O
Homem Duplo, de
Philip K. Dick (tradução de Ryta Vinagre; Rocco; 307 páginas;
38,50 reais) O americano Philip K. Dick era um doidão que vivia
sob o efeito de drogas e fazia da escrita compulsiva um jeito de expiar suas paranóias.
Ao morrer, em 1982, era um joão-ninguém. Seus 36 romances e 130
contos só ganhariam reconhecimento com o sucesso de Blade Runner, inspirado
em sua obra. Depois vieram Steven Spielberg e seu Minority Report e, agora,
a versão filmada de O Homem Duplo (em cartaz no país). O
livro que a inspirou, de 1977, se passa numa Los Angeles futurista, onde câmeras
vigiam os cidadãos e o tráfico de entorpecentes reina. Seu protagonista
(no cinema, Keanu Reeves) é um tira que investiga uma droga que leva os
usuários a desenvolver dupla personalidade e se vicia nela. A narrativa
é Dick em seu melhor: um texto claustrofóbico, em que só
aos poucos os detalhes da trama são revelados.
Leia
trecho Capítulo
1 Certa
vez, um sujeito passou o dia todo sacudindo insetos do cabelo. O médico
disse a ela que não havia insetos em seu cabelo. Depois de tomar um banho
de oito horas, parado interminavelmente sob a água quente, sofrendo a dor
dos insetos, ele saiu e se secou e ainda havia insetos no cabelo; na verdade,
havia insetos em todo o corpo. Um mês depois, ele tinha insetos nos pulmões.
Sem
nada mais a fazer ou pensar, ele começou a tentar entender o ciclo vital
dos insetos e, com a ajuda da Britannica, identificar especificamente aqueles
insetos. Agora eles enchiam a casa. Ele leu muito sobre tipos diferentes e por
fim percebeu insetos do lado de fora, então concluiu que eram afídios.
Depois que lhe ocorreu, essa conclusão não mudou, independentemente
do que os outros lhe dissessem, como: "Os afídios não picam
as pessoas." Eles diziam isso porque as picadas intermináveis dos
insetos o atormentavam continuamente. Na loja 7-11, de uma cadeia espalhada pela
maior parte da Califórnia, ele comprou latas de spray de Raid, Black Flag
e Yard Guard. Primeiro ele borrifou a casa, depois a si mesmo. O Yard Guard pareceu
funcionar melhor.
No aspecto teórico, ele percebeu três estágios
no ciclo dos insetos. Primeiro, eles apareciam e o contaminavam por intermédio
do que ele chamava de "gente-correio", que eram pessoas que não
entendiam seu papel na distribuição dos insetos. Durante essa fase,
os insetos não tinham maxilar nem mandíbula (ele aprendeu essa palavra
durante as semanas de pesquisa acadêmica, uma ocupação incomumente
livresca para um cara que trabalhava na Handy Brake and Tire realinhando os tambores
de freios dos outros). A gente-correio, portanto, nada sentia. Ele costumava se
sentar no canto mais distante da sala de estar para observar diferentes pessoas-correio
entrarem - a maioria delas ele conhecia havia algum tempo, mas algumas eram novas
para ele - cobertas de afídios na fase específica em que não
picavam. Ele meio que sorria para si mesmo, porque sabia que a pessoa estava sendo
usadas pelos insetos e não se desesperava com isso.
- Do que está
rindo, Jerry? - diziam elas.
Ele se limitava a rir.
Na fase seguinte,
os insetos desenvolviam asas ou coisa parecida, mas na verdade não eram
exatamente asas; de qualquer modo, eram uma espécie de apêdice funcional
que lhes permitia enxamear e era assim que migravam e se disseminavam - em especial
para ele. A essa altura o ar ficava cheio deles; deixavam a sala de estar e toda
a casa nevoentas. Nessa fase, ele procurava não os inalar.
Acima
de tudo, ele lamentava pelo cachorro, porque podia ver os insetos pousando e se
fixando em todo o corpo e provavelmente entrando nos pulmões do cão,
como entraram no dele próprio. Provavelmente - pelo menos lhe disse sua
capacidade de ter empatia - o cachorro estava sofrendo tanto quanto ele. Será
que devia expulsar o cão para ter conforto? Não, decidiu; agora
o cachorro estava infestado sem querer e carregaria os insetos com ele por toda
parte.
Às vezes, ele ficava debaixo do chuveiro com o cão,
tentando limpar o cachorro também. Não tinha mais sucesso com ele
do que consigo mesmo. Doía sentir o cão sofrer; ele nunca deixou
de tentar ajudá-lo. De certa forma, essa era a pior parte, o sofrimento
do animal, que não podia reclamar.
- Que merda você está
fazendo o dia todo no chuveiro com a droga do cachorro? - perguntou seu amigo
Charles Freck certa vez, aparecendo durante o banho.
Jerry disse:
-
Tenho de tirar os afídios dele. - Ele tirou Max, o cachorro, do chuveiro
e começou a secá-lo. Charles Freck observava, aturdido, enquanto
Jerry esfregava óleo de bebê e talco no pêlo do cão.
