"Nos últimos vinte anos,
tem-se compreendido o comércio na França melhor do que nunca, desde o reinado
de Faramond até Luís XIV. Antes disso, essa era uma arte secreta, uma espécie
de química nas mãos de três ou quatro pessoas que, na verdade, faziam ouro, mas
não contavam o segredo de como haviam enriquecido... Estava escrito que um escocês
chamado John Law viria para a França e subverteria toda a economia do nosso governo
para nos instruir."
Voltaire, Ensaio sobre Comércio e Luxo
Dinheiro
sempre foi problema. Nem mesmo o amor, disse Gladstone, levou tantos homens a
fazerem papel de bobos. Ao longo do tempo, o dilema mais óbvio porém
universal - que não tem fim – vem confundindo todo mundo, desde mendigos
até monarcas e seus ministros.
Poucas
vezes, entretanto, o problema pareceu mais premente do que no final do século
XVII. Dinheiro, como a maioria das pessoas sempre havia entendido, era prata ou
ouro – metais preciosos, cujo valor estava na sua intrínseca escassez.
Mas o fato de os estoques de moeda estarem restritos à quantidade de metal
que se podia escavar do solo estava se mostrando um grave estorvo. Por toda a
Europa, as guerras em larga escala e dispendiosas, somadas ao estilo de vida extravagante
dos reis, haviam esvaziado os tesouros, enquanto a população crescente,
a expansão do comércio e a colonização de terras estrangeiras
exigiam mais dinheiro em caixa para progredir. Com os governantes tramando invasões,
examinando tratados de paz, desejando patrocinar novas indústrias, construir
novos palácios e desenvolver seus domínios além-mar, o dinheiro,
e como criar mais do que já existia, passou a ser uma nítida obsessão.
Em uma era que oscilava entre a superstição e o conhecimento esclarecido,
pensar num assunto que em breve seria batizado de economia política tornou-se
tão em moda quanto o estudo da filosofia, da matemática e da natureza.
Enquanto de um lado os alquimistas tentavam inutilmente transformar metal básico
em ouro, de outro, pessoas com espírito empreendedor propunham uma superabundância
de projetos engenhosos para driblar a escassez. Em um nível mais rasteiro,
o dinheiro miúdo feito de metal básico aliviava a falta de moedas
nas ruas. Em grande escala, bancos e empresas de fundo acionário usavam
o artifício mágico do crédito para financiar as dívidas
do rei e a expansão colonial, emitindo papéis bancários e
ações de valor nominal em vez de valor intrínseco.
Com
a multiplicidade de novos expedientes monetários, as frustrantes limitações
do ouro e da prata se evaporaram, mas ao mesmo tempo um outro problema, ainda
mais desconcertante, surgia: como manter a confiança do público
no valor de papéis intrinsecamente sem valor.
Entre
os filósofos e inovadores monetários que tentaram solucionar o problema,
John Law se destaca sozinha como o mais improvável, controvertido, porém
visionário, de todos os heróis financeiros. Ele era grande em todos
os sentidos, com mais de um metro e oitenta de altura e ambições
maiores e mais ousadas do que qualquer outra pessoa. Superficialmente, sua história
tem ares de lenda romântica. Ele começou a se interessar por finanças
depois de matar um homem num duelo, por causa de uma ligação amorosa
infeliz, e ter de fugir da prisão para salvar a pele.