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Robinson Crusoe, de Daniel Defoe (tradução de Celso M. Paciornik; Iluminuras; 256 páginas; 35 reais) A obra-prima do inglês Daniel Defoe (1660-1731) aparece em uma nova e criteriosa tradução. Como em todo clássico, o neófito tem a ilusão de que já conhece a história antes mesmo de ler o livro. É a narrativa do inglês Robinson Crusoe, único sobrevivente de um naufrágio, que vai parar em uma ilha desabitada (ou, pelo menos, sem habitantes europeus) e constrói sozinho os meios para sua sobrevivência. Mas, para além desse episódio central, ainda há muito a descobrir nesse livro – como, por exemplo, a passagem do protagonista pelo Brasil colonial. Essa nova edição é a oportunidade ideal para revisitar Robinson Crusoe e sua ilha.

Leia trecho

VOU PARA O MAR

Nasci no ano de 1632, na cidade de York, de boa família, mas não daquela região, pois meu pai, sendo um forasteiro de Bremen estabelecera-se primeiro em Hull. Construíra um sólido patrimônio no comércio e, depois de deixar os negócios, passou a viver em York. Lá casou-se com minha mãe, cuja família se chamava Robinson, uma gente muito respeitada naquela região, sendo eu por isso batizado Robinson Kreutznaer. Porém, com a corrupção das palavras tão usual na Inglaterra, agora somos chamados, ou melhor, nós nos chamamos e escrevemos nosso sobrenome "Crusoe". E foi assim que meus colegas sempre me chamaram.

Eu tinha dois irmãos mais velhos. Um deles, tenente-coronel de um regimento de infantaria inglês em Flandres, outrora comandado pelo famoso coronel Lockhart, morrera em batalha contra os espanhóis nas imediações de Dunquerque. Mas eu nunca soube o que aconteceu com meu segundo irmão, assim como meu pai e minha mãe nunca souberam o que aconteceu comigo.

Sendo o terceiro filho da família e estando sem preparo para nenhum ofício, minha cabeça começou a se encher, desde cedo, de idéias aventurosas. Meu pai, já muito velho então, havia me proporcionado uma formação adequada até onde chegam, em geral, a educação doméstica e uma escola rural gratuita, e me destinara ao Direito. Mas, como só o mar poderia me satisfazer, essa minha inclinação me opôs com vigor à vontade, ou melhor, às ordens de meu pai, bem como aos rogos e argumentos de minha mãe e de outros amigos. Parecia haver alguma fatalidade naquele pendor da natureza empurrando-me diretamente para a vida de infortúnios que me aguardava.

Meu pai, homem grave e sábio, deu-me bons e sérios conselhos contra o que ele previa seriam os meus propósitos. Certa manhã, chamando-me ao quarto em que estava confinado pela gota, discutiu acaloradamente comigo sobre o assunto. Perguntou-me que outras razões eu teria, além da mera propensão à vadiagem, para deixar a casa paterna e minha terra natal, onde eu poderia ter assistência, a perspectiva de conseguir fortuna com esforço e empenho, e uma vida de confortos e satisfações. Disse-me que sair à cata de aventuras era para homens de condição desesperada, de um lado, ou de pretensões superiores, de outro; eles ascenderiam por meio da exploração e se tornariam famosos em empresas de natureza extraordinária; que essas coisas estavam todas ou muito acima ou muito abaixo de mim; que a minha condição, a mediana, poderia ser chamada de a posição superior de um estado inferior e que ele descobrira, depois de longa experiência, ser essa a melhor posição do mundo, a mais adequada à felicidade humana. Não estava exposta às misérias e agruras, aos esforços e padecimentos da parte braçal da humanidade, nem prejudicada pelo orgulho, o luxo, a ambição e a inveja da parte superior da humanidade. Disse-me ainda que eu devia julgar a felicidade dessa condição por uma coisa, a saber, a condição de vida que todas as outras pessoas invejavam; que reis haviam lamentado muitas vezes as conseqüências miseráveis de terem nascido para grandes feitos e gostariam de ter sido colocados no meio dos dois extremos, entre a mediocridade e a grandeza; que o sábio, quando implorava para não ser pobre nem rico, disso dava testemunho como o critério justo da verdadeira felicidade.

