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Robinson
Crusoe, de Daniel Defoe (tradução de Celso
M. Paciornik; Iluminuras; 256 páginas; 35 reais)
A obra-prima do inglês Daniel Defoe (1660-1731) aparece em
uma nova e criteriosa tradução. Como em todo clássico,
o neófito tem a ilusão de que já conhece a
história antes mesmo de ler o livro. É a narrativa
do inglês Robinson Crusoe, único sobrevivente de um
naufrágio, que vai parar em uma ilha desabitada (ou, pelo
menos, sem habitantes europeus) e constrói sozinho os meios
para sua sobrevivência. Mas, para além desse episódio
central, ainda há muito a descobrir nesse livro como,
por exemplo, a passagem do protagonista pelo Brasil colonial. Essa
nova edição é a oportunidade ideal para revisitar
Robinson Crusoe e sua ilha.
Leia
trecho
VOU
PARA O MAR
Nasci
no ano de 1632, na cidade de York, de boa família, mas não
daquela região, pois meu pai, sendo um forasteiro de Bremen
estabelecera-se primeiro em Hull. Construíra um sólido
patrimônio no comércio e, depois de deixar os negócios,
passou a viver em York. Lá casou-se com minha mãe,
cuja família se chamava Robinson, uma gente muito respeitada
naquela região, sendo eu por isso batizado Robinson Kreutznaer.
Porém, com a corrupção das palavras tão
usual na Inglaterra, agora somos chamados, ou melhor, nós
nos chamamos e escrevemos nosso sobrenome "Crusoe". E
foi assim que meus colegas sempre me chamaram.
Eu tinha dois irmãos mais velhos. Um deles, tenente-coronel
de um regimento de infantaria inglês em Flandres, outrora
comandado pelo famoso coronel Lockhart, morrera em batalha contra
os espanhóis nas imediações de Dunquerque.
Mas eu nunca soube o que aconteceu com meu segundo irmão,
assim como meu pai e minha mãe nunca souberam o que aconteceu
comigo.
Sendo o terceiro filho da família e estando sem preparo para
nenhum ofício, minha cabeça começou a se encher,
desde cedo, de idéias aventurosas. Meu pai, já muito
velho então, havia me proporcionado uma formação
adequada até onde chegam, em geral, a educação
doméstica e uma escola rural gratuita, e me destinara ao
Direito. Mas, como só o mar poderia me satisfazer, essa minha
inclinação me opôs com vigor à vontade,
ou melhor, às ordens de meu pai, bem como aos rogos e argumentos
de minha mãe e de outros amigos. Parecia haver alguma fatalidade
naquele pendor da natureza empurrando-me diretamente para a vida
de infortúnios que me aguardava.
Meu pai, homem grave e sábio, deu-me bons e sérios
conselhos contra o que ele previa seriam os meus propósitos.
Certa manhã, chamando-me ao quarto em que estava confinado
pela gota, discutiu acaloradamente comigo sobre o assunto. Perguntou-me
que outras razões eu teria, além da mera propensão
à vadiagem, para deixar a casa paterna e minha terra natal,
onde eu poderia ter assistência, a perspectiva de conseguir
fortuna com esforço e empenho, e uma vida de confortos e
satisfações. Disse-me que sair à cata de aventuras
era para homens de condição desesperada, de um lado,
ou de pretensões superiores, de outro; eles ascenderiam por
meio da exploração e se tornariam famosos em empresas
de natureza extraordinária; que essas coisas estavam todas
ou muito acima ou muito abaixo de mim; que a minha condição,
a mediana, poderia ser chamada de a posição superior
de um estado inferior e que ele descobrira, depois de longa experiência,
ser essa a melhor posição do mundo, a mais adequada
à felicidade humana. Não estava exposta às
misérias e agruras, aos esforços e padecimentos da
parte braçal da humanidade, nem prejudicada pelo orgulho,
o luxo, a ambição e a inveja da parte superior da
humanidade. Disse-me ainda que eu devia julgar a felicidade dessa
condição por uma coisa, a saber, a condição
de vida que todas as outras pessoas invejavam; que reis haviam lamentado
muitas vezes as conseqüências miseráveis de terem
nascido para grandes feitos e gostariam de ter sido colocados no
meio dos dois extremos, entre a mediocridade e a grandeza; que o
sábio, quando implorava para não ser pobre nem rico,
disso dava testemunho como o critério justo da verdadeira
felicidade.
