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No Coração da África – As Aventuras Épicas de Livingstone & Stanley, de Martin Dugard (tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva; Record; 434 páginas; 49,90 reais) – O autor é uma espécie de aventureiro profissional. Por um certo período, foi o detentor do recorde de velocidade em uma volta ao mundo. Com esse perfil, Dugard dificilmente encontraria um tema de pesquisa mais apropriado do que as explorações do escocês David Livingstone e do repórter inglês Henry Morton Stanley, no século XIX. Livingstone desapareceu em uma de suas excursões africanas, e Stanley foi enviado para encontrá-lo. Ficou famosa a frase tipicamente britânica com que Stanley abordou o explorador quando finalmente o encontrou no coração da África: "Doutor Livingstone, eu presumo?".

Leia trecho

CAPÍTULO 1

O Duelo do Nilo

O catalisador para a saga de ousadia teve lugar pouco depois das onze horas da manhã de sexta-feira, 16 de setembro de 1864. Richard Francis Burton estava sozinho na plataforma de madeira para o orador na convenção anual da British Association for the Advancement of Science, aguardando o seu oponente no debate. Sua mulher, Isabel, estava sentada poucos metros atrás dele. Ele tinha nas mãos um maço de argumentos. Ele era forte mas de ombros e quadris estreitos, como um matador. Os olhos eram de um castanho tão escuro que muitas vezes eram descritos como negros. O bigode, preto de verdade, escorria sobre os lábios e em volta deles, até o queixo. As lendárias cicatrizes somalis subiam-lhe pelas faces como estreitos ponteiros de bússola apontando para o norte. Ele mantinha-se calmo enquanto olhava para as portas à espera da entrada de John Hanning Speke. O louro herói geográfico, com seus frios olhos azuis, era o oposto de Burton, e Burton esperara seis anos para resolver a rivalidade entre os dois. Mais alguns minutos não tinham importância.

A platéia pensava de forma diferente. Tinha sido uma manhã chuvosa, apertada e eles estavam entrando num justo estado de fúria. Tinham corrido rumores de um cancelamento devido a algum tipo de contusão de Speke, mas mesmo assim os quase dois mil aventureiros, dignitários, jornalistas e pessoas que gostavam de ver celebridades tinham comparecido. Eles tinham enfrentado uma verdadeira tempestade para conseguir lugares para o que os jornais estavam chamando de o Duelo do Nilo, como se o debate fosse uma luta de rua, em vez de um momento decisivo da História. Burton e Speke iriam debater sobre quem tinha descoberto a nascente do rio Nilo - o enigma geográfico mais desgastante de todos os tempos. O curioso era que Burton e Speke fizeram as conflitantes descobertas da nascente durante a mesma expedição. Eles tinham sido sócios. E mesmo enquanto faziam planos de destruir um ao outro, Burton e Speke abafavam uma profunda compaixão mútua.

Eles eram ex-amigos - ex-amantes, sussurravam alguns - que tinham virado inimigos. A história deles era "uma história de aventura, inveja e recriminação, que pintava suas realizações em luzes brilhantes ou pálidas e sombras trágicas", nas palavras de Sir Bartle Frere, governador de Bombaim. O objetivo de ambos era não apenas reivindicar o Nilo, mas destruir o outro social, profissional e financeiramente. O vencedor conquistaria um lugar permanente nos livros de história. O perdedor seria rotulado como um tolo presunçoso com ilusões de grandeza, com todo o ridículo público que isso implicava.

Speke era um magro solitário cuja residência de família, Jordans, ficava a apenas 65 quilômetros de Bath. Ele era pueril, nobre, rico, gentil, surdo de um dos ouvidos. Aos trinta e sete anos de idade, era louco pela mãe, mas jamais cortejara qualquer outra mulher. Os críticos reconheciam sua perícia como esportista, mas ficavam intrigados com a sua predileção pela matança e seu gosto por comer os fetos de suas presas. Eles tinham dúvidas quanto ao caráter de um homem que certa vez dera um rifle de presente a um chefe africano que gostava de atirar nos súditos só para se divertir e que deixara que uma criança fosse cozida viva a vapor, como se fosse uma lagosta, durante um ritual tribal em sua homenagem. Speke acreditava que os fins justificavam os meios - naquele caso, descobrir a nascente valia a perda de vidas africanas inconseqüentes. A nascente, alegava Speke, era um maciço corpo retangular de água do tamanho da Escócia. Ele o batizou com o nome de Victoria Nyanza - lago Vitória - em homenagem à rainha.