Ordenou-me a observação disso, e que eu deveria sempre chegar à conclusão de que as adversidades da vida se dividiam entre as porções superior e inferior da humanidade. A condição mediana, no entanto, é a que sofria menos infortúnios e não estava exposta a tantas vicissitudes quanto as partes superior e inferior da humanidade. Sim, ela não ficava exposta a tantas perturbações e inquietações, fossem do corpo ou do espírito; que aqueles cuja vida de vícios, luxo e extravagâncias, de um lado, ou de trabalho duro, carência das coisas necessárias e dieta pobre e insuficiente, de outro, atraíam para si a perturbação como conseqüência natural de seu modo de vida. Disse-me que a condição mediana estava adaptada a todos os tipos de virtudes e a todos os tipos de satisfação; que paz e plenitude eram as criadas de uma fortuna mediana; que temperança, moderação, sossego, saúde, cordialidade, sendo todos usos aprazíveis e prazeres desejáveis, eram as bênçãos que aguardavam a condição média de vida. Era desse modo que os homens passavam de maneira discreta e suave pelo mundo e saíam dele confortavelmente, sem ser perturbados pela lida braçal ou cerebral. Não eram submetidos a uma vida de escravidão pelo pão de cada dia nem atormentados por circunstâncias confusas que roubavam do espírito a paz, e do corpo, o repouso. Não sendo transtornados pela paixão da inveja nem consumidos pela ânsia da ambição de grandes feitos, em circunstâncias favoráveis, deslizam suavemente pelo mundo e provam, com sensatez, as doçuras do viver sem as suas amarguras; sentem-se felizes e aprendem com a experiência de cada dia a conhecê-lo com mais sensatez.

Depois disso, ele realmente me pressionou, com muita afeição, a não bancar o homenzinho nem a me precipitar em sofrimentos contra os quais a natureza e a condição social em que eu nascera pareciam ter se precavido. Disse que eu não tinha a menor necessidade de lutar pelo pão; que ele cuidaria de mim e se empenharia em me introduzir honestamente na condição social a que vinha me recomendando. Se eu não estava muito feliz e satisfeito no mundo, isso talvez se devesse totalmente ao destino ou aos erros que impediam essa condição. A esse respeito, ele não tinha nenhuma responsabilidade, tendo-se desincumbido de sua obrigação de me precaver contra iniciativas que ele sabia iriam me magoar. Resumindo, assim como faria coisas muito bondosas para mim se eu ficasse e me acomodasse em casa como ele recomendava, ele não tomaria parte em meus infortúnios, encorajando minha partida. E, para encerrar, disse-me ele, eu tinha meu irmão mais velho como exemplo. Havia usado com ele os mesmos argumentos francos, a fim de impedi-lo de ir para a guerra nos Países Baixos, sem conseguir convencê-lo, instigado como estava por seus desejos juvenis de entrar no Exército, onde acabou sendo morto. Completou dizendo que não deixaria de orar por mim, mas, se eu desse esse passo tolo, arriscava-se a dizer que Deus não me abençoaria, e que eu teria tempo de sobra no futuro para refletir sobre o fato de eu ter negligenciado seu conselho, quando então talvez não houvesse ninguém para me ajudar.

Pude observar, nessa parte final de seu discurso, que meu pai estava sendo verdadeiramente profético - embora, imagino, ele não soubesse disso -; quero dizer, observei as lágrimas rolarem em profusão por seu rosto, em especial quando ele falou de meu irmão que havia sido morto. E quando ele falou do tempo que eu teria para me arrepender sem ninguém para me ajudar, ficou tão comovido que interrompeu seu discurso para me dizer que seu coração estava apertado e que não conseguiria dizer mais nada.

