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livros
Steve Campbell/NYT
Candace: outra história picante da autora de Sex and the City  

Janey Wilcox, Alpinista Social, de Candace Bushnell (tradução de Celina Cavalcante Falck-Cook; Record; 532 páginas; 49,90 reais) – Autora da coluna de jornal e do livro que deram origem à série de televisão Sex and the City, Candace conhece como ninguém a alta sociedade de Nova York. Ela conhece a fundo, sobretudo, as mulheres que circulam entre as festas chiques de Manhattan e as luxuosas casas de praia na região dos Hamptons. Esse romance retoma a personagem Janey Wilcox, que já aparecia na novela Quatro Louras. Modelo de lingeries, Janey faz de tudo para se manter no topo da pirâmide social nova-iorquina. O sexo com os ricos está entre os expedientes mais utilizados pela garota talentosa.

Leia trecho

Um

Era o início do verão do ano 2000, e na cidade de Nova York, onde as ruas pareciam cintilar de tanta poeira dourada saindo de um bilhão de empresas típicas da economia de uma metrópole em expansão, fechavam-se negócios, como sempre. O mundo havia entrado no novo milênio em paz, o presidente driblara o impeachment mais uma vez, e o Bug do Milênio tinha brochado, apenas chiando discretamente, como uma antiqüíssima garrafa de champanhe francês. A cidade fulgurava em toda a sua magnífica, vulgar e impiedosa glória.

O assunto da vez na metrópole era o calote passado em vários clientes famosos — estimado em 35 milhões de dólares — por Peter Cannon, advogado do ramo do entretenimento. Nos meses e anos seguintes, escândalos continuariam acontecendo, bilhões de dólares se perderiam e o rombo no bolso do contribuinte americano aumentaria. Mas, nesse meio tempo, o "caso Peter Cannon" envolvera nomes de destaque suficientes para satisfazer pelo menos temporariamente os nova-iorquinos sempre ávidos por uma fofoca. Todos que eram alguém, ou conheciam o Peter, ou alguma pessoa que ele enganara de forma espetacular — mas, cá para nós, perguntavam-se eles, e os clientes do salafrário, será que não desconfiavam que isso ia acontecer?

Uma das vítimas era um roqueiro de 31 anos chamado Digger. Digger era um daqueles artistas de um nome só que, como tantos grandes talentos, começou de baixo, ainda por cima com um visual ligeiramente perturbador. Era originário de Des Moines, Iowa, tinha cabelos louro-sujo, uma pele assustadoramente branca e translúcida — através da qual se podiam ver as veias azuis — e a mania de usar chapéus de feltro com aba, que eram sua marca registrada.

Na tarde de sexta-feira, no fim de semana do Memorial Day, ele estava calmamente sentado à beira da piscina, na casa de veraneio alugada por 100.000 dólares em Sagaponack, nos Hamptons, fumando um cigarro sem filtro e olhando a mulher, Patty, conversando meio exaltada ao telefone com alguém.

Apagou o cigarro em um vaso de crisântemos (já havia um montinho de pontas de cigarro no vaso, que seria mais tarde devidamente removido pelo jardineiro), e recostou-se em uma espreguiçadeira de teca. Fazia um dia maravilhoso, e ele realmente não conseguia entender todo aquele zunzunzum em torno do Peter Cannon. Sendo o tipo de pessoa que considerava seu objetivo na vida mais elevado do que a busca imunda de lucros desonestos, Digger não sabia bem como calcular o valor do dinheiro. Seu empresário estimava que ele havia perdido quase um milhão, mas para Digger, um milhão era um conceito fugidio e abstrato, que só podia ser compreendido em termos de música. Ele imaginava que seria capaz de repor esse mesmo milhão compondo apenas um hit de sucesso, mas naquela tarde agradável, protegido pelo luxo preguiçoso de um dia nos Hamptons, ele parecia ser o único a demonstrar aquela tranqüilidade toda.

Sua adorada esposa, Patty, estava uma fera, e passara a última meia hora tagarelando ao telefone com a irmã, Janey Wilcox, uma famosa modelo da Victoria’s Secret.

