Página principal
downloads

. Para acessar áudio, vídeo e animações, você vai precisar destes plug-ins. Clique para fazer o download
. Real Player
. Quick Time
. Windows Media Player
. Shockwave Flash

 
livros

A Morte Também Freqüenta o Paraíso, de Lev Raphael (tradução de Luiz Antônio de Araújo; Companhia das Letras; 304 páginas; 41 reais) – Mais um autor da boa safra recente de ficção policial americana, Lev Raphael foi professor universitário antes de se transformar em escritor. Foi com base nessa experiência que ele criou Nick Hoffman, um detetive muito diferente do tipo machão e meio bronco consagrado pela literatura noir. Hoffman é professor universitário, culto e homossexual. Nesse livro, ele tenta solucionar o assassinato de um aluno numa universidade de Michigan – e, com isso, esbarra nas disputas do mundo acadêmico. A narrativa bem-humorada é cheia de referências, da obra da escritora inglesa Virginia Woolf à série de televisão Seinfeld.

Leia trecho

Capítulo 1

Foi Stefan que propôs que eu fosse almoçar na ponte do prédio da Administração de vez em quando — apesar do assassinato.

Ou melhor, justamente por causa do assassinato.

Dois anos antes, o corpo do meu colega Perry Cross tinha aparecido no rio Michigan, preso a umas pedras perto da ponte. Sua morte não fora acidental.

Na parte rasa do rio em que acharam o cadáver, as pedras dispostas com habilidade produziam pequenas corredeiras, e os patos se aglomeravam ali o ano todo para receber alimentos das crianças e seus pais. O declive relvado de ambas as margens ficava lotado de estudantes satisfeitos quando fazia tempo bom, mesmo que não fosse ótimo: liam, bronzeavam-se, comiam, sonhavam. Um convidativo terraço com bancos estendia-se ao longo da margem sul, junto aos três largos degraus de granito que desciam da calçada paralela ao curso de água.

Aparecia de tudo no rio Michigan: cadernos, latas de cerveja, sapatos, camisinhas. Mas um defunto era a primeira vez.

E, mesmo dois anos depois, o assassinato de Cross continuava vivíssimo no verdejante campus de Michiganápolis, da Universidade Estadual de Michigan. Era comum ver estudantes parados junto ao parapeito de aço da ponte, apontando para baixo, mostrando o lugar onde encontraram o corpo de Cross. Alguns se debruçavam, fingindo-se prestes a saltar em busca de uma morte violenta e molhada. Uma encenação macabra que ficava ainda mais terrível quando eles se punham a gritar ou a rir ou a debochar em voz alta, imitando o resfolegar dos afogados; depois se afastavam tropegamente do parapeito, gritando "Socorro! Socorro!".

O homicídio não tinha feito nenhum bem para a minha carreira na universidade, ainda que o assassino não fosse eu. Por estar envolvido com aquela morte escandalosa, passei a ser visto como um boletim de ocorrência ambulante a macular o sacrossanto recinto da uem, o que significava publicidade negativa para a minha instituição, para o meu departamento e para mim. Eu sabia que, com esse tipo de bagagem, teria problemas para ser efetivado no ano seguinte; como se diz em política, estava queimado. E, o que era pior, não escrevia um livro desde que ingressara lá, quatro anos antes, de modo que tampouco me consideravam um docente produtivo.

Mas esse não era o único problema. Numa curiosa reação tardia ao assassinato, dei para sonhar freqüentemente com a morte de Cross e, nos últimos dois anos, passei a evitar cada vez mais a ponte e aquela parte do campus. Perdia tempo fazendo longos desvios.

Ao saber disso, Stefan ficou preocupado. "Nick, você não pode se apavorar assim com o passado."

"Como não? Gibbon dizia que a história é basicamente a lista dos crimes, loucuras e desgraças da humanidade. Para mim, isso é bem apavorante!"

Ele fingiu que não ouviu. "Vá almoçar lá, vá regularmente."

Eu engoli em seco. "Só almoçar lá? Por que não ir tomar o café-da-manhã no necrotério de Michiganápolis?"

"Primeiro você se afasta da ponte, depois não vai querer mais dar plantão na sua sala, depois..."

"Espere aí", eu o interrompi. "Metade dos professores daqui não gosta de dar plantão nem de atender os alunos, você sabe muito bem. Isso não é sinal de trauma, é sinal de vagabundagem. Detestam os estudantes e não querem saber de conversa com eles! Isso não vai acontecer comigo de jeito nenhum."

Stefan cedeu um pouco. E como ele parecia uma versão mais atarracada e baixota de Ben Cross, que fazia o papel do corredor judeu em Carruagens de fogo, valeu a pena vê-lo ceder.

Mas eu não deixei que isso me distraísse. "Ora... você está mesmo com medo de que eu vire uma Miss Havisham, murcha e coberta de pó, e acabe ardendo em chamas só porque não atravesso mais a ponte do prédio da Administração nem passo por perto dela?"

