Stan
Honda/AFP
 |  | | Mailer:
jornalismo cáustico | |
O
Super-Homem Vai ao Supermercado, de Norman Mailer (tradução
de José Geraldo Couto e Sergio Flaksman; Companhia das Letras; 352 páginas;
48,50 reais) Autor de clássicos do romance americano como Os
Nus e os Mortos, Norman Mailer diz na provocativa introdução
desse livro que não tem o mínimo respeito pelo jornalismo como profissão.
A obra, porém, é uma coletânea de ensaios jornalísticos
a cobertura de quatro convenções partidárias que escolheram
candidatos à Presidência dos Estados Unidos nos anos 1960 (incluindo
a convenção democrata que indicou John Kennedy e a republicana que
consagrou Richard Nixon). Com uma verve muitas vezes cáustica, Mailer descreve
os candidatos, os delegados e seus sotaques regionais e até a decoração
das convenções, compondo assim um painel inusitado da democracia
americana. Leia
trecho I.
O SUPER-HOMEM VAI AO SUPERMERCADO Por
uma vez que seja, tentemos pensar numa convenção política
sem nos perder em esquemas de fato e conseqüência. A política
tem suas virtudes, virtudes até demais - ela não competiria com
o beisebol como tópico de conversa se não satisfizesse inúmeras
coisas -, mas podemos suspeitar que seu apelo secreto é parecido com o
da nicotina. Fumar cigarros separa o indivíduo da sua própria vida,
ele sente menos, o que muitas vezes é uma bênção, e
a política isola-o da história; a maioria das pessoas que se nutrem
da vida política está no jogo não para fazer história,
mas para ser afastada da história que está sendo feita. Se
aquela convenção democrata que se recolheu por trás do rosto
do verão de 1960 está um pouco esquecida em meio à excitação
da proximidade da eleição, pode ser exatamente a hora de refletir
sobre ela de novo, porque a montanha de fatos que ocultou seus traços em
julho último foi varrida pelos ventos da Alta Televisão, e o homem
das ruas (esse termo político peculiar que se refere ao quixotesco eleitor
que marcará seu voto movido por uma razão tão notável
quanto: "Tive um tenente puxa-saco que era a cara de Nixon", ou "Esse
Kennedy deve usar dentadura"), o não tão fácil de prever
homem das ruas esqueceu quase tudo o que aconteceu e teria tanta dificuldade em
dizer contra quem Kennedy estava brigando quanto você ou eu teríamos
de responder quem estava na liderança da liga americana de beisebol durante
o mês de junho. Portanto,
tentar falar sobre o que aconteceu é mais fácil agora do que era
nos dias da convenção; como não preciso abarcar tudo - um
ato de escrita que demanda mais uma escavadeira do que uma caneta -, posso tentar
defender meu pequeno ponto de vista e enfeitá-lo com uma ou duas fitinhas
de metáfora. Melhor assim. Pois os mistérios são perturbados
pelos fatos, e a convenção democrata de 1960 começou como
um mistério e terminou como outro. Uma
vez que o mistério é uma emoção que repugna ao animal
político (que outro motivo justifica levar uma vida de jantares de comida
ruim, fumaça de charuto, cadeiras de armar, mau hálito e torturante
jargão enfadonho, se não o de evitar os ecos do que não é
conhecido?), a separação física entre o que estava acontecendo
na tribuna, nas salas de conchavos, nos comitês de campanha, e o que estava
acontecendo paralelamente à história da nação era
mistério bastante para afundar o processo nas trevas. Foi, por um lado,
uma convenção aborrecida, uma das menos interessantes segundo a
opinião geral, aliviada aqui e ali por lampejos de cor local, agitada por
duas meias horas de excitação por conta das manifestações
pró-Stevenson, mantida à tona pela classe da máquina de Kennedy,
transtornada pela surpresa da indicação de Johnson à vice-presidência,
mas assim mesmo aborrecida, desanimada em seu tom geral, com as grandes fiestas
reprimidas, os mexericos triviais, nenhuma atmosfera real de empolgação,
apenas momentos, ou, como se diz nas touradas, detalhes. Contudo, foi também
- alguém poderia argumentar, e ainda pode -, foi também uma das
convenções mais importantes da história da América,
possivelmente a mais importante. O homem indicado por ela era diferente de todos
os políticos que haviam concorrido à presidência na história
do país, e se fosse eleito chegaria ao poder num ano em que a América
corria o risco de resvalar para um profundo declínio. 1.
Uma descrição dos delegados Filhos
e filhas da República num legítimo pânico; pequenos profissionais
do judô político
de cidades pequenas na grande cidade e no grande momento A
depressão obviamente tem várias raízes: ela é a duvidosa
proteção que advém do não-reconhecimento do fracasso,
é o peso físico da exaustão, e é também, com
muita freqüência, aquela disciplina da vontade ou do ego que nos permite
continuar trabalhando quando nossa emoção não confessada
é o pânico. E era pânico, acho, o sentimento predominante no
peito dos delegados partidários que chegavam para se reunir em Los Angeles.
