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O Adeus à Rainha, de Chantal Thomas (tradução de Jorge Bastos; A Girafa; 210 páginas; 39 reais) – A francesa Chantal Thomas foi aluna do crítico Roland Barthes e é uma grande conhecedora do século XVIII, com estudos históricos publicados sobre Sade e Maria Antonieta. Foi com essas credenciais que ela se arriscou na ficção: O Adeus à Rainha é um envolvente romance sobre os últimos dias do rei Luís XVI e da rainha Maria Antonieta, às vésperas da Revolução Francesa. A história é contada da perspectiva de uma dama da corte que tinha a função de ler livros para a rainha – e que rememora o ocaso da monarquia em 1810, na Viena invadida por Napoleão, figura que ela despreza com o esnobismo de que só os aristocratas decaídos são capazes.

Leia trecho

Era uma hora absurda para uma sessão regular de leitura, mas a Rainha logo estabelecera o hábito de me chamar a qualquer momento, quando sentia que, decididamente, o mecanismo da insônia se instalava, mesmo tendo adiado ao máximo a hora de ir para a cama. Em minha voz, que a meu protetor, o senhor de Montdragon, parecera apenas "surda" e comodamente discreta, a Rainha percebera uma virtude calmante. Eu podia saltar uma página ou ler duas vezes a mesma que ela não notava. Estava tomada por um desejo de esquecimento, por um convite subjacente às palavras, que minha voz transmitia: "Feche os olhos, repouse". Eu acudia, meio adormecida, meio descomposta, com uma veste sobre a camisola. Quando chegava, uma mesinha sobre a qual queimavam quatro velas estava preparada. Eu ficava no escuro e abria o livro. Às vezes, por causa das correntes de ar, as chamas moventes carregavam as palavras como no balanço das ondas. Havia mar agitado em minhas páginas, e, no entanto, estendida em uma espreguiçadeira, a Rainha ouvia como se ouve música noturna. As palavras se sucediam quase murmuradas ao sabor das ondas. Eu era puxada por violento desânimo, que superava quando minha voz emergia forte o bastante para salvar a ambas dos pavores daquelas horas, para as quais ninguém ainda inventara o cerimonial adequado. Ambas, eu me atrevia a dizer. Essa secreta indecência me fazia ruborizar. Lançava à Rainha um rápido olhar, como se ela pudesse ter adivinhado minha ousadia. Parecia no auge do desconforto. Espreguiçava-se, sentava-se, colocava as mãos na cabeça. Voltava a deitar, fechava os olhos. Meu ofício, irregular, estava ligado à noite, à fase de águas paradas, à zona mais temível, aquela em que o que de pior já aconteceu vem à tona outra vez, puxando para o fundo. É a zona em que ocorrem os afogamentos. Eu ajudava na travessia daquilo que ela não conseguia atravessar sozinha.

"Faça-me dormir, senhora", era o que a Rainha pedia às vezes, com um suspiro.

 

Com a mão enluvada de branco, o criado ergueu uma tocha. Eu o segui. Passando ao lado da Sala da Guarda da Rainha, ouvi um barulho confuso de vozes de homens, vidros que se chocavam, armas que caíam. Percebi também refrãos cantados em patoás tão incompreensíveis que achei serem línguas de outros países. Pensei inclusive que os soldados do exército estrangeiro, recentemente dispensado, tivessem voltado para dar apoio à Rainha, apesar da contra-ordem do Rei. O barulho chegava até a Antecâmara do Grande Serviço, completamente vazia; no entanto, bastou que se abrisse uma portinhola acolchoada e revestida por uma espessa tapeçaria verde-escura de Tours, no ângulo da Peça dos Nobres, para encontrar a calma da Biblioteca, ainda maior no pequeno cômodo contíguo, chamado Suplemento da Biblioteca. Uma impressão de proteção e de isolamento que culminou quando cheguei ao centro dos gabinetes internos, um conjunto de espaços diminutos, pouco iluminado, chamado Grande Gabinete Interno, ou Gabinete Dourado.

Grande ele não era, absolutamente; mas dourado, sim. E todo aquele ouro, espalhado pelo emadeiramento branco, em torno dos espelhos, em forma de guirlandas e fitas, em frisas bem finas, em perfis de fênix, nos acabamentos da lareira, nos braços das poltronas, nos pés de mesa e nos fios da harpa, criava um miraculoso véu de chuva, através do qual distingui a Rainha, também coberta de gotículas de ouro, segundo me pareceu. Debruçada sobre uma secretária, lia cartas ou papéis. Virou os olhos em minha direção, mas não pareceu me ver. Em nada mais se assemelhava à jovem, quase uma criança, que eu deixara na véspera, e nem à estatueta de marfim que vislumbrei na varanda. A senhora Campan fazia-se de importante. Inflada, exagerando os gestos de discrição, adiantou-se, empurrando-me. Avancei de viés, curvada em reverências. E ela, com a pesada corpulência de galinha-mãe, se interpunha entre mim e a Rainha. A Campan me fez ir até o Quarto de Banhos e, não satisfeita, deixou-me na Peça de Banhos. Espero que não queira me trancar no Gabinete da Retrete, pensei. Ela estendeu-me várias folhas de papel e apontou para uma mesa coberta de frascos de perfume. Fiz um gesto para senti-los.

