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Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo,
de Max Weber (tradução de José Marcos Mariani
Macedo; Companhia das Letras; 288 páginas; 38 reais)
Esse livro é a obra-prima do sociólogo alemão
Max Weber (1864-1920) e um dos mais influentes estudos teóricos
escritos no século XX. Weber procura explicar por que países
com predominância da religião protestante tendem a
ser mais ricos do que países católicos. A obra teve
três edições durante a vida do autor: em 1904,
em 1905 e em 1920. Essa nova versão brasileira é especial
porque, além de ter sido traduzida diretamente do alemão,
dá conta de todas as alterações feitas por
Weber ao longo dos anos. O paciente trabalho de edição
foi levado a cabo pelo sociólogo brasileiro Antônio
Flávio Pierucci.
Leia
trecho do livro
1.
Confissão religiosa e estratificação social
Basta
uma vista de olhos pelas estatísticas ocupacionais de um
país pluriconfessional para constatar a notável freqüência
de um fenômeno por diversas vezes vivamente discutido na imprensa
e na literatura católicas bem como nos congressos católicos
da Alemanha: o caráter predominantemente protestante dos
proprietários do capital e empresários, assim como
das camadas superiores da mão-de-obra qualificada, notadamente
do pessoal de mais alta qualificação técnica
ou comercial das empresas modernas. Não só nos lugares
onde a diferença de confissão religiosa coincide com
uma diferença de nacionalidade e, portanto, com um grau distinto
de desenvolvimento cultural, como ocorre no Leste da Alemanha entre
alemães e poloneses, mas em quase toda parte onde o desenvolvimento
do capitalismo [na época de sua expansão] esteve com
as mãos livres para redistribuir a população
em camadas sociais e profissionais em função de suas
necessidades - e quanto mais assim se deu, tanto mais nitidamente
esse fenômeno aparece estampado em números na estatística
religiosa. Está claro que a participação dos
protestantes na propriedade do capital, na direção
e nos postos de trabalho mais elevados das grandes empresas modernas
industriais e comerciais, é relativamente mais forte, ou
seja, superior à sua porcentagem na população
total, e isso se deve em parte a razões históricas
que remontam a um passado distante em que a pertença a uma
confissão religiosa não aparece como causa de fenômenos
econômicos, mas antes, até certo ponto, como conseqüência
deles. A participação nessas funções
econômicas pressupõe em parte posse de capital, em
parte uma educação dispendiosa e em parte, na maioria
das vezes, ambas as coisas, estando ainda hoje ligada à posse
de riqueza hereditária ou pelo menos a uma certa abastança.
Justamente um grande número das regiões mais ricas
do Reich, mais favorecidas pela natureza ou pelas rotas comerciais
e mais desenvolvidas economicamente, mas sobretudo a maioria das
cidades ricas, haviam-se convertido ao protestantismo já
no século XVI, e os efeitos disso ainda hoje trazem vantagens
aos protestantes na luta econômica pela existência.
Mas aí se levanta a questão histórica: qual
a razão dessa predisposição particularmente
forte das regiões economicamente mais desenvolvidas para
uma revolução na Igreja? E aqui a resposta não
é assim tão simples como à primeira vista se
poderia crer. Com certeza, a emancipação ante o tradicionalismo
econômico aparece como um momento excepcionalmente propício
à inclinação a duvidar até mesmo da
tradição religiosa e a se rebelar contra as autoridades
tradicionais em geral. Mas cabe atentar aqui para o que hoje muitas
vezes se esquece: a Reforma significou não tanto a eliminação
da dominação eclesiática sobre a vida de modo
geral, quanto a substituição de sua forma vigente
por uma outra. E substituição de uma dominação
extremamente cômoda, que na época mal se fazia sentir
na prática, quase só formal muitas vezes, por uma
regulamentação levada a sério e infinitamente
incômoda da conduta de vida como um todo, que penetrava todas
as esferas da vida doméstica e pública até
os limites do concebível. A dominação da Igreja
católica - "que pune os hereges, mas é indulgente
com os pecadores", no passado mais ainda do que hoje - é
suportada no presente até mesmo por povos de fisionomia econômica
plenamente moderna [e assim também a agüentaram as regiões
mais ricas e economicamente mais desenvolvidas que a terra conhecia
na virada do século XV]. A dominação do calvinismo,
tal como vigorou no século XVI em Genebra e na Escócia,
na virada do século XVI para o século XVII em boa
parte dos Países Baixos, no século XVII na Nova Inglaterra
e por um tempo na própria Inglaterra, seria para nós
a forma simplesmente mais insuportável que poderia haver
de controle eclesiástico do indivíduo. [Foi exatamente
assim, aliás, que a sentiram amplas camadas do velho patriciado
da época, em Genebra tanto quanto na Holanda e na Inglaterra.]