Quando ele olhou para o caramanchão do outro lado da piscina de gunite, onde Patty se encontrava debruçada, falando ao telefone, contemplou aquele corpinho bonito e meio cheinho dela, envolto por um maiô branco de corpo inteiro. Ela olhou-o de relance, e os olhos deles se encontraram, num entendimento mútuo. Patty levantou-se e começou a caminhar na direção de Digger, e como sempre ele se impressionou com a simplicidade de sua beleza puramente americana: os cabelos louro-avermelhados, que lhe caíam até a metade das costas, aquele narizinho gracioso, salpicado de sardas, e os olhos azuis bem redondos. Sua irmã mais velha, Janey, era considerada "deslumbrante", mas Digger jamais havia concordado com isso. Embora Janey e Patty exibissem o mesmo narizinho empinado, o rosto de Janey denotava astúcia e agressividade demais para atraí-lo — e, além disso, ele achava que Janey, com aquela desmedida sede de status social e dinheiro, seu ar arrogante e leviano, e sua eterna obsessão consigo mesma, não passava de uma babaca de uma narcisista.

E agora a Patty estava diante dele, com o telefone na mão.

— Janey quer falar com você — ela disse. Digger arreganhou os lábios, numa careta, revelando dentinhos amarelados separados por espaços desiguais, e pegou o telefone.

— E aí, que é que manda? — perguntou.

— Ai, Digger. — A voz melodiosa de Janey por um leve sotaque, sempre o deixava irritado, quando tilintava assim ao telefone. — Me perdoe, por favor. Eu sempre soube que o Peter ia dar algum golpe muito, mas muito sujo mesmo. Devia ter alertado você.

— Como podia saber? — Digger perguntou, enquanto removia um pouco de tabaco dos dentes.

— Bem, nós namoramos faz alguns anos — revelou ela. — Mas só por uns 15 dias. Ele chamava todo mundo de polaco desgraçado...

Digger não disse nada. Seu sobrenome verdadeiro era Wachanski, e ele ficou ligeiramente desconfiado de que Janey tinha dito aquilo de propósito.

— E daí? — provocou.

— Daí que eu sempre soube que ele era safado. Fiquei muito chateada. O que vai fazer?

Digger olhou para Patty, e deu um sorriso escancarado.

— Bom, acho que, se ele precisa tanto assim da minha grana, pode ficar com ela.

Ouviu-se um gritinho de espanto do outro lado da linha, depois um breve silêncio, seguido pela risada melodiosa de Janey.

— Mas que reação mais... mais... zen, essa sua — disse ela, incapaz de evitar um ligeiro tom de ironia na voz. Depois, sem saber o que mais poderia dizer, acrescentou: — Bom, então a gente se vê na festa da Mimi Kilroy esta noite, não?

— Mimi, quem? — perguntou Digger, adotando o mesmo tom de voz entediado que usava quando alguém lhe fazia alguma pergunta sobre a Britney Spears. Ele sabia exatamente quem era Mimi Kilroy, mas como ela pertencia àquele segmento da sociedade que, como tantos da geração dele, Digger abominava — ou seja, os republicanos, brancos, anglo-saxões e protestantes — ele não tinha a menor intenção de dar esse tipo de satisfação a Janey.

— Mimi Kilroy — respondeu Janey, fingindo paciência. — A filha do senador Kilroy...

— Ah, sim — disse Digger. Mas não estava mais prestando atenção na conversa. Patty havia se sentado ao lado dele, e, mudando o ponto de apoio, ele passou uma das pernas em volta da cintura dela. Ela virou o rosto, olhou para ele e lhe acariciou o ombro, e como sempre ele sentiu um desejo violento pela esposa. — Então até mais, preciso desligar — disse ele, apertando o botão "OFF" do aparelho. Puxou Patty para cima de si, e começou a beijar-lhe o rosto. Estava profunda e romanticamente enamorado de sua esposa, de uma forma supersincera, e para ele só isso era importante. Peter e Janey podiam ir se foder, pensou; e provavelmente iam mesmo.

Ora, francamente, Janey Wilcox pensou. Se o Digger não estava nem aí para dinheiro, por que não podia lhe dar um pouquinho?

Pelo pára-brisas de seu conversível Porsche Boxster prateado, ela espiou a fila interminável de carros engarrafados diante dela na Via Expressa de Long Island. Que pobreza, ficar assim presa no engarrafamento no caminho para os Hamptons, principalmente sendo uma supermodelo. Se ela tivesse um milhão sobrando, pensava, a primeira coisa que faria seria tomar o hidroavião até os Hamptons, e depois contratar um motorista, exatamente como os ricaços que conhecia. Mas era esse o problema em Nova York; por mais bem-sucedida que a pessoa pensasse que era, sempre havia alguém mais rico, mais bem-sucedido, mais famoso... essa lembrança às vezes parecia suficiente para fazer a gente querer desistir. Mas a visão do capô prateado e reluzente de seu carro a reanimou um pouco, e ela se obrigou a lembrar de que, àquela altura do campeonato, não tinha motivo algum para desistir — e todos os motivos para insistir. Com um pouco de autocontrole e disciplina, talvez acabasse conseguindo o que sempre havia desejado.