Stefan teve a sensatez de não responder. Fez o que as pessoas serenas fazem tão bem: escutou. Às vezes isso ajuda, às vezes irrita. No caso, irritou.

"Olhe, foi um choque e tanto para mim, entende?" expliquei. "O campus não é lugar de defunto. Isto aqui não é Ruanda — é Michiganápolis."

Ele deu de ombros. "Et in Arcadia ego."

"Latim? Não bastam as suas citações em francês impecável, sem sotaque?" Eu era hipersensível com o francês, já que meus pais eram judeus belgas e não tinham conseguido me transformar num verdadeiro bilíngüe. Para mim, isso significaria ser capaz de brigar tanto em francês como em inglês, de soltar grunhidos ferozes, bem guturais, como fazia meu pai nas raras ocasiões em que perdia as estribeiras.

Stefan disse com paciência: "Et in Arcadia ego significa a morte também está no paraíso".

"Ora, tenha dó, Stefan, eu sei o que significa... Também assisti a Memórias de Brideshead, esqueceu quem é que estava na sala com você? Ei", eu disse, subitamente perturbado. "Agora a gente sabe por que Lady Marchmain era tão infeliz e atormentada no seriado. Na época, Claire Bloom morava com Philip Roth! Isso acaba com a saúde de qualquer um."

O sorriso de Stefan desapareceu no momento seguinte, foi a minha vez de ceder. "Tudo bem, tudo bem. Eu vou almoçar na ponte da Morte. E não adianta fazer essa cara! É o nome que os estudantes deram à ponte. Não fui eu que inventei."

Stefan estava coberto de razão, mas me incomodava que não tivesse ficado tão abalado quanto eu com o assassinato, muito embora entendesse por quê. Ele era filho de sobreviventes do Holocausto, e a idéia que tinha dos horrores que seus pais haviam enfrentado superava qualquer tragédia que pudesse ocorrer à nossa volta. Minha prima Sharon, que morava em Nova York, dizia bem: "Nick, Stefan espera que o mundo seja horrível, mas você tem uma visão cômica da vida. Não há lugar para um homicídio". Era isso, exatamente isso. Eu não conseguia enxergar um sentido no assassinato que ocorrera tão perto de mim, por isso evitava lidar com ele, ou pelo menos tentava evitar, afastando-me da ponte.

Mas isso deixara de ser uma opção, já que Stefan, o incansável cão pastor que era, tinha resolvido me tanger de volta à realidade.

Eu imaginava que podia tentar almoçar no terraço perto da ponte uma ou duas vezes por mês quando o tempo ajudasse. Ser o meu próprio cão pavloviano, associando a comida à ponte, se bem que ninguém precisasse limpar nada depois. Stefan tinha razão: de que outra maneira superar a fobia daquele lugar que, antes, era o meu preferido no idílico campus da uem?

Ao contrário de Stefan, que demorou para gostar da universidade, o meu foi um caso de amor à primeira vista por todo aquele campus vistoso e exuberante, com dois mil e quinhentos hectares merecidamente célebres pelos jardins, as árvores e a paisagem. Lá, nenhum prédio tinha mais de seis andares, de modo que os edifícios românicos do século xix, de arenito e com torretas, que formavam o campus original, não eram sufocados nem humilhados pelas sinistras colunas de granito da década de vinte nem pelos caixotes de tijolo dos anos cinqüenta, com decorativos painéis turquesa acima e abaixo das janelas.

E, por diferentes que fossem, as construções estavam intimamente ligadas num todo aprazível e sedutor por ruas e caminhos que ziguezagueiam em meio à enorme quantidade de árvores, muitas delas centenárias: gloriosos salgueiros, bordos, carvalhos, abetos e pinhos-de-riga. Também floresciam exuberantes cerejeiras, macieiras, abrunheiros, espinheiros, magnólias, olaias. Além disso, o Departamento de Horticultura conservava plantações de lilases e oleáceas, incontáveis pátios ajardinados e deslumbrantes canteiros de tulipas, jacintos, íris, palmas-de-santa-rita, petúnias.

No centro, a malfadada ponte era uma das várias estruturas de concreto que atravessavam o raso e tortuoso rio Michigan, conectando as partes norte e sul do gigantesco campus de Michiganápolis. O setor norte, no qual se aglomeravam os prédios mais antigos, limitava-se com uma das regiões comerciais mais importantes da cidade, a Mile. Essa rua coalhada de lojas e bares separava o campus das moradias dos professores e estudantes, mais ao norte.