Fiquei sinceramente impressionado com esse discurso - como poderia ser diferente? - e resolvi deixar de lado a idéia de partir. Assim, tratei de me acomodar em casa, como era o desejo de meu pai. Mas - ai de mim! - bastaram alguns dias para apagar tudo aquilo. E, em suma, para evitar novas importunações de meu pai, algumas semanas depois, resolvi fugir para bem longe. Entretanto, não agi com a pressa que impelira o ardor inicial de minha resolução. E assim, num momento em que senti minha mãe um pouco mais brincalhona que o normal, contei-lhe que meus pensamentos estavam de tal forma inclinados a conhecer o mundo, que eu nunca conseguiria me decidir com o empenho suficiente por coisa alguma, a ponto de levá-la a cabo. Disse-lhe que seria melhor meu pai dar-me o seu consentimento em vez de me forçar a partir sem isso; que eu já estava então com dezoito anos, tarde demais para ser aprendiz de um ofício ou ser ajudante de um advogado; que eu estava certo de que, se assim fizesse, jamais cumpriria meu aprendizado e, com certeza, fugiria de meu mestre antes de o meu tempo esgotar e partiria para o mar. Se ela conversasse com meu pai para me deixar fazer uma viagem marítima e se eu voltasse de novo para casa sem dela ter gostado, eu não partiria mais e prometia recuperar o tempo perdido com redobrado empenho.

Muito aflita com isso, minha mãe disse-me, então, que não valia a pena falar com meu pai sobre um assunto desses, pois ele sabia perfeitamente o que me servia para consentir em algo que tanto poderia me prejudicar. E também que ela se espantava em como eu podia pensar em tal coisa depois da conversa que tivera com meu pai, das suas expressões doces e ternas que, ela sabia, ele havia usado para comigo. Em suma, se eu quisesse me arruinar, não havia esperança para mim; mas eu podia estar certo de que jamais contaria com o consentimento deles para isso. No que lhe dizia respeito, ela não tomaria parte na minha destruição; além disso, eu nunca poderia dizer que minha mãe estava concordando com algo quando meu pai não estava.

Apesar da recusa de minha mãe em dizer isso ao meu pai, mais tarde eu soube que ela lhe contou toda a conversa e que ele, depois de se mostrar muito preocupado, disse a ela, com um suspiro:

- Esse rapaz poderia ser feliz se ficasse em casa. Mas, se ele for embora, será o infortunado mais miserável que já nasceu. Não posso consentir nisso.

Foi só quase um ano depois disso que eu me libertei. Nesse ínterim, continuei teimosamente surdo a todas as propostas de me estabelecer nos negócios e muitas vezes recriminei meu pai e minha mãe por estarem tão resolutamente decididos contra aquilo que, eles sabiam, eram minhas inclinações. Porém, estando certo dia em Hull, onde fora casualmente e sem nenhuma intenção de fuga naquele momento, e como disse, apenas estando por lá, aconteceu de um de meus companheiros estar de partida para Londres, por mar, no navio de seu pai. Daí ele insistiu para que eu fosse com eles, usando a isca comum a todos os marinheiros, qual seja, a de que eu não precisaria pagar a passagem. Assim, não consultei mais nem pai nem mãe, tampouco lhes enviei um recado, deixando-os tomar conhecimento como pudessem. E sem pedir a bênção de Deus e de meu pai, e sem nem pensar nas circunstâncias e conseqüências, em má hora, Deus sabe, subi a bordo de um navio com destino a Londres em primeiro de setembro de 1651. Quero crer que nunca os infortúnios de qualquer jovem aventureiro começaram tão cedo nem duraram mais tempo que os meus. Mal o navio saíra de Humber, o vento começou a soprar e o mar a crescer da maneira mais assustadora. Como eu nunca estivera antes no mar, fiquei terrivelmente doente no corpo e aterrorizado na alma. Pus-me, então, a refletir seriamente sobre o que havia feito e a presteza com que havia sido alcançado pelo julgamento dos Céus, pela maneira perversa como havia abandonado meus deveres e deixado a casa de meus pais. Todos os seus bons conselhos, as lágrimas de meu pai e os rogos de minha mãe retornaram muito vivos à minha memória. Minha consciência, sem chegar ainda ao grau de severidade que viria a alcançar depois, censurava-me por ter desprezado os conselhos e rompido com meus deveres perante Deus e meu pai.

