha Margarida, encontrara Anna Fazekas pela primeira vez; naquela época, a jovem possivelmente não conhecia o doutor Greiner; ao menos não se tinha notícia sobre seu compromisso. Uma noite estão caminhando na ilha em direção à ponte; ele carrega a raquete da moça, Anna Fazekas veste uma roupa de verão com listras brancas e azuis, o caminho é escuro, falam de um passeio pelo Danúbio. No ponto de parada do bonde movido a cavalos, à luz de uma lâmpada de arco, vê o rosto de Anna Fazekas; o perfil da jovem volta-se sorrindo para ele sob a luz tênue, sua voz é totalmente terna; mas é possível que agora apenas imagine esse tom incerto e velado de sua voz. Não estão sós, com eles passeiam uma amiga de Anna Fazekas e um senhor mais velho, o pai da amiga. Antes desse encontro, deve ter visto Anna Fazekas duas, no máximo três vezes; tudo que sabia dela era que seu pai fora inspetor de ensino no interior, que mudaram para Pest depois da aposentadoria dele, e que antes disso a garota já estudava na capital. Anna estava na idade de se casar, e no último ano freqüentara muitos bailes. Sobre o que conversavam? Não se lembrava das palavras, mas ainda hoje ouvia a sua voz. Depois caminham em silêncio pela semi-escuridão da rua. Param em uma curva, a moça imediatamente vira para ele, como se quisesse falar algo. Nesse momento vê o seu rosto claro e nítido. Já alcançaram a ponte. Continuam sem uma palavra. No dia seguinte ele viaja de férias, passa quatro semanas em uma estação termal austríaca onde conhece sua futura esposa, casam-se seis meses depois. Nesse período, quando então corteja a esposa e freqüenta a sociedade já mantendo um compromisso meio oficial — ainda vai a reuniões, ainda é convidado das famílias com filhas em idade de se casar, embora as mães e meninas interessadas, através de uma rede feminina secreta de informações, saibam que já está noivo —, reencontra Anna Fazekas. A garota é muito vistosa, talvez bonita... Bonita? O juiz olha para o pátio, como se procurasse alguém. A carroça já está vazia, o guarda acompanha dois últimos carregadores em direção à porta de ferro. Não se lembra do rosto de Anna Fazekas.

Colocou as atas em ordem, os documentos preparatórios estavam de acordo com os requisitos legais; os cônjuges declaravam estar separados havia seis meses e pediam a dissolução do matrimônio sob a alegação de "abandono do teto conjugal". Sentado, abaixou-se e retirou da gaveta inferior um pacote de cigarros baratos feitos à mão e completou sua cigarreira forrada de couro. De uma outra gaveta apanhou uns cigarros mais distintos, comprados em tabacaria — reservava esses cigarros para as visitas, ele mesmo se contentava com o tipo barato, enrolado em casa por Hertha ou pela empregada, mas agora ia a uma reunião social, talvez precisasse oferecer a alguém; em todo caso, enfiou na cigarreira uns com filtro dourado também. O gesto não lhe saiu com naturalidade; enquanto ajeitava os cigarros finos "para ocasiões especiais", pensou que essas pequenas ocasiões minavam as escassas sobras de seu salário, que poderiam talvez tornar sua vida particular e a dos seus mais confortável, tranqüila e folgada — ele se contentaria com o cigarro barato, com outro tipo de roupa, outra casa e também com as formas mais simples de vida social. Os cigarros de filtro dourado eram um tributo que pagava à vida em sociedade — conhecia esse raciocínio à exaustão, mas o pensamento voltou-lhe à mente agora que ia a uma reunião social, onde se sentiria mais ou menos à vontade, e onde, de novo, deveria por obrigação "representar" um pouco. Deu um breve suspiro e, irritado, sorriu. Suspirou, porque a vida, as obrigações supérfluas da sociedade, lhe pareciam um ônus sem sentido. E sorriu, porque não podia modificar esses fatos. Colocou a documentação em ordem e, com gestos familiares e mecânicos, trancou na gaveta os cigarros e alguns objetos de uso pessoal: uma caneta-tinteiro, uma lupa de aumento e um pouco de tinta verde. Apreciava essa cor em especial, e sentia falta dela se por distração ele ou o contínuo a deixassem secar, ou quando o tinteiro não estava sobre sua escrivaninha.