Não um excesso, mas uma insuficiência de dominação
eclesiástico-religiosa da vida era justamente o que aqueles
reformadores, que surgiram nos países economicamente mais
desenvolvidos, acharam de criticar. Como explicar então que
naquela época tenham sido justamente esses países
economicamente mais desenvolvidos e, como ainda veremos, dentro
deles precisamente as classes [médias] "burguesas",
então economicamente emergentes, que não só
agüentaram aquela tirania puritana [que até então
lhes era desconhecida], mas também desenvolveram, em defesa
dela, um heroísmo que as classes burguesas enquanto tais
raramente haviam conhecido antes e jamais viriam a conhecer depois:
"the last of our heroisms" {o último de nossos
heroísmos} como diz Carlyle não sem razão?
Mas
vamos em frente: se, como foi dito, a maior participação
dos protestantes na propriedade do capital e nos postos de direção
na economia moderna pode ser em parte compreendida como simples
conseqüência da superioridade estatística de seu
cabedal patrimonial historicamente herdado, ainda assim se observam
fenômenos nos quais, por outro lado, a relação
de causalidade não se entrega de forma tão indubitável.
Desses fazem parte, só para mencionar alguns: primeiro, a
flagrante diferença generalizada, em Baden como na Baviera
ou ainda na Hungria, entre pais católicos e pais protestantes
quanto à espécie de ensino superior que costumam proporcionar
a seus filhos. O fato de que a porcentagem de católicos entre
os alunos e os bacharelandos dos estabelecimentos de ensino "superior"
fique no geral consideravelmente aquém de sua cota no total
da população deve-se em boa parte às diferenças
de patrimônio herdado já mencionadas. Mas que também
entre os bacharelandos católicos a porcentagem daqueles que
saem dos estabelecimentos modernos, Realgymnasien, Real-schulen,
höhere Bürgerschulen etc., especialmente destinados e
orientados a preparar para os estudos técnicos e as profissões
comerciais e industriais, em poucas palavras, para a vida burguesa
de negócios, fique uma vez mais notavelmente muito atrás
da dos protestantes, e que a formação oferecida pelos
Gymnasien humanísticos tenha a preferência dos católicos
- esse é um fenômeno que não fica explicado
pela diferença de fortunas, mas, pelo contrário, é
a ele que se deve recorrer para explicar, por sua vez, o reduzido
interesse dos católicos pela aquisição capitalista.
De modo ainda mais marcante, uma outra observação
ajuda a compreender a reduzida participação dos católicos
entre o operariado qualificado da grande indústria moderna.
É conhecido o fenômeno de a fábrica recrutar
uma grande parte de sua mão-de-obra qualificada entre a nova
geração de artesãos, deixando assim a eles
a formação de sua própria força de trabalho
para daí subtraí-la uma vez completada a formação,
fenômeno que se mostra com freqüência substancialmente
maior entre os camaradas artesãos protestantes do que entre
os camaradas católicos. Noutras palavras, os camaradas artesãos
católicos mostram uma tendência mais acentuada a permanecer
no artesanato, tornando-se portanto mestres artesãos com
freqüência relativamente maior, ao passo que os protestantes
afluem em medida relativamente maior para as fábricas para
aí ocupar os escalões superiores do operariado qualificado
e dos postos administrativos. Nesses casos, a relação
de causalidade repousa sem dúvida no fato de que a peculiaridade
espiritual inculcada pela educação, e aqui vale dizer,
a direção conferida à educação
pela atmosfera religiosa da região de origem e da casa paterna,
determinou a escolha da profissão e o subseqüente destino
profissional.