Enquanto isso, a tormenta recrudesceu e o mar, onde eu antes nunca estivera, ficou muito violento. Porém, não tanto como o veria tantas vezes a partir de então, nem como o vi poucos dias depois. Mas aquilo foi o bastante para me abalar, a mim que não passava de um jovem marujo e nunca soubera nada do assunto. Achava que cada vagalhão ia nos engolir e que, a cada mergulho no cavado ou vazio do mar, assim pensava eu, o navio jamais se ergueria de novo. E, imerso nessa agonia, fiz muitas promessas e tomei resoluções: se Deus quisesse poupar minha vida naquela viagem e se eu viesse a colocar o pé em terra firme de novo, iria diretamente para a casa de meu pai e nunca entraria novamente num navio enquanto vivesse; acataria seu conselho e nunca mais me meteria em desgraças como essas. Agora eu percebia claramente a exatidão de suas observações sobre a condição social mediana. Com que facilidade e conforto ele tinha vivido todos os dias de sua existência sem nunca se expor a tormentas no mar nem a apuros em terra. Decidi que voltaria, como um verdadeiro filho pródigo arrependido, à casa de meu pai.

Esses pensamentos sóbrios e sábios duraram enquanto durou a tormenta e, na verdade, por mais algum tempo. Mas, no dia seguinte, tendo amainado o vento e se acalmado o mar, comecei a me acostumar com aquilo. Fiquei muito sério durante todo aquele dia, estando ainda um pouco enjoado. No entanto, perto do anoitecer, o tempo clareou, o vento sumiu de vez e veio um entardecer encantador. O sol se pôs num céu muito limpo e assim nasceu na manhã seguinte, com pouco ou nenhum vento e um mar suave. Com o sol brilhando no alto, a paisagem era, acredito, a mais encantadora que eu já havia visto.

Eu tinha dormido bem à noite e não estava mais enjoado, mas sim muito alegre, olhando extasiado para o mar. Pensava como ele, estando tão bravio e terrível no dia anterior, podia ficar assim calmo e agradável tão pouco tempo depois. Então, para acabar de uma vez com minhas boas resoluções, meu colega, que me havia seduzido a partir, veio até mim:

- Então, Bob - diz ele, batendo no meu ombro -, como se sente depois daquilo? Garanto que você ficou apavorado na noite passada, quando soprou aquela lufada de vento, não ficou?

- Uma lufada, é assim que você chama aquilo? - disse eu. - Foi uma tempestade terrível.

- Uma tempestade, que bobo você é - replica ele. - Você chama aquilo de tempestade? Ora, não foi nada disso. Se a gente tiver um bom barco e espaço pra manobrar, nem dá bola pra uma rajada de vento dessas. Mas você não passa de um marinheiro de água doce, Bob. Venha, vamos preparar uma tigela de ponche e esquecer tudo isso. Não viu o tempo lindo que está fazendo?

Para encurtar essa parte triste de minha história, seguimos o velho hábito de todos os marinheiros. O ponche foi feito e me embriagaram com ele. Assim, nas travessuras daquela noite, afoguei todo o arrependimento, todas as reflexões sobre minha conduta passada e todas as resoluções sobre o futuro. Resumindo, quando o mar voltou a ficar tranqüilo e a calma se restabeleceu com a extinção da tormenta, teve fim a minha ansiedade, meu medo e acabaram-se as minhas apreensões quanto a ser engolido pelo mar. Retornava a corrente de meus anseios anteriores, com o que esqueci completamente os votos e promessas que fizera em minha desgraça. Tive, por certo, alguns intervalos de reflexão, e os pensamentos sérios às vezes se esforçaram, por assim dizer, para voltar, mas eu me livrei deles e os enxotei como se fossem uma indisposição. Dedicando-me à bebida e à tripulação, logo controlei a volta daqueles acessos (pois era assim que os chamava) e, em cinco ou seis dias, obtive uma vitória tão absoluta sobre a consciência quanto qualquer jovem que resolvesse não se incomodar com ela poderia desejar. Mas eu ainda teria de passar por um outro teste e a Providência, como geralmente acontece nesses casos, resolveu me deixar absolutamente sem escapatória. Porque, se eu não tomara o primeiro como um recado, o seguinte haveria de ser tal, que o pior e mais calejado infeliz entre nós reconheceria o perigo e a misericórdia.