Seus óculos Chanel cor-de-rosa tinham escorregado pelo seu nariz e ela os empurrou para cima, com um ligeiro arrepio de satisfação por ter o acessório indispensável do verão. Janey era uma daquelas pessoas para quem o superficial mascara confortavelmente um vazio interior, e mesmo assim, se alguém a chamasse de frívola, ela ficaria genuinamente chocada. Era um tipo específico de mulher bonita, que, valorizada apenas por sua aparência, está convencida de que possui grandes reservas de talentos inexplorados. Oculto sob seu exterior vibrante e quase perfeito, jazia, segundo ela acreditava, um talento especial qualquer, que algum dia lhe permitiria dar uma contribuição significativa ao mundo, mais para artística do que para comercial. O fato de não existirem provas concretas de que essa esperança se justificava não a dissuadia, pelo contrário, ela se considerava igual a qualquer outra pessoa. Se conhecesse Tolstoy, por exemplo, tinha certeza de que ele imediatamente a reconheceria como uma espécie de alma gêmea sua.

A velocidade do tráfego havia caído para trinta quilômetros por hora, e Janey tamborilava com a mão esquerda no volante, o relógio Bulgari de ouro 18 quilates faiscando ao sol. Seus dedos eram longos e esguios — uma quiromante lhe dissera certa vez que suas mãos eram "artísticas" — e o único senão eram as extremidades quadradas, com unhas roídas até o sabugo. Nos últimos nove meses, desde que havia sido escolhida, muito ao estilo Cinderela, para estrelar a nova campanha da Victoria’s Secret, todos os maquiadores da cidade haviam lhe implorado para parar de roer as unhas, mas era um hábito antigo da infância que ela não conseguia abandonar. A dor física que infligia a si mesma era uma forma perversa de controlar o sofrimento psicológico que o mundo lhe infligira.

E agora, curtindo a frustração de estar ali parada naquele trânsito moroso, imaginar o hidroavião rumando na direção da praia, com as figuras mais espertas da sociedade nova-iorquina a bordo, quase a fez levar os dedos à boca, mas, pelo menos dessa vez, ela hesitou. Não precisava mesmo ficar roendo as unhas — afinal, ela mesma havia finalmente chegado ao topo. Há um ano apenas, aos 32 anos, estava praticamente arruinada — sua carreira de atriz e modelo, estagnada; ela, tão dura, que precisava pedir dinheiro aos seus amantes ricos para pagar o aluguel. E depois, vieram aquelas três vergonhosas semanas em que Janey, de tão desesperada, chegara a considerar a possibilidade de se tornar corretora de imóveis, chegando mesmo a comparecer a quatro aulas de um curso de treinamento. Mas não é que a mão do destino interveio, salvando-a, como ela, aliás, já esperava o tempo todo? E lançando um olhar ao retrovisor, lembrou-se de que era bonita demais para se dar mal.

O telefone do carro tocou. Ela apertou o botão verde, achando que devia ser seu empresário, Tommy. Um ano antes, Tommy nem sequer respondia aos seus telefonemas, mas desde que ela havia faturado o contrato com a Victoria’s Secret, terminando por aparecer nos outdoors e em todas as capas de revistas do país, Tommy se transformara em seu mais recente amigo de infância, ligando para ela várias vezes por dia e mantendo-a por dentro das últimas fofocas. Aliás, Tommy é que lhe informara naquela manhã que Peter Cannon havia sido preso em seu escritório no dia anterior, e ambos se distraíram à vera dissecando as falhas de caráter do Peter, principalmente o fato dele ter perdido a cabeça ao trabalhar com as celebridades a ponto de chegar à conclusão de que ele mesmo, Peter, estava virando uma estrela também. Nova York talvez fosse a terra da reinvenção, mas todos sabiam que havia uma linha intransponível entre "celebridades" e "serviçais". A história de Peter agora estava sendo transmitida de boca em boca como uma espécie de lição de moral: quando se tentava burlar as leis naturais da celebridade e da fama, o resultado era provavelmente a prisão e uma possível sentença a cumprir atrás das grades.