Ordenou-me a observação disso, e que eu deveria sempre
chegar à conclusão de que as adversidades da vida
se dividiam entre as porções superior e inferior da
humanidade. A condição mediana, no entanto, é
a que sofria menos infortúnios e não estava exposta
a tantas vicissitudes quanto as partes superior e inferior da humanidade.
Sim, ela não ficava exposta a tantas perturbações
e inquietações, fossem do corpo ou do espírito;
que aqueles cuja vida de vícios, luxo e extravagâncias,
de um lado, ou de trabalho duro, carência das coisas necessárias
e dieta pobre e insuficiente, de outro, atraíam para si a
perturbação como conseqüência natural de
seu modo de vida. Disse-me que a condição mediana
estava adaptada a todos os tipos de virtudes e a todos os tipos
de satisfação; que paz e plenitude eram as criadas
de uma fortuna mediana; que temperança, moderação,
sossego, saúde, cordialidade, sendo todos usos aprazíveis
e prazeres desejáveis, eram as bênçãos
que aguardavam a condição média de vida. Era
desse modo que os homens passavam de maneira discreta e suave pelo
mundo e saíam dele confortavelmente, sem ser perturbados
pela lida braçal ou cerebral. Não eram submetidos
a uma vida de escravidão pelo pão de cada dia nem
atormentados por circunstâncias confusas que roubavam do espírito
a paz, e do corpo, o repouso. Não sendo transtornados pela
paixão da inveja nem consumidos pela ânsia da ambição
de grandes feitos, em circunstâncias favoráveis, deslizam
suavemente pelo mundo e provam, com sensatez, as doçuras
do viver sem as suas amarguras; sentem-se felizes e aprendem com
a experiência de cada dia a conhecê-lo com mais sensatez.
Depois disso, ele realmente me pressionou, com muita afeição,
a não bancar o homenzinho nem a me precipitar em sofrimentos
contra os quais a natureza e a condição social em
que eu nascera pareciam ter se precavido. Disse que eu não
tinha a menor necessidade de lutar pelo pão; que ele cuidaria
de mim e se empenharia em me introduzir honestamente na condição
social a que vinha me recomendando. Se eu não estava muito
feliz e satisfeito no mundo, isso talvez se devesse totalmente ao
destino ou aos erros que impediam essa condição. A
esse respeito, ele não tinha nenhuma responsabilidade, tendo-se
desincumbido de sua obrigação de me precaver contra
iniciativas que ele sabia iriam me magoar. Resumindo, assim como
faria coisas muito bondosas para mim se eu ficasse e me acomodasse
em casa como ele recomendava, ele não tomaria parte em meus
infortúnios, encorajando minha partida. E, para encerrar,
disse-me ele, eu tinha meu irmão mais velho como exemplo.
Havia usado com ele os mesmos argumentos francos, a fim de impedi-lo
de ir para a guerra nos Países Baixos, sem conseguir convencê-lo,
instigado como estava por seus desejos juvenis de entrar no Exército,
onde acabou sendo morto. Completou dizendo que não deixaria
de orar por mim, mas, se eu desse esse passo tolo, arriscava-se
a dizer que Deus não me abençoaria, e que eu teria
tempo de sobra no futuro para refletir sobre o fato de eu ter negligenciado
seu conselho, quando então talvez não houvesse ninguém
para me ajudar.
Pude observar, nessa parte final de seu discurso, que meu pai estava
sendo verdadeiramente profético - embora, imagino, ele não
soubesse disso -; quero dizer, observei as lágrimas rolarem
em profusão por seu rosto, em especial quando ele falou de
meu irmão que havia sido morto. E quando ele falou do tempo
que eu teria para me arrepender sem ninguém para me ajudar,
ficou tão comovido que interrompeu seu discurso para me dizer
que seu coração estava apertado e que não conseguiria
dizer mais nada.
Fiquei sinceramente impressionado com esse discurso - como poderia
ser diferente? - e resolvi deixar de lado a idéia de partir.
Assim, tratei de me acomodar em casa, como era o desejo de meu pai.
Mas - ai de mim! - bastaram alguns dias para apagar tudo aquilo.