Ora,
a menor participação dos católicos na moderna
vida de negócios na Alemanha é tanto mais notável
por contrariar a averiguação desde sempre feita [no
passado e também] no presente, a saber: minorias nacionais
ou religiosas, ao se contraporem como "dominadas" a um
outro grupo visto como "dominante", tendem, em virtude
de sua exclusão, seja ela voluntária ou involuntária,
das posições politicamente influentes, a ser fortemente
impelidas para os trilhos da atividade aquisitiva; seus membros
mais bem-dotados buscam satisfazer aí uma ambição
que no plano do serviço público não encontra
nenhuma valorização. Isso se fez evidente com os poloneses
em vias de incontestável progresso econômico na Rússia
e na Prússia [oriental] - ao contrário da Galícia,
em que eles eram o grupo dominante -, tal como ocorrera com os huguenotes
na França sob Luís XIV, com os não-conformistas
e os quakers na Inglaterra e - last not least - tem ocorrido com
os judeus há dois milênios. Mas, com os católicos
na Alemanha, nada vemos de semelhante efeito, ou pelo menos nada
que salte à vista, e mesmo no passado [ao contrário
dos protestantes] não conheceram eles nenhum desenvolvimento
econômico particularmente saliente nos tempos em que foram
perseguidos ou apenas tolerados, nem na Holanda nem na Inglaterra.
[Resta, isso sim, o fato de que os protestantes (em particular certas
correntes internas, que mais adiante serão tratadas especificamente),
seja como camada dominante ou dominada, seja como maioria ou minoria,
mostraram uma inclinação específica para o
racionalismo econômico que não pôde e não
pode ser igualmente observada entre os católicos, nem numa
nem noutra situação.] A razão desse comportamento
distinto deve pois ser procurada principalmente na peculiaridade
intrínseca e duradoura de cada confissão religiosa,
e não [somente] na [respectiva] situação exterior
histórico-política.
Trata-se portanto de investigar primeiro quais são ou quais
foram, dentre os elementos dessa peculiaridade das confissões,
aqueles que atuaram e em parte ainda atuam na direção
acima indicada. Ora, numa consideração superficial
feita a partir de certas impressões modernas, poderíamos
cair na tentação de formular assim essa oposição:
que o maior "estranhamento do mundo" próprio do
catolicismo, os traços ascéticos que os seus mais
elevados ideais apresentam, deveriam educar os seus fiéis
a uma indiferença maior pelos bens deste mundo. Esse modo
de explicar as coisas corresponde de fato ao esquema de julgamento
popularmente difundido nas duas confissões. Do lado protestante,
utiliza-se essa concepção para criticar aqueles ideais
ascéticos (reais ou supostos) da conduta de vida católica;
do lado católico, replica-se com a acusação
de "materialismo", o qual seria a conseqüência
da secularização de todos os conteúdos da vida
pelo protestantismo. Também um escritor moderno houve por
bem formular o contraste que aparece no comportamento das duas confissões
religiosas em face da vida econômica nos seguintes termos:
"O católico (...) é mais sossegado; dotado de
menor impulso aquisitivo, prefere um traçado de vida o mais
possível seguro, mesmo que com rendimentos menores, a uma
vida arriscada e agitada que eventualmente lhe trouxesse honras
e riquezas. Diz por gracejo a voz do povo: 'bem comer ou bem dormir,
há que escolher'. No presente caso, o protestante prefere
comer bem, enquanto o católico quer dormir sossegado".