Mas em vez da saudação bajuladora de costume — "Oi, linda" —, uma voz de mulher com sotaque inglês daqueles bem pernósticos exigiu:

— Janey Wilcox, por favor.

— É ela quem está falando — respondeu Janey, entendendo na mesma hora que a pessoa era secretária de alguém que atuava na indústria do entretenimento, ramo em que a última moda era ter uma secretária britânica.

— O Sr. Comstock Dibble está na linha. Posso passar a ligação? — E, antes que Janey pudesse responder, o próprio Comstock começou a falar.

— Janey — chamou ele, rabugento, como se pretendesse ir direto ao ponto. Janey já não via Comstock nem ouvia falar dele há quase um ano, e o som de sua voz lhe trouxe de volta uma série de associações desagradáveis. Comstock Dibble fora caso dela no verão anterior, e Janey até havia imaginado que estava apaixonada — até ele, sem mais nem menos, ficar noivo de Mauve Binchely, uma colunável alta e esquelética. Ser rejeitada por uma outra mulher (e que não era, segundo a opinião de Janey, nem mesmo remotamente bonita) havia magoado a modelo acima de tudo, já que era um fato que se repetira várias vezes antes. Embora os homens adorassem se envolver com ela, quando se tratava de casamento, sempre a preteriam em favor de uma candidata mais "apropriada".

Por outro lado, Comstock Dibble, o cabeça da Parador Pictures, era um dos homens mais poderosos da indústria cinematográfica, e era perfeitamente possível que estivesse ligando para lhe oferecer um papel em seu próximo filme. Portanto, embora ela sentisse uma tremenda vontade de lhe dar uma lição — nem que fosse apenas a de mostrar que ele não a impressionava mais — ela sabia que seria melhor pegar leve. Para sobreviver em Nova York bastava isso — renunciar a seus sentimentos genuínos, para ter a possibilidade de melhorar de vida. E então, em uma voz fria (mas, não tão fria quanto desejava), Janey respondeu:

— Pois não, Comstock?

O que ele disse em seguida, porém, desencadeou uma descarga de pânico dentro dela.

— Janey... você e eu sempre fomos amigos.

Era uma mentira deslavada, essa afirmação. Pelos padrões normais, eles não eram "amigos" — mas, à parte isso, a expressão "sempre fomos amigos" era um código empregado pelos magnatas nova-iorquinos para indicar o início de uma discussão potencialmente desagradável. Costumava significar que a primeira parte havia sido lesada pela segunda, e a implicação era que, como ambas as partes integravam uma mesma sociedade, iam tentar chegar a um acordo amigável primeiro, antes de recorrerem a advogados e a colunistas sociais. Em um segundo, o medo foi substituído pela indignação, enquanto Janey tentava imaginar como teria lesado Comstock Dibble. Ela é que havia sido rejeitada, não ele, para ela, ele é que lhe devia uma compensação. Mesmo assim, seria bem melhor deixá-lo pôr as cartas na mesa primeiro. Procurando se conter, ela disse, de um jeito provocador:

— Somos amigos, é, Comstock? Imagina. Já faz quase um ano que não nos falamos. Achei que talvez estivesse ligando para me oferecer um papel no seu próximo filme.

— Não sabia que você era atriz, Janey.

Essa doeu. Comstock sabia muito bem que Janey estrelara naquele filme de aventura oito anos antes, mas ela não mordeu a isca.

— Tem um monte de coisas que não sabe a meu respeito, Comstock — respondeu, em tom brincalhão, acrescentando: — Se tivesse me telefonado mais vezes...

Sabia que ele não tinha obrigação de telefonar para ela, mas também sabia que não havia forma melhor de alfinetar um homem do que fazê-lo se sentir culpado por passar meses sem ligar depois de uma trepada.

— Estou telefonando agora, não estou?

— Então me diz: quando vou te ver? — perguntou ela.

— Foi por isso que telefonei.

— Não me diga que rompeu com a Mauve...

— Imagina, a Mauve é um amor de pessoa — elogiou ele, de certa forma insinuando que Janey não era. Mais um insulto, e Janey revidou, maliciosa:

— Por que não seria? Sabe como é, só precisou ficar parada e herdar milhões de dólares... — E a isso Comstock respondeu, em tom de advertência:

— Janey...