Estando já há seis dias no mar, chegamos a Yarmouth Roads. Com vento contrário e tempo calmo, havíamos avançado pouco desde a tempestade. Ali fomos obrigados a fundear e ali ficamos por sete ou oito dias, com o vento soprando contra, isto é, de sudoeste. Durante esse tempo, uma grande quantidade de navios de Newcastle chegava à mesma enseada como a um porto comum, no qual os navios poderiam esperar pelo vento para subir o rio.

Não pretendíamos ficar tanto tempo por ali. Teríamos subido o rio com a maré se o vento não fosse tão forte; mas, depois de estarmos quatro ou cinco dias naquele lugar, ainda soprava com muita violência. No entanto, como a enseada era considerada boa como um porto, nosso ancoradouro era bom, com a atracação muito firme no solo, nossos homens estavam despreocupados e nem um pouco apreensivos quanto ao perigo. Passavam o tempo em repouso e brincadeiras, como é comum no mar. Porém, no oitavo dia pela manhã, o vento engrossou e todos os braços tiveram que se mexer para arriar as velas dos mastaréus e deixar tudo protegido e bem guardado para o navio flutuar o melhor possível. Por volta do meio-dia, o mar encapelou-se de verdade, e o navio virou com a proa para a terra, sendo varrido por muitos vagalhões. Por uma ou duas vezes achamos que a âncora havia se soltado, com o que o capitão ordenou que largassem a âncora mestra, e assim, ficamos fundeados com duas âncoras na frente, estando os cabos retesados ao máximo.

Desabou, então, uma tempestade realmente terrível e comecei a ver susto e terror na face dos próprios marinheiros. O capitão estava vigilante no ofício de preservar o navio; porém, quando entrava e saía de sua cabine ao lado da minha, pude ouvi-lo falar consigo mesmo várias vezes, "Senhor, tenha piedade de nós, estamos perdidos, seremos destruídos", coisas assim. Durante essas primeiras confusões, fiquei atordoado. Deitado em silêncio na minha cabine, que ficava na proa, não posso descrever meu estado de espírito. Dificilmente conseguiria retomar o arrependimento inicial que eu havia aparentemente pisoteado e contra o qual me obstinara. Achava que o perigo de morte havia passado e que este também não daria em nada, como o primeiro. Mas, quando o próprio capitão passou por mim, como há pouco mencionei, dizendo que estávamos perdidos, fiquei terrivelmente apavorado. Saí da cabine e olhei ao redor, e jamais tivera, em toda a minha vida, uma visão tão aterradora. As ondas pareciam montanhas e quebravam sobre nós a cada três ou quatro minutos. Quando consegui olhar em volta, tudo o que pude observar foi a desolação que nos rodeava. Descobrimos, então, que dois navios muito carregados e ancorados perto de nós, haviam cortado seus mastros rente ao convés e que, como informava a gritaria dos nossos marinheiros, um navio fundeado uma milha à nossa frente naufragara. Dois outros navios, tendo-se desprendido das âncoras, saíram da enseada ao mar para o que desse e viesse e sem um mastro sequer de pé. Já as embarcações leves, não sendo tão castigadas pelo mar, se deram melhor; mas duas ou três delas vogavam na nossa direção, correndo apenas com a vela de espicha ao vento.

Perto do anoitecer, o imediato e o contramestre suplicaram que o capitão de nosso navio os deixasse cortar o mastro de proa, ao que ele não se achava nem um pouco disposto. Mas, quando o contramestre garantiu que sem isso o navio naufragaria, ele consentiu. Depois disso, o mastro principal ficou tão solto e balançava tanto o navio, que eles foram obrigados a cortá-lo também, deixando o convés livre.