E, em suma, para evitar novas importunações de meu
pai, algumas semanas depois, resolvi fugir para bem longe. Entretanto,
não agi com a pressa que impelira o ardor inicial de minha
resolução. E assim, num momento em que senti minha
mãe um pouco mais brincalhona que o normal, contei-lhe que
meus pensamentos estavam de tal forma inclinados a conhecer o mundo,
que eu nunca conseguiria me decidir com o empenho suficiente por
coisa alguma, a ponto de levá-la a cabo. Disse-lhe que seria
melhor meu pai dar-me o seu consentimento em vez de me forçar
a partir sem isso; que eu já estava então com dezoito
anos, tarde demais para ser aprendiz de um ofício ou ser
ajudante de um advogado; que eu estava certo de que, se assim fizesse,
jamais cumpriria meu aprendizado e, com certeza, fugiria de meu
mestre antes de o meu tempo esgotar e partiria para o mar. Se ela
conversasse com meu pai para me deixar fazer uma viagem marítima
e se eu voltasse de novo para casa sem dela ter gostado, eu não
partiria mais e prometia recuperar o tempo perdido com redobrado
empenho.
Muito aflita com isso, minha mãe disse-me, então,
que não valia a pena falar com meu pai sobre um assunto desses,
pois ele sabia perfeitamente o que me servia para consentir em algo
que tanto poderia me prejudicar. E também que ela se espantava
em como eu podia pensar em tal coisa depois da conversa que tivera
com meu pai, das suas expressões doces e ternas que, ela
sabia, ele havia usado para comigo. Em suma, se eu quisesse me arruinar,
não havia esperança para mim; mas eu podia estar certo
de que jamais contaria com o consentimento deles para isso. No que
lhe dizia respeito, ela não tomaria parte na minha destruição;
além disso, eu nunca poderia dizer que minha mãe estava
concordando com algo quando meu pai não estava.
Apesar da recusa de minha mãe em dizer isso ao meu pai, mais
tarde eu soube que ela lhe contou toda a conversa e que ele, depois
de se mostrar muito preocupado, disse a ela, com um suspiro:
- Esse rapaz poderia ser feliz se ficasse em casa. Mas, se ele for
embora, será o infortunado mais miserável que já
nasceu. Não posso consentir nisso.
Foi só quase um ano depois disso que eu me libertei. Nesse
ínterim, continuei teimosamente surdo a todas as propostas
de me estabelecer nos negócios e muitas vezes recriminei
meu pai e minha mãe por estarem tão resolutamente
decididos contra aquilo que, eles sabiam, eram minhas inclinações.
Porém, estando certo dia em Hull, onde fora casualmente e
sem nenhuma intenção de fuga naquele momento, e como
disse, apenas estando por lá, aconteceu de um de meus companheiros
estar de partida para Londres, por mar, no navio de seu pai. Daí
ele insistiu para que eu fosse com eles, usando a isca comum a todos
os marinheiros, qual seja, a de que eu não precisaria pagar
a passagem. Assim, não consultei mais nem pai nem mãe,
tampouco lhes enviei um recado, deixando-os tomar conhecimento como
pudessem. E sem pedir a bênção de Deus e de
meu pai, e sem nem pensar nas circunstâncias e conseqüências,
em má hora, Deus sabe, subi a bordo de um navio com destino
a Londres em primeiro de setembro de 1651. Quero crer que nunca
os infortúnios de qualquer jovem aventureiro começaram
tão cedo nem duraram mais tempo que os meus. Mal o navio
saíra de Humber, o vento começou a soprar e o mar
a crescer da maneira mais assustadora. Como eu nunca estivera antes
no mar, fiquei terrivelmente doente no corpo e aterrorizado na alma.
Pus-me, então, a refletir seriamente sobre o que havia feito
e a presteza com que havia sido alcançado pelo julgamento
dos Céus, pela maneira perversa como havia abandonado meus
deveres e deixado a casa de meus pais. Todos os seus bons conselhos,
as lágrimas de meu pai e os rogos de minha mãe retornaram
muito vivos à minha memória. Minha consciência,
sem chegar ainda ao grau de severidade que viria a alcançar
depois, censurava-me por ter desprezado os conselhos e rompido com
meus deveres perante Deus e meu pai.