— Ah, sem essa, Comstock. Sabe que é isso mesmo — replicou Janey, procurando resgatar o tom de gracejo que usara ao conversar com ele no último verão, com tanto sucesso. Em parte sentia vontade de comer Comstock vivo por tê-la rejeitado, e em parte adorava ser assim tão íntima de um dos magnatas que mandavam e desmandavam em Nova York. — Afinal de contas — continuou, com voz meiga — é fácil ser boazinha quando jamais se precisou ralar para ganhar o pão...

Comstock suspirou como se ela fosse incorrigível.

— Olha o ciúme.

— Ciúme?! — retrucou Janey, num gritinho estridente. — Fala sério, Comstock! — O que mais detestava no mundo era as pessoas apontarem o dedo para ela. — Por que é que eu teria ciúmes da Mauve Binchely? — Na opinião de Janey, Mauve era praticamente uma velha coroca — quase 45 anos — com apenas uma coisa boa: os cabelos, escuros e ondulados, caindo até o meio das costas.

Só que Comstock obviamente havia se entediado com o rumo da conversa, porque de repente repetiu:

— Janey, sempre fomos amigos — e acrescentou: — Portanto, sei que não vai criar problemas para mim.

— Por que eu criaria? — quis saber Janey.

— Janey, nem vem — grunhiu Comstock em voz baixa, como se conspirasse com um cúmplice. — Sabe que você é perigosa.

A reação inicial de Janey foi gostar desse gracejo — em seus momentos mais egoístas, ela se considerava mesmo perigosa, achava que um dia iria dominar o mundo —, mas desconfiou de uma ameaça velada por trás das palavras de Comstock. No ano passado, quando estava falida, as pessoas comentavam — por trás — que ela era uma verdadeira piranha. Este ano, quando estava por cima, se virando sozinha, diziam que ela era perigosa. Mas Nova York era mesmo assim. Usando uma voz provocante para disfarçar a consternação cada vez maior que realmente sentia, disse:

— Se quer ser meu amigo, Comstock, está indo pelo caminho errado...

Ele riu, mas no segundo seguinte seu tom se tornou ameaçador.

— Olha lá, sabe que não vale a pena me sacanear... — Por um momento, Janey se perguntou se ele não iria ter um daqueles ataques legendários. Embora reconhecido como gênio do cinema, Comstock Dibble era igualmente famoso por suas explosões de fúria irracionais — costumava chamar as mulheres de "vagabundas" —, depois das quais enviava flores à vítima. Havia pelo menos uma dúzia de magnatas como ele em Nova York, que num instante eram encantadores e, no instante seguinte, viravam verdadeiras feras, mas enquanto Comstock fosse presidente da Parador Pictures, e enquanto a Parador fosse os quindins dos meios de comunicação, ele sairia incólume, e Nova York era assim também.

Uma mulher menos autoconfiante talvez se amedrontasse, mas Janey Wilcox não era assim — sempre se orgulhara de não se deixar intimidar pelos mandachuvas. E então, com uma vozinha de criança inocente assustada, perguntou:

— Está me ameaçando, Comstock?

E ao mesmo tempo ele se abriu:

— Sei que você vai à festa da Mimi Kilroy hoje à noite.

Janey ficou tão surpresa que começou a rir.

— Francamente, Comstock — disse. — Não tem coisas melhores a fazer do que me ligar por causa de uma... festa?

— Para dizer a verdade, tenho, sim — respondeu ele, adotando o tom familiar de gracejo. — E por isso estou tão danado com tudo isso. Mas que saco, Janey. Por que é que simplesmente não fica em casa?

— E você, por que não fica? — indagou Janey.

— Mauve é a melhor amiga da Mimi.

— E eu com isso? — retrucou Janey, demonstrando indiferença.

— Olha aqui, Janey — disse Comstock. — Estou só tentando lhe dar um aviso como amigo. É melhor para nós dois se ninguém ficar sabendo que nos conhecemos.

Janey não conseguiu resistir, precisava mencionar seu relacionamento com ele.

— Não, Comstock — reagiu, rindo. — É melhor para você ninguém saber que você me comeu no verão passado.

E aí Comstock finalmente perdeu as estribeiras.

— Dá para calar essa matraca e me escutar? — berrou. E logo depois completou a frase — Sua vagabunda sem-vergonha!

O berro dele foi tão alto que Janey se convenceu de que as pessoas nos carros em volta dela, na Via Expressa de Long Island, tinham escutado o que ele havia dito. E se ele achava que podia falar assim com ela, estava redondamente enganado. Ela não era mais a gatinha desesperada que ele tinha comido no verão passado, e agora ele ia saber disso.