Qualquer um pode julgar em que condições eu estaria no meio daquilo tudo, pois não passava de um jovem marujo, sem quase nunca ter sentido um pavor tão grande. Mas, se consigo expressar, a essa distância, os pensamentos que me ocorreram na ocasião, eu estava dez vezes mais horrorizado com as minhas antigas convicções, por tê-las abandonado devido a minhas perversas resoluções iniciais, do que me horrorizava a idéia da própria morte. E isso, somado ao terror da tempestade, colocou-me num tal estado, que não tenho palavras para exprimir. Mas o pior ainda estava por vir. A tempestade continuou com tal fúria, que os próprios marinheiros admitiram nunca terem visto uma pior. Nosso navio era sólido, mas estava tão carregado e jogava tanto, que os marujos gritavam, de tempos em tempos, que ele iria a pique. Minha vantagem a esse respeito foi não saber o que eles queriam dizer com "ir a pique", até eu perguntar. No entanto, a tempestade ficou tão violenta, que eu vi o que não se vê freqüentemente: o capitão, o contramestre e alguns outros mais sensíveis que o resto fazendo suas orações e esperando, a qualquer momento, a hora de o navio ir ao fundo. No meio da noite, e em face de todas as nossas desgraças, um dos homens que havia descido para averiguar gritou que estávamos fazendo água; outro disse que havia quatro pés de água no porão. Todos os braços foram chamados então para a bomba. A essa ordem, meu coração pareceu desfalecer em meu peito e eu caí de costas, da beirada da cama onde estava sentado, no chão da cabine. Os homens me ergueram, porém, dizendo que eu, se não fora capaz de fazer nada antes, estava perfeitamente apto a bombear como qualquer outro. Pus-me, então, de pé, fui até a bomba e comecei a trabalhar com toda a energia. Enquanto isso, o capitão viu que alguns navios carvoeiros leves, incapazes de resistir à tormenta, eram forçados a se soltar e fugir para o mar. Ao se aproximarem de nós, ordenou o disparo de um canhão em sinal de perigo. Eu, sem saber o significado daquilo, fiquei muito espantado, achando que o navio se havia partido ou que alguma coisa pavorosa acontecera. Resumindo, levei um susto tão grande, que desmaiei. Como naquele momento todos tinham que pensar na própria vida, ninguém prestou atenção em mim nem no que me sucedera. Outro homem assumiu a bomba e, empurrando-me para o lado com o pé, deixou-me ali, deitado, achando que eu estivesse morto. Demorei muito para voltar a mim.

Apesar de nos esforçarmos ao máximo, a água aumentava no porão e era visível que o navio iria afundar. E embora a tempestade estivesse amainando um pouco, ele não flutuaria até alcançarmos um porto. Desse modo, o capitão continuou disparando canhonaços de ajuda, até que um navio leve, ancorado um pouco à nossa frente, se aventurou a baixar o barco para nos ajudar. Foi com grande risco que ele se acercou de nós. Impossível para nós embarcar, e o barco não conseguia se posicionar ao lado do navio, até que os homens, remando com extremo vigor e arriscando a própria vida para salvar a nossa, aproximaram-se. Nossos homens atiraram-lhes uma bóia presa a uma corda por cima da popa e soltaram uma grande extensão de cabo que, com grande esforço e risco, eles puderam agarrar, e nós os puxamos para junto de nossa popa, e passamos todos para o barco. Não era intenção deles, nem a nossa, depois de ali entrarmos, alcançar o navio deles; concordamos que o melhor seria deixar o barco vogar, apenas remando o melhor que pudéssemos na direção da costa. Nosso capitão prometeu-lhes que, se o barco se destroçasse na margem, ele ressarciria o capitão deles. Assim, parte remando, parte vogando à deriva, nosso barco se afastou para o norte, enviesando para a costa quase na altura de Winterton Ness.

Não estávamos há mais de um quarto de hora fora de nosso navio quando o vimos afundar. Compreendi, pela primeira vez, o que significava um navio ir a pique no mar e devo admitir que mal tive olhos para ver quando os marinheiros me disseram que ele estava naufragando. Isso porque desde o momento em que eles praticamente me jogaram no barco em vez de me mandar entrar, meu coração ficou como morto dentro de mim, parte pelo pavor, parte pelo horror mental, por imaginar o que ainda me aguardava.