Enquanto isso, a tormenta recrudesceu e o mar, onde eu antes nunca
estivera, ficou muito violento. Porém, não tanto como
o veria tantas vezes a partir de então, nem como o vi poucos
dias depois. Mas aquilo foi o bastante para me abalar, a mim que
não passava de um jovem marujo e nunca soubera nada do assunto.
Achava que cada vagalhão ia nos engolir e que, a cada mergulho
no cavado ou vazio do mar, assim pensava eu, o navio jamais se ergueria
de novo. E, imerso nessa agonia, fiz muitas promessas e tomei resoluções:
se Deus quisesse poupar minha vida naquela viagem e se eu viesse
a colocar o pé em terra firme de novo, iria diretamente para
a casa de meu pai e nunca entraria novamente num navio enquanto
vivesse; acataria seu conselho e nunca mais me meteria em desgraças
como essas. Agora eu percebia claramente a exatidão de suas
observações sobre a condição social
mediana. Com que facilidade e conforto ele tinha vivido todos os
dias de sua existência sem nunca se expor a tormentas no mar
nem a apuros em terra. Decidi que voltaria, como um verdadeiro filho
pródigo arrependido, à casa de meu pai.
Esses pensamentos sóbrios e sábios duraram enquanto
durou a tormenta e, na verdade, por mais algum tempo. Mas, no dia
seguinte, tendo amainado o vento e se acalmado o mar, comecei a
me acostumar com aquilo. Fiquei muito sério durante todo
aquele dia, estando ainda um pouco enjoado. No entanto, perto do
anoitecer, o tempo clareou, o vento sumiu de vez e veio um entardecer
encantador. O sol se pôs num céu muito limpo e assim
nasceu na manhã seguinte, com pouco ou nenhum vento e um
mar suave. Com o sol brilhando no alto, a paisagem era, acredito,
a mais encantadora que eu já havia visto.
Eu tinha dormido bem à noite e não estava mais enjoado,
mas sim muito alegre, olhando extasiado para o mar. Pensava como
ele, estando tão bravio e terrível no dia anterior,
podia ficar assim calmo e agradável tão pouco tempo
depois. Então, para acabar de uma vez com minhas boas resoluções,
meu colega, que me havia seduzido a partir, veio até mim:
- Então, Bob - diz ele, batendo no meu ombro -, como se sente
depois daquilo? Garanto que você ficou apavorado na noite
passada, quando soprou aquela lufada de vento, não ficou?
- Uma lufada, é assim que você chama aquilo? - disse
eu. - Foi uma tempestade terrível.
- Uma tempestade, que bobo você é - replica ele. -
Você chama aquilo de tempestade? Ora, não foi nada
disso. Se a gente tiver um bom barco e espaço pra manobrar,
nem dá bola pra uma rajada de vento dessas. Mas você
não passa de um marinheiro de água doce, Bob. Venha,
vamos preparar uma tigela de ponche e esquecer tudo isso. Não
viu o tempo lindo que está fazendo?
Para encurtar essa parte triste de minha história, seguimos
o velho hábito de todos os marinheiros. O ponche foi feito
e me embriagaram com ele. Assim, nas travessuras daquela noite,
afoguei todo o arrependimento, todas as reflexões sobre minha
conduta passada e todas as resoluções sobre o futuro.
Resumindo, quando o mar voltou a ficar tranqüilo e a calma
se restabeleceu com a extinção da tormenta, teve fim
a minha ansiedade, meu medo e acabaram-se as minhas apreensões
quanto a ser engolido pelo mar. Retornava a corrente de meus anseios
anteriores, com o que esqueci completamente os votos e promessas
que fizera em minha desgraça. Tive, por certo, alguns intervalos
de reflexão, e os pensamentos sérios às vezes
se esforçaram, por assim dizer, para voltar, mas eu me livrei
deles e os enxotei como se fossem uma indisposição.
Dedicando-me à bebida e à tripulação,
logo controlei a volta daqueles acessos (pois era assim que os chamava)
e, em cinco ou seis dias, obtive uma vitória tão absoluta
sobre a consciência quanto qualquer jovem que resolvesse não
se incomodar com ela poderia desejar. Mas eu ainda teria de passar
por um outro teste e a Providência, como geralmente acontece
nesses casos, resolveu me deixar absolutamente sem escapatória.