— Escuta você, Comstock — cortou, com uma tranqüilidade a toda prova. — Tudo o que você está dizendo é que, se no verão passado eu era uma mulher boa para se comer, este verão não sou interessante o suficiente nem sequer para te conhecer. Pois fica sabendo que comigo não é bem assim que a banda toca.

— Todo mundo sabe como a banda toca com você, Janey — respondeu ele, ameaçador.

— A diferença entre você e mim é que não tenho vergonha do que faço — reagiu Janey. Não era inteiramente verdade, mas precisava admitir que era uma excelente frase de efeito.

Comstock, porém, não se impressionou.

— Então, pelo menos, vê se não chega perto de mim, porra. Estou te avisando, hein? Isso pode acabar prejudicando tanto a mim quanto a você.

E, depois disso, bateu o telefone na cara dela.

Filho de uma boa mãe, esse Comstock, pensou Janey, apertando o freio. O tráfego havia parado completamente, e ela inclinou a cabeça para o lado, franzindo o cenho ao ver a fila de carros.

Aquele verão devia ser o da sua consagração, pensou, irritada. Seu novo comercial, no qual fingia cantar e dançar com uma guitarra elétrica branca, vestida só com um conjunto de sutiã e calcinha de seda branca, tinha começado a passar três dias antes, cercado de muita promoção — e agora que ela era uma supermodelo famosa, sabia que esse era o momento de atacar. Planejava trabalhar a cabeça das pessoas influentes que povoavam os Hamptons todo verão; seu sonho era ter um centro cultural onde artistas, cineastas e escritores se reunissem para debaterem tópicos intelectuais... Mas, acima de tudo, presumia que seu novo status de supermodelo significasse que ela não ia precisar mais aturar babacas como o Comstock Dibble, e acabaria arrumando um cara muito melhor. Naturalmente, queria se apaixonar, mas por trás de todo grande casal não existe nem que seja um tiquinho de interesse? E não havia nada que o público adorasse mais do que a aliança de duas pessoas famosas...

Mas repentinamente o telefonema de Comstock a fez questionar tudo isso, e por um momento, ela se perguntou, nervosa, se realmente chegara tão longe quanto havia imaginado. Durante toda a sua vida, pelo visto, fora obrigada a dormir com ricaços para sobreviver — tampinhas, barrigudos, carecas, homens com pêlos nas orelhas e fungos na unha do dedão do pé, homens com dentes separados e pêlos nas costas, com pênis que nunca ficavam perfeitamente eretos, em suma, homens com os quais nenhuma mulher que se prezasse treparia, e tudo isso pelo simples fato de que eles tinham dinheiro. Tinha jurado que aquele verão seria diferente. Só que um comentário do Comstock — "Todo mundo sabe como a banda toca com você, Janey" — de repente a deixara insegura...

Ela apertou o volante, e nisso seus olhos focalizaram suas unhas roídas. Meteu depressa uma das mãos entre as pernas para não precisar pensar em seus dedos, e tentou tranqüilizar-se, dizendo a si mesma que as palavras de Comstock não tinham importância. Afinal, ele provavelmente estava chateado por ela ter se tornado uma supermodelo famosa, e por tê-la deixado escapar... Mas ao mesmo tempo era uma mesquinha recordação de tudo que havia de errado em Nova York: um homem podia dormir com tantas mulheres quanto quisesse, mas quando se falava em sexo, ainda havia algumas pessoas na sociedade que se apegavam à idéia antiquada de que uma mulher não devia ter muitos amantes. Ah, uma mulher podia sair dando por aí, sim — aliás, até se esperava isso. Mas parecia haver algum limite tácito quanto ao número de homens com quem ela podia ir para a cama, e, ultrapassado esse limite, não se considerava mais essa mulher uma pessoa "casadoura".

Que injustiça! Janey pensou, furiosa. Certamente ela tinha ido para a cama com mais homens do que a maioria das mulheres que conhecia, e sabia que por trás as pessoas diziam que ela era uma galinha. Mas o que ninguém entendia era que toda vez que ela dava para alguém, mesmo que fosse apenas um boquete em um banheiro de restaurante, era porque achava que aquele cara era "o homem certo" para ela.

Ou, pelo menos, era sempre essa sua desculpa.

O telefone tornou a tocar, e ela o atendeu, imaginando se seria Comstock Dibble, ligando de novo para pedir desculpas.

