Marcelo
Tasso/AE
 |  | | Millôr
Fernandes: humor perene | |
Todo
Homem É Minha Caça,
de Millôr Fernandes (Record; 208 páginas; 29,90 reais) Essa
reedição de um livro de 1981 confirma a perenidade do humor do colunista
de VEJA Millôr Fernandes. A coletânea de textos contém pérolas
com a irônica proposta de um "código de ética mínimo",
no qual se lêem regras que parecem talhadas para a atual crise política:
"Ladrão do erário, apanhado em flagrante, não pode alegar
posição ideológica como atenuante". O livro inclui um caderno
ilustrado com charges, no qual Millôr propõe, na trilha dos movimentos
de emancipação feminina, outras bandeiras de liberação:
o gago's lib, o defunto's lib e, claro, o burro's lib (já que, como nota
a mordacidade sempre certeira do autor, os burros são maioria e sempre
tiveram "representantes nos mais altos postos do país"). Leia
trecho Plataforma Declaração
de Princípios Já
que todos os comportamentos sociais bonzinhos deram nisso aí, quem
sabe este comportamento, mais honesto, não dará resultado melhor? Desrespeitarei
todos os meus semelhantes independentemente de sexo e idade, raça ou religião,
irritando-os o mais possível, provocando, na medida de minhas forças,
a revelação e o desenvolvimento do lado mais negro de sua natureza. Chatearei
e provocarei meu próximo, e os seus filhos, e os filhos de seus filhos,
até tornar sua vida insuportável, usando para isso todas as diabólicas
oportunidades que oferece a vida em comum nos edifícios de apartamentos. Farei
da minha vida um exemplo hediondo (insuperável) de intolerância e
incompreensão totais. Aclamarei
todas as vaidades, apoiarei todas as reivindicações mesquinhas ou
estúpidas, animarei todas as dúvidas reacionárias, inflamarei
protestos da grande maioria estacionária, acenderei lembranças amargas
em todos os cérebros doentios, serei o artífice inigualável
das frustrações pessoais e coletivas, não dormindo, não
comendo, nem descansando enquanto houver qualquer possibilidade de fomentar uma
dissolução ou criar qualquer atrito, por menor que seja, à
minha volta. E
para isso usarei todos os meios ao meu alcance, toda a imensa oportunidade que
a tecnologia me oferece — o telefone, o jornal, o rádio, a imprensa, o
Pássaro Madrugador. Não
me deixarei enganar pela propaganda pacifista e tola que pretende acabar com os
conflitos entre as nações e mais tarde, talvez, quem sabe?, até
mesmo entre os indivíduos. Me recusarei a viver nesse mundo de horror em
que o amor seja a constante e o cotidiano. Recusar-me-ei
a apoiar qualquer organização que vise à paz, ao ecumenismo
religioso, à filantropia, ao altruísmo em qualquer de suas formas
ou maneiras de se manifestar. Serei
sempre a favor do câncer. Serei
inimigo mortal do amigos de infância, dos casais bem constituídos,
das famílias tranqüilas, dos escritórios bem organizados, dos
municípios bem administrados. Atribuirei
sempre aos outros as mesmas intenções de má-fé, inveja,
insinceridade e capacidade de simulação de que me sinto capaz. Impedirei,
na medida em que me for possível, de qualquer forma, sem medir sacrifícios,
a liberdade de expressão de qualquer pessoa que discorde de mim ou de meus
pontos de vista mais reles, e procurarei cercear essa liberdade, usando da intriga
à força física, sem esquecer a delação, sobretudo
nos casos em que tais idéias possam provocar bem-estar social, euforia
individual ou sequer um sorriso de satisfação numa criança. Dedicarei
minha vida a muito mais do que viver e deixar viver: procurarei não viver
desde que me seja impossível impedir a existência alheia. Procurarei
diminuir a crença no certo, a esperança no futuro, a necessidade
do otimismo. Praticarei a ofensa, não temerei argumentos sadios, nem pouparei
a honestidade e a retidão, destruindo-as onde quer que as encontre. Enfim:
serei um competente e denodado artífice da intolerância, do ódio
e do atrito pessoal e grupal, servindo ao rompimento, ao litígio e à
separação. Combaterei todos os ditadores, de Assurbanipal a Pinochê,
sem esquecer de Hitler e Stalin, como exemplos de extrema tibieza no comando do
poder, como líderes excessivamente democráticos e humanos. Amém. Na
paz do Senhor Estou
lembrando: faz muitos anos, íamos, eu e o jornalista Jaguar, andando pela
Praia Grande, em Arraial do Cabo, tendo pela frente dezenas (oitenta?) de quilômetros
de areia branca, quase pó-de-arroz. Era meio-dia de um dia de semana. As
ondas dessa praia são sempre curtas, rápidas, verdes e transparentes.