O moreno Burton defendia o lago Tanganica como a nascente. Aquele corpo d'água ficava 240 quilômetros a sudoeste do Victoria Nyanza, separado por uma selva montanhosa, inexplorada. Burton não discutia que o Nilo -fluísse a partir do Vitória, mas acreditava que um outro rio, ainda não descoberto, corria de Tanganica através das montanhas, para desembocar no Vitória.

O formato do lago Tanganica, no mapa, era fino e vertical, como um ventre se partindo para dar à luz o grande Nilo. Sua escolha como talismã geográfico de Burton era sagaz, pois sua personalidade inclinava-se para a sensualidade. O talentoso lingüista tinha uma predileção por prostitutas árabes e um dia iria fazer a primeira tradução do Kama Sutra para o inglês. Em 1845, quando era um jovem oficial estacionado na Índia, recebera ordens de investigar os bordéis homossexuais de Karachi. O detalhado relatório de Burton implicou oficiais colegas seus e evidenciou suspeitas sobre a sua própria sexualidade - e os dois fatores combinaram-se para arruinar sua carreira. Por isso, ele se tornara explorador. Seu conhecimento de línguas e do Islã permitiram que ele se infiltrasse em cidades como Meca e Harar, proibidas aos não-muçulmanos. Os livros resultantes dessas escapadas foram campeões de vendas em meados da década de 1850, dando a Burton a reputação de destemido, enquanto apresentava aos leitores pensamentos e palavras orientais. Foi Burton que tornou a palavra safari - o termo suaíli para "jornada" - conhecida no mundo de língua inglesa.

A multidão que lotava o auditório, tão ansiosa por espetáculo e violência, conhecia bem a história de Burton e Speke. Chegara a hora de uma solução. Quando as onze horas - hora do início - chegaram e passaram, a multidão "manifestou sua impaciência com sons ouvidos mais freqüentemente na platéia de um teatro do que numa reunião científica", escreveu o Chronicle, torcendo o nariz. A platéia mexericava em voz alta sobre o paradeiro de Speke e olhava para o palco, examinando Burton com aquele olhar fixo reservado para os muito famosos. Numa era em que nenhuma atividade era mais glamourosa do que a de explorador africano, as feições de Burton já eram bem conhecidas através de fotografias e esboços publicados em seus livros. Mas para muitos membros da platéia, ver o seu rosto de perto, em pessoa, era o motivo do comparecimento. Eles sentiam a mesma coisa com relação a Speke.

Havia um terceiro explorador que muitos esperavam ver de relance, um homem cuja lenda era provavelmente maior do que a de qualquer explorador vivo. "O recinto", observou o Chronicle quanto ao auditório, "estava lotado de damas e cavalheiros que estavam radiantes com a esperança de ver o dr. Livingstone." O público inglês não vira nem de relance o seu adorado Li-vingstone desde os dias tranqüilos de 1857, quando ele parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Suas proezas tinham sido um bálsamo para as feridas da Guerra da Criméia, da fatídica Carga da Brigada Ligeira, e do sangrento massacre de mulheres e crianças inglesas durante o Motim Indiano. Livingstone fizera a Inglaterra vitoriana se lembrar de seu potencial para a grandiosidade. O escocês de 51 anos de idade era o seu arquétipo de herói, um explorador bravo, piedoso e humilde; tão rápido no uso de uma arma que o herói de Waterloo, o duque de Wellington, o apelidara de "o pastor belicoso". Livingstone estava à vontade tanto andando pelas selvas da África quanto conversando sobre futilidades enquanto tomava chá com a rainha. O público transformava seus livros em campeões de venda, suas palestras só tinham lugar para quem quisesse ficar em pé, seu nome era conhecido por todos. Livingstone era adorado na Inglaterra e tão famoso no mundo inteiro que um levantamento mostrou que só a própria rainha Vitória era mais conhecida.