Na parte sul, que era muito maior, espalhavam-se prédios mais novos, distantes entre si como se tivessem caído das mãos de um gigante distraído, separados por amplos estacionamentos, plantações e fazendas experimentais. A uem foi fundada na metade do século xix, e era uma universidade agrícola com vários prédios pequenos (inclusive o do meu departamento, o edifício Parker, que estava caindo aos pedaços); cresceu muito nos anos vinte, tornou a crescer na época de Eisenhower e acabou se tornando uma das maiores instituições de ensino do país. Agora contava com cinqüenta mil estudantes ou "clientes", como preferia denominá-los o imbecil do nosso novo presidente, e eu dou graças a Deus por ele ainda não ter instituído aulas delivery.

Milhares de estudantes atravessavam aquela ponte todo santo dia, muitos na hora do almoço, e mesmo assim eu não me sentia nada seguro em voltar para lá, embora estivesse tentando. Eis que, no primeiro dia quente da primavera do meu quarto ano de uem, saí do edifício Parker munido de um sanduíche na sacola vermelha e cinzenta da livraria da universidade, procurando não ficar vermelho nem aparentar nervosismo. Bem que desejei que Stefan estivesse comigo para me lembrar que não fazia o menor sentido fugir da ponte. Mas, como naquele dia havia outras coisas em que eu preferia não pensar, ir para lá era melhor do que ficar escondido embaixo da cama.

E o dia estava deliciosamente quente e ensolarado. Michiganápolis era uma das cidades mais nubladas do país — acho que por causa da localização entre os Grandes Lagos. Assim, os invernos, que podiam ser pitorescos, com tudo coberto de neve e o crepitar das lareiras, em geral afundavam em infindáveis semanas de céu densamente cinzento. O inverno tinha sido lúgubre como sempre, o céu coberto por camadas e camadas de nuvens.

Mas a primavera chegou cedo e veio particularmente quente. Perigosamente quente, diziam com conhecimento de causa os moradores mais antigos. Eu não dei bola a essas funestas digressões sobre o efeito estufa. Queria era gozar o colorido, o calor, a liberdade.

A caminho da ponte, encontrei-me com Betty e Bill Malatesta, os alunos mais inteligentes e simpáticos do meu departamento, o de Estudos Ingleses, Americanos e Retórica (iar). Desde a minha chegada, os dois publicavam artigos, apresentavam trabalhos e eram as estrelas do programa de Ph.D. Um casal alegre, sensual e bonito — uma espécie de Humphrey Bogart e Lauren Bacall intelectuais.

Nessa ocasião, como de costume, estavam vestidos de preto da cabeça aos pés.

"Belo dia para passear!", gorjearam quase em uníssono. Então Bill perpetrou o seu tipo preferido de piada. "Quantos administradores da uem são necessários para trocar uma lâmpada?"

Eu dei de ombros.

"Nenhum! Porque primeiro eles têm de formar uma comissão e preparar um relatório sobre a reinvenção da universidade, que vai ser encaminhado a outra comissão, na qual nada acontece."

"Nada mal", comentei.

"E quantas doutorandas? Nenhuma, porque elas estão processando a lâmpada por assédio sexual."

Antes que eu pudesse abrir a boca, ele soltou mais uma: "Quantos técnicos de futebol americano? Nenhum! A estratégia deles é defensiva: fazer com que a lâmpada caia na sua mão!".

Dessa vez eu achei graça, mas a brincadeira cessou quando Bill disse com ar sério: "Quero falar com você sobre um dos novos assistentes do departamento. Passo por lá no seu horário de plantão".

E sem me contar sobre quem ele estava se referindo, Bill despediu-se e se foi. Que significava aquilo? Por mais que a idéia me tentasse, eu não podia passar o resto do dia plantado ali, pensando, de modo que continuei caminhando para a ponte.

Vi o nosso decano Magnus Bullerschmidt, o olhar malévolo, percorrendo o campus todo cerimonioso. Era tremendamente gordo, e o excesso de peso fazia com que parecesse aqueles déspotas de turbante dos filmes dos anos quarenta, aqueles que se instalavam em tronos suntuosos e mandavam prender e arrebentar.

Segui o meu caminho com os olhos no chão, torcendo para não topar com nenhuma encrenca, mas de repente vi um grotesco lampejo vermelho. Rubro como sangue.

Ao me aproximar da ponte, avistei uma caixa de papelão cheia de bíblias com encadernação ordinária, imitando couro, de um vermelho berrante. Em meio à densa e agitada multidão de estudantes, aquelas bíblias eram como um rúbido grito de socorro — ou uma advertência.

"Eles voltaram", pensei com desânimo. Os pregadores tinham retornado. Eu parei ali onde estava.

Toda primavera, a universidade era invadida pela praga dos pregadores esquálidos e fervorosos que distribuíam bíblias em quase todas as esquinas e pontes do campus, às vezes prorrompendo em pífios sermões como se fossem os garçons cantantes de um restaurante beato. Eram tão chatos e inquietantes quanto os enormes e estridentes corvos, presença primaveril tão comum no campus quanto os esquilos e os guaxinins.

