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O Inventor do Papel, de Janet Gleeson (tradução de Talita M. Rodrigues; Rocco; 302 páginas; 39,50 reais) – O escocês John Law (1671-1729) não poderia ser considerado uma boa companhia: era um jogador inveterado, um bon vivant irresponsável que teve de fugir da Inglaterra por ter matado um homem num duelo. Na França, porém, ele se tornou um dos grandes inovadores do mundo das finanças, ao introduzir no país um banco central que emitia papel-moeda, ainda uma novidade no início do século XVIII. Os esquemas arrojados de Law levantaram fortunas, mas fracassaram em seguida. O escocês teve de fugir da França em 1720, acossado pelos investidores que quebraram ao seguir suas idéias. Em O Inventor do Papel, a historiadora Janet Gleeson traça uma extraordinária biografia desse pioneiro da especulação financeira.

 

Leia trecho

 

INTRODUÇÃO

"Nos últimos vinte anos, tem-se compreendido o comércio na França melhor do que nunca, desde o reinado de Faramond até Luís XIV. Antes disso, essa era uma arte secreta, uma espécie de química nas mãos de três ou quatro pessoas que, na verdade, faziam ouro, mas não contavam o segredo de como haviam enriquecido... Estava escrito que um escocês chamado John Law viria para a França e subverteria toda a economia do nosso governo para nos instruir."
Voltaire, Ensaio sobre Comércio e Luxo

Dinheiro sempre foi problema. Nem mesmo o amor, disse Gladstone, levou tantos homens a fazerem papel de bobos. Ao longo do tempo, o dilema mais óbvio porém universal - que não tem fim – vem confundindo todo mundo, desde mendigos até monarcas e seus ministros.

Poucas vezes, entretanto, o problema pareceu mais premente do que no final do século XVII. Dinheiro, como a maioria das pessoas sempre havia entendido, era prata ou ouro – metais preciosos, cujo valor estava na sua intrínseca escassez. Mas o fato de os estoques de moeda estarem restritos à quantidade de metal que se podia escavar do solo estava se mostrando um grave estorvo. Por toda a Europa, as guerras em larga escala e dispendiosas, somadas ao estilo de vida extravagante dos reis, haviam esvaziado os tesouros, enquanto a população crescente, a expansão do comércio e a colonização de terras estrangeiras exigiam mais dinheiro em caixa para progredir. Com os governantes tramando invasões, examinando tratados de paz, desejando patrocinar novas indústrias, construir novos palácios e desenvolver seus domínios além-mar, o dinheiro, e como criar mais do que já existia, passou a ser uma nítida obsessão. Em uma era que oscilava entre a superstição e o conhecimento esclarecido, pensar num assunto que em breve seria batizado de economia política tornou-se tão em moda quanto o estudo da filosofia, da matemática e da natureza. Enquanto de um lado os alquimistas tentavam inutilmente transformar metal básico em ouro, de outro, pessoas com espírito empreendedor propunham uma superabundância de projetos engenhosos para driblar a escassez. Em um nível mais rasteiro, o dinheiro miúdo feito de metal básico aliviava a falta de moedas nas ruas. Em grande escala, bancos e empresas de fundo acionário usavam o artifício mágico do crédito para financiar as dívidas do rei e a expansão colonial, emitindo papéis bancários e ações de valor nominal em vez de valor intrínseco.

Com a multiplicidade de novos expedientes monetários, as frustrantes limitações do ouro e da prata se evaporaram, mas ao mesmo tempo um outro problema, ainda mais desconcertante, surgia: como manter a confiança do público no valor de papéis intrinsecamente sem valor.

Entre os filósofos e inovadores monetários que tentaram solucionar o problema, John Law se destaca sozinha como o mais improvável, controvertido, porém visionário, de todos os heróis financeiros. Ele era grande em todos os sentidos, com mais de um metro e oitenta de altura e ambições maiores e mais ousadas do que qualquer outra pessoa. Superficialmente, sua história tem ares de lenda romântica. Ele começou a se interessar por finanças depois de matar um homem num duelo, por causa de uma ligação amorosa infeliz, e ter de fugir da prisão para salvar a pele.


 
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