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Leia trechos de Fome de Paris, de A.J. Liebling

Só a quantia necessária

Conforme eu estava dizendo antes da digressão, se um bom apetite é o primeiro requisito para se escrever bem sobre comida, o segundo será fazer a aprendizagem de gastrônomo quando se tem dinheiro suficiente para pagar a conta, mas não o bastante para produzir indiferença quanto ao total (eu também quis dizer, anteriormente, mas sem nunca chegar a fazê-lo, que Waverly Root tem um bom apetite). A posição financeira ideal para um sério aprendiz de gastrônomo é dispor de fundos por mais três dias, com uma perspectiva razoável, mas não infalível, de reforços depois deste prazo. O estudante da Sorbonne que espera pela remessa de dinheiro, o jornalista que espera pelo salário, o escritor autônomo que espera por um cheque que tem motivos para acreditar que esteja a caminho pelo correio – todos estão favoravelmente situados para aprender (nem preciso mencionar que é essencial estar na França).

O homem de apetite que se refreia quando consegue prever três dias à frente não tem vocação, e eu desconsidero, como maníaco, o sujeito que gasta tudo o que tem num grande ágape e depois fica vivendo de batatas fritas até seu próximo incremento; os tuaregues comem assim, mas só porque nunca sabem quando irão encontrar sua próxima ovelha. O homem voraz, de cabeça fria, aprende porque tenta compor suas refeições de modo a obter de cada uma delas uma quantidade apreciável de prazer. É neste sopesar de delícias em oposição a seu custo que o estudante de gastronomia (principalmente se estuda na Universidade de Paris) elabora uma escala de valores que lhe servirá até morrer ou precisar residir no Oriente Médio por um longo período. A escala é diferente para cada comensal, como é para cada escritor.

Comer é uma questão extremamente subjetiva, e o homem que aceita palpites na juventude terminará comendo na meia-idade em restaurantes ruins e muito aclamados, seguindo a sugestão do maître. Ele terá sido levado a esses lugares por publicações gastronômicas esnobes, e cairá no hábito de beber em demasia antes da refeição, para matar o sabor de iguarias que lhe disseram, que seriam de seu agrado, mas não foram. À guisa de ilustração: passei uns seis anos ouvindo falar de um restaurante no município mais próspero de Connecticut, cujo proprietário, um francês, tinha sido assistente de um discípulo do grande Escoffier. Comentava-se que nessas lonjuras – habitadas somente por executivos do mais alto grau, que caminham pelos bosques como o rei de Nemi, até que alguém venha de Winnetka para degolá-los – o dono do restaurante dava livre curso à chama criativa. Seus clientes comiam o que ele resolvia lhes oferecer. Caso declinassem, tinham de bater em retirada para algum pardieiro no qual um bife custava só 12 dólares, e correria o boato de que eles estavam sentindo a coroa ameaçada – teriam sido apanhados economizando. Finalmente, providenciei para ser contrabandeado até o local, disfarçado de vice-editor executivo encarregado de hosanas do grupo Time-Life, com a missão de entreter o gerente de publicidade da Hebrew National Delicatessen Corporation. Ao chegar, encontramos levantada a corda de vicunha azul Yale e o bar cheio de casais do nicho socioeconômico dos 100 mil dólares, caindo de bêbados enquanto esperavam uma mesa; sabendo que isso não seria um churrasco no quintal, eles tinham tomado anestesia profilática. Mas quando provei a comida, percebi que haviam se alarmado sem necessidade. O francês, desanimado ao ver por quatro anos que nenhum cliente havia degustado o que comia, viciara-se em uísque de milho com gelo. Pachorrento, estava resignado a ficar desonestamente rico. A comida não era melhor que a de Howard Johnson, e os clientes também teriam gostado, se não estivessem paralisados quando por fim chegaram a ela. Uma especialidade da casa, confessou o infeliz patron interrogado por mim, era gelatina de ostras tingida de vermelho, branco e azul.

– Pelo menos, tomam consciência delas – declarou. – As cores lhes chamam a atenção.

Havia um serviço horário de carro blindado da Brinks, entre a porta dele e o depósito noturno de um banco em Nova York, transportando o dinheiro que rolava para a caixa registradora. As rodas do veículo, como uma força irresistível, atropelavam as aspirações mais íntimas do francês. Sua intenção inicial tinha sido nobre, porém, fora vitimado pelo sistema.

A sala de obras de referência onde realizei minhas primeiras pesquisas esforçadas de gastrônomo, sem o impedimento paralisante da afluência, foi o Restaurant des Beaux-Arts, na rue Bonaparte, em 1926-27. Eu era um estudante, de forma muito generalizada, na Sorbonne, selecionando alvos de oportunidade de estudo. Não tardou para que a gastronomia se tornasse uma de minhas principais disciplinas. O dólar estava cotado a 26 francos, e o pesquisador, se dispusesse apenas de determinada soma – digamos, seis francos – para gastar, em breve estabelecia para si mesmo se, por exemplo, uma meia garrafa de Tavel supérieur, a três francos e meio, e coração de boi assado na panela, com nabos amarelos, a dois francos e meio, lhe davam mais ou menos prazer que um contra-filé, a cinco francos, e meia garrafa de ordinaire, a um franco.

Ele poderia descobrir que o coração, com seu sabor forte e intenso, e sua estranha textura, lhe agradava quase tanto quanto o bife; e já que o Pavel era esmagadoramente melhor que o vinho barato, ele se sairia bem ao pedir o primeiro par. Ou talvez descobrisse que preferia a tal ponto o generoso e sangrento contra-filé que poderia aceitar o picrate corriqueiro em lugar do Tavel. Como num torneio de biriba, o aprendiz jogava mãos duplas, fazendo a escolha oposta de cardápio na próxima vez que o problema se apresentasse (dificilmente é tão simples quanto no meu exemplo, é claro, porque uma refeição em geral incluía pelo menos uma entrada e um queijo, e de cada um desses havia uma infinidade de escolhas possíveis.

A chegada, na estação, de aspargos frescos ou de carne de caça complicava ainda mais a questão. No primeiro caso, o investigador precisava decidir qual prato omitir para encaixar os aspargos, e, no segundo, se deveria abrir mão de tudo mais para arcar com o preço da veação).


 
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