Mas o comparecimento de Livingstone não estava programado para o Due-lo do Nilo. Sua primeira aparição em público desde que voltara de uma exploração do rio Zambeze, na África, seis meses antes deveria acontecer oficialmente na segunda-feira seguinte. Ele iria fazer uma palestra na British Association sobre os detalhes daquela viagem. A procura de ingressos fora tão grande que Livingstone, em pé diante de um enorme mapa da África, daria a palestra ao vivo em um teatro, enquanto Clements Markham, da Royal Geographical Society, leria o texto para a multidão que não conseguiu lugar, num segundo auditório. A edição especial do Chronicle iria publicar o texto integral.

Rumores, porém, diziam que Livingstone iria aparecer no Duelo do Nilo como moderador. Seu comparecimento confirmaria a importância do Duelo e iria contrabalançar os sorrisos maliciosos de insinuações. Tanto para os que gostavam de ver celebridades como para os cientistas, Livingstone, Burton e Speke no mesmo palco iriam elevar os debates de um jogo de ressentimentos para um dia de grande importância intelectual. Aqueles três gigantes atirando farpas geográficas fariam com que as longas horas na chuva fossem mais do que recompensadas.

Ironicamente, a multidão não sabia que Livingstone, que impressionava a todos pela forte personalidade, estava atravessando uma fase drástica de tumultuosas mudanças. Seus problemas tinham começado com a viagem de cinco anos subindo o Zambeze. A expedição obtivera grandes conquistas. Mas muitos de seus companheiros tinham morrido durante a viagem - inclusive a esposa de Livingstone, Mary, que tanto se desesperara para ficar ao lado dele que deixara a segurança da Inglaterra para arriscar-se a ir para o interior da África à sua procura, juntando-se à expedição a meio caminho. Por causa das mortes, o fracasso de um projeto altamente elogiado que teria instalado missões cristãs no interior da África, e informações de que Livingstone era um líder inepto, o governo britânico considerara a expedição ao Zambeze um desastre. Por isso o Times questionava o critério de Livingstone, ele era persona non grata no Ministério das Relações Exteriores - do qual era empregado - e o influente político cristão William Gladstone rompera discretamente suas relações com ele.

Sob o aspecto financeiro, Livingstone estava quase na penúria. Mesmo enquanto os amigos insistiam para que ele se aposentasse e passasse algum tempo com os filhos, ele precisava de uma última e grande descoberta geográfica para que pudesse escrever o livro, que seria um best-seller, sobre suas viagens, que iria prover o sustento dele e dos filhos. "Eu não sei se devo me recolher ou não", escreveu ele a um amigo, reconhecendo que o Ministério das Relações Exteriores poderia nunca permitir que ele chefiasse uma outra expedição, mas mesmo assim jurando que voltaria à África. "Se eu me recolher, que seja na África."

O mais desolador de tudo, porém, era que Robert, seu primogênito pródigo, viajara em segredo para os Estados Unidos para lutar pelo exército da União na guerra civil. Robert Livingstone fora feito prisioneiro durante o cerco de Richmond e tinha sido enviado para um campo de prisioneiros confederado. Não havia notícias de seu paradeiro ou de suas condições físicas. Não muito antes de o rapaz fugir para os Estados Unidos e alistar-se, Livingstone, tragicamente, o havia punido por não ter objetivo na vida e por ser um indivíduo abjeto.

Em Bath, naquela manhã, o público britânico nada sabia dos problemas pessoais de Livingstone. Aos seus olhos, Livingstone não era uma lenda em declínio, mas um luminar cujo rosto enrugado e queimado do sol eles ansia-vam por ver de relance. Mas como as 11 horas chegaram e passaram, Livingstone, como Speke, não era visto em lugar nenhum. Burton e a platéia observavam as portas, esforçando-se para vê-los entrando. O que aconteceria nos poucos minutos seguintes iria alterar o futuro da exploração, da África e do mundo.


 
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