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A Odisséia de Penélope, de Margaret Atwood (tradução de Celso Nogueira; Companhia das Letras; 159 páginas; 32 reais) – No épico grego Odisséia, de Homero, Penélope tem um papel secundário: é a mulher fiel que aguarda pacientemente o herói Odisseu, enquanto este vive suas aventuras no estrangeiro. Nesse volume de uma coleção em que autores atuais recriam os mitos clássicos, a canadense Margaret Atwood inverte a situação: é Penélope quem salta ao primeiro plano. Depois de morta, ela narra sua vida. Ao mesmo tempo, é assombrada pelas escravas que a ajudaram a safar-se dos homens que tentavam usurpar o trono do marido – e foram enforcadas injustamente. Com base na Odisséia e em outros relatos, a escritora imprime à história uma ironia cortante.

Leia trechos

Introdução

A história do retorno de Odisseu a seu reino em Ítaca, após vinte anos de ausência, tornou-se conhecida principalmente graças à Odisséia, de Homero. Odisseu teria passado metade desse período lutando na Guerra de Tróia e a outra metade perambulando pelo mar Egeu, tentando voltar para casa, enfrentando dificuldades, derrotando monstros ou fugindo deles, e dormindo com deusas. O caráter do "ardiloso Odisseu" tem sido muito comentado: ele ganhou fama de mentiroso persuasivo e mestre nos disfarces — um homem que vive graças a sua sagacidade, capaz de inventar estratagemas e truques, e que às vezes é esperto demais para seu próprio bem. Ele recebe a ajuda divina de Palas Atena, deusa que o admira por sua inventividade.

Na Odisséia, Penélope — filha de Icário de Esparta e prima da bela Helena de Tróia — é descrita como a própria esposa perfeita e fiel, uma mulher consagrada por sua constância e por sua inteligência. Além de chorar e orar pelo retorno de Odisseu, ela engana astuciosamente os pretendentes que enxameiam em seu palácio, dilapidando o patrimônio de Odisseu na tentativa de forçá-la a desposar um deles. Penélope, além de iludi-los com falsas promessas, tece uma mortalha que desfaz de noite, adiando a decisão sobre o casamento para depois do término da peça.

Parte da Odisséia diz respeito aos problemas dela com o filho Telêmaco, que tenta se afirmar não só em relação aos perigosos e belicosos pretendentes, mas também contra a mãe. O livro termina com a matança dos pretendentes por Odisseu e Telêmaco, o enforcamento das doze escravas que se deitaram com os pretendentes e a reunião de Odisseu e Penélope.

Mas a Odisséia, de Homero, não é a única versão da história. O material mítico era originalmente oral e também local — um mito é relatado de um jeito num lugar e de modo bem diferente em outro. Usei material diferente da Odisséia, principalmente para obter detalhes a respeito da família de Penélope, de sua vida de solteira e do casamento, além dos rumores escandalosos que circulavam a seu respeito.

Optei por entregar a narrativa a Penélope e às doze escravas enforcadas. As escravas formam o Coro, que canta e declama, concentrando-se nas duas questões que se destacam numa leitura atenta da Odisséia: o motivo do enforcamento das escravas e o real propósito de Penélope. A maneira como a história é contada na Odisséia não convence, há muitas incoerências. Sempre vivi assombrada pelas escravas enforcadas; em A odisséia de Penélope, ocorre o mesmo com Penélope.

 

1 Uma arte menor

Agora que morri, sei de tudo. Era isso que eu esperava que acontecesse, mas, como muitos dos meus desejos, deixou de se realizar. Sei apenas alguns fatos dispersos que antes ignorava. Desnecessário dizer, trata-se de um preço alto demais a pagar pela satisfação da curiosidade.

Já que estou morta — já que atingi o estado desossado, deslabiado, despeitado —, aprendi coisas que preferia desconhecer, como ocorre quando alguém escuta debaixo da janela ou abre cartas alheias. Você gostaria mesmo de ler a mente? Pense bem.

Aqui todos chegam com um saco igual aos usados para guardar os ventos, mas todos os sacos estão cheios de palavras — palavras que a pessoa disse, palavras que ouviu, palavras que foram ditas a seu respeito. Alguns sacos são muito pequenos; outros, grandes; o meu tem tamanho razoável, mas boa parte das palavras se refere a meu distinto marido. Ele me fez de tola, alguns dizem. Era sua especialidade: fazer os outros de tolos. Ele se safava de todas, outra de suas especialidades: safar-se.

Ele sempre foi muito convincente. Muita gente acreditava que sua versão dos acontecimentos era verdadeira, com, talvez mais, talvez menos, alguns assassinatos, algumas lindas mulheres seduzidas e vagos monstros de um olho só. Até eu acreditava nele, de vez em quando. Sabia que era ardiloso e mentia, mas não imaginava que fosse capaz de me enganar e de me contar mentiras. Não fui fiel? Não esperei, e esperei, e esperei, apesar da tentação — quase compulsão — de desistir? E o que me restou, quando a versão oficial se consolidou? Ser uma lenda edificante. Um chicote para fustigar outras mulheres. Por que não podem todas ser tão circunspectas, confiáveis e sofredoras como eu? Era essa a abordagem que adotavam os cantores, os rapsodos. Não sigam meu exemplo, sinto vontade de gritar nos ouvidos de vocês — sim, nos de vocês! Mas, quando tento gritar, pareço uma coruja.

Claro, eu desconfiava da ligeireza dele, da esperteza, da astúcia, da — como dizer? — da sua falta de escrúpulos, mas fingia não ver nada. Ficava de boca fechada; ou, se a abrisse, só elogiava. Não refutava, não fazia perguntas inconvenientes, não me aprofundava. Queria finais felizes naquela época, e os finais felizes são alcançados quando mantemos certas portas trancadas e dormimos na hora da confusão.

Contudo, quando os principais eventos passaram e o caso se tornou menos legendário, me dei conta de quantas pessoas riam de mim pelas costas — elas zombavam, contavam anedotas a meu respeito, piadas sujas e limpas; me transformaram numa história, ou em várias histórias, embora não fossem do tipo que eu gostaria de ouvir sobre minha pessoa. O que uma mulher pode fazer quando mexericos escandalosos percorrem o mundo? Se ela se defende, soa culpada. Por isso esperei mais um pouco.

Agora que todos os outros perderam o fôlego, é a minha vez de fazer o relato. Devo isso a mim mesma. Tive de me esforçar para contar o caso: contar histórias é uma arte menor. Coisa para velhas, andarilhos, rapsodos cegos, criadas, crianças — gente com tempo a perder. Antigamente, as pessoas ririam se eu bancasse o menestrel — não há nada mais ridículo do que uma aristocrata que se mete a artista —, mas a esta altura não me importo mais com a opinião pública. A opinião de quem está aqui: das sombras, dos ecos. Portanto, vou tecer minha própria narrativa.

A dificuldade é não ter boca pela qual falar. Não consigo que me compreendam, não as pessoas do mundo de vocês, do mundo dos corpos, das línguas e dos dedos; na maior parte do tempo não tenho ouvintes, não do seu lado do rio. Entre vocês, quem consegue captar um murmúrio perdido, um grito solto, facilmente confunde minhas palavras com o som da brisa nos juncos, morcegos ao crepúsculo, pesadelos.

Mas sempre fui determinada. Paciente, diziam. Gosto de ver o final da história.

 


 
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