De fato, com a frase "querer comer bem" é possível
caracterizar, embora de modo incompleto mas pelo menos em parte
correto, a motivação daquela parcela de protestantes
mais indiferentes à Igreja na Alemanha de hoje. Só
que no passado as coisas eram muito diferentes: como se sabe, os
puritanos ingleses, holandeses e americanos se caracterizavam, como
adiante veremos, justamente pelo oposto da "alegria com o mundo",
sendo isso a meu ver um de seus traços de caráter
mais importantes. Já o protestantismo francês, por
exemplo, conservou por muito tempo e de certo modo conserva até
hoje esse caráter que por toda parte foi a marca das igrejas
calvinistas em geral e sobretudo daquelas "sob a cruz"
na época das guerras de religião. Isso não
obstante - ou precisamente por isso, como haveremos de nos perguntar
em seguida? - ele ter sido, como se sabe, um dos principais portadores
do desenvolvimento industrial e capitalista da França, e
assim permaneceu nos estreitos limites que a perseguição
permitiu. Se quisermos chamar de "estranhamento do mundo"
essa seriedade e o forte predomínio de interesses religiosos
na conduta de vida, os calvinistas franceses foram então,
e são, pelo menos tão estranhos ao mundo quanto, por
exemplo, os católicos do Norte da Alemanha, para os quais
seu catolicismo é indubitavelmente um sentimento tão
do fundo do coração como para nenhum outro povo na
face da terra. E ambos se afastam, na mesma direção,
do partido religioso dominante: dos católicos da França,
tão contentes da vida em suas camadas inferiores e francamente
hostis à religião nas camadas superiores, e dos protestantes
da Alemanha, hoje absorvidos na vida mundana dos negócios
e majoritariamente indiferentes à religião em suas
camadas superiores. Poucas coisas mostram tão claramente
quanto esses paralelos que com noções tão vagas
como o (pretenso!) "estranhamento do mundo" do catolicismo,
a (pretensa!) "alegria com o mundo" de cunho materialista
do protestantismo e tantas outras noções desse gênero,
não se vai muito longe, porquanto nessa generalidade elas
estão longe de exatas, quer para a atualidade, quer ao menos
para o passado. Quiséssemos entretanto trabalhar com elas,
então teríamos que fazer de imediato muitas outras
observações que, além dos reparos já
feitos, sugerem mesmo que indaguemos se a idéia de uma oposição
não deveria dar lugar à constatação
inversa, de um íntimo parentesco entre estranhamento do mundo,
ascese e devoção eclesial, por um lado, e participação
na vida de aquisição capitalista, por outro.
De
fato é notável - para começar a mencionar alguns
aspectos totalmente exteriores - que grande número de representantes
precisamente das formas mais internalizadas da piedade cristã
tenha vindo dos círculos comerciantes. É o caso em
especial do pietismo, que deve a essa procedência um número
notavelmente grande de seus adeptos mais convictos. Aqui se poderia
pensar numa espécie de efeito contrário que o "mamonismo"
provoca em naturezas introvertidas e pouco afeitas a profissões
comerciais e, com certeza, como no caso de Francisco de Assis e
de tantos daqueles pietistas, foi assim que o mais das vezes o acontecimento
da "conversão" se apresentou subjetivamente ao
próprio convertido. E de modo análogo se poderia tentar
explicar o fenômeno igualmente freqüente e notável
- do qual Cecil Rhodes é um exemplo -, a saber, que da casa
de pastores tenham nascido empresários capitalistas de grande
estilo como uma reação contra a educação
ascética recebida em sua juventude. Mas esse modo de explicação
falha quando um virtuosístico senso de negócios capitalista
coincide, nas mesmas pessoas e nos mesmos grupos humanos, com as
formas mais intensas de uma devoção que permeia e
regula a vida toda; e não se trata de casos isolados, mas
sim propriamente da marca distintiva de grupos inteiros de igrejas
e seitas protestantes historicamente da maior importância.
Especialmente o calvinismo, onde quer que tenha surgido, exibe essa
combinação. Por menos que ele estivesse ligado, na
época da propagação da Reforma, a uma determinada
classe em particular em algum país (como em geral qualquer
das confissões protestantes), um traço característico
e em certo sentido "típico" das igrejas huguenotes
francesas foi que, por exemplo, os monges e os industriais (comerciantes,
artesãos) estivessem desde logo numericamente bem representados
entre os prosélitos, e assim permaneceram mesmo nos tempos
de perseguição. Já sabiam os espanhóis
que "a heresia" (ou seja, o calvinismo dos Países
Baixos) "fomentava o espírito comercial" [e isso
corresponde perfeitamente às opiniões que avançou
Sir W. Petty em sua discussão sobre as razões da escalada
capitalista nos Países Baixos]. Gothein tem razão
quando designa a diáspora calvinista como o "viveiro
em que floresceu a economia capitalista". Alguém poderia
aqui considerar que o fator decisivo foi a superioridade da cultura
econômica francesa e holandesa, da qual se originou majoritariamente
essa diáspora, ou ainda a poderosa influência do exílio
e do desencaixe das relações vitais tradicionais.