— Não vai querer, espero, tocar nos perfumes de Sua Majestade — sibilou com raiva. — Sua Majestade está ocupada lendo e selecionando documentos pessoais. Não precisa absolutamente que a senhora lhe faça leituras — acrescentou.

Não tive tempo de dizer nada. Ela completou:

— A senhora tem apenas de escrever, em uma folha, alguns títulos que lhe pareçam indispensáveis em caso de transferência para o campo. O senhor Campan poderia se incumbir da tarefa, mas foi chamado a ofício mais indispensável. — O senhor Campan, cujo nome não lhe saía da boca, era seu pai.

Pensei logo na transferência da Assembléia Nacional para Soissons ou Noyon e na partida para Compiègne. Gostei da idéia. O pedido, no entanto, pareceu-me incongruente: todos os palácios em que a Rainha se instalava possuíam bibliotecas. Mas não discuti esse ponto, fiz ressalvas apenas quanto ao lugar em que devia escrever; teria preferido trabalhar na Biblioteca.

— A Biblioteca, assim como o Suplemento e o Gabinete da Espreguiçadeira logo estarão repletos de bagagens. Mesmo com toda a sua boa vontade, a senhora nos incomodaria, senhora Laborde — respondeu a Primeira Camareira da Rainha; e foi como se me tivesse acertado uma cotovelada no estômago.

Pus-me, então, a trabalhar na Peça de Banhos. Concentrei-me tanto quanto possível, apesar dos cochichos da senhora Campan com a comparsa, a senhora de Rochereuil, Encarregada da Cadeira Higiênica da Rainha, no cômodo ao lado. Separavam roupas de baixo. Todos sabiam que a senhora de Rochereuil confiscava as não selecionadas e as vendia a bom preço. Seus dedos pareciam garras. Dedos longos e pontudos, que pinçavam tudo em que encostavam. Dedos cujas unhas, terríveis, furavam as extremidades das luvas. Só de ouvir seu nome, eu já tremia. E pensava: um dia ainda há de furar os olhos da Rainha.

Por hora, não se atrevendo a tanto, conspirava. Tentava convencer a senhora Campan a se passar para o campo inimigo. A Primeira Camareira resistia, mas à senhora de Rochereuil não faltavam argumentos:

— Não devemos mais tolerar o desprezo, a humilhação. Somos seres humanos, tanto quanto ela. Temos nossa dignidade. Por que exigiu uma cadeira higiênica em laca e bronze dourado? Por que mesmo lá, nessa situação, quer se sentir superior ao restante do universo? Isso lhe parece justo, Henriette?

Henriette estava totalmente confusa e fazia sinal à Rochereuil que se calasse. Morria de medo que a Rainha ouvisse. A outra, perversa, divertia-se com a personalidade medrosa da amiga:

— Acredite, estou em boa situação para saber quem ela realmente é. É quando os reis mais se aproximam da natureza que melhor se constata a impostura com que pretendem se distinguir do restante da humanidade. Eles não nasceram para nos dar ordens. Ninguém nasceu para nos dar ordens. Temos como senhores apenas aqueles por quem optamos. Nós mesmos. Livremente. Com pleno conhecimento de causa.

— Cale-se, cale-se. Falaremos disso tudo mais tarde, com a cabeça descansada.

— Vamos, a senhora sabe disso, apenas não quer reconhecer; os antigos preconceitos a impedem. Ouça seu irmão, o senhor Genêt...

— Ah! nem me fale desse rapaz. Tem bom coração, mas é... como direi...

— É republicano. Ele enxerga as coisas como elas são e escolheu o bom partido. Escute, ele lhe mostra o caminho.

— Aquele biltre?

— Ele mesmo. Devia se orgulhar dele. É um jovem inteligente e honesto. Declara, onde quer que esteja: "Ver um Rei me causa horror". É dessa juventude que precisamos.

A senhora Campan queria escapar dos maus conselhos da senhora de Rochereuil. Eu suspeitava que seria menos íntegra sem meu testemunho e sem tanta proximidade da Rainha. Veio me procurar. Entreguei-lhe os títulos. "Mandarei buscar os livros", disse. Pouco depois — e essa é uma cena estranha para mim, pois não tinha nenhuma relação com as outras sessões de leitura — fomos chamadas, a senhora Campan e eu. A Rainha precisava de nós, no Grande Gabinete Dourado.

 

Descobri que minha tarefa era compulsar rapidamente vários livros sobre a região leste do país, livros ou mapas que porventura existissem ("mapas detalhados", insistiu a Rainha), e estabelecer o melhor trajeto possível entre Versalhes e Metz.