Aquele dia, a caixa vermelha junto à ponte estava sob a custódia de um garoto magérrimo, com um terno azul-marinho todo amarrotado e um flamejante alto-relevo de espinhas na testa que fazia da encadernação escarlate uma escolha ainda mais infeliz. Quando passavam estudantes e professores, ele lhes pespegava bíblias com a elasticidade de um ogro malvado. Embora o dia estivesse fresco, ele parecia quente e suado — decerto inflamado pela missão. Devia ser aspirante a mártir, já que gente como ele costumava ser hostilizada no campus, por vezes ameaçada. Talvez até lesse as cartas no jornal dos estudantes, atacando ou defendendo a presença dos pregadores com o linguajar descomedido a que os redatores recorriam para gerar controvérsia.

Os pregadores que aterrissavam no campus eram clones estranhos e excêntricos: todos de terno feio e cabelo desalinhado, todos parecendo uma excrescência qualquer do Lawrence Welk Show, todos com uma impostação falsamente trovejante. Ao ofertarem bíblias, às vezes exortavam os estudantes com um "Salva-te a ti mesmo!", como se Michiganápolis se equiparasse a Nova York, Los Angeles — ou Ann Arbor — em termos de degradação moral e perversidade. Sempre que cruzava com eles, eu me sentia metido num estranho circo em que os saltimbancos ofereciam salvação no lugar de show de cavalinhos ou ursos de pelúcia.

Não entendia por que eram autorizados a entrar no campus, mas imaginava que a administração da universidade simplesmente não queria polemizar com os defensores locais da liberdade religiosa.

Fiquei parado, observando a cena. A maior parte dos estudantes desviava do pregador de plantão na ponte do prédio da Administração ou seguia seu caminho sem olhar para sua mão estendida; alguns porém se mostravam pateticamente ávidos por receber um presente, fosse qual fosse, e ele os abençoava a todos. Eu imaginava a solidão e a perplexidade daquela gente. Muitos alunos da uem eram de cidades de Michigan com a metade do tamanho da universidade e se sentiam desesperadamente oprimidos e deslocados (provavelmente era esse o motivo pelo qual todos os anos a perspicaz administração enxugava o serviço de atendimento psicológico).

Dois colegas do iar passaram por mim, entretidos numa conversa: o enfadonho Carter Savery e a infeliz e deplorável Iris Bell. Eu nunca os tinha visto juntos: que diabo teriam em comum? Iris vivia se queixando de não ser devidamente reconhecida no iar, e Carter estava tão satisfeito consigo quanto Jabba, de Star wars. Nenhum dos dois me dava bola no departamento.

Deixei que eles se afastassem um bom trecho antes de enfim me acercar da ponte. Desviei do rapaz e da caixa para não ser interceptado por uma bíblia cor de sangue. E para evitar o mal-estar de dizer "Não, obrigado" ou qualquer outra desculpa igualmente inadequada à ocasião. Quando tocavam a campainha de casa para me contemplar com o que diziam ser a palavra de Deus, era outra coisa: eu sempre respondia que não admitia que invadissem a minha privacidade. Tinha prazer em deixá-los sem jeito. Mas lá na ponte — num espaço público, ao ar livre — fiquei constrangido. E eu era membro do corpo docente, devia guardar os meus chiliques para as reuniões de departamento.

Tendo chegado ileso ao outro lado, sentei-me na borda de um dos largos degraus do terraço que ficava à esquerda da ponte. Não ia dar aula aquele dia e, além disso, vestia a roupa informal das sextas-feiras, um jeans, de modo que não fazia mal se me sujasse.

Os pregadores me davam nos nervos; faziam-me sentir que, lá na universidade, não éramos mais que um bando de campistas aglomerados em volta de uma pequena fogueira, tentando fingir que os lobos famintos não andavam por perto.

E a presença deles me fazia temer pela uem.

Eu explico: no momento, não havia ninguém na direção da universidade, portanto, a nossa situação era mais ou menos a de uma ex-república soviética, completamente à deriva enquanto vários centros de poder se preparavam para disputar o controle. O reitor se demitira em virtude de um escândalo de assédio sexual, por isso a luta pelo tão cobiçado cargo era feroz, muito embora estivessem fazendo uma pesquisa nacional pro forma em busca da pessoa mais indicada. A chefe do meu departamento, Coral Greathouse, era uma das mais cotadas.

Também houvera algumas demissões no conselho diretivo, e Webb Littleterry, o nosso presidente mentecapto, continuava oferecendo uma liderança infecunda e simplória. O que não surpreendia, já que ele era ex-técnico de futebol americano da uem e sua eleição para o conselho havia suscitado comentários desdenhosos, segundo os quais seríamos um projeto futebolístico com uma universidade acoplada. Se o projeto pelo menos fosse capaz de ganhar um campeonato...