— Janey? — chamou uma voz feminina ligeiramente familiar. O sotaque era culto e da Costa Leste, e então, como se a interlocutora houvesse finalmente conseguido entrar em contato com uma amiga que há muito tempo não via, gritou: — É Mimi Kilroy. Como vai, minha querida?

Por um segundo, Janey ficou surpresa demais para falar. Mimi certamente não era sua amiga do peito; aliás, essa amizade consistia de pouco mais do que esbarrões em festas ao longo dos anos. Mas logo depois ficou imediatamente encantada. Mimi Kilroy integrava a nata da sociedade nova-iorquina — seu pai era um senador famoso que, segundo os boatos, podia ser indicado como ministro da Fazenda, se os republicanos vencessem a eleição seguinte; e segundo se dizia à boca pequena, Mimi, que já brilhava na sociedade desde os 15 anos, quando começou a freqüentar a Studio 54, secretamente dava as cartas na alta sociedade nova-iorquina. Nos últimos dez anos, Janey mal havia trocado mais do que três palavras com Mimi — até aquele momento, Mimi sempre fizera questão de ignorá-la ou fingira que não sabia quem ela era — e, apesar disso, Janey não se surpreendeu por Mimi estar ligando. Afinal, assim que se conseguia vencer na vida em Nova York, gente que nunca havia tomado conhecimento da nossa existência começava a tentar fazer amizade.

Daí, num tom que implicava que ela e Mimi eram mesmo velhas amigas, e que Mimi jamais havia fingido que não a conhecia nas festas, Janey ronronou:

— Oi, Mimi. Você deve estar quase louca, cuidando dos preparativos para a festa desta noite. — Depois recostou-se no banco e espiou de relance seu rosto no retrovisor, sorrindo de satisfação.

Ah, sim, claro que era uma tremenda gafe em termos éticos, fingir de repente ser amiga da Mimi, só porque Mimi de repente queria ser amiga dela. Mas Janey nunca foi de fazer cerimônia, principalmente quando uma situação podia potencialmente ser promissora para ela. No segundo seguinte, Mimi exclamou, com uma ponta de culpa:

— Eu mal ergo um dedo. O pessoal do bufê e os promoters é que fazem tudo... Só o que eu preciso fazer é provar os hors d’oeuvres!

Janey ficou meio sem graça de repente. Dera exatamente duas festas, ambas um horror (por falta de dinheiro suficiente, as bebidas alcoólicas terminaram antes da hora), e o fato de que Mimi era famosa por suas festas e também capaz de contratar bufês e promoters só parecia destacar o abismo que havia entre as duas. Diante desse lembrete de seu status inferior, a reação costumeira de Janey teria sido um comentário malicioso. Mas dessa vez ela se conteve, e em vez de responder sarcasticamente "Não dá para contratar alguém para fazer isso também?", ela simplesmente riu, com toda a educação.

— Meu amor — disse Mimi. — Só queria ter certeza de que você vem à festa esta noite. Tem uma pessoa especial a quem desejo apresentá-la. O nome dele é Selden Rose, e ele acabou de se mudar da Califórnia para cá... Você já ouviu falar dele? É o novo CEO da MovieTime, aquele canal de tevê a cabo... Você provavelmente é como eu, não vê televisão, mas aparentemente é um trabalho muito importante. Além disso, é lindo, tem 45 anos, divorciado, sem filhos, graças a Deus, portanto, relativamente inexperiente... Mas o melhor, minha querida, é que ele é terrivelmente, mas terrivelmente pé-no-chão. É, acho que esse é o termo. Pé-no-chão. Não se parece nem um pouco com a gente — observou Mimi, com uma risada irônica. — Claro que não espero que se apaixone por ele, mas como ele é um velho amigo do George, e mal conhece as pessoas, seria uma enorme delicadeza sua se puder dar-lhe pelo menos um pouquinho de atenção...

— Ah, mas eu adoraria conhecê-lo — disse Janey, animada. — Ele parece divino...

— E é, minha querida — disse Mimi. — E naturalmente, jamais me esqueço de alguém que tenha me feito um favor...

