Aventuras
e Descobertas de Darwin a Bordo do Beagle,
de Richard Keynes (tradução de Sergio Goes de Paula; Jorge Zahar;
390 páginas; 49,50 reais) Em 1831, o jovem naturalista inglês
Charles Darwin partia para uma viagem de cinco anos a bordo do navio Beagle.
Visitaria a América do Sul inclusive o Brasil e a Oceania.
Foi nessa longa viagem que ele amadureceu a idéia da evolução
por meio da seleção natural, que cerca de vinte anos depois seria
apresentada em A Origem das Espécies. Bisneto de Darwin, o cientista
Richard Keynes que em 1951 trabalhou com Carlos Chagas Filho, no Brasil
pesquisou extensivamente cartas, diários e outros documentos para
reconstituir aquela que é talvez a mais famosa excursão científica
da história. O livro é ilustrado com desenhos feitos por Darwin
e outros viajantes do Beagle.
Leia
trecho O
Beagle velejou na direção do Rio de Janeiro, e a 1o de abril todos
os marinheiros se dedicavam a enganar uns aos outros. Jogaram o anzol, e, quando
o tenente Sullivan gritou "Darwin, você já viu uma orca? Dê
uma olhada", Charles correu, em um transporte de entusiasmo, sendo recebido
com ruidosas gargalhadas de todos daquele turno. A
120 quilômetros do Rio de Janeiro, passaram pelo promontório de Cabo
Frio, onde até há poucos anos as praias ainda eram cobertas de areia
branca e brilhante, mas no qual hoje em dia existe uma linha de arranha-céus.
FitzRoy estava ansioso para voltar à cena em que, na noite de 5 de dezembro
de 1830, a fragata HMS Thetis, rumando urgentemente para a Inglaterra e carregando
um tesouro, se viu em luta desesperada contra ventos contrários e foi levada
bem para fora do curso por uma corrente insuspeitada. Até que, no meio
de uma chuva forte e com pouca visibilidade, rumou a nove nós diretamente
sobre os recifes de Cabo Frio, derrubando os três mastros e ferindo muitos
homens. Nas lutas subseqüentes, com as ondas batendo forte no casco, perderam-se
25 membros da tripulação, e o navio rapidamente afundou. FitzRoy
servira como tenente no Thetis e concluiu seu comovido relato do trágico
acidente com as seguintes palavras: Aqueles
que jamais correram risco; que só velejam quando o vento está bom;
que suspiram quando se aproximam da terra, mesmo que a apenas um dia de viagem;
e que atrasam o cumprimento de deveres urgentes até que eles possam ser
cumpridos com facilidade e segurança, estes são sem dúvida
pessoas extremamente cautelosas, mas muito diferentes dos oficiais cujos nomes
jamais serão esquecidos enquanto a Inglaterra tiver uma Marinha.1 Chegando
ao Rio de Janeiro na tarde de 4 de abril, Charles orgulhosamente observou que:
"No mais glorioso estilo o pequeno Beagle entrou no porto e baixou as velas
ao lado da capitânia. ... Enquanto o capitão estava fora, em reunião
com o oficial comandante, nós viramos de bordo no porto e ganhamos grande
crédito com a maneira pela qual o Beagle era conduzido e tripulado."
Como Philip Gidley King recordava: Embora
o sr. Darwin pouco soubesse de assuntos náuticos, um dia ele ofereceu seus
serviços ao primeiro-tenente. A ocasião foi quando a embarcação
entrou pela primeira vez no Rio de Janeiro. Decidiu-se a fazer uma demonstração
de perícia ao recolher as velas diante dos inúmeros navios no ancoradouro,
com as bandeiras de todas as nações. O navio entrou no porto com
todas as velas abertas, inclusive a varredeira no tope, de ambos os lados, pois
a brisa soprava de popa. O sr. Darwin recebeu ordem de segurar uma escota em cada
mão e um cabo da varredeira do topo do mastro, nos dentes. À ordem
de "recolher velas", ele tinha de soltar tudo e ajudar nas cordas que
visse estarem com poucas pessoas ... ele fez tudo certo, achou muita graça
e depois sempre dizia "que o feito não se realizaria sem ele".2 Em
vista da instabilidade política daquele período no Brasil, e com
os recém- libertados países nas fronteiras ao sul, a Marinha Real
Britânica mantinha uma esquadra no magnífico porto do Rio de Janeiro,
para proteção geral dos interesses ingleses na América do
Sul. Era comandada pelo almirante sir Thomas Baker. Enquanto Charles tão
destramente ajudava a tripulação do Beagle a recolher as velas,
o capitão recebia ordens do comandante-em-chefe quanto à exata posição
que o Beagle e os outros navios da esquadra deveriam tomar caso os marinheiros
tivessem de descer à terra para ajudar a debelar um motim que havia irrompido
entre as tropas na cidade. Felizmente não houve necessidade disso, e todos
no Beagle se instalaram para ler a correspondência de casa, bastante acumulada. Na
manhã seguinte Charles desembarcou com o primeiro oficial artista do navio,
Augustus Earle, nos degraus do palácio. Earle já havia morado algum
tempo no Rio de Janeiro, e, depois de mostrar a Charles o centro da cidade, os
dois encontraram "a mais deliciosa casa" em Botafogo, um excelente alojamento.
Conrad Martens pintou-a quando estava de passagem pela cidade alguns meses depois
(PRANCHA 2), e pode-se observar como ela era de um atraente estilo rural; hoje
em dia a praia de Botafogo está lamentavelmente ocupada por uma rede de
avenidas com diversas pistas. A casa depois também foi dividida com a "srta.
Fuegia Basket" - que, observou Charles, "crescia diariamente em todas
as direções, exceto na altura" -, com o sargento dos marinheiros
do navio e com o jovem Philip Gidley King, que escreveu afetuosamente: No
Rio de Janeiro o sr. Darwin gostou muito da vida nova em um país tropical.
Alugou uma casa em Botafogo, adorável enseada com uma praia de areia impressionantemente
branca, e levou como companhia o escritor, que, por ter estado ali na viagem anterior
com o pai, embora então fosse de tenra idade, era capaz de se lembrar de
suas aventuras e de contá-las ao até então inexperiente filósofo.
"Olhe aqui, King", dizia ele, "você já dobrou o cabo
Horno, e eu não, mas não me venha com suas lorotas de viajante."
Uma delas era que King tinha visto baleias pularem para fora da água com
todo o corpo, só restando o rabo dentro da água; e outra, que tinha
visto ostras nadando na água salgada. Mas o sr. Darwin teve de se desculpar
depois por não acreditar nessas afirmações. A primeira história
foi comprovada em uma bela tarde, na costa leste da Terra do Fogo. Um grande número
de baleias nadava em volta do navio, o capitão, o "filósofo"
e os vigias estavam na popa, o sr. Darwin tinha os braços esticados nas
enxárcias, quando um animal gigantesco se levantou, deixando três
quartos de seu enorme corpo para fora da água. "Veja senhor, veja!
Acredita agora?", foi a exclamação do até então
desacreditado jovem. "Sim! E em qualquer coisa que você me disser no
futuro", foi a rápida resposta do naturalista de bom coração.3 |