Tentei relaxar e aproveitar o dia, tentei curtir a vida à minha volta: crianças pequenas acenando e batendo palmas para os patinhos, jogando-lhes migalhas de pão; estudantes aproveitando o intervalo entre as aulas para simplesmente ficar por ali, beber um refrigerante, bater papo, tomar um pouco de sol; outros estudantes chegando com planos mais elaborados de piquenique, que incluíam frisbee, jogo de dama e a companhia de um mascote. Aquilo era uma mistura de parque com praça de cidade do interior, e bastava ficar algum tempo ali para a gente acabar topando com um conhecido.

Juno Dromgoole, a turbulenta professora visitante de Estudos Canadenses atravessou apressadamente a ponte, rumo ao edifício Parker, portando a elegante pasta de couro preto como se fosse uma bolsa enorme. Na outra direção ia Polly Flockhart, uma vizinha chatíssima que era secretária do Departamento de História.

Agora surgia da ponte algo que parecia ser uma citação furibunda do Apocalipse ou de um romance de Stephen King. Procurando não fazer caso da voz nem da imagem daquela cara feroz e espinhenta, eu tratei de atacar a minha garrafa térmica de café queniano e a minha focaccia de peito de peru defumado.

Os gritos arrefeceram um pouco.

"Oi, doutor Hoffman! Posso lhe fazer companhia?"

Ergui a vista e sorri para Angie Sandoval, uma ex-aluna que estava se especializando em direito penal. Tinha me ajudado muito todas as vezes que eu me vira às voltas com um homicídio na uem. A morte de Perry Cross fora apenas o começo: um ano depois, o assassinato espreitou o seminário sobre Edith Wharton que eu (sob coação) tinha organizado. Os prédios não chegavam a pegar fogo à minha passagem nem sucedia nada parecido, mas eu não era exatamente o cara mais sortudo do campus.

"Claro que pode, Angie. Sente-se." Afastei-me um pouco no degrau, e ela se sentou ao meu lado, tirou da mochila cor-de-rosa uma lata de Vernor’s, o ginger ale de Michigan, abriu e tomou um gole.

Eu tinha uma grande dívida para com Angie. Fora ela que me mostrara a importância do médico-legista numa investigação criminal e me explicara que a polícia do campus não era de modo algum como os seguranças de um banco. Era uma polícia de verdade, e por isso todos os crimes ocorridos na uem estavam sob a sua jurisdição, tal como se fosse uma cidadezinha. E não era?

Baixa, magra, corada, de cabelo crespo, escuro, e rosto triangular, Angie era enérgica, inteligente e solícita. No ano anterior, sempre que me encontrava com ela no campus, eu ficava surpreso com o prazer que isso me causava. Surpreso também com o fato de às vezes pensar que, se tivesse uma filha, queria que fosse como Angie. Antes dela, nunca havia nutrido sentimentos paternais por meus alunos. Mas também nunca passara dos quarenta anos, ou seja, o dobro da idade da maioria dos universitários.

Eu lhe perguntei como ia o curso, e ficamos conversando sobre isso, aproveitando o dia parcialmente ensolarado enquanto centenas de ociosos em horário de almoço iam e vinham à nossa volta. De súbito, o barulho recomeçou na ponte. Um ciclista gritou para o pregador:

"A Bíblia é uma besteira!"

"Você vai arder no inferno!", urrou o garoto espinhento. "No inferno! "

Ouviram-se gritos de deboche e algumas vaias entre os estudantes que estavam por ali.

Angie suspirou e tomou mais um gole de refrigerante. Eu não sabia se ela era religiosa ou não, portanto não comentei nada. Tampouco estava com disposição para ouvir um sermão sobre decadência moral da boca de uma pessoa mal saída da adolescência, por mais agradável que fosse a sua personalidade.

"As coisas mudaram por aqui", disse ela. "E para pior. Todo mundo anda puto da vida! O tempo todo."

"Tem toda razão." Foi a minha vez de suspirar.

Os assassinatos em que eu me envolvera tinham vitimado o corpo docente, o que era incomum, já que os professores tendiam mais a assassinar personalidades do que ao homicídio de verdade. Mas os alunos tinham visto todo tipo de intolerância virar lugar-comum, e a violência já não era rara.

Angie e eu passamos algum tempo relembrando os últimos conflitos no campus. Um estudante negro tinha sido atacado por um grupo de brancos, à noite, numa ruela escura da universidade. Eles o espancaram e chutaram e o chamaram de "crioulo". Segundo os boatos, o rapaz foi encontrado caído de bruços, com a calça arriada até os tornozelos; fora estuprado ou quase, coisa que ele negou com muita veemência antes de trancar a matrícula e sumir.

A pequena sala da Liga dos Estudantes Muçulmanos, no grêmio, fora arrombada, destruída e pichada com frases como "Voltem para o Iraque!". Incendiaram um carro estacionado em frente à Hillel, local de reunião dos estudantes judeus, e a explosão do tanque de gasolina causou danos de milhares de dólares ao prédio.