Ocorre, porém, que na própria França, como
atestam as lutas de Colbert, a coisa era exatamente a mesma no século
XVII. A Áustria mesmo - para não falar de outros países
- vez por outra importou diretamente fabricantes protestantes. [Nem
todas as denominações protestantes, porém,
parecem operar com a mesma força nessa direção.
O calvinismo, ao que parece, fez o mesmo também na Alemanha;
no Wuppertal como noutras partes, a confissão "reformada",
em comparação com outras confissões, parece
que favoreceu francamente o desenvolvimento do espírito capitalista.
Mais do que o luteranismo, por exemplo, é o que parece ensinar
a comparação feita no conjunto e no pormenor, especialmente
para o Wuppertal. Para a Escócia, Buckle e, entre os poetas
ingleses, notadamente Keats, enfatizaram essas relações.]
Ainda mais estrondosa é a conjunção, que basta
apenas evocar, da regulamentação religiosa da vida
com o mais intenso desenvolvimento do senso de negócios justamente
naquelas inumeráveis seitas cujo "estranhamento da vida"
se tornou tão proverbial quanto sua riqueza: especialmente
os quakers e os menonitas. O mesmo papel que os primeiros desempenharam
na Inglaterra e na América do Norte coube aos últimos
nos Países Baixos e na Alemanha. Que na própria Prússia
oriental Frederico Guilherme I tenha admitido os menonitas a despeito
de sua categórica recusa de prestar serviço militar,
por serem os imprescindíveis portadores do desenvolvimento
industrial, é apenas um dentre tantos outros fatos conhecidos
a ilustrar isso, mesmo levando-se em conta a peculiaridade desse
rei. Finalmente, é fato notório que também
entre os pietistas valeu a combinação de devoção
intensa com senso de negócios e sucesso econômico igualmente
muito desenvolvidos: basta a gente se lembrar [das circunstâncias
na Renânia e] de Calw; e não cabe mais ficar empilhando
exemplos em digressões como essas, totalmente provisórias.
Isso porque esses poucos exemplos já revelam, todos eles,
uma coisa só: o "espírito de trabalho",
de "progresso" ou como se queira chamá-lo, cujo
despertar somos tentados a atribuir ao protestantismo, não
pode ser entendido, como hoje sói acontecer, [como se fosse
"alegria com o mundo" ou de qualquer outro modo] em sentido
"iluminista". O antigo protestantismo de Lutero, Calvino,
Knox, Voët, ligava pouquíssimo para o que hoje se chama
"progresso". Era inimigo declarado de aspectos inteiros
da vida moderna, dos quais, atualmente, já não podem
prescindir os seguidores mais extremados dessas confissões.
Se é para encontrar um parentesco íntimo entre [determinadas
manifestações d']o antigo espírito protestante
e a cultura capitalista moderna, não é em sua (pretensa)
"alegria com o mundo" mais ou menos materialista ou em
todo caso antiascética que devemos procurá-lo, mas
sim, queiramos ou não, em seus traços puramente religiosos.
- Montesquieu diz dos ingleses (Esprit des lois, livro XX, cap.
7) que "foi o povo do mundo que melhor soube se prevalecer
dessas três grandes coisas: a religião, o comércio
e a liberdade". Terá havido porventura uma conexão
entre sua superioridade no campo dos negócios - e, num outro
contexto, seu pendor para instituições políticas
livres - e esse recorde de devoção que Montesquieu
reconhece neles?
Toda
uma gama de relações possíveis se ergue perante
nós, ainda obscuras, tão logo levantamos a questão
nesses termos. A missão há de ser, então, a
de formular, com a máxima nitidez possível em meio
à inesgotável multiplicidade que se aloja em cada
fenômeno histórico, o que aqui vislumbramos assim,
sem nitidez. Mas para chegar a tanto teremos que necessariamente
abandonar o terreno das vagas representações gerais
com que operamos até aqui e tentar penetrar a peculiaridade
característica e as diferenças desses vastos mundos
de pensamento religioso que se oferecem a nós, historicamente,
nas diversas manifestações da religião cristã.
Antes,
porém, é preciso ainda chamar a atenção:
primeiro, quanto à peculiaridade do objeto que se trata de
explicar historicamente; em seguida, quanto ao sentido em que semelhante
explicação é possível no quadro desta
pesquisa.
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