Estávamos nessa situação, quando os homens ainda forcejavam no remo a fim de levar o barco para perto da costa. E quando o barco, escalando as ondas, permitia avistá-la, podíamos ver uma grande quantidade de pessoas correndo pela praia para nos ajudar tão logo chegássemos mais perto. Mas nosso avanço era muito lento e não conseguimos alcançar a praia até o ponto em que, passado o farol de Winterton, a costa recua para oeste, na direção de Cromer, e a terra faz com que a violência do vento diminua um pouco. Enveredamos por ali e, não sem grande dificuldade, desembarcamos todos a salvo na praia e fomos a pé até Yarmouth. Tendo ali chegado na condição de desventurados, fomos tratados com grande humanidade tanto pelos magistrados da cidade, que nos cederam bons alojamentos, como pelos comerciantes privados e donos de navios, e eles nos deram dinheiro suficiente para nos levar até Londres ou de volta a Hull, o que achássemos mais adequado.

Se eu tivesse tido, então, o bom senso de voltar para Hull e para o meu lar, teria sido feliz. Meu pai, um emblema da parábola de nosso abençoado Salvador, teria até matado o bezerro gordo para mim, pois, ouvindo dizer que o navio em que eu partira havia naufragado em Yarmouth Roads, muito tempo teria passado antes de ele ter alguma certeza de que eu não me afogara.

Porém, minha má sorte me impelia, então, com uma teimosia irresistível, e, apesar de ouvir muitos apelos de minha razão e de meus pensamentos mais ajuizados para voltar ao lar, não tive forças para fazê-lo. Não sei que nome dar a isso, nem insistirei em que se trata de uma determinação secreta e inelutável que nos torna instrumentos de nossa própria destruição, apesar de ela estar diante de nós e de avançarmos para ela de olhos abertos. Com certeza, nada, salvo algum decreto de miséria inevitável à espera e ao qual me era impossível escapar, poderia ter-me empurrado para frente, contra os argumentos e persuasões serenos de meus mais recônditos pensamentos e contra as duas demonstrações tão evidentes que eu tivera em minha primeira tentativa.

Meu amigo, o filho do capitão, que antes se empenhara em me calejar, estava agora menos entusiasmado do que eu. A primeira vez em que nos falamos, depois de chegar em Yarmouth, só veio a acontecer dois ou três dias depois, porque estávamos alojados em locais diferentes. Tive a impressão de que seu ânimo havia mudado, e foi com um ar muito melancólico e abanando a cabeça que ele me perguntou como eu estava. Contou ao seu pai quem eu era e como eu havia tomado parte naquela viagem só pela experiência de navegar em alto-mar. O capitão virou-se para mim com uma expressão muito grave e compenetrada.

- Jovem - disse ele -, você não deve jamais ir para o mar novamente. Deveria tomar isso tudo como um sinal claro e visível de que não é para você ser um homem do mar.

- Por que, então - perguntei -, o senhor mesmo ainda não deixou o mar para sempre?

- O caso é diferente - disse ele. - Esta é a minha vocação e, portanto, o meu dever. Mas como você fez essa viagem por experiência, já deu pra sentir o gosto do que o Céu lhe dá e do que você deve esperar se persistir. Talvez isso tudo tenha lhe acontecido para seu próprio bem, como aconteceu com Jonas no navio para Tarshish. Agora me conte - prosseguiu - quem você é. O que te levou ao mar?

Contei-lhe então uma parte da minha história, ao cabo do que ele exclamou com estranha paixão:

- O que fiz eu - assim resmungou ele -, para um desgraçado infeliz desses embarcar no meu navio? Eu não poria meus pés de novo no mesmo navio contigo nem por mil libras.

Isso foi certamente, como eu disse, uma explosão de seu espírito, transtornado que estava ainda pelo sentimento de perda, e era mais do que ele estaria autorizado a fazer. Mais tarde, porém, ele conversou comigo com muita seriedade, exortando-me a voltar para meu pai e a não tentar a Providência para minha ruína. Disse-me que eu devia ver uma mão visível do Céu contra mim.

- E, meu jovem - disse ele -, confie nisto. Se você não voltar, aonde quer que você vá, não vai encontrar nada além de desastres e contratempos, até que se cumpram os vaticínios de seu pai.



 
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