Por toda a casa, latas de spray inseticida, frascos de talco, óleo e condicionadores
para bebê estavam empilhados e jogados, a maioria vazia; ele agora usava
muitas latas por dia.
- Não estou vendo afídio nenhum - disse
Charles. - Aliás, o que é um afídio?
- Um dia ele
te mata - disse Jerry. - Assim é um afídio. Eles estão no
meu cabelo, na minha pele e nos meus pulmões e a maldita dor é insuportável...
vou ter de ir para o hospital.
- Como é que eu não consigo
vê-los?
Jerry baixou o cão, que estava enrolado numa toalha,
e se ajoelhou no tapete puído.
- Vou te mostrar um - disse ele.
O tapete estava coberto de afídios; eles saltavam por toda parte, para
cima e para baixo, alguns mais alto que os outros. Ele procurou por um especialmente
grande, devido à dificuldade que as pessoas tinham de vê-los. - Traga
uma garrafa ou um vidro - disse ele -, procure embaixo da pia. Vamos cobrir um
ou colocar uma tampa nele e depois posso levá-lo comigo quando for ao médico
e ele vai poder analisá-lo.
Charles Freck lhe trouxe um vidro de
maionese. Jerry começou a busca e por fim conseguiu interceptar um afídio
que pulou no ar pelo menos 120 centímetros. O afídio tinha três
centímetros de comprimento. Ele o apanhou, levou-o para o vidro, largou-o
cuidadosamente dentro dele e atarraxou a tampa. Depois ergueu o vidro, triunfante.
-
Está vendo? - disse ele.
- Ééééééé
- disse Charles Freck, os olhos arregalados enquanto analisava o conteúdo
do vidro. - Que grandão! Uau!
- Me ajude a encontrar mais para o
médico poder ver - disse Jerry, novamente se agachando no tapete, o vidro
ao lado dele.
- Claro - disse Charles Freck e obedeceu.
Meia hora
depois, eles tinham três vidros cheios dos insetos. Charles, embora novo
no assunto, encontrou alguns dos maiores.
Era meio-dia, em junho de 1994.
Na Califórnia, em uma região de casas de plástico baratas,
mas duráveis, havia muito desocupadas pelos caretas. Mas Jerry, anteriormente,
tinha borrifado tinta metálica em todas as janelas para evitar a luz; a
iluminação da sala vinha de uma luminária em que só
atarraxara lâmpadas de luz dirigida, que brilhavam dia e noite, de forma
a abolir o tempo para ele e os amigos. Ele gostava disso; gostava de se livrar
do tempo. Deste modo, podia se concentrar em coisas importantes, sem ser interrompido.
Como isto: dois homens ajoelhados em um tapete velho, encontrando um inseto após
o outro e colocando-os em vidro após vidro.
- O que vamos conseguir
com isso? - disse Charles Freck, mais tarde. - Quer dizer, será que o médico
vai pagar uma recompensa ou coisa assim? Um prêmio? Uma grana?
-
Tenho que ajudar a aperfeiçoar uma cura para eles desse jeito - disse Jerry.
A dor, constante, tornara-se insuportável, ele não conseguia se
acostumar com ela e sabia que nunca se acostumaria. O impulso ou anseio de tomar
outro banho o subjugava. - Ei, cara - ele arfou, endireitando-se - vai colocando
os insetos no vidro enquanto eu tomo um banho. - Ele partiu para o banheiro.
-
Tudo bem - disse Charles, as pernas compridas cambaleando enquanto gingava para
um vidro, as mãos em concha. Era um ex-veterano e ainda tinha um bom controle
muscular, porém; ele conseguiu pegar o vidro. Mas depois disse de repente:
- Olha, Jerry... esses insetos meio que me assustaram. Não gosto de ficar
sozinho com eles. - Ele se levantou.
- Seu cretino covarde - disse Jerry,
arfando de dor enquanto hesitava no banheiro por um momento.
- Será
que você podia...
- Tenho de tomar um banho! - Ele bateu a porta
e girou as torneiras do chuveiro. A água jorrou.
- Estou com medo.
- A voz de Charles Freck chegou fraca, embora ele evidentemente estivesse gritando.
-
Então vai se foder! - respondeu Jerry aos gritos e entrou no chuveiro.
Que porra de amigos são esses?, perguntou-se amargamente. Nada bom, nada
bom! Não é nada bom mesmo.
- Essas merdas não picam?
- gritou Charles, bem junto à porta.
- É, eles picam - disse
Jerry enquanto passava xampu no cabelo.
- Foi o que pensei. - Uma pausa.
- Posso lavar minhas mãos, me livrar deles e esperar por você?
Covarde,
pensou Jerry com uma fúria amargurada. Ele não disse nada, apenas
continuou seu banho. O cretino não valia resposta alguma. Ele não
deu atenção a Charles Freck, só a si mesmo. A suas necessidades
vitais, exigentes, terríveis e urgentes. Todo o resto teria de esperar.
Não havia tempo, tempo nenhum, essas coisas não podiam ser adiadas.
Todo o resto era secundário. A não ser o cachorro; ele se perguntou
sobre Max, o cão. |