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Um
Lugar entre os Vivos, de Jean-Pierre
Gattégno (tradução de André Viana e
Antonio Carlos Viana; Companhia das Letras; 290 páginas;
36 reais) O francês Jean-Pierre Gattégno é
um professor de literatura que em 1992 estreou com sucesso como
autor de romances policiais. Em seu primeiro trabalho, Neutralidade
Suspeita, ele falava sobre um psicanalista
que sai a campo para investigar um crime. Publicado na França
em 2001, Um Lugar entre os Vivos também
tem um mote original. O romancista Ernest Ripper está num
bar parisiense dando retoques em seus escritos quando surge uma
visita inesperada. Um sujeito se apresenta como sendo o estrangulador
de mulheres que está em todas as manchetes e lhe faz uma
proposta: quer que Ernest escreva suas memórias. Assim começa
uma trama que foge aos lugares-comuns.
Leia
trechos do livro
Capítulo
1
Eu
estava cheia de suas noitadas no Lapin Chasseur. Ela se achava um
Sartre escrevendo O ser e o nada no Deux Magots. Aí eu mandei
ele rodar. Ele recebeu meu chute sem dizer uma palavra.
Assim
que se deitava no divã, a raiva de Maryse voltava intacta.
O homem da poltrona ficava em silêncio, e ela não sabia
se aquela raiva nascera depois daquelas sessões ou depois
daquele escritor.
-
O senhor é igual! - exclamou ela -, eu me levantaria, iria
embora, e o senhor não diria nada. Igual a Ernest, ele...
Seu
olhar recaiu sobre O 24º dia, de Daurat, na parede acima de
uma cômoda. O quadro mostrava um túnel de cimento armado
que, num rápido movimento circular, se precipitava para a
direita. A arquitetura do túnel, espantosamente leve, apesar
da massa imponente de cimento armado, a luz que vinha das aberturas
em forma de ogiva no lado esquerdo, a paz que o conjunto emanava
evocavam a atmosfera de uma catedral. Exatamente como o que ela
queria para seu escritório.
Capítulo
2
Nada
podia ser insignificante no amor. Ela tivera razão de acreditar
no que lhe dizia seu coração. Quando Damien a tomou
em seus...
Paf!
Você cometeu um erro fatal e seu programa será encerrado,
indicou uma mensagem na tela.
Ernest
soltou um palavrão. Era a terceira vez que o computador lhe
pregava uma peça. Vai ver ele também tinha suas crises.
Ernest acabava de perder quatro páginas de trabalho.
Quatro benditas páginas que não tivera tempo
de salvar.
Naquele
momento, o telefone tocou.
Como
sempre, a fedelha atendeu, murmurou algumas palavras e passou
o fone para ele.
-
Pra você - disse ela, rebolando.
Com
um gesto de raiva, ele recusou o aparelho.
-
Não estou, merda! Quando estou trabalhando, diga que não
estou, ainda não aprendeu? Você faz tudo para atrapalhar
meu trabalho. Fica passeando pra lá e pra cá com esse
fio dental, olhando sem parar o que estou escrevendo, "e
por que é que ela está chorando? Por que ele não
a consola? Por que não se beijam?". Por que isso, por
que aquilo? E esse telefone que não pára de tocar,
e o computador que não pára de aprontar e a merda
desse texto que tenho de entregar terça-feira. Como vou conseguir?
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