Pode-se caminhar dentro d’água centenas de metros e mergulhar tranqüilamente
na água fria, sem perder o pé. O fundo do mar, coisa rara em praias
rasas, é também de areia limpa e sólida, nenhum lodo. Além
da areia, na praia, há uma vegetação ondulando permanentemente.
No recanto em que morávamos — Jaguar tinha alugado uma casa de pescador,
o que, nele, nada tinha de folclore — havia uma elevação, uma pequena
montanha. Lá de cima caía uma pequena cascata de águas da
Álcalis e a própria poluição da Álcalis era
belíssima, jogando pro ar uma nuvem de brancura diáfana. Junto
com a paisagem constante, a paisagem mutante. Pescadores em suas tarefas normais,
redes abertas na praia, espalhadas, uma ou outra sendo remendada vagarosamente,
pássaros às centenas, sem medo, voejando rente ao chão, um
ou outro burro carregando pequenas mercadorias. Estávamos em pleno paraíso. Fomos
saindo na praia, eu e Jaguar, passamos por um pequeno grupo de pescadores que,
numa sombra, junto de algumas canoas, olhavam o horizonte, trocando algumas palavras
preguiçosas, na indolência do fim da tarde. Jaguar disse: "Isso
é que é gente pura!" E eu disse: "Tá bem,
Jaguar! Um tá querendo comer a mulher do outro e o outro tá
querendo ficar com a canoa do um. Aquele vesguinho até bateu a carteira
do criolão. O microcosmo é igualzinho ao macrocosmo, ô cara!" Uma
semana depois o Jaguar entrou na redação do Pasquim, onde
trabalhávamos então, e me disse: "Pô, que coisa, seu!
Você tem toda razão. Ontem apareceram três pingüins lá
na praia e os pescadores, sem a menor hesitação, pegaram uns paus
e transformaram os pingüins numa poça de sangue. Não entendi.
Fiquei besta!" É
por essas pequenas coisas que eu nunca perco a fé no ser humano. "Homem!" "Besta!
Você é uma besta!" Besta é como aprendemos a xingar desde
cedo. E chamamos de animais os que matam com crueldade, os que violentam, agridem,
ferem: "O criminoso reagiu à polícia como uma verdadeira fera!"
Como? Correu? Não - atirou, esfaqueou, matou. Porco-chovinista.
A hiena-nazista. Alimentei uma serpente no meu seio. "Rato!" "Cavalos,
são todos umas ca-valgaduras!" Pato. Cão. Teimoso como uma
mula. Bêbado co-mo um gambá. Burro. Galinha. Lesma. Lágrimas
de cro-co-di--lo. Traiçoeiro como uma raposa. Praticamente todos os ani-mais
têm sido usados pelo homem para símiles das suas pró-prias
fraquezas e defeitos. E os animais, dóceis, conti-nuam sua vida, ignorando
que os usamos para cobrir toda a gama de nossa imensa canalhice, quando bebemos
mais do que podemos, espancamos os mais fracos, prevaricamos sem medida, agimos,
enfim, "como verdadeiros animais selvagens". Talvez
isso se deva ao fato de que os animais sempre nos evitaram, com raras exceções,
como a do cão (um quisling animal, o Pai Thomaz da espécie). Mas,
agora que a história natural sabe muito mais sobre os animais, você
já tentou ler, ao mesmo tempo, paralelamente, a biografia de uma família
"ilustre" e a monografia de um grupo de chimpanzés? Em qualquer
família "ilustre" a prevaricação sexual é
a constante, a traição sentimental a regra, o ciúme, o impulso,
e a violência resultado quase fatal. Mas
um grupo de chimpanzés do Quênia, estudado detidamente por naturalistas
holandeses, mostrou que os brutos (perdão!) ficam satisfeitos com apenas
seis atos sexuais por ano, já que as fêmeas só se interessam
pelo assunto duas ou três vezes por mês e nem querem ouvir falar (grunhir)
disso em todo o período da gestação e da lac-tação.