Porque, se eu não tomara o primeiro como um recado, o seguinte
haveria de ser tal, que o pior e mais calejado infeliz entre nós
reconheceria o perigo e a misericórdia.
Estando já há seis dias no mar, chegamos a Yarmouth
Roads. Com vento contrário e tempo calmo, havíamos
avançado pouco desde a tempestade. Ali fomos obrigados a
fundear e ali ficamos por sete ou oito dias, com o vento soprando
contra, isto é, de sudoeste. Durante esse tempo, uma grande
quantidade de navios de Newcastle chegava à mesma enseada
como a um porto comum, no qual os navios poderiam esperar pelo vento
para subir o rio.
Não pretendíamos ficar tanto tempo por ali. Teríamos
subido o rio com a maré se o vento não fosse tão
forte; mas, depois de estarmos quatro ou cinco dias naquele lugar,
ainda soprava com muita violência. No entanto, como a enseada
era considerada boa como um porto, nosso ancoradouro era bom, com
a atracação muito firme no solo, nossos homens estavam
despreocupados e nem um pouco apreensivos quanto ao perigo. Passavam
o tempo em repouso e brincadeiras, como é comum no mar. Porém,
no oitavo dia pela manhã, o vento engrossou e todos os braços
tiveram que se mexer para arriar as velas dos mastaréus e
deixar tudo protegido e bem guardado para o navio flutuar o melhor
possível. Por volta do meio-dia, o mar encapelou-se de verdade,
e o navio virou com a proa para a terra, sendo varrido por muitos
vagalhões. Por uma ou duas vezes achamos que a âncora
havia se soltado, com o que o capitão ordenou que largassem
a âncora mestra, e assim, ficamos fundeados com duas âncoras
na frente, estando os cabos retesados ao máximo.
Desabou, então, uma tempestade realmente terrível
e comecei a ver susto e terror na face dos próprios marinheiros.
O capitão estava vigilante no ofício de preservar
o navio; porém, quando entrava e saía de sua cabine
ao lado da minha, pude ouvi-lo falar consigo mesmo várias
vezes, "Senhor, tenha piedade de nós, estamos perdidos,
seremos destruídos", coisas assim. Durante essas primeiras
confusões, fiquei atordoado. Deitado em silêncio na
minha cabine, que ficava na proa, não posso descrever meu
estado de espírito. Dificilmente conseguiria retomar o arrependimento
inicial que eu havia aparentemente pisoteado e contra o qual me
obstinara. Achava que o perigo de morte havia passado e que este
também não daria em nada, como o primeiro. Mas, quando
o próprio capitão passou por mim, como há pouco
mencionei, dizendo que estávamos perdidos, fiquei terrivelmente
apavorado. Saí da cabine e olhei ao redor, e jamais tivera,
em toda a minha vida, uma visão tão aterradora. As
ondas pareciam montanhas e quebravam sobre nós a cada três
ou quatro minutos. Quando consegui olhar em volta, tudo o que pude
observar foi a desolação que nos rodeava. Descobrimos,
então, que dois navios muito carregados e ancorados perto
de nós, haviam cortado seus mastros rente ao convés
e que, como informava a gritaria dos nossos marinheiros, um navio
fundeado uma milha à nossa frente naufragara. Dois outros
navios, tendo-se desprendido das âncoras, saíram da
enseada ao mar para o que desse e viesse e sem um mastro sequer
de pé. Já as embarcações leves, não
sendo tão castigadas pelo mar, se deram melhor; mas duas
ou três delas vogavam na nossa direção, correndo
apenas com a vela de espicha ao vento.
Perto do anoitecer, o imediato e o contramestre suplicaram que o
capitão de nosso navio os deixasse cortar o mastro de proa,
ao que ele não se achava nem um pouco disposto. Mas, quando
o contramestre garantiu que sem isso o navio naufragaria, ele consentiu.
Depois disso, o mastro principal ficou tão solto e balançava
tanto o navio, que eles foram obrigados a cortá-lo também,
deixando o convés livre.