Os delegados não são os filhos e filhas mais nobres da República;
um homem de bom gosto que, chegando de Marte, desse uma rápida olhada num
salão de convenção iria embora para sempre, convencido de
ter visto os mais sinistros porões do inferno. Se ainda se percebe o leve
aroma de um vinho celebrador, do condimento picante de uma tourada, do som e da
fúria de um duelo de cavaleiros, tudo isso é logo engolido e regurgitado
pelos sentidos até virar um arroto asqueroso e mortal do qual é
preciso se livrar - o gás letal da fumaça de charuto, do ar amanhecido,
das dentaduras frouxas, das bundas esparramadas, o pútrido, triste, laborioso
e burocrático gás letal do linguajar e das caras ("Sim, aquelas
caras", diz o homem de Marte: advogados, juízes, cabos eleitorais,
mafiosos, fidalgos e capangas do Sul, senhoras grã-finas, sindicalistas
e pelegos), de palavras pomposas e longas pausas que caem como uma pesada e dolorosa
febre, a febre de estar dentro da história, acima da história, ou
será simplesmente atrás da história? Um pânico legítimo
para um delegado. A América é uma nação de sabichões
sem raízes; estamos sempre criando táticos que são cegos
para a estratégia e estrategistas que não conseguem dar um passo,
e quando a cultura termina o seu trabalho as instituições imobilizam-se
na indecisão. Um delegado é um homem que escolhe um candidato ao
maior cargo público do país, um presidente que lidará com
problemas cujas fronteiras residem na ética, na metafísica e, por
conseguinte, na ontologia; o delegado se prepara para essa função
de escolher esvaziando lixeiras, transportando lixo e dizendo sim nas horas certas
durante trinta anos na pequena máquina política de alguma cidade
pequena ou grande; sua recompensa, ou pelo menos uma delas, é ser convidado
a participar da convenção. Perito em luta livre local, pequeno e
geralmente medíocre profissional do pequeno judô político
de província, ele chega à cidade grande com 90% de suas opiniões
já formadas, e seguirá as ordens do cacique que o trouxe. Embora,
é claro, não seja necessariamente tão ruim assim: sua opinião
é ouvida - o cacique vai tomar o que ele tem a dizer como um fator interessante
a considerar, em meio a quinhentos outros - e, o que é mais importante
para o delegado, ele tem a ilusão da liberdade parcial. Ele pode, a menos
que seja rigorosamente honesto consigo mesmo - e, nesse caso, por que suportar
as picuinhas de uma máquina política? -, ter a ilusão de
que ajudou a escolher o candidato, pode até se preocupar muito sinceramente
com sua escolha, flertar com a possibilidade de divergir do cacique, calcular
seus próprios pequenos ganhos políticos caso siga a estrada da lealdade
ou a trilha da negociação firme. Mas, mesmo que ele esteja lá
só para fazer número, que seu voto seja uma certeza na cabeça
do cacique político, sujeito a ser manipulado para cá ou para lá
de acordo com a conveniência deste último, ainda assim, num sentido
peculiar o delegado é real para o cacique, o delegado é o grande
público americano; o escritório de advocacia que ele possui, o departamento
sindical que ele representa, ou a corretora imobiliária, é uma parte
da paisagem política que o cacique usa como sua própria imagem de
como a votação vai se desenrolar, e se o povo vai gostar do candidato.
E se o cacique fica deprimido com o que vê, se o candidato não lhe
parece bom, se ele tem uma desagradável impressão de que o candidato
não faz o seu tipo (como, digamos, Harry Truman fazia, ou Symington poderia
fazer, ou Lyndon Johnson), então o cacique votará nele se for preciso,
pois não pode ser surpreendido do lado errado, mas sem sentir o prazer
de uma escolha pessoal. O que é o núcleo do pânico. Porque,
se o cacique está deprimido, o delegado fica duplamente deprimido, e o
fato emocional é que Kennedy está fora de foco, fora do velho foco
político, e ele se sente desconfortável; na verdade, é um
mistério para o cacique o porquê de Kennedy ter chegado aonde está,
não um mistério estrutural; Kennedy está nadando em dinheiro,
Kennedy obteve os votos nas primárias, e, mais que tudo, Kennedy tem uma
máquina política impecável. É tão boa quanto
uma equipe brilhante de Notre Dame, toda disciplina, inteligência e vitalidade,
saudável, bem treinada, nunca morosa, ágil como um punhal, pungente
como um grande arremesso, uma máquina maravilhosa; o cacique poderia amá-la
se um candidato razoável estivesse no seu comando, um Truman, ou mesmo
um Stevenson, ou no mínimo um Lyndon Johnson do Norte, mas ela é
dirigida por um homem que parece jovem o bastante para ser o treinador do time
dos calouros, e isso não é nem um pouco reconfortante. O cacique
conhece máquinas políticas, ele sabe das coisas, regulação
de preços agrícolas, lei Forand de saúde, lei sindical Landrum-Griffin,
mas isso no fim das contas não é muito adequado diante de revolucionários
cubanos que parecem beatniks, da competição em torno de mísseis,
dos negros saqueando brancos no Congo, das complicações da chuva
radiativa e de homens da Associação Nacional para o Progresso das
Pessoas de Cor que a gente faz bem em chamar de cavalheiros. Está tudo
fora de controle, tudo o que tem importância está fora do lugar,
os assuntos externos são agora o que há de mais quente, e senadores
são candidatos em lugar de governadores, uma catástrofe para o velho
estilo familiar de mensuração política, no qual o cacique
político conhece seu governador e conhece quem seu governador conhece.
Então o cacique está deprimido, profundamente deprimido. Ele vem
a esta convenção resignado a indicar um homem que ele não
compreende, ou digamos que, até onde compreende o candidato que está
para ser indicado, ele não está contente com os segredos do seu
fascínio, pelo menos não até onde ele intui tais segredos;
estes parecem ter pouco a ver com política e muito a ver com a loucura
particular da nação que teve milhares - ou seriam centenas de milhares
- de pessoas protestando na longa noite anterior à morte de Chessman, e
um astro do cinema, o maior de todos, Marlon Brando, junto com eles naquela noite.
Sim, este candidato, apesar de todo o seu currículo, seu bom, saudável
e convencional currículo liberal, tem uma aura daquela outra vida, da segunda
vida americana, daquela longa noite elétrica em que o fulgor do néon
indicava o caminho para o burburinho do jazz. |