O problema, porém, vejam bem, não é saber se os gorilas são
ou não melhores do que o homem porque se importam menos com sexo, mas apenas
mostrar que não é válido, na descrição de violências
sexuais, num caso de estupro, por exemplo, dizer que o homem "cedeu a seus
instintos bestiais". O que ele cedeu mesmo foi a seus instintos humanos. Mas,
se alguns animais copulam menos, todos brigam menos do que os homens. Ainda estou
para ver elefantes se adestrando militarmente para atacar leões, tigres
se mobilizando para enfrentar uma horda de jacarés invasores, -bú-falos
matando bisões por questões de fronteiras, ri-no-ce-ron-tes vendendo
chifres a girafas, e assim por diante. Quando não se sentem efetivamente
atacados, todos os animais deixam pra lá. Não brigam por conceitos,
não reagem por pressupostos, não se ofendem por questões
lingüísticas, não matam por religião. E, mesmo atacados
por razões vitais, inúmeras vezes rugem, (zurram, escoiceiam, berram)
mas, assim que podem, satisfeitas as necessidades teatrais da espécie,
fingem que não foi nada e dão o fora. Paz! Paz! Mesmo
os animais definitivamente vitoriosos em lutas quase nunca procuram tirar partido
disso. Viram as costas e vão embora. No máximo comem um pedaço
do inimigo, se for o caso; se o caso é fome. Não há condecorações,
butins de guerra, nem retaliações em nome do passado, tratados preservando
um pasto para o futuro, colinas de Golan contestadas entre jaguatiricas e cascáveis,
e, sobretudo, não há arcos do triunfo. Pois
é: já é tempo de inverter os termos e afirmar que uma pessoa
é "suave como um elefante", "maternal como uma cobra",
"tímido como um rinoceronte", "delicado como um urso",
ou que "o coelhinho me olhou com um olhar quase humano", isto é,
de ódio ou inveja. Pois desde a Bíblia a interpretação
foi sempre contra os animais: a serpente era pérfida e perdeu o homem.
E, no entanto, tudo o que a serpente fez, afinal, foi contestar uma portaria aparentemente
sem nexo. Possivelmente ela teve apenas a intenção de instigar o
homem a um prazer que ele até então não desfrutara. E certamente
a coisa não teria o desfecho desastroso que teve (o pão com o suor
de nosso rosto, etc.) se não tivesse se metido na história o elemento
agressivo e agressor, o anjo com a espada de fogo na mão. Um homem! As
maiores e mais constantes mentiras, ou autojustificativas ou tapeações,
humanas:
1. Que é que você quer?; é o meu caráter.
2. Meu marido não me compreende. 3. A gente tem que sobreviver.
4. Não me entreguei ao sistema. Estou combatendo por dentro. 5. Não
fui eu que fiz o mundo. 6. Dos males, o menor. 7. Se eu não aceitasse,
eles entregariam o cargo a alguém do outro lado. 8. Ordens são
ordens. 9. É só a cabecinha. 10. Se eu não desse,
o patrão me despedia. 11. A gente recua dois passos agora, depois avança
três. 12. Jamais me perdoarei o que estou fazendo. 13. Agora não
posso mais recusar. 14. Eu nem sabia o que estava assinando. 15. Nunca me
aconteceu uma coisa assim, na primeira noite. Uma
cara para conferir
Minha
fisionomia, se nunca me encantou pela excepcio-nalidade, também nunca me
pareceu tão, assim, ordinária, excessivamente familiar, lugar-comum.
Contudo é espantoso o entusiasmo com que conhecidos, recém-conhecidos,
amigos, e até parentes, a toda hora se lembram de terem visto uma pessoa
parecidinha comigo. De todas as pessoas que encontrei, em minha já não
curta vida, rara é a que não tem um primo, um tio, um colega de
escola, um professor, um padrasto ou um amante que é a minha cara, igualzinha,
impressionantemente igual, esculpida e encarnada (cuspida e escarrada). Algumas
pessoas encontram também, acho que por generosidade, semelhança
impressionante até com vultos históricos, de Shakespeare a Júlio
César, se é que alguém sabe como eles foram. Até hoje,
-curiosamente, ninguém me comparou ainda a Jesus Cristo. Deve ser pela
barba, que eu não tenho. Eu deixo crescer. Noutro
dia, porém, aconteceu o que não esperava mas, evidentemente, tinha
que acontecer um dia. Fui apresentado a uma jovem maravilhosa senhora, que, depois
de poucos minutos de conversa, colocou na pauta a inevitável descoberta:
"Mas, engraçado, você me lembra muito alguém conhecido".
Imediatamente, com minha vasta experiência, lhe ofereci logo um imenso catálogo
de pessoas, locais, nacionais e internacionais, que, dizem, se parecem comigo.
Nenhuma a satisfez. Curioso que, enquanto conversávamos, a fisionomia da
jovem também não me parecia estranha. Mas, quando, afinal, embora
não se lembrando do nome da pessoa, ela afirmou estar certa de que tinha
sido no Teatro TBC, em São Paulo, imediatamente eu me lembrei da cena e
da hora em que a tinha conhecido. E me veio a satisfação de encontrar,
afinal, uma pessoa que me achava parecido - não muito, eu sei, apenas uma
vaga semelhança - comigo mesmo, alguns anos atrás. Poesia-pesquisa
sobre origens Ambição? Doença? Crença? Comichão? Incúria? Tédio? Luxúria? Ardência? Preguiça? Impaciência? Frio
e carência? Ânsia? Arrogância? Fome? Medo? Pranto? Canto? Dor? Pavor? Espanto? Tristeza? Teimosia? Incerteza? Morrinha? Picuinha? Adão Já
tinha. |