Qualquer um pode julgar em que condições eu estaria
no meio daquilo tudo, pois não passava de um jovem marujo,
sem quase nunca ter sentido um pavor tão grande. Mas, se
consigo expressar, a essa distância, os pensamentos que me
ocorreram na ocasião, eu estava dez vezes mais horrorizado
com as minhas antigas convicções, por tê-las
abandonado devido a minhas perversas resoluções iniciais,
do que me horrorizava a idéia da própria morte. E
isso, somado ao terror da tempestade, colocou-me num tal estado,
que não tenho palavras para exprimir. Mas o pior ainda estava
por vir. A tempestade continuou com tal fúria, que os próprios
marinheiros admitiram nunca terem visto uma pior. Nosso navio era
sólido, mas estava tão carregado e jogava tanto, que
os marujos gritavam, de tempos em tempos, que ele iria a pique.
Minha vantagem a esse respeito foi não saber o que eles queriam
dizer com "ir a pique", até eu perguntar. No entanto,
a tempestade ficou tão violenta, que eu vi o que não
se vê freqüentemente: o capitão, o contramestre
e alguns outros mais sensíveis que o resto fazendo suas orações
e esperando, a qualquer momento, a hora de o navio ir ao fundo.
No meio da noite, e em face de todas as nossas desgraças,
um dos homens que havia descido para averiguar gritou que estávamos
fazendo água; outro disse que havia quatro pés de
água no porão. Todos os braços foram chamados
então para a bomba. A essa ordem, meu coração
pareceu desfalecer em meu peito e eu caí de costas, da beirada
da cama onde estava sentado, no chão da cabine. Os homens
me ergueram, porém, dizendo que eu, se não fora capaz
de fazer nada antes, estava perfeitamente apto a bombear como qualquer
outro. Pus-me, então, de pé, fui até a bomba
e comecei a trabalhar com toda a energia. Enquanto isso, o capitão
viu que alguns navios carvoeiros leves, incapazes de resistir à
tormenta, eram forçados a se soltar e fugir para o mar. Ao
se aproximarem de nós, ordenou o disparo de um canhão
em sinal de perigo. Eu, sem saber o significado daquilo, fiquei
muito espantado, achando que o navio se havia partido ou que alguma
coisa pavorosa acontecera. Resumindo, levei um susto tão
grande, que desmaiei. Como naquele momento todos tinham que pensar
na própria vida, ninguém prestou atenção
em mim nem no que me sucedera. Outro homem assumiu a bomba e, empurrando-me
para o lado com o pé, deixou-me ali, deitado, achando que
eu estivesse morto. Demorei muito para voltar a mim.
Apesar de nos esforçarmos ao máximo, a água
aumentava no porão e era visível que o navio iria
afundar. E embora a tempestade estivesse amainando um pouco, ele
não flutuaria até alcançarmos um porto. Desse
modo, o capitão continuou disparando canhonaços de
ajuda, até que um navio leve, ancorado um pouco à
nossa frente, se aventurou a baixar o barco para nos ajudar. Foi
com grande risco que ele se acercou de nós. Impossível
para nós embarcar, e o barco não conseguia se posicionar
ao lado do navio, até que os homens, remando com extremo
vigor e arriscando a própria vida para salvar a nossa, aproximaram-se.
Nossos homens atiraram-lhes uma bóia presa a uma corda por
cima da popa e soltaram uma grande extensão de cabo que,
com grande esforço e risco, eles puderam agarrar, e nós
os puxamos para junto de nossa popa, e passamos todos para o barco.
Não era intenção deles, nem a nossa, depois
de ali entrarmos, alcançar o navio deles; concordamos que
o melhor seria deixar o barco vogar, apenas remando o melhor que
pudéssemos na direção da costa. Nosso capitão
prometeu-lhes que, se o barco se destroçasse na margem, ele
ressarciria o capitão deles. Assim, parte remando, parte
vogando à deriva, nosso barco se afastou para o norte, enviesando
para a costa quase na altura de Winterton Ness.
Não estávamos há mais de um quarto de hora
fora de nosso navio quando o vimos afundar. Compreendi, pela primeira
vez, o que significava um navio ir a pique no mar e devo admitir
que mal tive olhos para ver quando os marinheiros me disseram que
ele estava naufragando. Isso porque desde o momento em que eles
praticamente me jogaram no barco em vez de me mandar entrar, meu
coração ficou como morto dentro de mim, parte pelo
pavor, parte pelo horror mental, por imaginar o que ainda me aguardava.
Estávamos nessa situação, quando os homens
ainda forcejavam no remo a fim de levar o barco para perto da costa.