Então a Rainha partia para o campo, em Metz! Isso era novidade. Não havia mais papéis sobre a mesa. Um cheiro de queimado indicava que não se tinha contentado apenas em ler ou reler. Seus gestos eram febris. A expressão era tensa, para além da fadiga. Tinha o rosto amarrotado, a pele pontilhada de vermelho. O célebre trejeito dos lábios, que tanto contribuía para o odiento ar de desdém, embora ela talvez não tivesse esse sentimento, era muito visível. Mas havia nos olhos, aumentados pelo contorno arroxeado que invadia as bochechas, uma dureza nova. Ela estava abatida, mas não completamente. Ou tinha estado e não estava mais. Pelo contrário, um poder de decisão, um impulso emanavam de si.

Eu adorava olhá-la. Adquirira um sexto sentido que me permitia sentir quando não estava na defensiva, quando, tomada por uma ocupação ou um devaneio, deixava uma efígie sua à minha disposição, por assim dizer. Era raro que a olhasse diretamente — como havia feito, na véspera, no quarto do Petit Trianon. No mais das vezes, devia me contentar com sua imagem refletida. No Grande Gabinete Dourado, no ângulo em que estava, todos os espelhos serviam à minha expectativa.

O rosto desfeito, prematuramente envelhecido, que não guardava mais nada da graça distraída da adolescente, era ainda atraente. Mais ainda, de certo modo. Naquele meio tempo, a Rainha fora atingida, vencida. Apesar de todos os meus esforços, não conseguia apagar do espírito as palavras do Historiógrafo: Estamos perdidos. Mas o ardor de seu olhar, o brilho duro e forte, impedia que se acreditasse que ela aceitava o fracasso.

 

A Rainha mandou que trouxessem o que chamava "mesa de viagem". Era uma mesa de marchetaria, delicadíssima e cujo tampo móvel se abria em duas abas. Havia, ali uma cavidade profunda, que continha um cofrinho cheio de jóias. Não todas as jóias, mas as que usava regularmente. Sentada em frente da mesa, tentava escolher as que queria levar. Era uma tarefa impossível.

— Levarei todas... e a senhora está encarregada, senhora Campan, de tirar os engastes. Reúna as pedras em um cofre de viagem, que levarei comigo na carruagem. O conde Esterházy nos espera no caminho, com seu regimento. Em Metz, juntaremos tropas para voltar com força a Paris. É criminosa a pretensão dessa cidade de ditar sua vontade ao Rei. E à França. Paris não é a França. Os parisienses vão ter de compreender... Levante-se, senhora Campan... Quanto ao trajeto até Metz, se não consegue desenhar — ela dera uma olhada no plano fantasioso que eu traçara —, pedirei a meu cabeleireiro, Léonard, que o faça, já que é pessoa com múltiplos talentos. A senhora também tem talentos — deve ter percebido minha decepção —, mas a geografia não é um deles. O Rei, graças a Deus, é ótimo em geografia, e talvez essa seja a minha chance na decisão de partir para a reconquista do país. O que acha, senhora Campan? Levante-se, por favor, não vá se arrastar até o fim dos tempos sob essa cômoda. Encontrará essa pérola mais tarde, quando voltarmos!

Naquele exato instante, a Campan deu um gritinho de alegria, pois tinha achado o que procurava. Enfiou-se um pouco mais e voltou, um tanto avermelhada, eriçada, mas toda contente. Eu a execrava.

 

Eu me mostrara incapaz de traçar um mapa (suspeito que a senhora Campan tenha sugerido à Rainha que eu seria capaz de desenhá-lo de propósito, só para me humilhar). Além disso, ao que tudo indicava, os efeitos particulares de minha voz não eram minimamente necessários, e eu esperava, com o coração palpitando, ser mandada de volta às sombras errantes daquela noite. Se isso não aconteceu, foi sem dúvida porque a Rainha, em sua ansiedade, preferiu me juntar à obra de tirar as jóias dos engastes. A partir daí, na confusão reinante, a Rainha passou a me tratar indiferentemente como leitora e camareira.

Sentei-me, então, junto à senhora Campan. Ela havia terminado com a mesa de viagem e tirava outras jóias de um móvel alto, esculpido. Havia jóias em quantidade. Era fantástico: anéis, pulseiras, colares, brincos, prendedores, broches, medalhões, diademas... Eu pegava um anel, afastava as garras que prendiam a pedra, retirava-a e colocava-a com cuidado no cofre. "A Rainha vai usar as pedras assim, soltas, no campo, em Metz?" Felizmente não fiz a pergunta. Minha estupidez, minha obstinação em não compreender teria, mais uma vez, provocado uma resposta sarcástica da senhora Campan. Trabalhávamos rápido, o mais rapidamente possível. Por nossos dedos passavam esmeraldas, topázios, rubis, cornalinas... enfeites de safiras e de diamantes que, com dois ou três movimentos, estavam soltos.

— Quero partir — repetia a Rainha. — Para a realeza, para nós, é questão de vida ou morte. O Rei não deve permanecer um dia a mais em região sobre a qual perdeu o controle.


 
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