A Juventude Universitária Republicana recebeu telefonemas com ameaça de morte, assim como os membros do Arco-Íris, o grupo de alunos gays da universidade. Aumentaram os assaltos, aumentou o roubo de bicicletas, houve casos de furto e exibicionismo na biblioteca. Eu, que era bibliógrafo, fiquei particularmente contrariado com isso, pois os estudantes acabariam tendo uma idéia totalmente equivocada de pesquisa.

"Parece que o pessoal só está esperando que tudo vá por água abaixo", comentou Angie.

"Vai ver que o plano é esse mesmo", sugeri.

"Como assim?"

"Pode ser que a Universidade de Michigan esteja querendo comprar a uem, e estão fazendo o possível para que o valor das nossas ações caia."

Angie abriu o devido sorriso, mas disse: "Duvido que este campus precise de ajuda de fora para piorar".

Tinha razão, e eu pensei que o estado de espírito dos alunos estava influenciando até mesmo o corpo docente. Minha nova colega Lucille Mochtar, a beneficiária da cota de inclusão que dividia a sala comigo, era objeto de comentários nada gentis por parte dos outros professores. Fora contratada assim que se graduou pela Berkeley e, mesmo sem ter publicado nada, ganhava os tubos. Mas era parcialmente negra, parcialmente indonésia, e a uem saíra à sua cata com desespero e com malas recheadas de dinheiro.

Eu gostava muito de Lucille e fiquei contente quando ela e o marido compraram a casa em frente à minha e de Stefan. Mas sabia que o rancor por ela fermentava a cada dia, e me perguntava até que ponto isso podia afetar a minha chance de ser efetivado, visto que nos dávamos tão bem. Eu tendia a pensar unicamente em termos da iminente avaliação que decidiria o meu destino acadêmico — era impossível não fazê-lo.

"Meus pais querem que eu peça transferência", disse Angie. "Mesmo que eu esteja para me formar! Eles acham que a uem está ficando muito perigosa."

"Mas está tudo bem com você, não? Ou aconteceu alguma coisa?"

Angie deu de ombros. "Eles não gostaram quando eu participei da sua investigação no ano passado. Mas isso me rendeu um crédito extra com um dos professores."

Eu sorri. "Bom. Ainda bem que você me ajudou. Foi ótimo."

Angie agradeceu, depois corou.

"Meus pais acham que você teve uma influência negativa sobre mim, embora eu só tenha feito um dos seus cursos."

Eu encolhi os ombros. Entendia perfeitamente que certos pais, mais suscetíveis, achassem perigoso me conhecer, mas a idéia de nunca mais ver Angie no campus me entristecia.

"Eu sei como eles se sentem. O presidente Littleterry me culpa até hoje pela morte daquela gente na conferência do ano passado", eu disse. "O decano Bullerschmidt também está fulo da vida, e a chefe do meu departamento não anda nada contente. O seminário era para projetar uma imagem positiva da uem — em vez disso, nós acabamos saindo no jornal, no Times, na Newsweek, pelo motivo errado. As doações dos ex-alunos secaram."

Angie aquiesceu e me olhou com ternura. "Você devia escrever um livro sobre isso. Aposto que ia ficar rico e não precisaria mais se preocupar com o que pensam de você."

Eu me perguntei que livro escrever àquela altura dos acontecimentos. Como arruinar uma carreira acadêmica ? Bem nesse momento, gritaram atrás de nós "Oi, Angie!", e os dois nos viramos. Era Jesse Benevento, um fanático religioso de cabelo descolorido e espetado, que no semestre anterior invadira todos os meus plantões para discorrer sobre moralidade sexual. Era filho do chefe do Departamento de História, que compartilhava o decrépito edifício Parker com o iar.

Jesse me cumprimentou com frieza e se pôs a conversar com Angie sobre um trabalho que os dois precisavam fazer. Tendo registrado que agora ele tinha uma argola no nariz e piercings nas sobrancelhas, eu virei a cara. Não gostava dele. Criticou-me por ter feito uma breve referência a sexo numa aula, e eu continuava me sentindo mal quando o encontrava no campus. Eu insistia em me perguntar se ele havia se queixado ao pai e se este fizera algum comentário, ainda que en passant, com Coral Greathouse. Embora ela não tivesse tocado no assunto, era possível que sim, e, como eu ainda não tinha sido efetivado, qualquer informação negativa, por ridícula que fosse, podia me prejudicar.

Embora o campus fosse enorme, eu vivia esbarrando em Jesse; naquele momento desejava que ele desaparecesse logo. Tomei o café, absorto, procurando me apartar da conversa, mas sem ser grosseiro.

"Eu preciso ir", disse ele enfim. "Tenho um encontro com um professor." Afastou-se vagarosamente rumo à ponte, mas a entrevista que o aguardava não devia ser muito urgente; eu o vi parar para conversar com um cara de agasalho de moletom da uem. E virei para o outro lado.