E quando o barco, escalando as ondas, permitia avistá-la,
podíamos ver uma grande quantidade de pessoas correndo pela
praia para nos ajudar tão logo chegássemos mais perto.
Mas nosso avanço era muito lento e não conseguimos
alcançar a praia até o ponto em que, passado o farol
de Winterton, a costa recua para oeste, na direção
de Cromer, e a terra faz com que a violência do vento diminua
um pouco. Enveredamos por ali e, não sem grande dificuldade,
desembarcamos todos a salvo na praia e fomos a pé até
Yarmouth. Tendo ali chegado na condição de desventurados,
fomos tratados com grande humanidade tanto pelos magistrados da
cidade, que nos cederam bons alojamentos, como pelos comerciantes
privados e donos de navios, e eles nos deram dinheiro suficiente
para nos levar até Londres ou de volta a Hull, o que achássemos
mais adequado.
Se eu tivesse tido, então, o bom senso de voltar para Hull
e para o meu lar, teria sido feliz. Meu pai, um emblema da parábola
de nosso abençoado Salvador, teria até matado o bezerro
gordo para mim, pois, ouvindo dizer que o navio em que eu partira
havia naufragado em Yarmouth Roads, muito tempo teria passado antes
de ele ter alguma certeza de que eu não me afogara.
Porém, minha má sorte me impelia, então, com
uma teimosia irresistível, e, apesar de ouvir muitos apelos
de minha razão e de meus pensamentos mais ajuizados para
voltar ao lar, não tive forças para fazê-lo.
Não sei que nome dar a isso, nem insistirei em que se trata
de uma determinação secreta e inelutável que
nos torna instrumentos de nossa própria destruição,
apesar de ela estar diante de nós e de avançarmos
para ela de olhos abertos. Com certeza, nada, salvo algum decreto
de miséria inevitável à espera e ao qual me
era impossível escapar, poderia ter-me empurrado para frente,
contra os argumentos e persuasões serenos de meus mais recônditos
pensamentos e contra as duas demonstrações tão
evidentes que eu tivera em minha primeira tentativa.
Meu amigo, o filho do capitão, que antes se empenhara em
me calejar, estava agora menos entusiasmado do que eu. A primeira
vez em que nos falamos, depois de chegar em Yarmouth, só
veio a acontecer dois ou três dias depois, porque estávamos
alojados em locais diferentes. Tive a impressão de que seu
ânimo havia mudado, e foi com um ar muito melancólico
e abanando a cabeça que ele me perguntou como eu estava.
Contou ao seu pai quem eu era e como eu havia tomado parte naquela
viagem só pela experiência de navegar em alto-mar.
O capitão virou-se para mim com uma expressão muito
grave e compenetrada.
- Jovem - disse ele -, você não deve jamais ir para
o mar novamente. Deveria tomar isso tudo como um sinal claro e visível
de que não é para você ser um homem do mar.
- Por que, então - perguntei -, o senhor mesmo ainda não
deixou o mar para sempre?
- O caso é diferente - disse ele. - Esta é a minha
vocação e, portanto, o meu dever. Mas como você
fez essa viagem por experiência, já deu pra sentir
o gosto do que o Céu lhe dá e do que você deve
esperar se persistir. Talvez isso tudo tenha lhe acontecido para
seu próprio bem, como aconteceu com Jonas no navio para Tarshish.
Agora me conte - prosseguiu - quem você é. O que te
levou ao mar?
Contei-lhe então uma parte da minha história, ao cabo
do que ele exclamou com estranha paixão:
- O que fiz eu - assim resmungou ele -, para um desgraçado
infeliz desses embarcar no meu navio? Eu não poria meus pés
de novo no mesmo navio contigo nem por mil libras.
Isso foi certamente, como eu disse, uma explosão de seu espírito,
transtornado que estava ainda pelo sentimento de perda, e era mais
do que ele estaria autorizado a fazer. Mais tarde, porém,
ele conversou comigo com muita seriedade, exortando-me a voltar
para meu pai e a não tentar a Providência para minha
ruína. Disse-me que eu devia ver uma mão visível
do Céu contra mim.
- E, meu jovem - disse ele -, confie nisto. Se você não
voltar, aonde quer que você vá, não vai encontrar
nada além de desastres e contratempos, até que se
cumpram os vaticínios de seu pai.
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