A conversa prosseguiu nesse tom durante mais alguns segundos, e então Mimi desligou, dizendo: "Beijão, linda." De repente, Janey voltou a se sentir o máximo. Selden Rose não lhe parecera particularmente promissor — pela descrição da Mimi, podia até ser outro Comstock Dibble —, mas o fato de Mimi ter ligado combinando um encontro para ela tranqüilizou-a quanto ao seu status naquela noite. Seria um tremendo tapa na cara de Comstock Dibble, além de ser uma maneira de lhe mostrar que era melhor ele não se meter com ela. Não imaginava o que Mimi tinha em mente, exatamente, ao pedir-lhe para "dar atenção" a Selden Rose (se esperava que Janey lhe pagasse um boquete no banheiro, ia ficar na saudade), mas Janey certamente lhe concederia um pouco de atenção, e quando Comstock visse que ela conseguira penetrar no círculo de amigos da Mimi, ia ficar louco da vida...

O trânsito parou de novo logo antes da Saída 70. Sentindo que seu poder pessoal se restabelecera, Janey aproveitou para abrir o imenso espelho iluminado do visor do carro. Seu reflexo jamais a decepcionava, e inclinando-se para a frente, ficou admirando fascinada sua própria beleza.

Seus cabelos, longos, espessos e louros, tinham uma textura que chegava a ser cremosa; o formato de seu rosto era quase perfeito, com testa alta e queixo pequeno e bem-feito. Os olhos eram azuis, com os cantos externos ligeiramente voltados para cima, sugerindo uma certa inteligência misteriosa, ao passo que os lábios cheios (recentemente ainda mais estufados pelo dermatologista) lhe davam um certo ar de inocência infantil. Na realidade, a única falha técnica era o nariz, com uma pontinha ligeiramente arrebitada e protuberante, e mesmo assim, sem esse nariz, ela seria uma beleza fria e clássica. Entretanto por causa dele, sua beleza se tornava acessível, dando ao homem comum a impressão de que poderia tê-la, se ao menos conseguisse conhecê-la.

Aliás, ela estava tão absorta nessa auto-admiração, que só foi notar que o trânsito havia começado a fluir de novo quando o carro atrás dela buzinou com insistência algumas vezes, despertando-a do devaneio. Aborrecida e meio envergonhada, olhou no retrovisor e viu que o motorista impaciente era um verdadeiro pedaço de homem, a bordo de uma Ferrari verde-musgo. Janey imediatamente se encheu de inveja — sempre fora apaixonada por aquela Ferrari. Mas seu despeito se transformou em ciúme puro, quando viu quem era a passageira: Pippi Maus.

Pippi e a irmã caçula Nancy Maus, formavam a dupla de atrizes conhecidas como as irmãs Maus de Charleston, Carolina do Sul. Tinham uns rostinhos de rato, mas corpos invejáveis raramente encontráveis na natureza: eram magras com seios naturalmente grandes. Notoriamente destituídas de talento, para Janey elas representavam "tudo que havia de errado no mundo"; mesmo assim, haviam conseguido forjar uma carreira representando personagens peculiares em filmes independentes. Janey não conseguia imaginar como ou por que Pippi estava a caminho dos Hamptons — do ponto de vista de Janey, Pippi não era o tipo de pessoa que se encaixava por lá —, mas mistério maior ainda era o que ela estaria fazendo no carro de um homem maravilhoso como aquele. Era possível ver que ele era alto, mesmo encolhido no banco daquela Ferrari minúscula; talvez tivesse até 1,95m, além de um corpo esguio, lábios cheios e um rosto talhado a cinzel de um modelo masculino. Talvez fosse bicha — a Pippi, afinal de contas, era o tipo da guria que provavelmente só andava com boiolas —, mas pelo jeito másculo como ele pressionou a buzina, Janey desconfiou que ele era macho mesmo.

Como se não bastasse, a Ferrari desviou-se subitamente para um lado e foi para o acostamento. Dentro de um segundo, passou por ela, como se Janey não passasse de um inseto. Pippi soltou um gritinho de emoção quando Janey lançou um olhar furioso ao motorista. Os olhos dele encontraram os de Janey, e, por um instante, Janey ficou completamente perplexa. Pela cara de assombro que ele fez, parecia que tinha visto um anjo de relance...

Mas então o carro verde desapareceu na curva, ao pegar a saída, e Janey ficou se sentindo abandonada outra vez. Se não podia pegar o hidroavião para os Hamptons, devia estar em um carro como aquele, com um cara como aquele... Mordendo distraidamente um caquinho de unha pendurado que sequer existia, consolou-se com o fato de que tinha certeza de que o motorista da Ferrari havia se apaixonado instantaneamente por ela — e que podia muito bem ser o tipo de homem que ela estava procurando. E engrenando habilmente a terceira, ficou imaginando como seria divertido roubá-lo de Pippi Maus.


 
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