Angie deve ter notado o meu desconforto. "Ele é tão devoto", disse como que se desculpando.

"Vocês estão namorando?"

Ela arregalou os olhos, pareceu surpresa demais para rir. "Não, nós somos só amigos. Jesse não namora... vive dizendo que convém evitar a oportunidade de pecar. Deve ser frase de algum papa."

"De santo Agostinho."

Angie deu de ombros. "Tanto faz."

"Fora daqui, seu bundão!", gritaram na ponte, que, de uma hora para outra, ficou duas vezes mais lotada, fervilhando de gente. Imaginei uma legião de formigas pululando sobre uma presa incapaz de fugir ao surto de pavor.

Do lugar em que eu estava, pude discernir uma espécie de tumulto. Ouviam-se gritos em meio àquele pequeno e feroz aglomerado: "Pare com isso!", "Demônio!", "Filho-da-puta!".

Voltei-me para dizer alguma coisa, mas, para minha surpresa, Angie tinha desaparecido; olhando ao meu redor, avistei-a a uns dez metros de distância, usando um dos telefones alaranjados do serviço de emergência da universidade.

"Eu chamei a polícia", disse ela ao retornar. Tinha me explicado, no ano anterior, que todos os telefones de emergência do campus tinham conexão direta com a polícia universitária.

"E esse aparelho sempre esteve aí?"

"Sempre. Eu estou tendo aula à noite, por isso sei onde ficam todos os telefones de emergência."

À nossa volta, muitos estudantes estavam usando os celulares, talvez também chamando a polícia, mais provavelmente descrevendo o arranca-rabo para os amigos, imaginando-se repórteres da cnn.

Tal como um furacão acastelando sua fúria, veloz e sinistramente, a massa agitada, turbulenta, foi aumentando e se tornando mais violenta: já estavam começando a trocar socos na ponte. Alarmado, eu me levantei e vi alguns estudantes caídos. Armara-se uma grande confusão — eu continuava observando punhos esmurrando peitos, barrigas e rostos, e alunos sendo puxados pelo moletom ou pelo casaco vinho e cinzento da uem, lançados para todos os lados. Mas na ciranda e no empurra-empurra da chusma, entre berros e palavrões, não pude ver quantas pessoas estavam feridas nem com que gravidade. Havia gente caída e sendo chutada, ou era eu que simplesmente já não conseguia distinguir mais nada enquanto eles se afastavam rodopiando, engalfinhados?

"Não dá para acreditar", sussurrou Angie, colando o corpo no meu como se eu pudesse protegê-la.

Não dava para acreditar nem para entender. Aquele furor, aquele frenesi em massa parecia estranhamente intencional — como se fizesse parte de um repulsivo ritual arcaico. Eu me senti tão distante e confuso como quando ia aos jogos de futebol americano da uem e perdia a bola de vista assim que a partida começava, e não conseguia acompanhá-la nem mesmo com o binóculo. Não sei como, Jesse estava no meio do tumulto — seu cabelo descolorido era inconfundível.

"Não, Jesse!", gritou Angie, hipnotizada, mas era óbvio que ele não podia ouvi-la.

Nas duas extremidades da ponte grupos de estudantes olhavam, apontavam, pasmos. Alguns tinham se apressado a entrar na briga, mas o resto se limitava a observar.

E então a caixa de bíblias encarnadas passou voando por cima do parapeito da ponte e foi mergulhar no raso rio Michigan. Atingiu a água ruidosamente e se espedaçou. Indignados, os patos saíram da água, nadando ou voando, para se refugiar nas margens relvadas. Encharcada, escurecida pela água, a caixa começou a afundar, e o seu conteúdo foi levado pela correnteza como se tivesse saído do ovo para a liberdade.

Perto da ponte do prédio da Administração, nos dois lados do rio, todos estavam de pé, apontando, olhando, abismando-se. Uma coisa era derrubar as traves num jogo de futebol ou tomar um porre na cidade, numa noite de sábado, e sair arrebentando parquímetros ou quebrando vitrines; outra bem diferente era aquela explosão além de todos os limites.

O jovem pregador estava furibundo, bracejando e esmurrando a torto e a direito, com a força de um tubarão fisgado a pelejar com o pescador. "Então é assim que a gente fica quando tem um ataque de apoplexia", eu pensei, admirado com a cara lívida e contorcida do garoto.

Em seguida ele se precipitou rumo ao parapeito, tentando saltar para recuperar as bíblias. Vários rapazes corpulentos o puxaram de volta, mas não foi fácil, porque ele se mostrou inesperadamente forte e porque outros jovens os estavam esmurrando, numa cena cada vez mais parecida com as rixas de gangues embriagadas na Flórida. Eu me sentia horrivelmente pregado ao chão enquanto, na ponte ou perto dela, a multidão se tornava cada vez mais densa e frenética.