Anna Fazekas e Imre Greiner, pensou, e colocou as chaves no bolso. Eram seis e meia. A essa hora o grande edifício estava deserto e silencioso. Documentos de outros quatro processos de divórcio estavam espalhados por sua mesa; apanhou um, deu uma olhada, e com ar displicente anexou-o aos outros. Embora tentasse, não conseguia se lembrar quando vira Anna Fazekas pela última vez. Nos últimos anos, o juiz procurara não freqüentar a "sociedade" — e por certo havia um motivo para esse retiro silencioso, talvez a família, talvez o salário modesto —, mas talvez tivesse se retirado precocemente para o gabinete e para o círculo familiar; não gostava de pensar nisso, no fundo existia algo que não queria encarar. Ficou sabendo do casamento de Anna Fazekas pelos jornais. Depois, durante anos, nada soube deles. Agora se lembrava do preciso instante em que soube, surpreso, irritado, que Imre Greiner, aquele Imre Greiner de quem sempre se recordava com carinho na escola e mais tarde na faculdade, com quem se encontraria e conversaria com prazer, e com quem nunca soube conversar quando ocasionalmente se encontravam, casara com aquela sua conhecida, que... e aqui parou. Quem era essa Anna Fazekas? Teria significado algo mais para ele do que um conhecimento superficial, até mais do que superficial, secundário, mundano? Quando solteiro, viu-a na quadra de tênis duas ou três vezes, e com certeza encontrou-a mais tarde, depois de seu casamento; mas de passagem, superficialmente, como outras moças e mulheres casadas que até conhecia, embora delas talvez nem soubesse o nome. De todo modo, ficou surpreso de que justamente esse Imre Greiner se casasse com ela, justamente com essa Anna Fazekas, com quem uma vez caminhara na ilha, a garota que por um instante se voltou para ele à meia-luz, como se quisesse dizer algo. Mas ficara em silêncio. E agora jazia sobre sua mesa a documentação da senhora Imre Greiner, nascida Anna Fazekas. "É o jogo da vida", pensou distraído; e deu uma risadinha sarcástica, como se ele se reprovasse a constatação trivial.

Foi a esposa quem abriu o processo. Ela acusava Imre Greiner de "abandono do teto conjugal". Outros três "abandonos do teto conjugal" jaziam neste instante sobre sua escrivaninha, e o juiz encarou com má vontade aquele monte de papéis. Em um processo penal, com certeza teria protestado contra essa incumbência de emitir uma sentença a respeito de pessoas conhecidas — mesmo distantes e até indiferentes, como esse colega de escola era para ele; mas as peças do processo correspondiam aos requisitos, e se nada acontecesse durante esse período, e se a chamada de conciliação não surtisse resultado, no dia seguinte, ao meio-dia, com a força da lei dissolveria o casamento de Imre Greiner e esposa, nascida Anna Fazekas. A circunstância de conhecer os atores do processo de divórcio naturalmente não era motivo para solicitar substituição na condução do caso. E como já tinha posto ordem na mesa, e porque já estava ficando tarde, olhou mais uma vez para o pátio da prisão, certificando-se de que estava vazio, pegou o chapéu, e com passos calmos, caminhando com familiaridade pelos corredores do grande edifício, deixou o gabinete. Na escadaria o velho porteiro cumprimentou-o respeitosamente, com certa intimidade; aquela intimidade quase imperceptível, que um estranho provavelmente não perceberia, chamava a atenção do jovem juiz sempre que chegava ou partia do edifício. Perturbava um pouco sua jovem auto-estima, mas ao mesmo tempo lhe dava prazer; era assim que aquele funcionário idoso e subordinado cumprimentava o juiz de posição muito superior, de outro nível social, mas que fazia carreira na mesma estrutura interna de uma organização hierárquica familiar a ambos; e ele sentia essa intimidade, esse apadrinhamento respeitoso, resguardava sua autoridade, e, ao mesmo tempo, respondia com um afável sinal de cabeça, porque aquele velho porteiro de origem camponesa também pertencia àquela grande e complexa família da qual ele era apenas mais um membro elegante e promissor... Parou na porta e acertou os ponteiros de seu relógio de pulso com os da escadaria. Pensou no pátio da prisão, na papelada sobre a mesa, naquela oficial e ao mesmo tempo íntima, profunda familiaridade que reinava no edifício, entre seus ocupantes, juízes, oficiais de gabinete e funcionários; e como já ocorrera muitas vezes antes, foi embora com pesar, de má vontade e hesitante, o último dos juízes a sair — com pesar, como se não quisesse deixar o local de trabalho, hesitante e de má vontade como um monge ao cruzar a porta de seu convento e pisar no mundo. Refletiu sobre essa sensação, que no momento não conseguia explicar de outra maneira senão como um surto de pânico injustificado em relação ao mundo. Parou no degrau superior do portão e olhou ao redor com hesitação. Atrás dele o porteiro fechou e trancou a porta maciça de carvalho.

 


 
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