"Deixe ele pular!", gritou uma moça no meio da balbúrdia.

À minha volta, ouviam-se as horríveis gargalhadas de alguns estudantes, o estalar das línguas e os cínicos comentários segundo os quais aquilo não passava de "uma encenação".

De súbito, ouviu-se a sirene de uma radiopatrulha. Os estudantes se dispersaram feito corvos assustados e irritados quando o carro preto-e-branco apareceu e freou, com os pneus cantando, na larga calçada que dava na ponte. As portas se abriram, e dois policiais saíram com a pressa abobalhada de uma dupla de palhaços de circo saltando de um fusca. Mergulharam na turba, brandindo os cassetetes e, cada vez que alguém era atingido, eu estremecia, sentindo-me infinitamente desamparado.

Foi quando se ouviu um grito agudo, aflito, e depois um silêncio sepulcral.

Angie e eu corremos para a ponte. Será que um dos guardas tinha ferido gravemente um estudante? Talvez fosse mais susto que dor. Aproximando-me da aglomeração, que agora parecia ser de centenas de pessoas, consegui avistar uma pequena clareira, na qual os dois policiais estavam agachados junto a um corpo inerte, o rosto banhado em sangue.

Era Jesse Benevento. O sangue havia empoçado sob sua cabeça, formando uma horrenda e pegajosa auréola, e seu rosto estava quase tão branco quanto o cabelo. Fui invadido por uma onda de pavor.

"Pisoteado", pensei. Que horror! Ao seu lado, havia uma mochila aberta e cadernos, canetas, cds e livros espalhados no duro concreto. Um destes era uma pequena brochura da Penguin salpicada de sangue, um antigo romance francês que eu ainda não tinha lido, Adolpho, de Benjamin Constant. Na capa, o retrato de um rapaz moreno, cujo sorriso enigmático, obliquamente endereçado a mim, era absurdo em meio àquela sangueira.

Fechei os olhos, procurando me controlar, tomado de uma vergonha que chegava a dar náuseas. Minutos antes, eu estava pensando na antipatia que tinha por Jesse, e agora ele estava ali, ferido. E a única coisa que me ocorria era o tremendo escândalo que ia sacudir a universidade. Fanatismo religioso — rixa, — filho de um chefe de departamento gravemente ferido.

"O que houve?", gritou Angie. "O que aconteceu? Não estou conseguindo enxergar."

Ouvi sua voz na multidão, e ela acabou aparecendo atrás de mim. Era eu que lhe encobria a visão.

O jovem pregador caiu de joelhos ao lado de Jesse, abraçando-se a si mesmo com tanta força que parecia estar com medo de se desintegrar. Cabeça baixa, soluçando, oscilava para a frente e para trás. E gemia: "Ó meu Senhor Jesus, Ó meu senhor Jesus, Ó meu senhor Jesus".

Espremendo-se, Angie conseguiu passar por mim. "Não!", exclamou.

"Chamem a ambulância!", gritou alguém. Mas, pela expressão séria e impassível dos policiais e pela imobilidade do corpo de Jesse Benevento, compreendi que era tarde para isso.

Angie olhou para o corpo. "Jesse", murmurou com incredulidade. E, desviando bruscamente o olhar da cena fatal, fitou-o em mim, o rosto petrificado pela surpresa.

Dizer o quê? Enquanto me afastava a custo, arrastando-a comigo, não pude deixar de me perguntar qual seria a reação de Stefan quando eu dissesse que, ao que tudo indicava, tentar almoçar perto da ponte não era a melhor maneira de lidar com a minha fobia.

Angie e eu abrimos caminho na multidão e voltamos para o banco onde, na confusão, eu tinha deixado cair minha garrafa térmica. O café entornado manchara o concreto exatamente como o sangue de Jesse tingia a ponte. Eu não queria nem olhar, mas fiz um esforço para pegar a garrafa, tampá-la e guardá-la na sacola plástica da livraria da uem na qual a trouxera.

Angie apanhou rapidamente a mochila cor-de-rosa e a apertou no peito como se fosse um ursinho de pelúcia capaz de curar o cansaço e o mal-estar da choradeira na hora de ir para a cama. Estava tão abatida quanto eu devia estar. "Eu sabia que isso ia acabar assim", disse entre lágrimas.

Eu fiz que sim — não era justamente da violência no campus que estávamos falando? Mas não era a isso que Angie se referia, pois logo acrescentou com um sobressalto de pavor: "Eu sabia que Jesse ia acabar se matando". E, sem me dar tempo de lhe perguntar o que queria dizer com isso, subiu precipitadamente os degraus de granito e se perdeu na multidão que lá havia se aglomerado.

E eu não pude ir atrás dela porque tinha de voltar ao edifício Parker, onde me aguardava uma conversa com Coral Greathouse sobre o meu futuro na uem.


 
Voltar
 
VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio